quarta-feira, setembro 07, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade I

I. OS SANTOS EM MEIO A NÓS

Os santos estão em meio a nós. Mas não logramos sempre reconhecê-los. Não cremos que possam habitar nesta terra. Pensamos que eles deixaram-na. Invocamo-los como se estivessem todos no céu, deles só podendo esperar graças invisíveis e sobrenaturais. Seria muita ousadia querer imitá-los: nosso nome de batismo nos sugere apenas a idéia de uma proteção que eles nos poderiam dar; eles tornaram-se ministros de Deus e os dispensadores de seus dons. Contudo, é sua morte que faz deles santos, ela é que realizou a transfiguração espiritual sem que seriam tão-somente homens como nós. Nesse momento, estão de tal modo purificados que deles só subsiste uma vaga idéia de uma virtude que incarnaram e que despertam em nós, por meio de sua imagem, sem que possamos esperar igualá-los. Para nós, seria derisório pensar que um homem que pudemos ver e tocar, de que observamos as fraquezas, os ridículos e as faltas, que se misturou com nossa vida e cuja fronte não possuia auréola, tenha trilhado à nossa presença o caminho da santidade sem que houvéssemos sabido algo. Todavia, a santidade é invisível na terra como no céu, e muito mais difícil de discernir quando se reveste das aparências que quando temo-la em nosso pensamento como uma imagem ou idéia.
Todavia, o santo não é um puro espírito. Não poderíamos confundi-lo com um anjo. Mesmo a morte não poderia fazer dele anjo. Pois a santidade pertence, antes do mais, a terra. Ela testemunha que a vida que levamos aqui, totalmente mesclada com o corpo, com suas fraquezas, com suas trivialidades, é capaz de receber o reflexo de uma luz sobrenatural, que pode adquirir uma significação que a ultrapassa, que nos ensina não apenas a suportá-la, mas a querê-la e amá-la. Sempre se nos dá que o santo é um ser de exceção, que se apartou da vida comum, que não participa mais de sua miséria e que vive em comunhão só com Deus, não mais conosco. Mas isso não é verdade: por viver em comunhão com Deus, ele é único homem que vive em comunhão conosco, enquanto todos os outros permanecem, até certo ponto, apartados.
Nenhum sinal exterior o distingue do passante, sobre que nosso olhar não se detém. Aparentemente, sua vida parece a vida de todos os homens. Vemo-lo preocupado do dever que lhe foi confiado, de que se não parece desviar nunca. Não recusa nada do que lhe é proposto: tudo o que lhe oferecido é-lhe ocasião. Está pronto a todos e a cada um, de uma maneira tão espontânea e tão natural que só faz acrescentar à sociedade que nós mesmos formamos. Não vemo-lo, como se pensa que deveria ser, renunciando à natureza, ou que os defeitos de caráter se lhe acham vencidos e anulados. Pode ser violento e colérico. Ainda está sujeito às paixões. Não busca, como tantos homens, dissimulá-los. Vê-lo submetido a eles é um como escândalo que nos afasta considerá-lo santo, inclinando-nos a considerarmo-nos superiores.
Podemos dizer, sem dúvidas, que mortifica essas paixões, mas elas são uma condição, um elemento de sua santidade. Já que a santidade é, em si, uma paixão ou, se essa palavra choca, uma paixão convertida. Na paixão, há uma força de cuja santidade necessita para afastar-se do preconceito e do hábito. A paixão sempre cria raízes no corpo – é ela que o eleva e o leva para além dele mesmo. Não há nada mais belo que ver este fogo que se alimenta de materiais impuríssimos, cuja chama produz muita luz, no alto.

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