quinta-feira, agosto 25, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal III

Este capítulo foi revisado pelo Alexandre e publicado originalmente no saite Revista Permanência. Eu retirei todas as notas de rodapé, que podem ser lidas no saite da sobrecitada revista.
Luiz de Carvalho


A LINGUA LATINA

Devemos estimar a língua latina... Devemos crer nela, como os primeiros cristãos criam que o Império Romano duraria até o fim do mundo.
Jean BELOT, Jurista parisiense, 1637

Tivemos de reescrever uma breve história de Roma antes de falar sobre a língua de Roma, pois somente os anais extraordinários deste império explicam as múltiplas qualidades de sua linguagem.
* * *
Recordemos antes de tudo que o romano era um camponês, um ser positivo e prático, que mais se seduzia pelas imagens sensíveis do universo que pela abstração das especulações do espírito.
Por conta disso, se destacava o romano ao forjar termos realistas, imagens impressionistas, como objetos no campo num dia de sol. Donde a primeira característica da língua latina: seu realismo, sua solidez.
Vejamos um exemplo dentre milhares possíveis.
Quando os Romanos anexaram a Gália, os administradores do primeiro século a dividiram em duas partes: uma parte ainda bárbara, aonde César vinha finalizar a conquista; e Provence, esta província há vários decênios romana e impregnada de influências mediterrâneas há séculos. Como os administradores e geógrafos latinos exprimiam as diferenças entre civilizações? Em dois termos realistas, surpreendentes. Para a Gália bárbara, escreviam Gallia comata, a Gália cabeluda (e eis diante nós os homens loiros-arruivados nos seus pequenos burgos e florestas); e para Provence, diziam Gallia togata, a Gália togada (surgindo como um raio, as cidades com inúmeras arenas e templos, e os cidadãos vestidos em seus roupões brancos com faixas púrpuras).
Quando a Igreja adotar esta língua, ela encontrará, animada por um longo passado, as palavras rudes e justas dos tratados de agricultura escritos por Varrão e Columela (os romanos deixaram-nos uma série de textos sobre os trabalhos do operário ou do artesão). Ela ali aprenderá a nomear a criação com termos que pareciam ter sido pouco tempo antes escritos pela mão de Deus, ao Primeiro Dia. Olea, por exemplo, que não é huile, termo abstrato e generalizante, mas mais exatamente o produto da oliveira; vinum é o sumo da vinha; empregando palavras tão próximas de sua origem primitiva, a Igreja reencontrará esta qualidade que a Escolástica medieval chamará um dia: adequatio rei et intelelctus, a adaptação exata da idéia a seu objeto.
É também do vocabulário camponês-citadino que a Igreja obterá esta poesia rústica, que resplende nos ofícios das festas das Rogações ou no oficio dos Sábados Santos: esta água (aqua) que não era lançada somente das fontes, mas que Roma soube conduzir sobre os arcos de pedra até aos confins do mundo conhecido; este fogo, que não era somente a fagulha extraída do atrito das rochas, mas a palavra que designa o primeiro lar humano (pois, em latim, focus significa tanto fogo quando local) fornecia à Igreja toda uma definição do universo visível, que punha à mão dos homens aquilo que a Bíblia oriental deixava no mistério cruciante da natureza.

Cælum dedit pluviam, o céu dá a chuva.
Terra dedit fructum suum, a terra fornece seus frutos,
diz o oficio das Rogações.

Quão pacato e familiar é, como um dia de colheita num campo virgiliano. É bem o Deus dos Evangelhos que vem assegurar a humanidade, aterrada outrora pela dura Justiça de Jeová ou das fatalidades cegas do Panteão antigo.
* * *
Esta predileção pelo concreto, pela simplicidade chã, ajudará prodigiosamente os Padres da Igreja, quando eles quiserem se servir do latim para a definição do dogma. O hebraico sobressai-se nos desdobramentos poéticos amados pelo Oriente; era incomparável nas evocações sobrenaturais dos Profetas; o grego fornecia aos homens os termos da clareza e da agudeza, da profundidade e da luz única para os desdobramentos da razão, da discussão das idéias. Mas só o latim oferecia seu gênio de poder e equilíbrio que fazia ressoar as afirmações da fé num domo de basílica ou entre os colonos, celebrando a vitória dos exércitos.

