terça-feira, setembro 19, 2006

Atualizações.. alheias

Tem-me faltado o recreio necessário à regular continuação deste espaço virtual. O tempo de tradução me vai rareando, e os deveres de estado se assomam um sobre os outros e todos sobre mim. Tenho pois que é de proveito que, à falta dum texto traduzido de minha lavra, indique o que de bom se escreve - segundo meu pobre alvitre - e aproveito também a fazer uma homenagem, quae sera tamen.

A primeira indicação vai ao excelente saite Permanência, mormente agora, na última atualização, em que meu amigo Alexandre traduziu do latim Meditationes para o ano litúrgico, a partir de lições de Santo Tomás de Aquino. Ensinamento perene da única e verdadeira Igreja.

A segunda indicação vai para o saite de O Indivíduo, que se tem levado adiante por Pedro Sette Câmara. Confesso-vos que me inspirei neste blog para ter um meu. A primeira tradução - lamentável - que fiz foi de um poema de Auden lançado naquele espaço.

Merecem também lembranças o saite do Profeta Urbano, de Elliot Chambers (abandona o protestantismo, meu filho, e volta ao seio da única Igreja); o de O Humanista, de E. Santiago; e o Asinum Asinus Fricat, de Cassiano Farias.

Last but not least, minhas homenagens sinceras a J. Sarto e Rafael Castela Santos, do imperdível A Casa de Sarto, que sofreram citar o saite, devido ao brilhante artigo de Garrigou-Lagrange, A Missa e a Morte, que rabisquei para o português.

A quem mais de direito - se vos esqueço - a minha sincera lembrança.

sábado, agosto 05, 2006

Zamboni - Pai-Nosso

Do saite do Sr. José Carlos Zamboni


Pai nosso, pai do sem-fim,

Teu nome é cheio de graça.

Venha teu reino até mim,

Tua vontade se faça

Na terra como na altura.

Nunca me falte na mesa

O pão, nem quero fartura.

Perdão, se agi com vileza,

Que tenho dado o perdão

Aos que me ofendem também.

E enfim, longe do mal, não

Caia no pecado. Amém.

sábado, julho 15, 2006

Garrigou-Lagrange - A missa e a morte

Do saite Permanência
La vie spirituelle nº 194, nov. 1935

Podemos aprofundar-nos, de modo abstrato e especulativo, na doutrina cristã e católica do sacrifício da missa; igualmente, podemos fazê-lo de modo concreto e vivido, unindo-se à oblação do Salvador de forma pessoal, e mais particularmente, fazendo por antecipação o sacrifício da própria vida, para obter a graça de uma morte santa.


Mais que ninguém, Maria associa-se ao sacrifício de seu Filho, participando de todos os sofrimentos, na medida de seu amor por Ele.

Os santos – em especial, os estigmatizados – participaram extraordinariamente dos sofrimentos e dos méritos do Salvador, um São Francisco de Assis, uma Catarina de Sena, por exemplo; mas, quão profunda tenha sido tal união, fora contudo pouco em comparação a de Maria. Através de um conhecimento experimental – dos mais íntimos – e da grandeza de seu amor, Maria ao pé da Cruz penetrou nas profundidades do mistério da Redenção, mais que São João, mais que São Pedro, mais que São Paulo. Ela penetrou ali na medida da plenitude da graça que recebera, da sua fé, do seu amor, dos dons de inteligência e sabedoria que possuía em grau proporcionado à sua caridade.

A fim de que penetremos nesse mistério, aprendendo dele lições práticas que nos permitam preparar-nos para uma boa morte, pensemos no sacrifício que devemos fazer durante nossa vida, em união com Maria, ao pé da Cruz.

Freqüentemente, exortamos os moribundos a fazer o sacrifício de suas vidas, para dar um valor de expiação, de mérito e de impetração aos seus sofrimentos derradeiros. Freqüentemente, os Soberanos Pontífices – em particular, [São] Pio X – convidaram os fiéis a oferecer por antecipação os sofrimentos – quiçá atrozes – do último instante, para assim bem se disporem a oferecê-los de melhor grado à hora da morte.

Mas para que se faça, desde agora, o sacrifício de nossa vida, é mister fazê-lo em união com o sacrifício do Salvador perpetuado sacramentalmente no altar, durante a Missa, e em união com o sacrifício de Maria, Medianeira e Co-redentora. E para bem observar tudo o que tal oblação deve conter, convém lembrar-se aqui dos quatro fins do sacrifício: a adoração, a reparação, a suplicação e a ação de graças. Consideramo-las sucessivamente, examinando as lições que trazem.


