terça-feira, agosto 09, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal II

Capitulo Dois
ROMA EM FACE ÀS CIVILIZAÇÕES DE SEU IMPÉRIO:
A GRÉCIA E OS BÁRBAROS


...Não cesso de recordar-me que tens diante os olhos uma terra a que nós demos as leis, não pela força como a derrotados, mas porque nos pediram.
PLINIO O MOÇO
(a um de seus amigos ao partir para a Grécia)

Oitocentos anos de alegria e sabedoria política cimentaram nosso edifício: isso não será posto a baixo, sem carregar, em sua ruína, aquele mesmo que lhe quis arruinar.
O romano CERIALIS aos gauleses
(século I)

Ao fim do século X de sua história o pequeno burgo italiano, onde Rômulo e Remo alimentaram-se de forma selvagem do leite da Loba, tornou-se a senhora do mundo. Entre mares de névoa e de sol, espraiou seu gênio rústico e soube ser a protetora das cidades. Por sua vez, enchia as várias cidades de glória e riqueza: dava-lhes a proteção de suas legiões, a solidez de seu governo e de seu Direito. Assim, não reconhecia apenas os burgos ou os campos de pilhagem: instalava então as repartições e construía o fórum. (Sou romano: animal que constrói as cidades e os Estados... não destruidor errante como hordas e sobrevivente dos vestígios de ruína que criou... ”).

* * *

Campanha vitoriosa contra Cartago; é primeira vez que dominam estes portais de tráfego e vida sensual, que os Fenícios semearam por todo o Mediterrâneo. “Aníbal, e mais tarde Cleópatra, inspiraram nos romanos um rancor particular, escreveu um dos mais perspicazes historiadores romanos, um temor estranho, o temor de qualquer coisa que o Ocidente desconhecia”.

Para os guerreiros rurais que os romanos eram ao século III a.C., Cartago era a cidade do comércio e do ouro,; Cartago era a cidade dos cultos de terror e de mistério, onde os ídolos abriam a bocas nas crateras em chamas, tal como Moloch, ao qual lançavam como alimento crianças vivas. Havia no nome desta cidade, e atrás dele, toda a África das terras ignotas, dos terrificantes desertos, da animalidade e da magia ligada a terra (melhor, aos poderes que pulsavam sob a terra)... Os romanos, como Cipião o Africano, sentiam a vertigem de uma tal conquista com orgulho; mas os velhos senadores viam-na sobretudo como ameaça de futuros contágios...

Mormente a expansão de Roma orienta-se à África do Norte, esta torna-se tão próxima e semelhante àquela, aparentemente, com seus pequenos burgos de muros vermelhos sobre aos quais cresciam as palmeiras. (O cristianismo romano cumprirá a mesma rota: sua primeira colônia, herança dos bispos, será a da África do Norte).

* * *

Mas Roma encaminha-se rápido ao que devia ser a sua mais importante conquista: a Grécia. Sabemos hoje que este acontecimento inicia-se antes do que nos indica a data mesma das vitórias militares de Roma na Acádia; começara pela chegada à Roma dos intelectuais gregos, vendidos como escravos nas prisões de Taranto, em 272 a.C., vindos para enriquecer o início da literatura latina, tornando-se, deste modo, os mestres-escolas por excelência dos pequenos aristocratas romanos.

Não obstante, nada supera a força do aforismo de Horácio a respeito dos gregos derrotados em 46 a.C., dominando finalmente sua acrimônia vencedora.

“Græcia capta, gerum victorem cepit”.

Apesar de tudo escrito e mesmo esmiuçado há séculos a propósito destes acontecimentos, não devemos temer atermo-nos especialmente a um ponto capital, para destacar um fato que há muito esquecemos. Roma tão bem compreendeu a importância da civilização grega, tão bem provou o que ela apresentava por meio das descobertas dos etruscos ou das cidades da Itália do sul; tão bem reconheceu o que ofereciam, não tal ou qual contribuição nacional, mas o mais alto esforço filosófico da humanidade, com uma linguagem precisa em seu ânimo de pensamento (não falo de influência artística, porque me parece que Roma era pouco sensível a ela; ao menos não a admirava mais do que a do Egito ou a do Oriente); Roma iniciou, a partir deste momento, uma busca intelectual guiada por Atenas, e já não podemos separar daí em diante as duas civilizações no que elas têm de mais precioso.