Resurrexit, sicut dixit, diz o anjo às Mulheres Santas, na manhã de Páscoa. Ele ressuscitou, assim como anunciara.

Língua alguma no mundo pôde estabelecer, em TRÊS simples palavras, a afirmação do milagre essencial sobre o qual se baseou todo o cristianismo. (“se o Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé”, dizia São Paulo).
* * *
O realismo das palavras latinas era, além do mais, reforçadas por aquele de sua construção. Sua ordem favorita (sujeito, complemento, verbo), que perturba os estudantes que se aproximam desta língua, testemunha, portanto, mais uma vez, seu gênio concreto. Ela mostra os autores da ação, em seguida os objetos que servirão à ação, antes de definir a ação mesma.

Nos patriam fugimus,
diz a primeira écloga de Virgilio;

Nous, nous fuyons notre patrie,
diz o francês.

César fit faire un pont,
diz o clássico exemplo das nossas gramáticas:

Cæsar pontem fecit.

César está à frente, em sua majestade de líder; depois vem a descrição do objeto ao qual vai se unir o gênio prático do romano; e enfim o movimento da frase se agrupa em torno do verbo, conduz a ele tudo o que continha de paciência e de lentidão, para rebentar bruscamente numa exaltação criativa: fecit (um dos verbos que Roma, cidade da ação, mais amou).

No início do Livro do Gênesis, a Igreja traduz o hebraico com esta simplicidade concisa que só é latina:

Dixit Deus: Fiat lux (Deus disse: que se faça a luz!)
Et facta est lux (e a luz se fez)
Facere: fazer; fieri: ser feito)

Fazer: era a palavra exaltada pelos Romanos, criaturas do Império. Quando a Divindade inclina-se ao caos do mundo para nele fazer uma criação, que língua exprimirá de forma mais exata este ato senão aquela do povo que traçava, do mesmo modo, o limite dos seus campos, a ordem de seus exércitos em batalha e as estradas do império? Do povo que designa o universo pela palavra mundus, exprimindo organização, ordem; ao mesmo tempo em que os Gregos diziam: cosmos, pois os impressionava a beleza, mais que a ordem?
Deus, inclinando-se sobre o mundo, traçou-lhe uma ordem: a língua da ordem tomou sua simplicidade e sua força nesta grandiosa cena.
Podemos multiplicar os exemplos.
Quando o enviado de Nero veio assassinar Agripina, mãe do imperador, o historiador Tácito relembra que esta mulher, temível e genial, resume o horror do crime em uma simples palavra: ela ordena ao executor de feri-la no mesmo ventre que carregara outrora o filho ingrato. Mas com que linguagem, com que expressão revestira a cena trágica a concisão, o realismo brutal do latim:

Ventrem feri, diz o texto.

Falou-se tudo em duas palavras: a espada do executor e o corpo estendido estoicamente, mas que soube amaldiçoar.
O lugar do verbo na construção latina exprime um dos aspectos essenciais do gênio deste povo criado pela ação; isto é, posto ao fim da frase, aparece nele os seres e as coisas que o precederam; concludente como uma pedra que chega ao fundo; ou então este é um outro aspecto da mesma concepção) uma explosão repentina, como o movimento do Imperador à frente de suas tropas, porque o latim recusa a dar a este elemento essencial do discurso um lugar que não seja o mais visível, o mais marcante.
Quando o verbo é posto no final da frase, além dele só há a queda, o silêncio. Quando se coloca o verbo no começo da mesma frase, consegue-se de ordinário uma majestade exuberante. E quando a Igreja adota para seu uso esta língua de força, ela ganhará por fazer brilhar certas verdades de seus dogmas ou certos aspectos de suas orações, em elipses incisivas.