Adoração

Jesus sobre a Cruz fizera de Sua morte sacrifício de adoração. Fora a mais perfeita realização do preceito do decálogo: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás o teu culto e só jurarás pelo seu nome” (Dt 6, 13). É por essa palavra divina que Jesus respondera a Satã, que lhe dizia: “Dar-Te-ei todos os reinos do mundo, se Tu te prostrares perante mim para me adorares, si cadens adoraveris me”.

A adoração é devida a Deus somente, por causa de sua excelência soberana de Criador – já que somente Ele é o mesmo Ser, eternamente subsistente, a mesma Sabedoria, o mesmo Amor. A adoração que Lhe é devida há de ser, por sua vez, exterior e interior, inspirada pelo amor; deve ser adoração em espírito e verdade.

Jesus ofereceu a Deus uma adoração de valor infinito, no Getsemani, ao prostrar a face contra a terra, dizendo: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). Essa adoração reconhece pratica e profundamente a excelência soberana de Deus, mestre da vida e da morte; de Deus Que, por amor ao Salvador, queria se servir da morte – pena do pecado – para a reparação do pecado e nossa salvação. Há, neste decreto eterno de Deus – que contém toda a história do mundo – uma excelência soberana, a qual é reconhecida à adoração no Getsemani.

A adoração do Salvador continua sobre a Cruz – com Maria se Lhe associando, na medida da plenitude da graça que recebera e que não cessara de aumentar. Ao momento da crucificação de seu Filho, ela adorara os decretos de Deus, autor da vida, Que fizera da morte de seu Filho inocente reparação do pecado, para o bem eterno das almas.

Adoremos Deus, em união com Nosso Senhor e sua Santa Mãe, e digamos de todo coração, como nos insta S. S. [São] Pio X: “Senhor, meu Deus, a partir de hoje, de coração tranqüilo e submisso, aceito de vossa mão o gênero de morte que Vos agradará enviar-me, com todas as suas angústias, todas as suas penas e todas as suas dores”.

Todo aquele que, uma vez na vida e no dia de sua escolha, tiver recitado esse ato de resignação após a confissão e comunhão ganhará uma indulgência plenária que se lhe aplicará à hora da morte, seguida da pureza de consciência. Mas seria recomendável repetir a cada dia esse sacrifício, para assim nos prepararmos a fazer de nossa morte – o instante derradeiro, em união com o sacrifício do Cristo continuado em substância sobre o altar – um sacrifício de adoração, considerando o domínio soberano de Deus, Sua majestade e a bondade Daquele “que conduz a profundos abismos e deles tira – Dominus mortificat et vivificar, deducit ad inferos et reducit” (Dt 32, 39; Tb 13, 2; Sb 14,13). Essa adoração de Deus, mestre da vida e da morte, se pode fazer de modos bem diferentes, conforme as almas sejam mais ou menos esclarecidas: não é realmente melhor unir-se desta feita, a cada dia, ao sacrifício de adoração do Salvador?

Sejamos desde agora adoradores em espírito e verdade; que a adoração seja tão sincera e profunda que se reflita realmente em nossa vida e nos disponha àquela que devemos possuir ao instante final.


Reparação

Outro fim do sacrifício é a reparação da ofensa feita a Deus pelo pecado, e a expiação da pena devida ao pecado. Devemos fazer de nossa morte um sacrifício propiciatório: a adoração dever ser, a bem dizer, reparadora.

Nosso Senhor expiou superabundantemente nossas faltas, porque – diz Santo Tomás (IIIª q. 48, a. 2) – ao oferecer Sua vida por nós, fizera um ato de amor que agradava mais a Deus do que O aborrecia todos os nossos pecados reunidos. Sua caridade foi muito maior que a malícia dos algozes; possuía um valor infinito tirado da personalidade do Verbo.

Ele as expiou por nós, que somos os membros de Seu Corpo Místico. Mas como a causa primeira não torna inúteis as causas segundas, o sacrifício do Salvador não torna inútil o nosso, mas o suscita e dá-lhe o valor. Maria dera-nos o exemplo, ao unir-se aos sofrimentos de seu Filho; desta feita, expiara por nós, a ponto de merecer o título de Co-redentora.

Ela aceitou o martírio de seu Filho – Que, além de amado, era legitimamente adorado – que ela amava com coração afetuosíssimo, desde que O concebera virginalmente.

