quinta-feira, agosto 25, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal III

Este capítulo foi revisado pelo Alexandre e publicado originalmente no saite Revista Permanência. Eu retirei todas as notas de rodapé, que podem ser lidas no saite da sobrecitada revista.
Luiz de Carvalho


A LINGUA LATINA

Devemos estimar a língua latina... Devemos crer nela, como os primeiros cristãos criam que o Império Romano duraria até o fim do mundo.
Jean BELOT, Jurista parisiense, 1637

Tivemos de reescrever uma breve história de Roma antes de falar sobre a língua de Roma, pois somente os anais extraordinários deste império explicam as múltiplas qualidades de sua linguagem.
* * *
Recordemos antes de tudo que o romano era um camponês, um ser positivo e prático, que mais se seduzia pelas imagens sensíveis do universo que pela abstração das especulações do espírito.
Por conta disso, se destacava o romano ao forjar termos realistas, imagens impressionistas, como objetos no campo num dia de sol. Donde a primeira característica da língua latina: seu realismo, sua solidez.
Vejamos um exemplo dentre milhares possíveis.
Quando os Romanos anexaram a Gália, os administradores do primeiro século a dividiram em duas partes: uma parte ainda bárbara, aonde César vinha finalizar a conquista; e Provence, esta província há vários decênios romana e impregnada de influências mediterrâneas há séculos. Como os administradores e geógrafos latinos exprimiam as diferenças entre civilizações? Em dois termos realistas, surpreendentes. Para a Gália bárbara, escreviam Gallia comata, a Gália cabeluda (e eis diante nós os homens loiros-arruivados nos seus pequenos burgos e florestas); e para Provence, diziam Gallia togata, a Gália togada (surgindo como um raio, as cidades com inúmeras arenas e templos, e os cidadãos vestidos em seus roupões brancos com faixas púrpuras).
Quando a Igreja adotar esta língua, ela encontrará, animada por um longo passado, as palavras rudes e justas dos tratados de agricultura escritos por Varrão e Columela (os romanos deixaram-nos uma série de textos sobre os trabalhos do operário ou do artesão). Ela ali aprenderá a nomear a criação com termos que pareciam ter sido pouco tempo antes escritos pela mão de Deus, ao Primeiro Dia. Olea, por exemplo, que não é huile, termo abstrato e generalizante, mas mais exatamente o produto da oliveira; vinum é o sumo da vinha; empregando palavras tão próximas de sua origem primitiva, a Igreja reencontrará esta qualidade que a Escolástica medieval chamará um dia: adequatio rei et intelelctus, a adaptação exata da idéia a seu objeto.
É também do vocabulário camponês-citadino que a Igreja obterá esta poesia rústica, que resplende nos ofícios das festas das Rogações ou no oficio dos Sábados Santos: esta água (aqua) que não era lançada somente das fontes, mas que Roma soube conduzir sobre os arcos de pedra até aos confins do mundo conhecido; este fogo, que não era somente a fagulha extraída do atrito das rochas, mas a palavra que designa o primeiro lar humano (pois, em latim, focus significa tanto fogo quando local) fornecia à Igreja toda uma definição do universo visível, que punha à mão dos homens aquilo que a Bíblia oriental deixava no mistério cruciante da natureza.

Cælum dedit pluviam, o céu dá a chuva.
Terra dedit fructum suum, a terra fornece seus frutos,
diz o oficio das Rogações.

Quão pacato e familiar é, como um dia de colheita num campo virgiliano. É bem o Deus dos Evangelhos que vem assegurar a humanidade, aterrada outrora pela dura Justiça de Jeová ou das fatalidades cegas do Panteão antigo.
* * *
Esta predileção pelo concreto, pela simplicidade chã, ajudará prodigiosamente os Padres da Igreja, quando eles quiserem se servir do latim para a definição do dogma. O hebraico sobressai-se nos desdobramentos poéticos amados pelo Oriente; era incomparável nas evocações sobrenaturais dos Profetas; o grego fornecia aos homens os termos da clareza e da agudeza, da profundidade e da luz única para os desdobramentos da razão, da discussão das idéias. Mas só o latim oferecia seu gênio de poder e equilíbrio que fazia ressoar as afirmações da fé num domo de basílica ou entre os colonos, celebrando a vitória dos exércitos.