Queria insistir doravante neste ponto: durante séculos e séculos, é através de Roma que o mundo descobrirá a Grécia (a Grécia clássica), pois conquistara de uma vez por todas o que Atenas descobrira de melhor. Gonzaga de Reynold pôde escrever que “Roma dissociou os helenismos dos Helenos”; e ainda, já que a Grécia contaminar-se-ia cada vez mais em civilizações do Oriente desde as conquistas de Alexandre, foi para Roma que a [filosofia] clássica de Aristóteles, de Péricles e de Fídias migrou: o que Atenas tinha de mais sublime passou a Roma, recebendo o selo definitivo da universalidade; é por esta maravilhosa junção que Roma formulará o termo HUMANITAS. Não é apenas um fenômeno que interesse às duas nações, mas um momento supremo do mundo civilizado. A Igreja Ocidental, desde cedo, agarrará, para estabelecer-se sobre a terra, este presente imperecível; a Igreja do Ocidente carregará o que a humanidade descobrira antes de Cristo, em uma síntese greco-romana.

Paremos por aqui, por dois motivos: primeiramente, devido à importância do fenômeno que se esboça, mas também porque, a partir de agora temos uma chave que permite explicitar muitos aspectos da Idade Média, da Renascença ou da época contemporânea. Quase todos os erros ou vícios cometidos a respeito de Roma ou da Grécia vêm daqueles que esqueceram o fato histórico que acabamos de descrever: a absorção do gênio helênico por Roma e sua fusão; em certas épocas, desejávamos ressuscitar o gênio grego ou gênio romano em um de seus aspectos particularistas, em vez de querer encontrar neles o que significava a civilização tout court, um dos raros momentos de realização perfeita na história dos homens. (Apontamos, pois, por exemplo, a ressurreição medieval do Direito Romano na Universidade de Bolonha e de Pádua e a renascença do helenismo científico – tornado bizantino – nas cidades italianas do século XV.)

Roma conquistou a Grécia entre os séculos III e II a.C., almentando-se rapidamente das descobertas de seus filósofos, cientistas, literatos e artistas. É esta escola que despertará de forma definitiva o gênio romano, pela qual o período clássico romano florescerá. É esta mensagem, tornada própria e calcada em seu gênio que Roma levará um dia por todo o Ocidente, antes de deixá-la nas mãos da Igreja.

* * *

Mas a Grécia, durante esse tempo, orientalizou-se cada vez mais. Guiada por Alexandre, lançou-se ao Egito, inclinando-se ante o culto do sol e da arte do silencio e imobilismo, e ante a Pérsia (Alexandre sonhava em unir-se a Pérsia, para melhor dominar os outros povos, considerados simplesmente como bárbaros); na Índia, entrincheirou-se no ocultismo vegetal e em contrários mais e mais distantes, onde o sorriso de Apolo posava sobre os lábios enigmáticos de Buda. Eis, portanto, onde está a nova Grécia, até aos últimos séculos da Idade Média; eis a nova Grécia, sua fama e seus perigos.

Hoje em dia, sabemos, graças ao progresso da erudição, sobre que base apoiavam-se as descobertas científicas e riquezas deste gigantesco império mediterrâneo: descobrira o petróleo, o ferro, o bronze, triunfava em suas industrias químicas e na arte da tinturaria, da cerâmica, da vidraria. Superava-se ao compor os perfumes que ataviavam os reinos e cortesãos, e os ungüentos que acalmavam a fatiga e a dor. Fabricava o papiro do Egito com arte admirável, dominava a construção naval e a forja de armas. (Foi em um navio da época helenística que foi esculpida a “Vitória da Samotrácia”, hoje no Museu do Louvre). Religavam por canais os rios e os mares, conheciam sistemas de aquecimento de casas e banhos públicos.