Mais heróica que o patriarca Abraão, o qual pronto a imolar seu filho Isaac, Maria, ao oferecer seu Filho por nossa salvação, viu-O morrer realmente entre atrocíssimos sofrimentos físicos e morais. Não veio nenhum anjo para impedir a imolação e dizer a Maria, tal como ao patriarca, em o nome do Senhor: “agora Eu sei que temes a Deus, pois não Me recusaste teu próprio filho, teu filho único”. (Gn 22, 12); Maria viu realizar-se efetiva e plenamente o sacrifício reparador de Jesus, e em face ao qual o de Isaac era senão a figura em preâmbulo. Ela sofrera do pecado na proporção de seu amor por Deus – a Quem o pecado ofende; por seu Filho – a Quem o pecado crucificara; por nossas almas – a quem o pecado corrompe e mata. A caridade da Virgem ultrapassava incomensuravelmente a do patriarca; e nela, ainda mais que nele, realizaram-se as palavras que este escutara: “pois que fizeste isto, e não Me recusaste teu filho, teu filho único, Eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu” (Gn, 22, 16-17).

Ora, como o sacrifício de Jesus e de Maria foi sacrifício de propiciação ou reparação pelo pecado, de expiação da pena devida ao pecado, façamos do sacrifício de nossa vida – em união com eles – uma reparação de todas as nossas faltas; peçamos desde agora a graça de fazer tal sacrifício com grande amor, o que lhe aumentará ao dobro o valor. Sejamos contentes de pagar essa dívida à justiça divina para que a ordem seja-nos plenamente restabelecida. E se, com tal espírito, unimo-nos intimamente às missas que se celebram todos os dias, à oblação sempre pulsante do Coração do Cristo – oblação que é a essência dessas missas – então alcançaremos a graça de fazermo-nos acompanhar dela, mesmo ao último momento. Se essa união de amor a Cristo Jesus é a cada dia mais íntima, a expiação do Purgatório será notoriamente abreviada para todos; poderia acontecer de recebermos a graça de passar nosso Purgatório totalmente por sobre a terra, aumentando no amor e merecendo-o, em vez de fazê-lo após a morte, sem merecê-lo.


Suplicação

O moribundo não deve fazer tão-somente da morte um sacrifício de adoração e reparação, mas também um sacrifício impetratório ou de suplicação, em união com Nosso Senhor e Maria.

São Paulo escreve aos Hebreus (5, 7): “Nos dias de sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas (...),e foi atendido pela sua piedade (... )tornou-se autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem”. Recordemo-nos da prece sacerdotal do Cristo após a Ceia e antes do sacrifício da Cruz: Jesus aqui rezou por Seus apóstolos e por nós... “porque vive sempre para interceder em seu favor” (Hb 7, 25). Particularmente, [o Cristo reza] durante o sacrifício da missa, onde Ele é o principal sacerdote.

Jesus, que rogara por seus algozes, roga pelos moribundos que se recomendam a Ele. A Virgem Maria intercede junto a Ele, ao recordar o que nós muitas vezes dizemos: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

O moribundo deve associar-se às missas que se celebram longe ou perto dele; deve solicitar através delas, através da grande oração do Cristo, que nelas se prolonga, a graça da boa morte ou da perseverança final – a graça das graças, a dos eleitos. Convém que se suplique não apenas para si, mas para todos os que morrem àquele momento.

Para nos dispormos desde agora a fazer esse ato suplicatório de última hora, oremos com freqüência, ao assistir à Santa Missa, por aqueles que vão morrer no correr do dia. Conforme a recomendação de S. S. Bento XV, façamos celebrar uma missa quando em vez para obter, através desse sacrifício suplicatório de valor infinito, a graça da boa morte ou o aproveitamento dos méritos do Salvador. Façamos também celebrar algumas missas por alguns de nossos parentes e amigos que nos causaram inquietação acerca de sua salvação, para lhes obter a graça derradeira, e por aqueles que teríamos escandalizado e talvez distanciado do caminho de Deus.


A ação de graças

Enfim, cada qual deveria fazer de sua morte – em união com Nosso Senhor e a Virgem Maria – um sacrifício de ação de graças, por todos os benefícios recebidos desde o batismo, rememorando quantas absolvições e comunhões nos remiram ou guardaram no caminho da salvação.

Jesus fizera de Sua morte um sacrifício de ação de graças, ao dizer: “Consummatum est – Está consumado” (Jo 19, 30); Maria disse o “Consummatum est” junto com Ele. Tal forma de oração – que permanece na missa – não acabará, ainda que à última missa a ser dita, ao fim do mundo. Quando não houver mais sacrifício propriamente dito, haverá sua consumação, e nela haverá sempre a adoração e a ação de graças dos eleitos que, unidos ao Salvador e a Maria, entoarão o Sanctus ao lado dos anjos e glorificarão a Deus, louvando-O.

