sábado, julho 15, 2006

Garrigou-Lagrange - A missa e a morte

Do saite Permanência
La vie spirituelle nº 194, nov. 1935

Podemos aprofundar-nos, de modo abstrato e especulativo, na doutrina cristã e católica do sacrifício da missa; igualmente, podemos fazê-lo de modo concreto e vivido, unindo-se à oblação do Salvador de forma pessoal, e mais particularmente, fazendo por antecipação o sacrifício da própria vida, para obter a graça de uma morte santa.


Mais que ninguém, Maria associa-se ao sacrifício de seu Filho, participando de todos os sofrimentos, na medida de seu amor por Ele.

Os santos – em especial, os estigmatizados – participaram extraordinariamente dos sofrimentos e dos méritos do Salvador, um São Francisco de Assis, uma Catarina de Sena, por exemplo; mas, quão profunda tenha sido tal união, fora contudo pouco em comparação a de Maria. Através de um conhecimento experimental – dos mais íntimos – e da grandeza de seu amor, Maria ao pé da Cruz penetrou nas profundidades do mistério da Redenção, mais que São João, mais que São Pedro, mais que São Paulo. Ela penetrou ali na medida da plenitude da graça que recebera, da sua fé, do seu amor, dos dons de inteligência e sabedoria que possuía em grau proporcionado à sua caridade.

A fim de que penetremos nesse mistério, aprendendo dele lições práticas que nos permitam preparar-nos para uma boa morte, pensemos no sacrifício que devemos fazer durante nossa vida, em união com Maria, ao pé da Cruz.

Freqüentemente, exortamos os moribundos a fazer o sacrifício de suas vidas, para dar um valor de expiação, de mérito e de impetração aos seus sofrimentos derradeiros. Freqüentemente, os Soberanos Pontífices – em particular, [São] Pio X – convidaram os fiéis a oferecer por antecipação os sofrimentos – quiçá atrozes – do último instante, para assim bem se disporem a oferecê-los de melhor grado à hora da morte.

Mas para que se faça, desde agora, o sacrifício de nossa vida, é mister fazê-lo em união com o sacrifício do Salvador perpetuado sacramentalmente no altar, durante a Missa, e em união com o sacrifício de Maria, Medianeira e Co-redentora. E para bem observar tudo o que tal oblação deve conter, convém lembrar-se aqui dos quatro fins do sacrifício: a adoração, a reparação, a suplicação e a ação de graças. Consideramo-las sucessivamente, examinando as lições que trazem.


Adoração

Jesus sobre a Cruz fizera de Sua morte sacrifício de adoração. Fora a mais perfeita realização do preceito do decálogo: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás o teu culto e só jurarás pelo seu nome” (Dt 6, 13). É por essa palavra divina que Jesus respondera a Satã, que lhe dizia: “Dar-Te-ei todos os reinos do mundo, se Tu te prostrares perante mim para me adorares, si cadens adoraveris me”.

A adoração é devida a Deus somente, por causa de sua excelência soberana de Criador – já que somente Ele é o mesmo Ser, eternamente subsistente, a mesma Sabedoria, o mesmo Amor. A adoração que Lhe é devida há de ser, por sua vez, exterior e interior, inspirada pelo amor; deve ser adoração em espírito e verdade.

Jesus ofereceu a Deus uma adoração de valor infinito, no Getsemani, ao prostrar a face contra a terra, dizendo: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). Essa adoração reconhece pratica e profundamente a excelência soberana de Deus, mestre da vida e da morte; de Deus Que, por amor ao Salvador, queria se servir da morte – pena do pecado – para a reparação do pecado e nossa salvação. Há, neste decreto eterno de Deus – que contém toda a história do mundo – uma excelência soberana, a qual é reconhecida à adoração no Getsemani.