Grandes cidades como Alexandria ou Babilônia, com suas casas brancas sob um céu de opressora claridade; palácios onde se erigem esculturas de tormentos (Laocoonte) ou de volúpia complexas e inquietantes, como certos Apolos ou Vênus recolhidas nos museus; populacho em algazarra ou então tragado pelo sono (após o meio dia, as cidades mediterrâneas sentem a óleo quente e suor, antes da brisa do mar conduzir o olor dos loureiros e jasmins); que importa se o conquistador semidivino cria impor-lhes eternamente a ordem do Partenon? O que mais interessa, para além de suas paixões e prazeres, é a busca insaciável e duvidosa do Oriente, a vertigem dos conhecimentos recusando todos os limites, a confusão de um saber que muito a custo libera-se de um torpor vegetal (ou das volúpias tentadoras da carne), para captar as definições do verdadeiro. O que conta assim, nas cidades do Oriente, é a adesão das massas, não a convicção da aristocracia da vida e do pensamento, dos quais Atenas fizera os seus educados, seus cidadãos...

É por isso que os Ocidentais correrão mais perigo (quer sejam laicos ou da Igreja), ao buscar a Grécia e seu gênio, NOS PRÓPRIOS LIMITES GEOGRÁFICOS DA GRÉCIA OU DO IMPERIO DE ALEXANDRE.

O imperador Constantino fracassará, quando creu fundar uma nova Roma em Bizâncio, sobre a efígie da terra e do mar onde a antiga Grécia juntava-se estreitamente ao Oriente. Constantinopla, a cidade de Constantino, exaltará tão-somente o Oriente.

Juliano o Apóstata, apesar de sua piedade com Atenas, só conseguirá redescobrir um neoplatonismo judaizante para lutar contra o cristianismo vitorioso do “Galileu”.

E a história da Idade Média nos mostrará outros fracassos...

Sim, é bom para Roma, e é bom só para Roma, que hoje a Grécia antiga sobreviva e sobrevive. A língua latina já trazia consigo uma nobreza, naquele instante em que Igreja a escolhia para elevar sua prece ao céu. Depois, torna-se não somente a língua dos vários povos: traz consigo o selo da razão de Palas Atenas.
Quando Santo Agostinho, romano da África, ou quando os Padres da Igreja medieval, queriam levar ao mundo bárbaro as recordações da civilização antiga, serviram-se da linguagem de Roma, como antes Cícero ou Lucrécio, para invocar as grandes mensagens gregas: a idéia de que a educação vale tanto quanto o sangue, por aristocratizar um ser humano; a idéia de que a cidade não deve dominar toda nossa alma, mas fornecer-nos a melhor condição para o desabrochamento da pessoa humana; a idéia de que a divindade merece somente a nossa genuflexão (e não os poderes civis); a idéia de que devemos reproduzir em nós a harmonia superior esperada pelo Autor da criação, sobretudo no sentido crítico, na claridade de espírito, no gosto da definição e do julgamento justos, onde estavam as mais belas contribuições gregas e que, na língua de Roma, deram origem ao rigor dos dogmas, encerrados nas formulas lapidares; confusão dos heréticos, triunfo da fé.

O pensamento grego, enfim, no auge de sua busca intelectual, descobrira o Logos (principio absoluto da unidade e da perfeição), mas o apóstolo João identificava este Logos com o Filho de Deus, encarnado cá embaixo segundo as profecias dos Profetas. E na língua de Roma, esta fusão tornava-se a apoteose do Verbo (há pouco, era ainda este o texto duplamente sublime que recitávamos, o ultimo evangelho da missa, na Igreja Católica Romana...).

Através da Roma cristã, as mais altas conquistas da Grécia e de Roma antigas achavam-se entrelaçadas; e do Oriente só restava um mistério inundado de luz. In principio erat Verbum, Verbum erat apud Deum...

