domingo, janeiro 22, 2006

Julián Marias - Abertura ou Fechamento

E o mundo tem ficado menos inteligente... Faleceu Julián Marias. Eis aqui a minha atrasada homenagem a um daqueles inda feitos no antigo molde, que amanhava o barro de que antigamente eram feitos os homens cristãos.


Cada vez mais me parece confirmada a velha idéia das “raízes morais da inteligência”. É minha convicção que sem uma considerável dose de bondade até se consegue ser “esperto”, mas não verdadeiramente inteligente. Isso corresponde, mais que a uma preocupação moral, a uma evidência intelectual: a de que a inteligência consiste sobretudo em abrir-se à realidade, deixá-la penetrar na mente e ser aceita, reconhecida, possuída. Não raro a agudeza, a “esperteza”, coincide com a maldade – às vezes as associamos; mas se se olhar bem, vê-se que não se trata de inteligência, i. é, de compreeensão da realidade, mas de sua utilização ou manipulação.
Por isso, há-de se estar atento ao grau de abertura ou fechamento das pessoas, sobretudo daqueles que pretendem manejar o real, interpretá-lo ou explicá-lo. É característico ao homem inteligente o “esperar”, o não precipitar-se, deixar que o que aparece ante os olhos ou tenta penetrar pelo ouvido se manifeste por inteiro, exiba seus títulos de justificação, seja examinado por vários ângulos, desde diferentes pontos de vista. Esta é a razão porque as mulheres – quando realmente o são, i. é, quando são fiéis a sua própria condição – tornam-se sumamente inteligentes, proporcionalmente mais que os homens, os quais muitas vezes apressados.
Quando leio um escritor, o que primeiro sinto é a possível impressão de abertura. Em suas páginas – quiçá desde as primeiras linhas – se percebe que algo novo está penetrando, que se está agregando ao que já se sabia, ou que se está destacando um aspecto despercebido. Daí, a impressão de enriquecimento, que suscita satisfação.
Os escritores são os que merecem ser lidos, porque doam generosamente sua realidade, oferecem-nos descobrimentos que fizeram em solidão; vivificam aspectos mal conhecidos da vida humana; tangem – com uma expressão afortunada ou uma metáfora – as facetas da realidade, que se põem a irradiar beleza.
Outras vezes, a impressão é bem diferente. O autor se nos aparece encastelado nalgumas idéias – raras vezes suas, quase sempre recebidas, que se interpõem entre ele e o que as coisas são (não diremos isso, se se tratar de pessoas) - com o que nos priva de todo enriquecimento possível, de toda expansão de nossa mente.
O bom pesquisador, i. é, o bom leitor que lera, ano após ano, muitas páginas e sabe discernir, dá-se conta de plano dessa diferença capital. Vê que nada se pode esperar, que não vai receber nenhuma inovação. Nesta época – em que a produção de escritos é ingente em todas as suas formas, e é inabarcável – já não é o conteúdo do que se publica a respeito dum assunto, mas tão-somente os títulos, a capacidade de se distinguir, que é salvadora – por acaso, é a única forma de sobrevivier à inundação que por todas as partes nos acossa.
Há autores que nos dão a impressão de que “não se inteiram de nada”, de que – aconteça o que acontecer, diga o que disser – permanecerão em sua teimosia, repetirão o que ouviram ou leram há muito tempo, o que manifesta seu erro ou falsidade. Lembram aquele conto do general que, de tão valente que era, não se rendia nem à evidência.
Às vezes, o fechamento se deve à escassez de inteligencia, ou à incapacidade de refletir sobre o que se lera ou ouvira, inclusive sobre o que se pensara nalgum momento e que fora desmentido pelos fatos ou por um olhar mais abrangente. A preguiça – quase sempre esquecida – explica muito disso.
Não obstante, existe uma forma de fechamento mais profundo, merecendo ser examinado. Não é tão-só fechamento, obturação da mente em face ao que nela tent penetrar. Possui um caráter defensivo – é uma resistência ao real, tal como se fosse uma agressão ou ameaça. Por isso, essa forma de fechamemto é hostil, quase sempre polemizante, beligerante.
O que fala ou escreve sente-se em perigo, inquieto, agredido, não por uma tese distinta ou oposta, mas pela mesma realidade. Quer dizer, defende o que no fundo sabe não ser a verdade – identifica-se-lhe, como se fora ele mesmo -, afasta o diferente.
Essa atitude não é bem compreendida. Como se pode ser “inimigo” da realidade? Não é ela o que nos rodeia, com o que temos de construir nossa vida? A efetiva estrutura do mundo, a história que em realidade acontecera, a consistência do humano, as condições de personalidade – como pode ser isso algo “adverso”, que se deve combater e rechaçar? Se se olhar bem, o temor de se ver dissipar o que se tomara – sem motivo – como fundamento da própria vida é a máxima expressão da insegurança.
Essa impressão de que há muitos que “não se inteiram de nada”, que insistem imperturbáveis em noções que não resistem a um minuto de reflexão e análise, de confrontação com os fatos, é desencorajadora. É particularmente freqüente quando intervém a paixão política, quase sempre associada à mentira – diferente da nobre política, que busca, no dizer de Fichte, “declarar o que é” - ; existem casos extremos que estão rigorosamente montados sobre a falsificação, para que o real é um veneno mortal.
Mas ao lado desse fechamento há sintomas alentadore de abertura, amiúde entre pessoas que não tem grandes pretensões, que não querem definir, que não crêem tudo saber. São as que buscam precisamente “inteirar-se” – i. é, integrar-se – , que sentem alegria e satisfação quando se lhes montra algo que não viram o com que não contavam.
E máxima é tal magnetude se descobrem que estavam em erro, se se vêem obrigados a retificar, i. é, a morarem na verdade que se lhes escapara. Sentem que são melhores, mais reais, que se produzira um incremento em sua prórpria pessoa. Aludiram à diferença entre homens e mulheres, e daí sua vária razão. Poder-se-ia investigar a abertura ou fechamento ao longo do tempo, conforme as idades a cada momento,o que obrigaria a pensar nas diferenças geracionais. Não há duvidar houvera uma que fora submetida a um rigoroso regime de “fechamento”, que gravitara pesadamente sobre si, e de que, com o passar dos anos, por acaso se foi libertando. Creio perceber sintomas e abertura nos juvens, que Às vezes adota aforma da desorientação – quiçá porque têm de combater as tentações do fechamento para tentarem ser eles mesmos, que é o que no fundo desejam ser. Se me não engano, é o mais esperançoso dos horizontes.