A adoração do Salvador continua sobre a Cruz – com Maria se Lhe associando, na medida da plenitude da graça que recebera e que não cessara de aumentar. Ao momento da crucificação de seu Filho, ela adorara os decretos de Deus, autor da vida, Que fizera da morte de seu Filho inocente reparação do pecado, para o bem eterno das almas.

Adoremos Deus, em união com Nosso Senhor e sua Santa Mãe, e digamos de todo coração, como nos insta S. S. [São] Pio X: “Senhor, meu Deus, a partir de hoje, de coração tranqüilo e submisso, aceito de vossa mão o gênero de morte que Vos agradará enviar-me, com todas as suas angústias, todas as suas penas e todas as suas dores”.

Todo aquele que, uma vez na vida e no dia de sua escolha, tiver recitado esse ato de resignação após a confissão e comunhão ganhará uma indulgência plenária que se lhe aplicará à hora da morte, seguida da pureza de consciência. Mas seria recomendável repetir a cada dia esse sacrifício, para assim nos prepararmos a fazer de nossa morte – o instante derradeiro, em união com o sacrifício do Cristo continuado em substância sobre o altar – um sacrifício de adoração, considerando o domínio soberano de Deus, Sua majestade e a bondade Daquele “que conduz a profundos abismos e deles tira – Dominus mortificat et vivificar, deducit ad inferos et reducit” (Dt 32, 39; Tb 13, 2; Sb 14,13). Essa adoração de Deus, mestre da vida e da morte, se pode fazer de modos bem diferentes, conforme as almas sejam mais ou menos esclarecidas: não é realmente melhor unir-se desta feita, a cada dia, ao sacrifício de adoração do Salvador?

Sejamos desde agora adoradores em espírito e verdade; que a adoração seja tão sincera e profunda que se reflita realmente em nossa vida e nos disponha àquela que devemos possuir ao instante final.


Reparação

Outro fim do sacrifício é a reparação da ofensa feita a Deus pelo pecado, e a expiação da pena devida ao pecado. Devemos fazer de nossa morte um sacrifício propiciatório: a adoração dever ser, a bem dizer, reparadora.

Nosso Senhor expiou superabundantemente nossas faltas, porque – diz Santo Tomás (IIIª q. 48, a. 2) – ao oferecer Sua vida por nós, fizera um ato de amor que agradava mais a Deus do que O aborrecia todos os nossos pecados reunidos. Sua caridade foi muito maior que a malícia dos algozes; possuía um valor infinito tirado da personalidade do Verbo.

Ele as expiou por nós, que somos os membros de Seu Corpo Místico. Mas como a causa primeira não torna inúteis as causas segundas, o sacrifício do Salvador não torna inútil o nosso, mas o suscita e dá-lhe o valor. Maria dera-nos o exemplo, ao unir-se aos sofrimentos de seu Filho; desta feita, expiara por nós, a ponto de merecer o título de Co-redentora.

Ela aceitou o martírio de seu Filho – Que, além de amado, era legitimamente adorado – que ela amava com coração afetuosíssimo, desde que O concebera virginalmente.

Mais heróica que o patriarca Abraão, o qual pronto a imolar seu filho Isaac, Maria, ao oferecer seu Filho por nossa salvação, viu-O morrer realmente entre atrocíssimos sofrimentos físicos e morais. Não veio nenhum anjo para impedir a imolação e dizer a Maria, tal como ao patriarca, em o nome do Senhor: “agora Eu sei que temes a Deus, pois não Me recusaste teu próprio filho, teu filho único”. (Gn 22, 12); Maria viu realizar-se efetiva e plenamente o sacrifício reparador de Jesus, e em face ao qual o de Isaac era senão a figura em preâmbulo. Ela sofrera do pecado na proporção de seu amor por Deus – a Quem o pecado ofende; por seu Filho – a Quem o pecado crucificara; por nossas almas – a quem o pecado corrompe e mata. A caridade da Virgem ultrapassava incomensuravelmente a do patriarca; e nela, ainda mais que nele, realizaram-se as palavras que este escutara: “pois que fizeste isto, e não Me recusaste teu filho, teu filho único, Eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu” (Gn, 22, 16-17).