* * *

Mas retornemos ao império grego, ou melhor, helenístico, do século III antes de Jesus Cristo.

Naqueles domínios imensos, sempre achamos fusão de idéias gregas com as escolas orientais. Bem antes do nascimento de Cristo, já havia existido uma impregnação de judaísmo no helenismo: ela servirá de prefácio ao reencontro de gregos e cristãos.
É muito perigoso falar da igreja grega original, sem fazer esclarecer todos os aspectos da história. Muitos cristãos enganaram-se (e também os homens da Renascença e da Reforma do século XVI que acreditarão destruir Roma clamando a vitória da cultura helena: a primeira língua da Igreja foi a língua grega, e assim durante três séculos!).

Isto, contudo, é certo: tratava-se apenas de uma língua de um império oriental. Durante Alexandre, quando se estabelecia a primeira grande escola de filosofia do cristianismo, o grego rapidamente se associará às escolas judias e gnósticas, e sabemos quanto um dos mais célebres padres da Igreja grega, Clemente de Alexandria, aconselhava a se valerem destas com prudência. Da mesma forma, o genial Orígenes, o egípcio de dois mil manuscritos consagrados à apologia do cristianismo, em face às investidas dos últimos filósofos pagãos, mantinha-se, por várias vezes, no limite de um controvertido neoplatonismo, deixando imensa lacuna para as interpretações individuais da Escritura. Como os maiores doutores da Igreja desconfiaram dele!

* * *

A língua desta Igreja grega primitiva é propriamente oriental. Bossuet demonstrava-o perfeitamente ao Delfim, filho de Luis XIV, ao explicar como os Livros do Antigo e do Novo Testamento chegaram até nós. Abria, por assim dizer, sob as vistas, o velho Pentateuco em que o hebreu já se misturava com a língua de Babilônia e que São Jerônimo conhecerá antes de compor a tradução latina. Mas, sobretudo, o santo destacava que os primeiros tradutores cristãos, que chamamos abusivamente de gregos, começaram seu trabalho de transcrição dos Santos Livros no Egito alexandrino, contaminado, àquela época, pelas diversas correntes do pensamento oriental.

“Serviam-se eles, diz o bispo de Meaux, de um grego mesclado de hebraísmos, que chamamos língua helenística” (e na qual a Bíblia Septante e todo o Novo Testamento foram escritos antes que São Jerônimo desse a ela sua magnífica forma latina).

A Igreja primitiva, chamada geralmente igreja grega, não existe[1]. Havia uma igreja da época helenística, então disseminada por todo Oriente.

Vir acusar o latim, que a Igreja adotará mais tarde, de ter deformado uma pretensa pureza primitiva melhor conservada em grego, é ignorar a verdade histórica. Roma possuía méritos maiores que a Grécia de Alexandre para se julgar a senhora do mundo no momento do nascimento do cristianismo. Ela possuía a vantagem incontestável, neste momento, de uma linguagem mais rigorosa, mais estruturada e próxima do gênio grego em seu aspecto clássico e universal, do que o helenismo orientalizado poderia ter.

Dizemos que depois da Ascensão de Cristo, a grande data do nascimento da Igreja é a famosa discussão entre Pedro e Paulo, a propósito da oportunidade de reservar a Boa Nova somente aos Judeus ou de pregá-la para todos os povos da terra. Acertado este ponto, o cristianismo vem ao encontro de Roma e somente ela, pois Roma era a dona do mundo conhecido.

Não vemos porque os cristãos deveriam sentir-se separados de suas origens, ao proclamarem-se romanos.

Mas vemos ao contrário quais são os riscos que encontram quando querem intitular-se unicamente como “gregos” (cada vez que assim o desejavam, ou voltavam-se para Israel – assinalaremos como, durante o século XVI – ou para um sincretismo oriental – para com os árabes, no século XIII).

Donde retomarmos nossa fórmula: a partir do século I, é para Roma e somente para ela que deve obrigatoriamente passar a busca do verdadeiro helenismo clássico. Só há uma civilização ocidental e esta civilização é a greco-romana[2].