Essa ação de graças é admiravelmente expressa pelas palavras do ritual que o padre prolata à cabeceira dos moribundos, após dar-lhes a derradeira absolvição e o santo viático: “Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo...: Saí deste mundo, alma cristã, em o nome de Deus Todo-poderoso, Que vos criou; em o nome de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, Que sofreu por vós; em o nome da gloriosa e santa Mãe de Deus, a Virgem Maria; em o nome do bem-aventurado José, seu esposo predestinado; em o nome dos Anjos e Arcanjos; em o nome dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires; em o nome de todos os Santos e Santas de Deus. Que ainda hoje vossa habitação seja na paz, e vossa morada na Jerusalém celeste, por Jesus Cristo Senhor Nosso”.

Concluindo: repitamos freqüentemente – a fim de rebrilhar-lhe o valor – o ato recomendado por S. S. [São] Pio X, e roguemos a Maria a graça de fazer de nossa morte um sacrifício de adoração, de reparação, de suplicação e de ação de graças. Quando assistirmos os moribundos, exortemo-los ao sacrifício, a associar-se às missas que então se celebrem. E desde agora, por antecipação, façamo-lo nós mesmos, renovemo-lo com insistência a cada dia, como se fosse o último; desta feita, disporemo-nos a fazê-lo habilmente ao momento supremo: então saberemos que “Deus conduz a profundos abismos e deles tira”; nossa morte será como que transfigurada; apelaremos ao Salvador e a Sua Santa Mãe para que nos venha levar, concedendo-nos a graça derradeira, que nos assegurará definitivamente a salvação, através de um último ato de fé, de confiança e de amor.

terça-feira, julho 11, 2006

Uma Questão de Princípio

A 9 de Julho de 1860, os Cristãos Árabes sofreram uma perseguição mais, das muitas que os Muçulmanos lhes infligiram, ao longo de um dilatado historial. Com a cumplicidade do governador turco, que pensava assim, pela solidariesdade religiosa, neutralizar a hostilidade da população aos otomanos, foram assaltados os bairros maronitas de Damasco, pilhadas e incendiadas as casas e mortas muitas pessoas, sendo as restantes, de facto, obrigadas a emigrar. Este tristissimo episódio culminou os confrontos em que milhares de Crentes do mesmo Rito pereceram no Líbano, em confrontos com os Drusos, perante a aprovação do delegado de Istambul, o qual, quando a mortandade já tinha operado, se ofereceu à comunidade que vira tantos dos seus sacrificados para lhes garantir a segurança, desde que reconhecessem a imunidade aos autores dos crimes e desistissem de pedir a restituição de bens pilhados. Foi esta parcialidade, na tentativa de cimentar uma administração odiada à custa dos que se não podiam defender, que levou as potências a determinar uma elaboração nova do Direito de Ingerência, cometendo à França o envio de tropas para impor a ordem, no que Napoleão III baptizou, pioneiramente, de «Expedição com Fim Humanitário».
A rememoração deste facto deveria levar muitos cristãos a fazer paralelos com os assaltos que nos seus próprios territórios, comunidades como a Judaica, por, como a maronita, serem ricas, influentes e não-maioritariamente alinhadas, sofreram. Tal como nos deveria fazer reavaliar intervenções como a no Kosovo, há um par de anos. Quanto a esta última, recordo que, compreendendo muito embora os motivos, assinei um protesto contra a intromissão americana na ex-Jugoslávia. É que, apesar das deficiências volitivas, a intervenção deveria ter tido lugar por mãos e aviões europeus. Nestes casos extremos dever-se-ia chegar a uma partilha do Mundo a intervencionar, com uma reactualização de Monroe, vedando aos EUA a acção na Europa, aos Europeus as operações nas Américas e permitindo-as a ambos, quando a protecção dos carecidos fosse premente, no resto do Mundo.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Rodrigueanas

Do saite Permanência

NOVAS FRASES SELECIONADAS DE NELSON RODRIGUES
seguida de trechos de uma entrevista dada à revista Manchete


extraídas do livro "Nelson Rodrigues, Meu Irmão", de Stella Rodrigues, editado pela José Olympo, Rio de Janeiro, 1986.


FRASES:


“O verdadeiro Cristo? É o Cristo verdadeiro. O falso cristo é o cristo dos padres de passeata. Há um cristo de passeata que é mais falso do que Judas. É a igreja dos padres de passeata. Eu sou cristão, mas não me venham falsificar Cristo como uísque nacional”.

“Ai daquele que, num desafio suicida, tenta individualizar-se”.

“O mundo só pode ser dos que têm razão. Mas a razão é todo um maravilhoso esforço, toda uma dilacerada paciência, toda uma santidade conquistada, toda uma desesperada lucidez”.

“Dá-me um certo cansaço, um certo tédio, ouvir que sou contra o jovem. Não sou contra ou a favor de ninguém, automaticamente. Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. Naturalmente, o jovem tem o defeito salubérrimo da imaturidade”.

