domingo, setembro 18, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade II

II. O SANTO SEMPRE VAI ATÉ AO SEU PRÓPRIO ABSOLUTO

Em cada um dos homens que nos cercam, há um santo em potencial, mas não virá a sê-lo sempre. Nele também há um criminoso ou um demônio em potencial. A angústia em que vivemos – e que a maioria dos modernos pensam que está na própria consciência – exprime a incerteza de saber se um ou outro trinfará algum dia. Os jansenistas sentiram-na. O mais das vezes, pesamos poder nos contentar de uma vida mediocre em que só teríamos tarefas banais a cumprir, interesses temporais a satisfazer. É inerente ao santo ir sempre até ao seu próprio absoluto. Não existe homem cuja vida esteja tão próxima dos movimentos espontâneos da natureza: ele está, por assim dizer, entregue; é de si que tira todo seu ímpeto. Ora, podemos pensar que ele combate essa natureza, mas antes deve-se dizer que impele todos os impulsos ao último grau, até àquele em que eles lhe dão uma satisfação plena, cumulando-o. Obriga-o assim a ultrapassar os limites da natureza de sorte que, por esta feita, a natureza atinja nele o fim para que se inclina. Assim vemos o matemático, na idéia de limite, levar ao infinito uma série de termos e, contudo, superá-los. Da mesma forma, o santo nunca os põe em jogo, mas só nos sugere os sentimentos mais familiares: nenhum homem nos é tão acessível. Ele fará um uso extraordinário desses sentimentos: conseguirá preencher toda sua potência tão-somente ao forçá-los – a fim de se realizarem – a superar o emprego para que os consagramos até então; no momento em que se perfeccionam, parecem que se renunciam ou que se transformam em seu contrário. Assim, reconhecemos no santo todos os impulsos da natureza, e, apesar disso, não os reconhecemos. É um erro pensar que ele só os combate, pois a natureza também vem de Deus. O santo a sobrenaturaliza. Encontra nela sua origem, destino e sentido. Sem dificuldades compreendemos que quem fica preso no interior da natureza não pára de se rebaixar, aviltando todas as forças que a natureza deu a sua disposição. O divino e o demoníaco são compostos dos mesmos elementos. Uma simples inflexão da liberdade basta a transmutar um no outro. É na vida do espírito que a vida da natureza recebe a verdadeira realização. Não ver que a natureza é uma figura é desfigurá-la, é recusar todo valor à imanência, em vez de querer permanecer aí, não divisando que ela vem da transcendência, que ela vai para a transcedência, e é à própria transcedência que dá um acesso – furtivo e precário – que somente a morte pode aperfeiçoar.

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