Ora, como o sacrifício de Jesus e de Maria foi sacrifício de propiciação ou reparação pelo pecado, de expiação da pena devida ao pecado, façamos do sacrifício de nossa vida – em união com eles – uma reparação de todas as nossas faltas; peçamos desde agora a graça de fazer tal sacrifício com grande amor, o que lhe aumentará ao dobro o valor. Sejamos contentes de pagar essa dívida à justiça divina para que a ordem seja-nos plenamente restabelecida. E se, com tal espírito, unimo-nos intimamente às missas que se celebram todos os dias, à oblação sempre pulsante do Coração do Cristo – oblação que é a essência dessas missas – então alcançaremos a graça de fazermo-nos acompanhar dela, mesmo ao último momento. Se essa união de amor a Cristo Jesus é a cada dia mais íntima, a expiação do Purgatório será notoriamente abreviada para todos; poderia acontecer de recebermos a graça de passar nosso Purgatório totalmente por sobre a terra, aumentando no amor e merecendo-o, em vez de fazê-lo após a morte, sem merecê-lo.


Suplicação

O moribundo não deve fazer tão-somente da morte um sacrifício de adoração e reparação, mas também um sacrifício impetratório ou de suplicação, em união com Nosso Senhor e Maria.

São Paulo escreve aos Hebreus (5, 7): “Nos dias de sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas (...),e foi atendido pela sua piedade (... )tornou-se autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem”. Recordemo-nos da prece sacerdotal do Cristo após a Ceia e antes do sacrifício da Cruz: Jesus aqui rezou por Seus apóstolos e por nós... “porque vive sempre para interceder em seu favor” (Hb 7, 25). Particularmente, [o Cristo reza] durante o sacrifício da missa, onde Ele é o principal sacerdote.

Jesus, que rogara por seus algozes, roga pelos moribundos que se recomendam a Ele. A Virgem Maria intercede junto a Ele, ao recordar o que nós muitas vezes dizemos: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

O moribundo deve associar-se às missas que se celebram longe ou perto dele; deve solicitar através delas, através da grande oração do Cristo, que nelas se prolonga, a graça da boa morte ou da perseverança final – a graça das graças, a dos eleitos. Convém que se suplique não apenas para si, mas para todos os que morrem àquele momento.

Para nos dispormos desde agora a fazer esse ato suplicatório de última hora, oremos com freqüência, ao assistir à Santa Missa, por aqueles que vão morrer no correr do dia. Conforme a recomendação de S. S. Bento XV, façamos celebrar uma missa quando em vez para obter, através desse sacrifício suplicatório de valor infinito, a graça da boa morte ou o aproveitamento dos méritos do Salvador. Façamos também celebrar algumas missas por alguns de nossos parentes e amigos que nos causaram inquietação acerca de sua salvação, para lhes obter a graça derradeira, e por aqueles que teríamos escandalizado e talvez distanciado do caminho de Deus.


A ação de graças

Enfim, cada qual deveria fazer de sua morte – em união com Nosso Senhor e a Virgem Maria – um sacrifício de ação de graças, por todos os benefícios recebidos desde o batismo, rememorando quantas absolvições e comunhões nos remiram ou guardaram no caminho da salvação.

Jesus fizera de Sua morte um sacrifício de ação de graças, ao dizer: “Consummatum est – Está consumado” (Jo 19, 30); Maria disse o “Consummatum est” junto com Ele. Tal forma de oração – que permanece na missa – não acabará, ainda que à última missa a ser dita, ao fim do mundo. Quando não houver mais sacrifício propriamente dito, haverá sua consumação, e nela haverá sempre a adoração e a ação de graças dos eleitos que, unidos ao Salvador e a Maria, entoarão o Sanctus ao lado dos anjos e glorificarão a Deus, louvando-O.