Fulget crucis mysterium

diz o poema de Fortunato, em honra da Cruz (o mistério da Cruz resplende), mas a tradução revela-se, como de praxe, de uma extrema inépcia para exprimir a admirável imagem:

Fulget: este verbo, pleno de chamas e raios, devido à qualidade única da concisão latina; este verbo posto ao começo de um verso exprime muito mais que sua tradução indica.
Fulget: Fortunato mostra uma luz sobrenatural exterminando todas as sombras.
Fulget: num golpe de espada, ele afirma uma nova fé;
Fulget: o patíbulo do suplicio tornou-se o trono de Deus.

Outro exemplo:

Magnificat anima mea Dominum! exclamou a Virgem, na casa de sua prima Isabel.
Magnificat!A música que a Igreja adaptou a este bramido de vitória amplifica-lhe a extensão:

Ma – gni – i – fi – cat...

Eis a exaltação lançada até a cúpula do céu, estendendo os braços entre dois mundos. O verbo quase que contém o que lhe segue: o privilégio deslumbrante de uma criatura única, o séqüito dos Profetas, todos investidos desde então, da majestade do verbo:

Magnificat!

Outro exemplo: a oração da confissão das faltas, no começo da missa.

Confiteor, diz o latim, então.

E toda confissão dos pecados é definida por estes termos, com uma força devida à língua somente. Saberemos que nos confessamos e o que nós confessamos, mas o gênio latino que não precisa aqui de um pronome, nem de um sujeito acrescido, lança o homem de joelhos, numa só palavra: Confiteor!
Credo diz ainda a igreja antes de desdobrar o resumo dos seus dogmas.
Talvez nós tenhamos aqui um dos exemplos mais claros da insuficiência das traduções em face ao latim. Pela força do verbo colocado no começo do texto, o latim pode resumir vinte afirmações. O francês é obrigado a repetir, a cada uma das proposições: je crois... je crois... je crois.... O Latim, pela faculdade única de seu gênio, por sua força de concisão, não necessitará mais que das desinências de cada palavra, para evitar todo o erro de interpretação, toda a distorção das definições. Com uma brevidade inimitável, diz Credo uma só vez; e, anexados a uma só palavra, todos os mistérios serão evocados, todo o visível e o invisível; as afirmações dos antigos Concílios (Consubstantialem Patri... Filioque procedit) encerradas nas garras de expressões férreas; os pontos de vista históricos (sub Pontio Pilato...) e até a definição desta mesma Igreja, réplica terrestre e celeste do império dos Césares:

Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.

Outro exemplo:

Stabat Mater dolorosa.

Como no Confiteor e no Credo, o sentido e a majestade do hino inteiro experimenta-se desde o primeiro vocábulo. Graças à força do verbo latino, e graças a ela somente, todo o poema põe-se diante nós, e também as imagens das pinturas e das esculturas cristãs de todos os tempos, ofertando à Virgem a visão do martírio, apoiada no braço de São João (“Mulher, eis vosso filho!...”).
Stabat! O verbo latino exprime a ação de se estar de pé; mas exprime, como sempre, em uma só palavra, o que em nosso peito angustia. Podemos tentar emocionarmo-nos com uma tradução quase exata:

Estava de pé a Mãe Dolorosa,

Mas quem não vê a impossibilidade de exprimir o choque deste pranto e desta visão: Stabat?
O latim passou... E eis o cristão lançado de joelhos num relance, diante da Virgem que não se rendeu.
* * *
Língua concreta, língua de ação, o latim era também duma concisão única, onde se encontrava seu gênio guerreiro, sua majestade de comando.
Todo o mundo conhece a famosa frase de César: Veni, vidi, vici (Vim, vi e venci), dístico militar insubstituível, invejado por todos os conquistadores; ou ainda a percepção de Tito — que Tácito nos mostra — ao responder a rainha Berenice, malgrado eles ambos: invitus, invitam dimisit.
Há a frase de Pilatos, nos Evangelhos, quando os judeus vêm reclamar-lhe o ter inscrito sobre a cruz de Cristo, em vez de “Jesus de Nazaré que se pretendia rei dos Judeus”, “Jesus de Nazaré, rei dos Judeus”.
O Governador respondeu: Quod scripsi, scripsi (o que escrevi, escrevi).
E está aqui então toda uma cena imaginária: vemos de um lado abundar esta turba de Orientais mexeriqueiros; e bem diante deles, o homem da espada e da lei, que dá ao drama seu remate.
Quase todos os textos dos Evangelhos da Paixão são intraduzíveis em sua força invocadora. Tomemos o famoso diálogo entre Jesus e Pilatos. Dois mundos estão cara-a-cara. Mas Roma, até então, não tinha conquistado e assimilado todos os povos, todas as civilizações? Donde vem repentinamente este diálogo impossível?