Resurrexit, sicut dixit, diz o anjo às Mulheres Santas, na manhã de Páscoa. Ele ressuscitou, assim como anunciara.

Língua alguma no mundo pôde estabelecer, em TRÊS simples palavras, a afirmação do milagre essencial sobre o qual se baseou todo o cristianismo. (“se o Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé”, dizia São Paulo).
* * *
O realismo das palavras latinas era, além do mais, reforçadas por aquele de sua construção. Sua ordem favorita (sujeito, complemento, verbo), que perturba os estudantes que se aproximam desta língua, testemunha, portanto, mais uma vez, seu gênio concreto. Ela mostra os autores da ação, em seguida os objetos que servirão à ação, antes de definir a ação mesma.

Nos patriam fugimus,
diz a primeira écloga de Virgilio;

Nous, nous fuyons notre patrie,
diz o francês.

César fit faire un pont,
diz o clássico exemplo das nossas gramáticas:

Cæsar pontem fecit.

César está à frente, em sua majestade de líder; depois vem a descrição do objeto ao qual vai se unir o gênio prático do romano; e enfim o movimento da frase se agrupa em torno do verbo, conduz a ele tudo o que continha de paciência e de lentidão, para rebentar bruscamente numa exaltação criativa: fecit (um dos verbos que Roma, cidade da ação, mais amou).

No início do Livro do Gênesis, a Igreja traduz o hebraico com esta simplicidade concisa que só é latina:

Dixit Deus: Fiat lux (Deus disse: que se faça a luz!)
Et facta est lux (e a luz se fez)
Facere: fazer; fieri: ser feito)

Fazer: era a palavra exaltada pelos Romanos, criaturas do Império. Quando a Divindade inclina-se ao caos do mundo para nele fazer uma criação, que língua exprimirá de forma mais exata este ato senão aquela do povo que traçava, do mesmo modo, o limite dos seus campos, a ordem de seus exércitos em batalha e as estradas do império? Do povo que designa o universo pela palavra mundus, exprimindo organização, ordem; ao mesmo tempo em que os Gregos diziam: cosmos, pois os impressionava a beleza, mais que a ordem?
Deus, inclinando-se sobre o mundo, traçou-lhe uma ordem: a língua da ordem tomou sua simplicidade e sua força nesta grandiosa cena.
Podemos multiplicar os exemplos.
Quando o enviado de Nero veio assassinar Agripina, mãe do imperador, o historiador Tácito relembra que esta mulher, temível e genial, resume o horror do crime em uma simples palavra: ela ordena ao executor de feri-la no mesmo ventre que carregara outrora o filho ingrato. Mas com que linguagem, com que expressão revestira a cena trágica a concisão, o realismo brutal do latim:

Ventrem feri, diz o texto.

Falou-se tudo em duas palavras: a espada do executor e o corpo estendido estoicamente, mas que soube amaldiçoar.
O lugar do verbo na construção latina exprime um dos aspectos essenciais do gênio deste povo criado pela ação; isto é, posto ao fim da frase, aparece nele os seres e as coisas que o precederam; concludente como uma pedra que chega ao fundo; ou então este é um outro aspecto da mesma concepção) uma explosão repentina, como o movimento do Imperador à frente de suas tropas, porque o latim recusa a dar a este elemento essencial do discurso um lugar que não seja o mais visível, o mais marcante.
Quando o verbo é posto no final da frase, além dele só há a queda, o silêncio. Quando se coloca o verbo no começo da mesma frase, consegue-se de ordinário uma majestade exuberante. E quando a Igreja adota para seu uso esta língua de força, ela ganhará por fazer brilhar certas verdades de seus dogmas ou certos aspectos de suas orações, em elipses incisivas.

Fulget crucis mysterium

diz o poema de Fortunato, em honra da Cruz (o mistério da Cruz resplende), mas a tradução revela-se, como de praxe, de uma extrema inépcia para exprimir a admirável imagem:

Fulget: este verbo, pleno de chamas e raios, devido à qualidade única da concisão latina; este verbo posto ao começo de um verso exprime muito mais que sua tradução indica.
Fulget: Fortunato mostra uma luz sobrenatural exterminando todas as sombras.
Fulget: num golpe de espada, ele afirma uma nova fé;
Fulget: o patíbulo do suplicio tornou-se o trono de Deus.

