terça-feira, janeiro 10, 2006

Victor Hugo - História

Entre os antigos, a ofício de escrever a história originava-se do lazer dos grandes homens históricos; originava-se de Xenofonte, o chefe dos dez mil; de Tácito, príncipe do senado. Entre os modernos, já que os grandes homens históricos não sabiam ler, houve necessidade de que a história se escrevesse pelos letrados e cientistas, pessoas que não eram nem letradas nem científicas, pois ficaram toda sua vida estranhas aos interesses deste baixo mundo, quer dizer, da história. Daí, a história, tal como os modernos escreveram-na, ser algo de pequeno e pouco inteligente.

É notável que os primeiros historiadores antigos escrevessem de acordo com as tradições, e os primeiros historiadores modernos, de acordo com as crônicas. Os antigos, ao escrever conforme as tradições, seguiram a grande idéia moral de que não bastava que um homem tivesse vivido, ou mesmo que um século tivesse existido, para que fosse história, mas ainda precisaria de que tivesse legado grandes exemplos à memória dos homens. Eis porque a história antiga não morre jamais. Ela é o que deve ser, a representação ponderada dos grandes homens e das grandes coisas, e não, como queremos fazer no nosso tempo, o registro da vida de alguns homens, ou o processo-verbal de alguns séculos.

Os historiadores modernos, ao escrever conforme as crônicas, não viram o que havia dentro dos livros, mas tão-só os fatos contraditórios a restabelecer e as datas a conciliar. Escreveram como cientistas, ocupando-se amiúde dos fatos e raramente das conseqüências, não se curvando sobre os acontecimentos a partir do interesse moral – que seriam capazes de apresentar – mas de acordo com a curiosidade que ainda lhes restava, atendendo aos fatos de seu século. Eis a razão de a maioria das histórias começarem por sínteses cronológicas e terminam em bisbilhotice.

Calculamos que seria preciso uns oitocentos anos a um homem que lesse catorze horas por dia, a fim de que lesse tão-somente as obras escritas sobre história que se encontram na Biblioteca Real; entre essas, devemos contar mais de vinte mil sobre história da França, a maioria em vários volumes, desde MM. Royou, Fantin-Desodoards e Anquetil, que fizeram histórias completas, até estes valorosos cronistas, Froissard, Comines e Jean de Troyes, pelos quais sabemos que hum certo dia o rrei stava di maleitas, e que hum certo outro dia hum hommem xe afogou em o SSenna. Entre essas obras, estão quatro geralmente conhecidas sob o título de “as quatro grandes histórias de França”: a de Dupleix, que não lemos mais; a de Mezeray, que sempre leremos, não por ser tão exata e verdadeira quanto Boileau cantou em rima, mas porque é original e satírica, o que é mais agradável aos leitores franceses; a do pe. Daniel, jesuíta, famoso por suas descrições de batalhas, que em vinte anos fez uma história cujo único mérito é a erudição, e em que o conde de Boulainvillers encontrou mais de dez mil erros; e enfim, a de Vely, continuada por Villaret e Garnier. “Existem dois trechos muito bem feitos em Vely, diz Voltaire, cujos vaticínios são preciosos; devemos-lhe elogios e reconhecimento; mas faz-se mister ter o estilo para o tema; para se fazer uma boa história de França, não é bastante ter discernimento e gosto”.

Vilaret, que fora humorista, escreve num estilo pretensioso e empolado; cansa pela contínua afetação de sensibilidade e energia; muitas vezes é inexato e raramente imparcial. Garnier, mais racional, mais instruido, não é melhor como escritor. Sua escrita é descorada, seu estilo prolixo e indolente. A diferença entre Garnier e Villaret é a que vai do medíocre ao pior, e se a primeira condição de uma obra deve ser a de ser legível, o trabalho desses dois autores pode a justo título ser visto como inexistente.

Ademais, escrever história de uma só nação é obra incompleta, sem começo nem fim, e, por conseguinte, defeituosa e disforme. Não pode haver boas histórias locais senão nas divisões bem proporcionadas de uma história geral. Neste mundo, só há duas tarefas dignas de um historiador: a crônica, o diário ou a história universal. Tácito ou Bossuet. Sob um ponto de vista bem limitado, Comines escreveu uma boa história de França em seis linhas: “Deus nada criou nesse mundo, nem homens, nem feras, sem que não tenha feito seu contrário, para incutir-lhe temor e humildade. Eis porque Ele fez França e Inglaterra vizinhas.” [...]

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