Pilatus dixit... Respondit Jesus...
Pilatus disse... Respondeu Jesus...

De minha parte, poderei ler este diálogo em latim: porque ele é o dialogo imortal do mundo visível e do invisível, uma grande chance de reunir numa mesma língua o que falava o império de toda a terra, diante Daquele que se afirmava o Mestre da terra e do céu.

Ergo, rex es tu? Pois, és tu rei?

Roma forjou esta palavra, rex, e está claro o porquê; neste dia em que começa uma era, tem ela o direito de apresentá-la ao Cristo como o objeto principal do debate. Rex: o império dos homens formou esta palavra, com o sentido de direção, de impulsão e de administração, tudo ao mesmo tempo. (Regere: por causa do gênio conciso da língua latina, significa a um tempo guiar, ter em mãos e governar com justiça) Rex: é este que indica o caminho e que está à frente dos homens para conduzi-los.

Ergo, Rex es tu? (Pois, és tu rei?)
Respondit Jesus: Tu dicis, Rex sum ego (Tu o dizes. Sim, sou rei.)

e a famosa e misteriosa frase:

Regnum meum non est de hoc mundo (Meu reino não é deste mundo).

São todas pequenas palavras em latim: "de", que indica a proveniência, mas com sentido de cair do alto, tal como a chuva (enquanto a palavra "ex" indica simplesmente a origem, mas no mesmo plano), nos faz compreender aqui toda a magnificência da concisão latina. O Cristo quer dizer que ele não recebeu seu poder de nenhum outro da Terra, e o "de" latino basta, com sua significação plena, para permitir a esta frase exprimir o mistério da Encarnação e o papel exato do cristianismo na história dos homens.
Poderíamos multiplicar tais exemplos, porém é necessário nos limitarmos, pois não escrevemos aqui um tratado de pedagogia nem uma gramática: nós procuramos somente algumas imagens, juntamos alguns motivos de admiração, os mais simples e mais impressionantes.
Seria ainda preciso repetir que o latim, língua dos juristas, dos moralizadores, possuía o gênio das sentenças; que era admirável nos epigramas como nas inscrições, que amava os ritmos cadentes do gênero oratório, todas as qualidades que a Igreja utilizará numerosas vezes, forjando as fórmulas que tornarão certas orações um murmúrio majestático:

Per omnia sæcula sæculorum… Per Dominum nostrum Jesum Christum...

ou, ao contrário, em inícios fulgurantes:

Introibo ad altare Dei...
Adjutorium nostrum in nomine Domini...
De profundis clamavi ad te, Domine...
Ite, missa est...
Benedicamus Domino...
Dixit Dominus Domino meo...
In exitu Israël de Aegypto...