Um outro exemplo acachapante apresenta-se quando consideramos, vários séculos mais tarde, a atividade intelectual florescente no Oriente Médio, graças ao revigoramento do poder romano em sua terra – grosso modo, do século IV até ao VIII.

É certo, por exemplo, que à difusão da religião cristã na Mesopotâmia e na Síria segue-se um florescimento dos monastérios e escolas (como a de Edessa), onde ensinavam Aristóteles, Hipócrates e Galeno. Quando fecharam a escola de Edessa, os professores mudaram-se para a Pérsia; e é com estes doutores cristãos que as escolas persas e sírias, que conheciam tão bem Aristóteles como Ptolomeu, Euclides e Arquimedes, que os árabes de Mafamede – os califas eram curiosos e refinados – viriam instruir-se como civilização. Quando um dia o mundo árabe expuser um esplendor comparável ao do mundo helenístico de outrora, será por intermédio dos monastérios e das escolas do Oriente Médio.

Percebamos, contudo, que Roma e sua ordem permitiam este novo desabrochar.

Percebamos assim que esses monastérios não podiam sempre se guardar dos erros orientais que afloravam no helenismo. Será necessário o gênio romano de um Santo Tomás de Aquino para reconstruir a síntese da religião cristã, liberando o pensamento de Aristóteles da ganga que as escolas do mundo sírio, árabe e judeu ali depositaram.

* * *

De qualquer modo, a Roma de César e de Augusto não foi salva das tentações orientais por suas tradições superiores. Ela foi salva pela conquista da Gália.

Os melhores historiadores sustentam que a Gália equilibrou as conquistas de Roma, e restaurou-lhe, diante das tentações orientais e seu abismo, sua estabilidade e fundações Ocidentais, oferecendo-lhe um território excepcionalmente rico e fértil à sua porta[3]; levando a ela uma população agrícola, guerreira, mas igualmente apaixonada pelas escolas de retórica e Direito; anexando a ela um território onde puderam multiplicar-se os caminhos, favoráveis às trocas do comércio ou de idéias; dando-lhe soldados cujo ímpeto rapidamente aceitara a disciplina das legiões; a Gália fixou novamente Roma no Ocidente; mais exatamente, recordou-lhe de seu papel de centro do Oriente e do Ocidente.

Roma, além disso, encontrou na Gália um povo cujos defeitos e qualidades imitavam os seus: “Os gauleses, diz Catão o Antigo, buscam sobretudo a arte da guerra e a dos belos discursos”. E César, antes de vencer, acrescenta: “é uma raça de um extremo denodo e muito apta a seguir e reproduzir tudo o que é-lhes ensinado por qualquer um”.

Apesar de a Gália, por um encadeamento lógico de circunstancias, ter sido rapidamente assimilada, obrigou Roma a assegurar suas conquistas européias. A dificuldade de submeter as tribos da Gália belga conduzirá César até a Bretanha (futura Inglaterra); a necessidade de proteger sua nova província contra as incursões da Germânia levará a invasão à região do Reno. A Espanha, ocupada desde há muito (por causa dos misteres africanos na luta contra Cartago), achará, na conquista da Gália, um reforço à romanização.

A Grécia fixou o destino intelectual de Roma, mas a Gália fixa seu destino político. Roma não será apenas a sucessora do império greco-oriental de Alexandria, mas o reino do Oriente e do Ocidente.

* * *

Assim, quando o imperador Constantino dá ao cristianismo o direito à cidade em seu império – e já bem antes a Igreja adotara a língua de Roma –, este verdadeiramente recebe os dons de um império universal. Se os gregos sonhavam com uma autoridade para todos os homens e forjaram a palavra Ecumenismo, é Roma que realizará este sonho, servindo-se de uma palavra grega latinizada: Católico.

O poeta Charles Péguy, naquelas estrofes admiráveis de seu poema Eva, evocou o prestigioso império, no momento em que este encontrava-se abraçado com todas as civilizações:

Les Romains préposés à la garde du monde
Etaient Assis em rond devant les triple portes,
Et l´univers était une immense rotonde
Sous le gouvernement de deux mille cohortes.