Outro exemplo:

Magnificat anima mea Dominum! exclamou a Virgem, na casa de sua prima Isabel.
Magnificat!A música que a Igreja adaptou a este bramido de vitória amplifica-lhe a extensão:

Ma – gni – i – fi – cat...

Eis a exaltação lançada até a cúpula do céu, estendendo os braços entre dois mundos. O verbo quase que contém o que lhe segue: o privilégio deslumbrante de uma criatura única, o séqüito dos Profetas, todos investidos desde então, da majestade do verbo:

Magnificat!

Outro exemplo: a oração da confissão das faltas, no começo da missa.

Confiteor, diz o latim, então.

E toda confissão dos pecados é definida por estes termos, com uma força devida à língua somente. Saberemos que nos confessamos e o que nós confessamos, mas o gênio latino que não precisa aqui de um pronome, nem de um sujeito acrescido, lança o homem de joelhos, numa só palavra: Confiteor!
Credo diz ainda a igreja antes de desdobrar o resumo dos seus dogmas.
Talvez nós tenhamos aqui um dos exemplos mais claros da insuficiência das traduções em face ao latim. Pela força do verbo colocado no começo do texto, o latim pode resumir vinte afirmações. O francês é obrigado a repetir, a cada uma das proposições: je crois... je crois... je crois.... O Latim, pela faculdade única de seu gênio, por sua força de concisão, não necessitará mais que das desinências de cada palavra, para evitar todo o erro de interpretação, toda a distorção das definições. Com uma brevidade inimitável, diz Credo uma só vez; e, anexados a uma só palavra, todos os mistérios serão evocados, todo o visível e o invisível; as afirmações dos antigos Concílios (Consubstantialem Patri... Filioque procedit) encerradas nas garras de expressões férreas; os pontos de vista históricos (sub Pontio Pilato...) e até a definição desta mesma Igreja, réplica terrestre e celeste do império dos Césares:

Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.

Outro exemplo:

Stabat Mater dolorosa.

Como no Confiteor e no Credo, o sentido e a majestade do hino inteiro experimenta-se desde o primeiro vocábulo. Graças à força do verbo latino, e graças a ela somente, todo o poema põe-se diante nós, e também as imagens das pinturas e das esculturas cristãs de todos os tempos, ofertando à Virgem a visão do martírio, apoiada no braço de São João (“Mulher, eis vosso filho!...”).
Stabat! O verbo latino exprime a ação de se estar de pé; mas exprime, como sempre, em uma só palavra, o que em nosso peito angustia. Podemos tentar emocionarmo-nos com uma tradução quase exata:

Estava de pé a Mãe Dolorosa,

Mas quem não vê a impossibilidade de exprimir o choque deste pranto e desta visão: Stabat?
O latim passou... E eis o cristão lançado de joelhos num relance, diante da Virgem que não se rendeu.
* * *
Língua concreta, língua de ação, o latim era também duma concisão única, onde se encontrava seu gênio guerreiro, sua majestade de comando.
Todo o mundo conhece a famosa frase de César: Veni, vidi, vici (Vim, vi e venci), dístico militar insubstituível, invejado por todos os conquistadores; ou ainda a percepção de Tito — que Tácito nos mostra — ao responder a rainha Berenice, malgrado eles ambos: invitus, invitam dimisit.
Há a frase de Pilatos, nos Evangelhos, quando os judeus vêm reclamar-lhe o ter inscrito sobre a cruz de Cristo, em vez de “Jesus de Nazaré que se pretendia rei dos Judeus”, “Jesus de Nazaré, rei dos Judeus”.
O Governador respondeu: Quod scripsi, scripsi (o que escrevi, escrevi).
E está aqui então toda uma cena imaginária: vemos de um lado abundar esta turba de Orientais mexeriqueiros; e bem diante deles, o homem da espada e da lei, que dá ao drama seu remate.
Quase todos os textos dos Evangelhos da Paixão são intraduzíveis em sua força invocadora. Tomemos o famoso diálogo entre Jesus e Pilatos. Dois mundos estão cara-a-cara. Mas Roma, até então, não tinha conquistado e assimilado todos os povos, todas as civilizações? Donde vem repentinamente este diálogo impossível?