Seria preciso relembrar que o latim era não somente a língua do Direito, mas a da história (definida pelos romanos, res gestæ: as coisas acontecidas. Pois os acontecimentos do passado são as lições dos humanos de hoje). Será necessário mostrar, uma vez mais, que a língua de Tito Lívio e de Cícero cobre a Escritura de um surpreendente novo tipo de certeza, de realismo, de verdade. Seria preciso recordar quanto ela convinha aos Atos dos Apóstolos, à primeira história da Igreja, após ter posado sobre os Evangelhos a mão proba do servidor leal...
* * *
Mas seria necessário dizer bem mais.
Se o latim tinha qualidades admiráveis, tinha também defeitos (defeitos estes que nós assinalamos como próprio dos romanos). Seu gosto pelo concreto, seu gênio por vezes muito rústico fazia-lhe pouco apta a tornar-se a língua da filosofia e da teologia. É aqui que se renova, em sua língua, o milagre da assimilação que já distinguimos nos criadores do império.
O latim empresta do grego quase todas as palavras que ele tinha por necessárias para exprimir o domínio do abstrato; (mas é ele mesmo que, para definir o lugar soberano da cultura intelectual na vida, forjou a palavra Humanitas). Cícero e Sêneca estabeleceram uma hierarquia das atividades do romano: as duas mais nobres são a agricultura e o serviço do Estado, porque nestas duas tarefas o homem é mais útil aos outros homens, e é o dignitário mais próximo aos decretos dos deuses. Mas é o estudo das letras, e o ainda mais sublime da filosofia, que o enobrece acima de tudo.
* * *
O latim não era inicialmente uma língua para os poetas, e, contudo, Roma possuiu dois dos maiores poetas do mundo, nas pessoas de Virgílio e de Lucrécio, dignos de suportar toda comparação com seus êmulos gregos. Em Virgílio, mostra-se o poeta-cidadão que cantou a epopéia do império como pessoa; o Profeta que devia saudar Dante e toda a Idade Média cristã, porque parecia predizer o nascimento do Menino de Belém; mais, o canto das campinas selvagens e doces; enfim, o elegíaco voluptuoso e cruel dos amores de Enéias e Dido. Virgílio, melhor que qualquer um, fazia de Roma uma cidade de destino prestigioso, preparado e esperado pelas divindades tutelares. Em seus versos apareciam os exércitos e ordenava-se a procissão de embarcações sobre os mares de exploração e conquista.
Lucrécio parecia enigmático e sombrio como um doutor Fausto da antiguidade. Ele adotara a audácia grega prometéica, que desafia a divindade; jurava que a ciência dos homens chegaria a ultrapassar, um dia, os poderes do céu. E todas estas blasfêmias rudes e enregeladas camuflavam-se de repente numa descrição sutil da luz e dos corpos de dois amantes entregando-se à sombra das florestas...
O latim, graças a Virgílio, Lucrécio, Horácio (e a todos os poetas menores, de Propércio à Catulo) ia conseguindo tornar-se uma língua de poetas, como soube ser, perante a escola grega, uma língua de filosofia.
Não resta nada além de uma imensa tarefa que seria cumprida, na língua latina, pelos Padres da Igreja; para todos aqueles teólogos apologistas que queriam exprimir as verdades da nova fé (que abriam ao homem domínios então jamais explorados). E não é menos verdadeiro que a poesia da Igreja dava ao latim as belezas que ele ignorava.
Por isso não se deve deixar de falar e repetir que o latim é a língua da Igreja, pois ela o recebeu numa época em que ninguém além dela era capaz de enriquecê-lo e enobrecê-lo; pois, durante cerca de dez séculos, ela foi a única a infundir-lhe esta vitalidade, esta presença que o salvou de tornar-se objeto de museu ou múmia no fundo duma tumba.
* * *
O cristianismo traz à língua latina um cortejo incomparável de imagens do Oriente, enfeita a toga romana dum colorido que a Ásia ou a África já tinham experimentado, mas sem jamais lhe pôr o selo do sagrado. Só existem nos textos latinos cristãos inalterados estas palavras provindas da Galiléia e da Judéia, e que conduzem a imaginação: Jerusalém, Belém, Magdala, Sion,... Sabbaoth, Aleluia, Hosana... Só há no latim cristão — que se regozija da carinhosa reputação do Cântico dos Cânticos — o odor dos aromas e todas as suas alegrias, todas suas preciosas estrofes cintilantes no templo de Salomão ou no palácio de Herodes. Não existe senão na poesia latina cristã o cantar dos anjos e dos pastores em conjunto antes do repasto, com uma doçura que derrete o coração:

Adeste fideles, læti triumphantes...

Somente na poesia latina cristã há (sobretudo na poesia medieval) uma paz de alma mais inefável que a paz dos antigos sábios, pondo um bálsamo sobre todas as angustias e dores.
Contam que um rei da Inglaterra, uma noite, aos tempos da barbárie, mandou calar seus guerreiros, ao aproximar-se de um mosteiro, para prestar atenção à maravilhosa melodia do cantochão. Mas a musica não é somente portadora de suavidade, na poesia latina cristã. Mesmo não sendo seguida de melodia, nenhuma atenção humana pode escapar à impressão de paz, proclamada pelas singelas palavras das Completas:

In manus tuas, domine, commendo spiritum meum
(Em tuas mãos, Senhor, abandono minh'alma.)