Et ces peuples crevés, ces acres mercenaires,
Se payaient d´or, d´argent, de crime et d´ordure,
Mais ces peuple sevrés, les grand legionnaires,
Se payaient d´avoir fait une magistrature.

Et ces peuple brûlés, et tous es marchants d´hommes,
Se payaient d´avoir fait um monde mercenaire,
Mais les peuple civils et les hommes de Rome
Se payaient d´avoir fait um monde centenaire.

A maioria dos Padres da Igreja, e toda a Idade Média, verão neste império um sucesso único, o prefácio providencial da rápida expansão do cristianismo. Um deles escrevia ao fim do século II d.C.: “Deus, desejando que as nações estivessem dispostas a receber a doutrina do Cristo, em sua Providencia os submeteu ao imperador único do romanos... uma multiplicidade de impérios seria um obstáculo à difusão da doutrina de Jesus em todo o universo.”

Roma não é mais, de fato, desde esta época, uma cidade italiana, nem mesmo uma cidade mediterrânea; o que apreendeu da Grécia, do Oriente, da África, reúne agora com o que lhes murmurou os celtas e os germânicos.

Roma cria em centenas de deuses, mas os celtas criam em um deus único (entendemos, por este simples fato, o sucesso tão rápido da pregação de São Paulo aos Gálatas da Ásia Menor). Os germânicos possuíam o culto dos heróis, o sentido do sofrimento e do sacrifício que faltavam aos greco-romanos; por isso admitiram um mistério como o da Redenção, que tinha feito o areópago de Atenas sorrir e indignar-se.

* * *

Mas os romanos e os celtas tinham em comum uma devoção: a que se dirigia a um clero sapiente e poderoso.

E eis que, entre os gauleses, no momento em que o assalto dos bárbaros e a decadência total do mundo pagão antigo fazem ruir aparentemente o Império, acha-se já designada a força, a administração e os homens que vão ter nas mãos, durante séculos, o Ocidente.

Roma implantou uma administração de uma solidez singular. Quando a sociedade dissolve-se, o clero, que a devoção céltica aos druidas já aureolavam de prestígio, só terá de adaptar a estrutura de ordem romana, para restabeler os sustentáculos da civilização. Francos, burgundos, visigodos, ostrogodos e hunos puderam alastrar-se sobre o Ocidente. Os bispos cristãos, percebendo que não podiam pregar uma religião à extinção de toda uma sociedade, compreendem rapidamente o que acontecia com o império. Da África de Santo Agostinho à Renânia; da Bretanha encerrada em sua ilha à Gália de Santo Hilário de Poitiers, agüentaram e sustentaram em suas próprias mãos os muros tombadiços de Roma, já que aí acharam o único baluarte que lhes permitia não desaparecer. Suas dioceses continuavam inabaláveis, como as da administração de outrora. “Sou romano, notará um dia um grande escritor Ocidental, pois Roma, a Roma dos padres e dos Papas, deu a solidez eterna dos sentimentos, da língua, do culto, à obra política dos administradores e dos juizes romanos”.

Renan – de inteligência luminosa, quando se não deixava dominar pelos erros do século – soube analisar mui justamente o estado de espírito dos grandes bispos dos primeiros séculos: “Basicamente, disse, a Igreja experimentava uma necessidade do braço secular. À medida que ela se organizava, sentia a necessidade católica da unidade; compreendia a impossibilidade de triunfar das dissidências, sem a ajuda da força”. Aconteceu, é claro, criado este estado de coisas, abusos e excessos,; mas nisso cabe uma observação justa e mui romana: o reconhecimento da necessidade de ordem em toda a sociedade humana”[4].

* * *

E o que os bispos realizam, o orbe dos monges os imita: os ermitões e os penitentes à moda estritamente oriental não se instalarão por muito tempo, no Ocidente.