terça-feira, janeiro 10, 2006

Victor Hugo - História

Entre os antigos, a ofício de escrever a história originava-se do lazer dos grandes homens históricos; originava-se de Xenofonte, o chefe dos dez mil; de Tácito, príncipe do senado. Entre os modernos, já que os grandes homens históricos não sabiam ler, houve necessidade de que a história se escrevesse pelos letrados e cientistas, pessoas que não eram nem letradas nem científicas, pois ficaram toda sua vida estranhas aos interesses deste baixo mundo, quer dizer, da história. Daí, a história, tal como os modernos escreveram-na, ser algo de pequeno e pouco inteligente.

É notável que os primeiros historiadores antigos escrevessem de acordo com as tradições, e os primeiros historiadores modernos, de acordo com as crônicas. Os antigos, ao escrever conforme as tradições, seguiram a grande idéia moral de que não bastava que um homem tivesse vivido, ou mesmo que um século tivesse existido, para que fosse história, mas ainda precisaria de que tivesse legado grandes exemplos à memória dos homens. Eis porque a história antiga não morre jamais. Ela é o que deve ser, a representação ponderada dos grandes homens e das grandes coisas, e não, como queremos fazer no nosso tempo, o registro da vida de alguns homens, ou o processo-verbal de alguns séculos.

Os historiadores modernos, ao escrever conforme as crônicas, não viram o que havia dentro dos livros, mas tão-só os fatos contraditórios a restabelecer e as datas a conciliar. Escreveram como cientistas, ocupando-se amiúde dos fatos e raramente das conseqüências, não se curvando sobre os acontecimentos a partir do interesse moral – que seriam capazes de apresentar – mas de acordo com a curiosidade que ainda lhes restava, atendendo aos fatos de seu século. Eis a razão de a maioria das histórias começarem por sínteses cronológicas e terminam em bisbilhotice.

Calculamos que seria preciso uns oitocentos anos a um homem que lesse catorze horas por dia, a fim de que lesse tão-somente as obras escritas sobre história que se encontram na Biblioteca Real; entre essas, devemos contar mais de vinte mil sobre história da França, a maioria em vários volumes, desde MM. Royou, Fantin-Desodoards e Anquetil, que fizeram histórias completas, até estes valorosos cronistas, Froissard, Comines e Jean de Troyes, pelos quais sabemos que hum certo dia o rrei stava di maleitas, e que hum certo outro dia hum hommem xe afogou em o SSenna. Entre essas obras, estão quatro geralmente conhecidas sob o título de “as quatro grandes histórias de França”: a de Dupleix, que não lemos mais; a de Mezeray, que sempre leremos, não por ser tão exata e verdadeira quanto Boileau cantou em rima, mas porque é original e satírica, o que é mais agradável aos leitores franceses; a do pe. Daniel, jesuíta, famoso por suas descrições de batalhas, que em vinte anos fez uma história cujo único mérito é a erudição, e em que o conde de Boulainvillers encontrou mais de dez mil erros; e enfim, a de Vely, continuada por Villaret e Garnier. “Existem dois trechos muito bem feitos em Vely, diz Voltaire, cujos vaticínios são preciosos; devemos-lhe elogios e reconhecimento; mas faz-se mister ter o estilo para o tema; para se fazer uma boa história de França, não é bastante ter discernimento e gosto”.

Vilaret, que fora humorista, escreve num estilo pretensioso e empolado; cansa pela contínua afetação de sensibilidade e energia; muitas vezes é inexato e raramente imparcial. Garnier, mais racional, mais instruido, não é melhor como escritor. Sua escrita é descorada, seu estilo prolixo e indolente. A diferença entre Garnier e Villaret é a que vai do medíocre ao pior, e se a primeira condição de uma obra deve ser a de ser legível, o trabalho desses dois autores pode a justo título ser visto como inexistente.

Ademais, escrever história de uma só nação é obra incompleta, sem começo nem fim, e, por conseguinte, defeituosa e disforme. Não pode haver boas histórias locais senão nas divisões bem proporcionadas de uma história geral. Neste mundo, só há duas tarefas dignas de um historiador: a crônica, o diário ou a história universal. Tácito ou Bossuet. Sob um ponto de vista bem limitado, Comines escreveu uma boa história de França em seis linhas: “Deus nada criou nesse mundo, nem homens, nem feras, sem que não tenha feito seu contrário, para incutir-lhe temor e humildade. Eis porque Ele fez França e Inglaterra vizinhas.” [...]