quinta-feira, dezembro 08, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade III

III. O SANTO INDIFERENTE À CONDIÇÃO HUMANA

Revelar-nos a relação entre os dois mundos, i. é, entre o material e o espiritual, é próprio à santidade, ou ainda, mostrar-nos que só há um mundo, mas que esse possui uma face obscura e outra luminosa, e que é de tal ordem que podemos deixar-nos seduzir pela sua aparência – com que não cessamos de passar e morrer –, ou penetrar até à sua essência, que se nutre dessa mesma aparência e dela revela-nos a verdade e a beleza. O santo está na fronteira dos dois mundos. Ele é, em meio ao visível, a testemunha do invisível que trazemos ao nosso cerne e que o visível esconde ou revela, conforme a direção do olhar. Convém pois que o santo viva em meio a nós, que se adstrinja a todas as misérias da existência, que pareça até mesmo oprimido por elas a fim que todas as grandezas da terra nos pareçam indiferentes, indicando de maneira notável que os verdadeiros bens estão além. Desta feita pensamos amiúde que é na contrariedade que a vida lhe impõe, no sofrimento que recebe ou que se inflige a si, nas torturas ou no martírio, que a santidade manifesta melhor sua essência. É no martírio que captamos melhor a pureza da testemunha. Mas há outras formas de testemunho que possuem caráter mais secreto. Nem todos os santos são chamados ao martírio. Mas a imaginação tem necessidade dos grandes exemplos para medir a distância entre a santidade e o triunfo. A santidade é um grande triunfo espiritual, indiferente a qualquer outro, desprezando-o.

Ninguém escolhe a condição que lhe será disposta, nem as exigências que lhe poderão impor. A santidade pode estar no trono, onde reconhecemos quase unanimemente que as dificuldades que encontra são maiores. Ela se esconde sob o hábito do mendigo, onde estamos amiúde mais inclinados a encontrá-la. Ninguém sabe se convém mais esforço para escapar ao demônio do orgulho ou ao da inveja. Em verdade, comprazemo-nos em ver o violento contraste entre a santidade e a condição que lhe é imposta: ela nos parece de modo mais comovente, seja ao píncaro da grandeza humana – esquecida e desprezada –, seja ao último estado da miséria humana – aceita ou amada. Ser naturalmente invisível, tal como o mundo espiritual em que ela nos convida a entrar, é peculiar à santidade. A santidade do mendigo ou do rei não se dá a conhecer sob os traços do mendigo ou do rei. Pois é inseparável duma atitude interior que lhe emprestamos, encontrando em nós um misterioso eco: assim o mendigo e o rei semelham-se ao santo desconhecido com que caminhamos todos os dias, sem que nenhum sinal no-lo faça reconhecer.O santo pode ser um sábio, um teólogo, um fundador de ordens, mas não é por isso que é santo, ainda que a santidade encontre expressão em todas as obras que realiza, como encontraria na maneira de governar ou de estender a mão.

O santo pode ser o homem do povo que parece absorvido das mais simples necessidades, por sua vez solitário e aberto a todos, e cuja vida exterior parece reduzir-se a alguns hábitos de que, por vezes, nos surpreendemos; ou ainda um gesto simples, familar e inesperado, e que contudo resolve, como se tudo só dele dependesse, uma situação que até então parecía-nos inextrincável; ou ainda um sorriso profundo e luminoso que, sem mudar em nada o estado das coisas, modifica entretanto a atmosfera por que as enxergamos. O santo faz, para nós, da vida, um milagre perpétuo, mas que, sem desordenar em nada a ordem natural, revela-se-nos, através dessa mesma ordem, por uma como transparência.