Pilatus dixit... Respondit Jesus...
Pilatus disse... Respondeu Jesus...

De minha parte, poderei ler este diálogo em latim: porque ele é o dialogo imortal do mundo visível e do invisível, uma grande chance de reunir numa mesma língua o que falava o império de toda a terra, diante Daquele que se afirmava o Mestre da terra e do céu.

Ergo, rex es tu? Pois, és tu rei?

Roma forjou esta palavra, rex, e está claro o porquê; neste dia em que começa uma era, tem ela o direito de apresentá-la ao Cristo como o objeto principal do debate. Rex: o império dos homens formou esta palavra, com o sentido de direção, de impulsão e de administração, tudo ao mesmo tempo. (Regere: por causa do gênio conciso da língua latina, significa a um tempo guiar, ter em mãos e governar com justiça) Rex: é este que indica o caminho e que está à frente dos homens para conduzi-los.

Ergo, Rex es tu? (Pois, és tu rei?)
Respondit Jesus: Tu dicis, Rex sum ego (Tu o dizes. Sim, sou rei.)

e a famosa e misteriosa frase:

Regnum meum non est de hoc mundo (Meu reino não é deste mundo).

São todas pequenas palavras em latim: "de", que indica a proveniência, mas com sentido de cair do alto, tal como a chuva (enquanto a palavra "ex" indica simplesmente a origem, mas no mesmo plano), nos faz compreender aqui toda a magnificência da concisão latina. O Cristo quer dizer que ele não recebeu seu poder de nenhum outro da Terra, e o "de" latino basta, com sua significação plena, para permitir a esta frase exprimir o mistério da Encarnação e o papel exato do cristianismo na história dos homens.
Poderíamos multiplicar tais exemplos, porém é necessário nos limitarmos, pois não escrevemos aqui um tratado de pedagogia nem uma gramática: nós procuramos somente algumas imagens, juntamos alguns motivos de admiração, os mais simples e mais impressionantes.
Seria ainda preciso repetir que o latim, língua dos juristas, dos moralizadores, possuía o gênio das sentenças; que era admirável nos epigramas como nas inscrições, que amava os ritmos cadentes do gênero oratório, todas as qualidades que a Igreja utilizará numerosas vezes, forjando as fórmulas que tornarão certas orações um murmúrio majestático:

Per omnia sæcula sæculorum… Per Dominum nostrum Jesum Christum...

ou, ao contrário, em inícios fulgurantes:

Introibo ad altare Dei...
Adjutorium nostrum in nomine Domini...
De profundis clamavi ad te, Domine...
Ite, missa est...
Benedicamus Domino...
Dixit Dominus Domino meo...
In exitu Israël de Aegypto...