Essa ação de graças é admiravelmente expressa pelas palavras do ritual que o padre prolata à cabeceira dos moribundos, após dar-lhes a derradeira absolvição e o santo viático: “Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo...: Saí deste mundo, alma cristã, em o nome de Deus Todo-poderoso, Que vos criou; em o nome de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, Que sofreu por vós; em o nome da gloriosa e santa Mãe de Deus, a Virgem Maria; em o nome do bem-aventurado José, seu esposo predestinado; em o nome dos Anjos e Arcanjos; em o nome dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires; em o nome de todos os Santos e Santas de Deus. Que ainda hoje vossa habitação seja na paz, e vossa morada na Jerusalém celeste, por Jesus Cristo Senhor Nosso”.

Concluindo: repitamos freqüentemente – a fim de rebrilhar-lhe o valor – o ato recomendado por S. S. [São] Pio X, e roguemos a Maria a graça de fazer de nossa morte um sacrifício de adoração, de reparação, de suplicação e de ação de graças. Quando assistirmos os moribundos, exortemo-los ao sacrifício, a associar-se às missas que então se celebrem. E desde agora, por antecipação, façamo-lo nós mesmos, renovemo-lo com insistência a cada dia, como se fosse o último; desta feita, disporemo-nos a fazê-lo habilmente ao momento supremo: então saberemos que “Deus conduz a profundos abismos e deles tira”; nossa morte será como que transfigurada; apelaremos ao Salvador e a Sua Santa Mãe para que nos venha levar, concedendo-nos a graça derradeira, que nos assegurará definitivamente a salvação, através de um último ato de fé, de confiança e de amor.

terça-feira, julho 11, 2006

Uma Questão de Princípio

A 9 de Julho de 1860, os Cristãos Árabes sofreram uma perseguição mais, das muitas que os Muçulmanos lhes infligiram, ao longo de um dilatado historial. Com a cumplicidade do governador turco, que pensava assim, pela solidariesdade religiosa, neutralizar a hostilidade da população aos otomanos, foram assaltados os bairros maronitas de Damasco, pilhadas e incendiadas as casas e mortas muitas pessoas, sendo as restantes, de facto, obrigadas a emigrar. Este tristissimo episódio culminou os confrontos em que milhares de Crentes do mesmo Rito pereceram no Líbano, em confrontos com os Drusos, perante a aprovação do delegado de Istambul, o qual, quando a mortandade já tinha operado, se ofereceu à comunidade que vira tantos dos seus sacrificados para lhes garantir a segurança, desde que reconhecessem a imunidade aos autores dos crimes e desistissem de pedir a restituição de bens pilhados. Foi esta parcialidade, na tentativa de cimentar uma administração odiada à custa dos que se não podiam defender, que levou as potências a determinar uma elaboração nova do Direito de Ingerência, cometendo à França o envio de tropas para impor a ordem, no que Napoleão III baptizou, pioneiramente, de «Expedição com Fim Humanitário».
A rememoração deste facto deveria levar muitos cristãos a fazer paralelos com os assaltos que nos seus próprios territórios, comunidades como a Judaica, por, como a maronita, serem ricas, influentes e não-maioritariamente alinhadas, sofreram. Tal como nos deveria fazer reavaliar intervenções como a no Kosovo, há um par de anos. Quanto a esta última, recordo que, compreendendo muito embora os motivos, assinei um protesto contra a intromissão americana na ex-Jugoslávia. É que, apesar das deficiências volitivas, a intervenção deveria ter tido lugar por mãos e aviões europeus. Nestes casos extremos dever-se-ia chegar a uma partilha do Mundo a intervencionar, com uma reactualização de Monroe, vedando aos EUA a acção na Europa, aos Europeus as operações nas Américas e permitindo-as a ambos, quando a protecção dos carecidos fosse premente, no resto do Mundo.