Não insistiremos aqui sobre a contestável tradução de spiritus meus por “meu espírito”; pois todo latinista sabe que spiritus era o principio vital, animando o corpo do homem, e não a inteligência, que evoca o francês “esprit”. (“espírito”)
A palavra latina commendo, na oração das Completas, exprime, uma vez mais, numa maravilhosa contração, a noção de abandono completo, de total anulação perante a divindade, que as palavras francesas remettre (entregar, confiar) ou laisser (deixar, permitir) evocam imperfeitamente.
No século XIII, na Universidade de Paris, viveu um dos mais resplandecentes gênios da humanidade: Tomás de Aquino, que para seus companheiros e sob o hábito de São Domingos, era simplesmente o irmão Tomás.
Não tentemos explicar o que a língua cristã deve a este filosofo altíssimo, que ia construir em latim a Suma teológica e filosófica de sua religião. Lembremos que Tomás mostrava a aliança possível entre as mais audaciosas conquistas do pensamento grego e o dogma cristão e que iria, ao mesmo tempo, clarificar a mensagem de Aristóteles, desnudando-a de todas as sombras helenísticas, de todas as adições ou deformações judias ou árabes. Lembremos também que ele saberá dar à implacável e sutil discussão escolástica suas definitivas notas de nobreza.
Mas Tomás de Aquino, se não tivesse realizado este trabalho prometéico, só seria conhecido entre os filósofos e os clérigos. Ele aproximou-se de nós através de outros dons. Ele mesmo, na noite de uma de suas rudes jornadas de labor fatigante (devia morrer aos 49 anos, depois de construir um dos monumentos mais abrangentes e mais perfeitos do pensamento), viu sua alma mística se deter e meditou sobre o culto do Santo Sacramento, reforçado após o milagre de Bolsène (milagre de Lanziano), que motivou por todo canto os sentimentos da cristandade. E o poeta Tomás escreveu sua prece; e ela atravessará os séculos:

Adoro te devote, Latens deitas, Quæ sub his figuris, Vere latitas, Tibi se cor meum, Totum subjicit, Quia te contemplans, Totum déficit, ...

Jamais a expressão do dogma, nem a exatidão dos termos filosóficos, revestiram-se deste indumento de poder e adoração, de doçura e êxtase. Com este amor arrebatador, o cristianismo abriu o latim para o céu, como nada antes havia tentado.
Tomas de Aquino é também o autor da Lauda Sion, hino do oficio do Santo-Sacramento. Nele encontramos o mesmo rigor de definições e a mesma fé radiante, a mesma ternura enlevada:

Lauda sion, Salvatorem; Lauda ducem et pastorem, In Hymnis et canticis. Quantum otes, tantum aude, Quia major omni laude, Nec laudare sufficis...
* * *
Mas são nos inumeráveis hinos dedicados à Virgem que o latim cristão devia trazer à linguagem antiga a maior renovação. A antiguidade não deu jamais à mulher um lugar verdadeiramente destacado, senão em alguns poemas de Homero ou nalgumas lendas nórdicas e germânicas. Tudo isto evidentemente foi superado pelo culto cristão da Virgem, criatura a que a nova religião concedeu um singular privilégio de pureza, um papel dominador na história da humanidade. Também os hinos cristãos à Maria são inundados duma alegria e grandeza incomparáveis, duma piedade e súplica tais que o mundo ainda não assimilou.

Ave, Regina cælorum, Ave, Domina angelorum, Salve radix, Salve porta...
Ave maris Stella Dei Mater alma Atque semper virgo Felix cæli porta...

Regina cæli, lætare, alleluia! Quia quem meruisti portare, alleluia! Resurrexit sicut dixt, alleluia! Ora pro nobis Deum, alleluia! ...

Salve, Mater misericordiæ, Mater Dei et mater Veniæ, Mater spei et mater gratiæ, Mater plena sanctæ lætitiæ, O Maria!