Seria preciso relembrar que o latim era não somente a língua do Direito, mas a da história (definida pelos romanos, res gestæ: as coisas acontecidas. Pois os acontecimentos do passado são as lições dos humanos de hoje). Será necessário mostrar, uma vez mais, que a língua de Tito Lívio e de Cícero cobre a Escritura de um surpreendente novo tipo de certeza, de realismo, de verdade. Seria preciso recordar quanto ela convinha aos Atos dos Apóstolos, à primeira história da Igreja, após ter posado sobre os Evangelhos a mão proba do servidor leal...
* * *
Mas seria necessário dizer bem mais.
Se o latim tinha qualidades admiráveis, tinha também defeitos (defeitos estes que nós assinalamos como próprio dos romanos). Seu gosto pelo concreto, seu gênio por vezes muito rústico fazia-lhe pouco apta a tornar-se a língua da filosofia e da teologia. É aqui que se renova, em sua língua, o milagre da assimilação que já distinguimos nos criadores do império.
O latim empresta do grego quase todas as palavras que ele tinha por necessárias para exprimir o domínio do abstrato; (mas é ele mesmo que, para definir o lugar soberano da cultura intelectual na vida, forjou a palavra Humanitas). Cícero e Sêneca estabeleceram uma hierarquia das atividades do romano: as duas mais nobres são a agricultura e o serviço do Estado, porque nestas duas tarefas o homem é mais útil aos outros homens, e é o dignitário mais próximo aos decretos dos deuses. Mas é o estudo das letras, e o ainda mais sublime da filosofia, que o enobrece acima de tudo.
* * *
O latim não era inicialmente uma língua para os poetas, e, contudo, Roma possuiu dois dos maiores poetas do mundo, nas pessoas de Virgílio e de Lucrécio, dignos de suportar toda comparação com seus êmulos gregos. Em Virgílio, mostra-se o poeta-cidadão que cantou a epopéia do império como pessoa; o Profeta que devia saudar Dante e toda a Idade Média cristã, porque parecia predizer o nascimento do Menino de Belém; mais, o canto das campinas selvagens e doces; enfim, o elegíaco voluptuoso e cruel dos amores de Enéias e Dido. Virgílio, melhor que qualquer um, fazia de Roma uma cidade de destino prestigioso, preparado e esperado pelas divindades tutelares. Em seus versos apareciam os exércitos e ordenava-se a procissão de embarcações sobre os mares de exploração e conquista.
Lucrécio parecia enigmático e sombrio como um doutor Fausto da antiguidade. Ele adotara a audácia grega prometéica, que desafia a divindade; jurava que a ciência dos homens chegaria a ultrapassar, um dia, os poderes do céu. E todas estas blasfêmias rudes e enregeladas camuflavam-se de repente numa descrição sutil da luz e dos corpos de dois amantes entregando-se à sombra das florestas...
O latim, graças a Virgílio, Lucrécio, Horácio (e a todos os poetas menores, de Propércio à Catulo) ia conseguindo tornar-se uma língua de poetas, como soube ser, perante a escola grega, uma língua de filosofia.
Não resta nada além de uma imensa tarefa que seria cumprida, na língua latina, pelos Padres da Igreja; para todos aqueles teólogos apologistas que queriam exprimir as verdades da nova fé (que abriam ao homem domínios então jamais explorados). E não é menos verdadeiro que a poesia da Igreja dava ao latim as belezas que ele ignorava.
Por isso não se deve deixar de falar e repetir que o latim é a língua da Igreja, pois ela o recebeu numa época em que ninguém além dela era capaz de enriquecê-lo e enobrecê-lo; pois, durante cerca de dez séculos, ela foi a única a infundir-lhe esta vitalidade, esta presença que o salvou de tornar-se objeto de museu ou múmia no fundo duma tumba.
* * *
O cristianismo traz à língua latina um cortejo incomparável de imagens do Oriente, enfeita a toga romana dum colorido que a Ásia ou a África já tinham experimentado, mas sem jamais lhe pôr o selo do sagrado. Só existem nos textos latinos cristãos inalterados estas palavras provindas da Galiléia e da Judéia, e que conduzem a imaginação: Jerusalém, Belém, Magdala, Sion,... Sabbaoth, Aleluia, Hosana... Só há no latim cristão — que se regozija da carinhosa reputação do Cântico dos Cânticos — o odor dos aromas e todas as suas alegrias, todas suas preciosas estrofes cintilantes no templo de Salomão ou no palácio de Herodes. Não existe senão na poesia latina cristã o cantar dos anjos e dos pastores em conjunto antes do repasto, com uma doçura que derrete o coração:

Adeste fideles, læti triumphantes...

Somente na poesia latina cristã há (sobretudo na poesia medieval) uma paz de alma mais inefável que a paz dos antigos sábios, pondo um bálsamo sobre todas as angustias e dores.
Contam que um rei da Inglaterra, uma noite, aos tempos da barbárie, mandou calar seus guerreiros, ao aproximar-se de um mosteiro, para prestar atenção à maravilhosa melodia do cantochão. Mas a musica não é somente portadora de suavidade, na poesia latina cristã. Mesmo não sendo seguida de melodia, nenhuma atenção humana pode escapar à impressão de paz, proclamada pelas singelas palavras das Completas:

In manus tuas, domine, commendo spiritum meum
(Em tuas mãos, Senhor, abandono minh'alma.)