“Naquele momento instalou-se em mim uma certeza para sempre: a Opinião Pública é uma doente mental”.

“Eu sofro pressões incríveis. Todo mundo, a comunidade, exige que sejamos imbecis”

“A verdadeira apoteose é a vaia. Os admiradores corrompem”.

“A peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como o seria uma missa cômica”.

“A única coisa que me mantém de pé é a certeza da alma imortal. Eu me recuso a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado”.

“A análise de grupo é indesculpável. É a liquidação da mercadoria”.

“O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”.

“Não acredito no teatro de denúncia porque acho meio esdrúxulo o autor, que manda nos personagens, que cria situações, injetar o próprio sentimento nos pobres-diabos que ele manipula”.

“O sujeito que lê ou ouve um esquerdista, leu e ouviu todos os esquerdistas”.

“Eu considero a ONU uma delinqüente da pior espécie”.

“A grande tragédia da carne começou quando o homem separou o sexo do amor. Como não somos vira-latas, nem urramos no bosque, o sexo sem amor é um progressivo suicídio”.

“Na minha obra está clara, transparente, uma violenta nostalgia da pureza”.

“Os ‘compreensivos’ frustram a juventude em sua rebeldia”.

“A mulher não é inferior ao homem. Só o fato de ser mãe a torna superior. A mulher só se inferioriza quando, para imitar o homem, começa a dizer palavrões”.

“Só acredito em Deus. É algo de tão vivo, de visível, tangível, algo que podemos beijar”.

“A olho nu, qualquer um percebe a ascensão social, econômica, política do idiota. Outro dia, passou por mim um automóvel das Mil e Uma Noites, sim, um desses Mercedes irreais, com cascata artificial e filhote de jacaré. Lá dentro, ia um idiota flamejante”.

“Esse mundo absolutamente nivelado, não seria justo. Porque o melhor, o mais inteligente, o mais capaz, merece mais. Deve ganhar mais. Agora deve haver o mínimo compatível com a dignidade humana, para todos, rigorosamente para todos”.

“Nós sabemos que o sujeito mais livre do mundo é o leitor. Nada interfere no pudor, na exclusividade e na inocência de sua relação com a obra escrita. Está só, espantosamente só, com o soneto, o romance, o texto dramático. Já o espectador é o mais comprometido dos seres”.

“Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de a mais cínica das épocas”.

“A burrice, nós sabemos, é um tipo de loucura dos mais desvairantes”.

“É impraticável a discussão política nobre. Sempre que pensa politicamente, o sujeito se desumaniza e desumaniza os problemas”.

“Uma virtude do desenvolvido que desponta no brasileiro é o hábito do psicanalista. Sabe-se que a angústia é, se me permitem a metáfora, a flor do lazer, a jóia da ociosidade. Para ser um bom neurótico, o sujeito precisa de tempo e, além disso e obviamente, dinheiro”.

“Veja o Brasil. Isso estava caminhando para uma fulminante cubanização. E, então, os militares tiveram uma função histórica... Isso aqui ia virar o caos, ia ser um mar de sangue”.

“Não sei se vale a pena viver num mundo que só sabe odiar. Mundo que está sofrendo uma monstruosa e espantosa castração espiritual”.

“Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”.

“Se o homem não fosse eterno ou não tivesse uma alma eterna, não tivesse garantido a sua eternidade, esse homem andaria de quatro. Toda manhã saía de quatro, ferrado, aí pela rua, e montado por um dragão de Pedro Américo”.


EXTRATOS DE UMA ENTREVISTA À REVISTA MANCHETE EM AGOSTO DE 1977:

Manchete — Você está lançando o seu livro O Reacionário. Por que o livro e por que esse título?