Os versos cruzam-se e enrolam-se como os caracóis de incenso, os risos de alegria mesclam-se às lágrimas de dor contrita, a humanidade em êxtase contempla a ascensão de sua raça, o perdão concedido à Eva de outrora, em sua magnífica inocência:

Salve, Regina, Mater misericordiæ, Vita dulcedo et spes nostra, salve; Ad te clamamus, exsules filli Evæ, Ad te suspiramus, gementes et flentes, In hac lacrymarum Valle,

Eia ergo advocata nostra, Illos tuos misericordes óculos Ad nos converte.
Et Jesum benedictum Fructus ventri tui, Nobis post hoc exsilium, ostende. O clemens, o pia, o dulcis, Virgo Maria.
* * *
Mas a poesia latina cristã sem duvida se superou na poesia que a Idade Média termina por legar ao cético tempo moderno, como um de seus mais belos testemunhos. Queremos falar do Dies iræ. No tempo em que vivemos, devemos recordar isto que, há apenas alguns meses, não foi necessário afirmar (e com o que concordavam todos os homens sensíveis à beleza, independente da religião a que pertençam): possuímos aqui um dos mais belos poemas lançados às mãos de homens. A cristandade ameaçada lembra-se de suas esperanças e terrores, suas certezas e suas imaginações sacras.
O poema começa como um dobre, numa simplicidade plena de mistério:

Dies iræ, dies illa

Mas logo se apresentam as fulgurantes imagens da Bíblia: o universo que se dissolve em cinza e pó, os astros vacilando nos céus agitados.
Então, em duas palavras, o gênio latino deposita aqui a rubrica das crenças da Antiguidade e da Bíblia:

Teste David cum Sybilla

Nesta prodigiosa abreviação (como nós admiramo-la, na língua latina) encontram-se presentes a antiguidade pagã e os profetas messiânicos:

“Ao testemunho de David e da Sibila...”.

Nas estrofes de impressionante profundidade, as desinências latinas possuem um irromper de trompete, a emoção alçada em sua tensão máxima...

Tuba mirum spargens sonum

Que imagem e que poder sintético! Como tentar, não importa em qual língua, exprimir, em quatro palavras, tantos objetos e tanto movimento, tamanho drama e poesia austera?

Tuba mirum spargens sonum, Per sepulchra regionum, Coget omnes ante thronum;
Mors stupebit ei natura, Cum resurget creatura, Judicanti responsura.

quando repentinamente, depois das ameaças do Antigo Testamento, aproxima-se a doçura do Evangelho e de sua misericórdia:

“Tu que perdoaste à Maria Madalena e atendeu ao bom Ladrão...” Qui Mariam absolvisti.

Sempre esta construção latina, tão bela, tão singela: Qui — Mariam — absolvisti.
Diante do verbo, estão paradas as duas personagens, como numa manhã de Páscoa, quando eles descobrem-se num jardim: o Deus da ressurreição e a mulher de cabelos embaraçados, carregando seus vasos de perfume, prostrando-se subjugada.
O resto do poema é oração e súplica, mas a paz de uma alma redimida estende-se através da lenta sucessão das palavras:

Salva me, fons pietatis
...
Recordade, Jesu pie
quod sum causa tuæ viæ
Ne me perdas illa die.

Quœrens me sedisti lassus
Redenisti crucem passus
Tantus labor non sit cassus.


A Igreja cristã resumiu, neste hino, a contribuição da poesia e o progresso do pensamento, o engrandecimento sentimental e a nova busca do invisível, o selo do amor e a inefável pacificação, que seu dogma traz à Roma antiga.
Deus e César acham-se sempre recordados, sob o signo da Cruz