Não insistiremos aqui sobre a contestável tradução de spiritus meus por “meu espírito”; pois todo latinista sabe que spiritus era o principio vital, animando o corpo do homem, e não a inteligência, que evoca o francês “esprit”. (“espírito”)
A palavra latina commendo, na oração das Completas, exprime, uma vez mais, numa maravilhosa contração, a noção de abandono completo, de total anulação perante a divindade, que as palavras francesas remettre (entregar, confiar) ou laisser (deixar, permitir) evocam imperfeitamente.
No século XIII, na Universidade de Paris, viveu um dos mais resplandecentes gênios da humanidade: Tomás de Aquino, que para seus companheiros e sob o hábito de São Domingos, era simplesmente o irmão Tomás.
Não tentemos explicar o que a língua cristã deve a este filosofo altíssimo, que ia construir em latim a Suma teológica e filosófica de sua religião. Lembremos que Tomás mostrava a aliança possível entre as mais audaciosas conquistas do pensamento grego e o dogma cristão e que iria, ao mesmo tempo, clarificar a mensagem de Aristóteles, desnudando-a de todas as sombras helenísticas, de todas as adições ou deformações judias ou árabes. Lembremos também que ele saberá dar à implacável e sutil discussão escolástica suas definitivas notas de nobreza.
Mas Tomás de Aquino, se não tivesse realizado este trabalho prometéico, só seria conhecido entre os filósofos e os clérigos. Ele aproximou-se de nós através de outros dons. Ele mesmo, na noite de uma de suas rudes jornadas de labor fatigante (devia morrer aos 49 anos, depois de construir um dos monumentos mais abrangentes e mais perfeitos do pensamento), viu sua alma mística se deter e meditou sobre o culto do Santo Sacramento, reforçado após o milagre de Bolsène (milagre de Lanziano), que motivou por todo canto os sentimentos da cristandade. E o poeta Tomás escreveu sua prece; e ela atravessará os séculos:

Adoro te devote, Latens deitas, Quæ sub his figuris, Vere latitas, Tibi se cor meum, Totum subjicit, Quia te contemplans, Totum déficit, ...

Jamais a expressão do dogma, nem a exatidão dos termos filosóficos, revestiram-se deste indumento de poder e adoração, de doçura e êxtase. Com este amor arrebatador, o cristianismo abriu o latim para o céu, como nada antes havia tentado.
Tomas de Aquino é também o autor da Lauda Sion, hino do oficio do Santo-Sacramento. Nele encontramos o mesmo rigor de definições e a mesma fé radiante, a mesma ternura enlevada:

Lauda sion, Salvatorem; Lauda ducem et pastorem, In Hymnis et canticis. Quantum otes, tantum aude, Quia major omni laude, Nec laudare sufficis...
* * *
Mas são nos inumeráveis hinos dedicados à Virgem que o latim cristão devia trazer à linguagem antiga a maior renovação. A antiguidade não deu jamais à mulher um lugar verdadeiramente destacado, senão em alguns poemas de Homero ou nalgumas lendas nórdicas e germânicas. Tudo isto evidentemente foi superado pelo culto cristão da Virgem, criatura a que a nova religião concedeu um singular privilégio de pureza, um papel dominador na história da humanidade. Também os hinos cristãos à Maria são inundados duma alegria e grandeza incomparáveis, duma piedade e súplica tais que o mundo ainda não assimilou.

Ave, Regina cælorum, Ave, Domina angelorum, Salve radix, Salve porta...
Ave maris Stella Dei Mater alma Atque semper virgo Felix cæli porta...

Regina cæli, lætare, alleluia! Quia quem meruisti portare, alleluia! Resurrexit sicut dixt, alleluia! Ora pro nobis Deum, alleluia! ...

Salve, Mater misericordiæ, Mater Dei et mater Veniæ, Mater spei et mater gratiæ, Mater plena sanctæ lætitiæ, O Maria!