Nelson Rodrigues — Este livro é uma das coisas mais sérias que já fiz na minha vida. Antes de falar de mim, mal ou bem, o sujeito deve ler o meu livro para saber o que eu acho, para saber do meu anticomunismo, saber do meu horror a Marx... Marx não toma conhecimento da morte. E nós exigimos de Marx a devolução de nossa alma imortal. Tudo isso está no livro. Agora, eu tenho uma virtude única, que é a seguinte: não tenho medo de passar por reacionário. Querem me chamar de reacionário, chamem; querem me pichar como reacionário, pichem; querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem. Mas eu sou homem que não aceita essa impostura gigantesca dos chamados países socialistas. Por mais que eu tenha horror da política, há muita política no meu livro. Eu acho que a política corrompe qualquer um, mas ela é um fato. Alias, vocês querem saber de uma coisa? Eu comecei a ficar anticomunista aos 11 anos de idade. Eu era um rato de jornal e nessa ocasião comecei a freqüentar o jornal A Nação, do Leônidas de Rezende, um comunista tremendo. Então, um dia assim sem mais nem menos, um rapaz me disse que, se o partido mandasse, ele estrangularia a sua própria mãe. Era só o partido mandar. A ONU, por exemplo, não considera o Brejnev um canalha. Para ela, o fato de existirem intelectuais internados em hospícios não representa um ato atentatório aos direitos humanos. Agora, vou te dizer uma coisa: eu pensei muito quando dei ao meu livro o título de O Reacionário. Porque no duro, no duro, eu não sou reacionário. A mais cruel forma de reacionarismo está nos países socialistas, na Rússia, em Cuba, na China, etc. Realmente, eu sou um libertário. Veja você: dois pobres-diabos cidadãos soviéticos seqüestraram um avião para deixar o paraíso e foram parar na Finlândia. Entregaram-se ao governo finlandês, que os devolveu ao Brejnev. Vão ser naturalmente fuzilados. Pois bem: quem protestou contra isso? Onde está o manifesto dos intelectuais com 3.999 assinaturas? No duro eu sou um libertário. Eles, marxistas, é que são reacionários. Repito mais uma vez: os marxistas é que são reacionários.

Manchete — Nelson, ainda existe o padre de passeata? Eles ainda estão em plena atuação?

Nelson Rodrigues — Ainda existem e estão em plena atuação. Sempre houve o padre de passeata. É o falso padre, o sujeito que trai a Igreja, que trai Cristo, trai Deus. Este é o padre de passeata.

Manchete — Você está a favor do Lefebvre ou do Papa?

Nelson Rodrigues — Sou inteiramente a favor de Lefebvre. Eu acho que a Igreja de Cristo é a Igreja de Lefebvre. Acho que qualquer faxineiro prefere o latim. O latim é a verdadeira linguagem. Aliás, a gente não precisa entender a língua, basta o som.

(...)

Manchete — Nelson, você gostaria de viver agora ou na Idade Média?

Nelson — Em primeiro lugar, eu não vejo nada de ruim na Idade Média, como você está insinuando. Foi uma etapa da história da humanidade, simplesmente. A Idade Média tinha seus valores formidáveis. A par disso, já afirmei que tinha uma alma de Belle Époque. Hoje estamos assistindo a uma destruição de valores. Nunca a maldade humana, a perversidade humana, a ferocidade humana foram tão violentas como em nossa época. Eu digo o seguinte: se houvesse uma guerra nuclear e o mundo acabasse, não se perderia grande coisa. Alias, de todas as épocas eu acho que a pior é exatamente a nossa.

(...)

Manchete — Mas você é muito amargo.

Nelson Rodrigues — Como?

Manchete — Muito amargo em face da vida.

Nelson Rodrigues — Meu coração, meu anjo: a amargura é o elemento do artista. A amargura dá uma dimensão fantástica ao artista.

domingo, janeiro 22, 2006

Julián Marias - Abertura ou Fechamento

E o mundo tem ficado menos inteligente... Faleceu Julián Marias. Eis aqui a minha atrasada homenagem a um daqueles inda feitos no antigo molde, que amanhava o barro de que antigamente eram feitos os homens cristãos.