II


A propagação do latim é um dos mais importantes fatos da história.
Dom CABROL

Como se realizava, no império de Roma, o prodigioso espraiamento da língua latina? Parece que se realizava juntamente com o exército romano. O exército era, para este agrupamento de povos díspares do Oriente e Ocidente, não somente um instrumento de defesa, mas também de coesão.
Ainda que fosse Roma liberal quanto à expressão, aos costumes, as religiões de seus súditos, o latim era língua obrigatória do exército: todas as ordens eram dadas em latim, o legionário tinha que compreende-las e seus auxiliares bárbaros igualmente. Ora, o serviço militar podia durar até vinte anos.
Nas inumeráveis guarnições do império, sobre o Reno ou o Eufrates, na África como na ilha da Bretanha, o soldado romano oferecia ao nativo, não apenas a proteção sob a espada, mas o dom de seu idioma. Sob o céu cinzento do Reno, nos montes de Castela, a bela linguagem da majestade inscrevia-se sobre pedras desconhecidas, em fórmulas breves cuja força agredia como a acutilada dum punhal.
Portanto, é evidente que esta propagação universal do latim, por assim dizer, a jato, era ao mesmo tempo uma causa de corrupção. Mas fora preservado pela influência dos oficiais romanos, pertencendo quase todos à nobreza, e que traziam periodicamente de Roma, para suas longínquas guarnições, os ecos do bem-falar, a perfeição do saber dos escritos literários ou filosóficos. Os administradores e os juizes do império contribuíam para esta salvaguarda.
Mas, sobretudo, a partir do século I, Roma cobre seu império de escolas (particularmente no Ocidente, especialmente na Gália. Podemos dizer que jamais o ensino será tão difundido na França, como fora durante os três séculos do apogeu do império: o ensino alcançando todas as classes da população).

* * *

César e Augusto nunca desejaram impor o latim a nenhum povo: tinham a língua de Roma na mais alta conta que ela então jamais teve, antes da chegada do cristianismo; eles contavam com as qualidades intrínsecas do latim, sua nobreza e seu poder, para triunfar.
Suas esperanças não foram abnubiladas. As populações possuíam gosto em falar latim. “Em todo o império, escreverá o historiador belga Franz Cumont, as gentes que recebiam alguma instrução reconheciam-se neste gosto e respondiam por bela linguagem: eram letrados, eram Romanos, quando sabiam compreender e sentir seus esforços pela elegância, suas sutilezas de expressão, seus giros engenhosos que obedeciam às arengas dos retores. O prazer arrepiante que sentiam ao serem escutados aumentava este sentimento que indicava, ao admirarem-lhes, que pertenciam ao mundo civilizado”.
Faz-se necessário entender que, para Gália lutar contra o poder dos Druidas (cujo ensinamento era fortemente impregnado por influências mediterrâneas e helenísticas), Roma trazia um ensinamento no qual o gênio grego estava assimilado, ordenado, pelo gênio romano. (A Igreja resgatará esta tradição nas suas escolas). No século II, em certas partes do império, falamos um latim mais puro que na própria Roma...
A partir do século III, a diferença torna-se cada vez maior, mais marcante, entre a língua culta de Roma e sua fala popular. A língua culta defender-se-á, velará sua perfeição, sua pureza. Os cultos e os professores devem lutar contra a barbárie... Ora, os gramáticos e retores romanos sabem o grego quase tanto quanto o latim. Os Padres da Igreja os imitarão por longo tempo. (Recordemos sempre que não havia, desde o dia da conquista da Grécia, ruptura, em Roma, entre o helenismo, em sua perfeição clássica, e o gênio romano; as duas perfeições estavam fundidas para então originar o humanismo). Os Padres da Igreja, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Hilário, buscarão sempre o alento de seus pensamentos nesta via. Para a reza ou o catecismo, falam algumas vezes em língua vulgar; para seus escritos, utilizam a língua culta. Para o culto também.
Quando as invasões bárbaras se deflagram sobre o Ocidente, os gramáticos e retores de Roma emigram em grande número para a Irlanda; e pelo fato da ilha da Bretanha conservar uma tradição intelectual tão pura quanto lhe é permitida, nos tempos de Carlos Magno, ela virá a comunicar ao Ocidente a cultura greco-romana, momentaneamente obscurecida e corrompida.

Um comentário:

CAELIUS FONTOURA disse...

Além de muitíssimo instrutivo, seu texto é permeado pela poesia que falta aos escritos modernos.

Parabéns! e obrigado por partilhar seu saber com o mundo.