Os versos cruzam-se e enrolam-se como os caracóis de incenso, os risos de alegria mesclam-se às lágrimas de dor contrita, a humanidade em êxtase contempla a ascensão de sua raça, o perdão concedido à Eva de outrora, em sua magnífica inocência:

Salve, Regina, Mater misericordiæ, Vita dulcedo et spes nostra, salve; Ad te clamamus, exsules filli Evæ, Ad te suspiramus, gementes et flentes, In hac lacrymarum Valle,

Eia ergo advocata nostra, Illos tuos misericordes óculos Ad nos converte.
Et Jesum benedictum Fructus ventri tui, Nobis post hoc exsilium, ostende. O clemens, o pia, o dulcis, Virgo Maria.
* * *
Mas a poesia latina cristã sem duvida se superou na poesia que a Idade Média termina por legar ao cético tempo moderno, como um de seus mais belos testemunhos. Queremos falar do Dies iræ. No tempo em que vivemos, devemos recordar isto que, há apenas alguns meses, não foi necessário afirmar (e com o que concordavam todos os homens sensíveis à beleza, independente da religião a que pertençam): possuímos aqui um dos mais belos poemas lançados às mãos de homens. A cristandade ameaçada lembra-se de suas esperanças e terrores, suas certezas e suas imaginações sacras.
O poema começa como um dobre, numa simplicidade plena de mistério:

Dies iræ, dies illa

Mas logo se apresentam as fulgurantes imagens da Bíblia: o universo que se dissolve em cinza e pó, os astros vacilando nos céus agitados.
Então, em duas palavras, o gênio latino deposita aqui a rubrica das crenças da Antiguidade e da Bíblia:

Teste David cum Sybilla

Nesta prodigiosa abreviação (como nós admiramo-la, na língua latina) encontram-se presentes a antiguidade pagã e os profetas messiânicos:

“Ao testemunho de David e da Sibila...”.

Nas estrofes de impressionante profundidade, as desinências latinas possuem um irromper de trompete, a emoção alçada em sua tensão máxima...

Tuba mirum spargens sonum

Que imagem e que poder sintético! Como tentar, não importa em qual língua, exprimir, em quatro palavras, tantos objetos e tanto movimento, tamanho drama e poesia austera?

Tuba mirum spargens sonum, Per sepulchra regionum, Coget omnes ante thronum;
Mors stupebit ei natura, Cum resurget creatura, Judicanti responsura.

quando repentinamente, depois das ameaças do Antigo Testamento, aproxima-se a doçura do Evangelho e de sua misericórdia:

“Tu que perdoaste à Maria Madalena e atendeu ao bom Ladrão...” Qui Mariam absolvisti.

Sempre esta construção latina, tão bela, tão singela: Qui — Mariam — absolvisti.
Diante do verbo, estão paradas as duas personagens, como numa manhã de Páscoa, quando eles descobrem-se num jardim: o Deus da ressurreição e a mulher de cabelos embaraçados, carregando seus vasos de perfume, prostrando-se subjugada.
O resto do poema é oração e súplica, mas a paz de uma alma redimida estende-se através da lenta sucessão das palavras:

Salva me, fons pietatis
...
Recordade, Jesu pie
quod sum causa tuæ viæ
Ne me perdas illa die.

Quœrens me sedisti lassus
Redenisti crucem passus
Tantus labor non sit cassus.


A Igreja cristã resumiu, neste hino, a contribuição da poesia e o progresso do pensamento, o engrandecimento sentimental e a nova busca do invisível, o selo do amor e a inefável pacificação, que seu dogma traz à Roma antiga.
Deus e César acham-se sempre recordados, sob o signo da Cruz


II


A propagação do latim é um dos mais importantes fatos da história.
Dom CABROL

Como se realizava, no império de Roma, o prodigioso espraiamento da língua latina? Parece que se realizava juntamente com o exército romano. O exército era, para este agrupamento de povos díspares do Oriente e Ocidente, não somente um instrumento de defesa, mas também de coesão.
Ainda que fosse Roma liberal quanto à expressão, aos costumes, as religiões de seus súditos, o latim era língua obrigatória do exército: todas as ordens eram dadas em latim, o legionário tinha que compreende-las e seus auxiliares bárbaros igualmente. Ora, o serviço militar podia durar até vinte anos.
Nas inumeráveis guarnições do império, sobre o Reno ou o Eufrates, na África como na ilha da Bretanha, o soldado romano oferecia ao nativo, não apenas a proteção sob a espada, mas o dom de seu idioma. Sob o céu cinzento do Reno, nos montes de Castela, a bela linguagem da majestade inscrevia-se sobre pedras desconhecidas, em fórmulas breves cuja força agredia como a acutilada dum punhal.
Portanto, é evidente que esta propagação universal do latim, por assim dizer, a jato, era ao mesmo tempo uma causa de corrupção. Mas fora preservado pela influência dos oficiais romanos, pertencendo quase todos à nobreza, e que traziam periodicamente de Roma, para suas longínquas guarnições, os ecos do bem-falar, a perfeição do saber dos escritos literários ou filosóficos. Os administradores e os juizes do império contribuíam para esta salvaguarda.
Mas, sobretudo, a partir do século I, Roma cobre seu império de escolas (particularmente no Ocidente, especialmente na Gália. Podemos dizer que jamais o ensino será tão difundido na França, como fora durante os três séculos do apogeu do império: o ensino alcançando todas as classes da população).