Cada vez mais me parece confirmada a velha idéia das “raízes morais da inteligência”. É minha convicção que sem uma considerável dose de bondade até se consegue ser “esperto”, mas não verdadeiramente inteligente. Isso corresponde, mais que a uma preocupação moral, a uma evidência intelectual: a de que a inteligência consiste sobretudo em abrir-se à realidade, deixá-la penetrar na mente e ser aceita, reconhecida, possuída. Não raro a agudeza, a “esperteza”, coincide com a maldade – às vezes as associamos; mas se se olhar bem, vê-se que não se trata de inteligência, i. é, de compreeensão da realidade, mas de sua utilização ou manipulação.
Por isso, há-de se estar atento ao grau de abertura ou fechamento das pessoas, sobretudo daqueles que pretendem manejar o real, interpretá-lo ou explicá-lo. É característico ao homem inteligente o “esperar”, o não precipitar-se, deixar que o que aparece ante os olhos ou tenta penetrar pelo ouvido se manifeste por inteiro, exiba seus títulos de justificação, seja examinado por vários ângulos, desde diferentes pontos de vista. Esta é a razão porque as mulheres – quando realmente o são, i. é, quando são fiéis a sua própria condição – tornam-se sumamente inteligentes, proporcionalmente mais que os homens, os quais muitas vezes apressados.
Quando leio um escritor, o que primeiro sinto é a possível impressão de abertura. Em suas páginas – quiçá desde as primeiras linhas – se percebe que algo novo está penetrando, que se está agregando ao que já se sabia, ou que se está destacando um aspecto despercebido. Daí, a impressão de enriquecimento, que suscita satisfação.
Os escritores são os que merecem ser lidos, porque doam generosamente sua realidade, oferecem-nos descobrimentos que fizeram em solidão; vivificam aspectos mal conhecidos da vida humana; tangem – com uma expressão afortunada ou uma metáfora – as facetas da realidade, que se põem a irradiar beleza.
Outras vezes, a impressão é bem diferente. O autor se nos aparece encastelado nalgumas idéias – raras vezes suas, quase sempre recebidas, que se interpõem entre ele e o que as coisas são (não diremos isso, se se tratar de pessoas) - com o que nos priva de todo enriquecimento possível, de toda expansão de nossa mente.
O bom pesquisador, i. é, o bom leitor que lera, ano após ano, muitas páginas e sabe discernir, dá-se conta de plano dessa diferença capital. Vê que nada se pode esperar, que não vai receber nenhuma inovação. Nesta época – em que a produção de escritos é ingente em todas as suas formas, e é inabarcável – já não é o conteúdo do que se publica a respeito dum assunto, mas tão-somente os títulos, a capacidade de se distinguir, que é salvadora – por acaso, é a única forma de sobrevivier à inundação que por todas as partes nos acossa.
Há autores que nos dão a impressão de que “não se inteiram de nada”, de que – aconteça o que acontecer, diga o que disser – permanecerão em sua teimosia, repetirão o que ouviram ou leram há muito tempo, o que manifesta seu erro ou falsidade. Lembram aquele conto do general que, de tão valente que era, não se rendia nem à evidência.
Às vezes, o fechamento se deve à escassez de inteligencia, ou à incapacidade de refletir sobre o que se lera ou ouvira, inclusive sobre o que se pensara nalgum momento e que fora desmentido pelos fatos ou por um olhar mais abrangente. A preguiça – quase sempre esquecida – explica muito disso.
Não obstante, existe uma forma de fechamento mais profundo, merecendo ser examinado. Não é tão-só fechamento, obturação da mente em face ao que nela tent penetrar. Possui um caráter defensivo – é uma resistência ao real, tal como se fosse uma agressão ou ameaça. Por isso, essa forma de fechamemto é hostil, quase sempre polemizante, beligerante.
O que fala ou escreve sente-se em perigo, inquieto, agredido, não por uma tese distinta ou oposta, mas pela mesma realidade. Quer dizer, defende o que no fundo sabe não ser a verdade – identifica-se-lhe, como se fora ele mesmo -, afasta o diferente.
Essa atitude não é bem compreendida. Como se pode ser “inimigo” da realidade? Não é ela o que nos rodeia, com o que temos de construir nossa vida? A efetiva estrutura do mundo, a história que em realidade acontecera, a consistência do humano, as condições de personalidade – como pode ser isso algo “adverso”, que se deve combater e rechaçar? Se se olhar bem, o temor de se ver dissipar o que se tomara – sem motivo – como fundamento da própria vida é a máxima expressão da insegurança.
Essa impressão de que há muitos que “não se inteiram de nada”, que insistem imperturbáveis em noções que não resistem a um minuto de reflexão e análise, de confrontação com os fatos, é desencorajadora. É particularmente freqüente quando intervém a paixão política, quase sempre associada à mentira – diferente da nobre política, que busca, no dizer de Fichte, “declarar o que é” - ; existem casos extremos que estão rigorosamente montados sobre a falsificação, para que o real é um veneno mortal.
Mas ao lado desse fechamento há sintomas alentadore de abertura, amiúde entre pessoas que não tem grandes pretensões, que não querem definir, que não crêem tudo saber. São as que buscam precisamente “inteirar-se” – i. é, integrar-se – , que sentem alegria e satisfação quando se lhes montra algo que não viram o com que não contavam.
E máxima é tal magnetude se descobrem que estavam em erro, se se vêem obrigados a retificar, i. é, a morarem na verdade que se lhes escapara. Sentem que são melhores, mais reais, que se produzira um incremento em sua prórpria pessoa. Aludiram à diferença entre homens e mulheres, e daí sua vária razão. Poder-se-ia investigar a abertura ou fechamento ao longo do tempo, conforme as idades a cada momento,o que obrigaria a pensar nas diferenças geracionais. Não há duvidar houvera uma que fora submetida a um rigoroso regime de “fechamento”, que gravitara pesadamente sobre si, e de que, com o passar dos anos, por acaso se foi libertando. Creio perceber sintomas e abertura nos juvens, que Às vezes adota aforma da desorientação – quiçá porque têm de combater as tentações do fechamento para tentarem ser eles mesmos, que é o que no fundo desejam ser. Se me não engano, é o mais esperançoso dos horizontes.