Eis que no momento em que se fechava, no séc. VI, a Universidade de Atenas, encerrava-se também o último templo pagão da Itália, dedicado ao deus grego Apolo. Este templo erigia-se sobre Monte Cassino.

Um jovem monge de gênio, de nome Bento, dedicou-o a São Martinho, anexando-o ao convento que viria a fundar logo após.

Toda a história da Europa pode parar e silenciar por aqui um instante: se quiséssemos suprimir o passado, seria preciso aniquilar os únicos refúgios da civilização, durante vários séculos, de nossos anais. O monge Bento estabelece uma regra de vida para seus companheiros, e não apenas adapta os ditames do cenobitismo oriental, mas batiza o gênio de Roma em sua ordem, enquanto ciência equilibrada do homem, logo conseguindo uma das mais belas fusões da mensagem evangélica com a paz das cidades terrestres.

Isso vai permitir que o nome beneditino qualifique, até o fim do século XVI, à exceção de breves eclipses, o refugio do pensamento e do labor, o culto das artes e da devoção às letras; fará que estes monastérios tornem-se, não apenas o leira dos homens da Igreja, mas dos conselheiros dos reis, imperadores e promotores das Cruzadas; permitirá que seus estabelecimentos impeçam os bárbaros, batizados, mas sempre ferozes, de esquecer a mensagem greco-romana. Além do mais, a oração Oriental adota, para ascender a Deus, a concisão e o equilíbrio que o Oriente não possuía mais.

* * *

Ao mesmo tempo, na outra extremidade do Mediterrâneo, surgirá Bizâncio, com seus filósofos sutis e perigosos, com seus médicos e engenheiros, com o esplendor dourado de seus palácios e basílicas; Bizâncio, refinada mas pérfida, iniciatriz das ciência do bem e do mal; o Ocidente, sempre arruinado e destroçado por guerras, em longos eclipses bárbaros, não perderá, graças a seus bispos e monges, nem o Evangelho do Cristo, nem a recordação da tutela greco-romana.

E quando um dia este Ocidente tiver com toda força e gênio para cobrir seu solo de catedrais e inventar a cavalaria, reformar o conceito de realeza e reformular a justiça, descobriremos que sua Igreja não se deixara perder a lição de Roma, cimento único das sociedades.

[1] Não devemos esquecer que os Evangelistas eram Israelitas que, segundo a palavra de um historiador “pensavam em aramaico e redigiam em grego”, quer dizer em uma outra língua. (Podemos ver inúmeros matizes, de quanto o gênio semítico influenciou o grego).
[2] Monsenhor Battifol publicou extensos volumes para nos lembrar o que a primitiva Igreja oriental nos trouxe de ensinamento, do culto, da liturgia.
Da mesma forma Monsenhor Duchesne, em sua Histoire ancienne de l´Eglise, evoca todos os testemunhos, profecias, homilias desta Igreja (que seria um dia, dirigida pelo Direito cristão do Oriente e do Ocidente). Ora, ele indicava que todas estas obras, de língua grega sem dúvida, não tinham nada de grego em pensamento nem em forma de expressão. É ora uma mensagem hebraica pura, ora um apanhado de livros orientais. E os primeiros grandes apologistas que traduzirão a sobrecitada mensagem, e assim para os homens do Oriente e Ocidente, serão os Padres da Igreja dos séculos III e IV, quer dizer, homens que habitam o Império de Roma, eles e seus pais, desde há vários séculos.
[3] Há muito tempo conhecemos o papel de Lyon no que tange aos caminhos de Roma, e de como esta cidade deveria tornar-se a capital dos gauleses – torna-se o centro da prelazia da Gália cristã.
[4] A responsabilidade que tentamos imputar, em nossa época de primário, “à era constantina”, demonstra somente a ignorância histórica de nossos contemporâneos e da puerilidade daqueles que não sabem distinguir o simples abuso dos princípios. Enquanto a Igreja estiver sobre a terra, haverá sempre uma era constantina: chame-se Constantino o cavaleiro feudal ou Clóvis, o imperador do Sacro-Império ou o rei da França Toda-Cristã.

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