terça-feira, janeiro 10, 2006

Victor Hugo - História

Entre os antigos, a ofício de escrever a história originava-se do lazer dos grandes homens históricos; originava-se de Xenofonte, o chefe dos dez mil; de Tácito, príncipe do senado. Entre os modernos, já que os grandes homens históricos não sabiam ler, houve necessidade de que a história se escrevesse pelos letrados e cientistas, pessoas que não eram nem letradas nem científicas, pois ficaram toda sua vida estranhas aos interesses deste baixo mundo, quer dizer, da história. Daí, a história, tal como os modernos escreveram-na, ser algo de pequeno e pouco inteligente.

É notável que os primeiros historiadores antigos escrevessem de acordo com as tradições, e os primeiros historiadores modernos, de acordo com as crônicas. Os antigos, ao escrever conforme as tradições, seguiram a grande idéia moral de que não bastava que um homem tivesse vivido, ou mesmo que um século tivesse existido, para que fosse história, mas ainda precisaria de que tivesse legado grandes exemplos à memória dos homens. Eis porque a história antiga não morre jamais. Ela é o que deve ser, a representação ponderada dos grandes homens e das grandes coisas, e não, como queremos fazer no nosso tempo, o registro da vida de alguns homens, ou o processo-verbal de alguns séculos.

Os historiadores modernos, ao escrever conforme as crônicas, não viram o que havia dentro dos livros, mas tão-só os fatos contraditórios a restabelecer e as datas a conciliar. Escreveram como cientistas, ocupando-se amiúde dos fatos e raramente das conseqüências, não se curvando sobre os acontecimentos a partir do interesse moral – que seriam capazes de apresentar – mas de acordo com a curiosidade que ainda lhes restava, atendendo aos fatos de seu século. Eis a razão de a maioria das histórias começarem por sínteses cronológicas e terminam em bisbilhotice.

Calculamos que seria preciso uns oitocentos anos a um homem que lesse catorze horas por dia, a fim de que lesse tão-somente as obras escritas sobre história que se encontram na Biblioteca Real; entre essas, devemos contar mais de vinte mil sobre história da França, a maioria em vários volumes, desde MM. Royou, Fantin-Desodoards e Anquetil, que fizeram histórias completas, até estes valorosos cronistas, Froissard, Comines e Jean de Troyes, pelos quais sabemos que hum certo dia o rrei stava di maleitas, e que hum certo outro dia hum hommem xe afogou em o SSenna. Entre essas obras, estão quatro geralmente conhecidas sob o título de “as quatro grandes histórias de França”: a de Dupleix, que não lemos mais; a de Mezeray, que sempre leremos, não por ser tão exata e verdadeira quanto Boileau cantou em rima, mas porque é original e satírica, o que é mais agradável aos leitores franceses; a do pe. Daniel, jesuíta, famoso por suas descrições de batalhas, que em vinte anos fez uma história cujo único mérito é a erudição, e em que o conde de Boulainvillers encontrou mais de dez mil erros; e enfim, a de Vely, continuada por Villaret e Garnier. “Existem dois trechos muito bem feitos em Vely, diz Voltaire, cujos vaticínios são preciosos; devemos-lhe elogios e reconhecimento; mas faz-se mister ter o estilo para o tema; para se fazer uma boa história de França, não é bastante ter discernimento e gosto”.

Vilaret, que fora humorista, escreve num estilo pretensioso e empolado; cansa pela contínua afetação de sensibilidade e energia; muitas vezes é inexato e raramente imparcial. Garnier, mais racional, mais instruido, não é melhor como escritor. Sua escrita é descorada, seu estilo prolixo e indolente. A diferença entre Garnier e Villaret é a que vai do medíocre ao pior, e se a primeira condição de uma obra deve ser a de ser legível, o trabalho desses dois autores pode a justo título ser visto como inexistente.

Ademais, escrever história de uma só nação é obra incompleta, sem começo nem fim, e, por conseguinte, defeituosa e disforme. Não pode haver boas histórias locais senão nas divisões bem proporcionadas de uma história geral. Neste mundo, só há duas tarefas dignas de um historiador: a crônica, o diário ou a história universal. Tácito ou Bossuet. Sob um ponto de vista bem limitado, Comines escreveu uma boa história de França em seis linhas: “Deus nada criou nesse mundo, nem homens, nem feras, sem que não tenha feito seu contrário, para incutir-lhe temor e humildade. Eis porque Ele fez França e Inglaterra vizinhas.” [...]