* * *

César e Augusto nunca desejaram impor o latim a nenhum povo: tinham a língua de Roma na mais alta conta que ela então jamais teve, antes da chegada do cristianismo; eles contavam com as qualidades intrínsecas do latim, sua nobreza e seu poder, para triunfar.
Suas esperanças não foram abnubiladas. As populações possuíam gosto em falar latim. “Em todo o império, escreverá o historiador belga Franz Cumont, as gentes que recebiam alguma instrução reconheciam-se neste gosto e respondiam por bela linguagem: eram letrados, eram Romanos, quando sabiam compreender e sentir seus esforços pela elegância, suas sutilezas de expressão, seus giros engenhosos que obedeciam às arengas dos retores. O prazer arrepiante que sentiam ao serem escutados aumentava este sentimento que indicava, ao admirarem-lhes, que pertenciam ao mundo civilizado”.
Faz-se necessário entender que, para Gália lutar contra o poder dos Druidas (cujo ensinamento era fortemente impregnado por influências mediterrâneas e helenísticas), Roma trazia um ensinamento no qual o gênio grego estava assimilado, ordenado, pelo gênio romano. (A Igreja resgatará esta tradição nas suas escolas). No século II, em certas partes do império, falamos um latim mais puro que na própria Roma...
A partir do século III, a diferença torna-se cada vez maior, mais marcante, entre a língua culta de Roma e sua fala popular. A língua culta defender-se-á, velará sua perfeição, sua pureza. Os cultos e os professores devem lutar contra a barbárie... Ora, os gramáticos e retores romanos sabem o grego quase tanto quanto o latim. Os Padres da Igreja os imitarão por longo tempo. (Recordemos sempre que não havia, desde o dia da conquista da Grécia, ruptura, em Roma, entre o helenismo, em sua perfeição clássica, e o gênio romano; as duas perfeições estavam fundidas para então originar o humanismo). Os Padres da Igreja, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Hilário, buscarão sempre o alento de seus pensamentos nesta via. Para a reza ou o catecismo, falam algumas vezes em língua vulgar; para seus escritos, utilizam a língua culta. Para o culto também.
Quando as invasões bárbaras se deflagram sobre o Ocidente, os gramáticos e retores de Roma emigram em grande número para a Irlanda; e pelo fato da ilha da Bretanha conservar uma tradição intelectual tão pura quanto lhe é permitida, nos tempos de Carlos Magno, ela virá a comunicar ao Ocidente a cultura greco-romana, momentaneamente obscurecida e corrompida.

terça-feira, agosto 09, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal II

Capitulo Dois
ROMA EM FACE ÀS CIVILIZAÇÕES DE SEU IMPÉRIO:
A GRÉCIA E OS BÁRBAROS


...Não cesso de recordar-me que tens diante os olhos uma terra a que nós demos as leis, não pela força como a derrotados, mas porque nos pediram.
PLINIO O MOÇO
(a um de seus amigos ao partir para a Grécia)

Oitocentos anos de alegria e sabedoria política cimentaram nosso edifício: isso não será posto a baixo, sem carregar, em sua ruína, aquele mesmo que lhe quis arruinar.
O romano CERIALIS aos gauleses
(século I)

Ao fim do século X de sua história o pequeno burgo italiano, onde Rômulo e Remo alimentaram-se de forma selvagem do leite da Loba, tornou-se a senhora do mundo. Entre mares de névoa e de sol, espraiou seu gênio rústico e soube ser a protetora das cidades. Por sua vez, enchia as várias cidades de glória e riqueza: dava-lhes a proteção de suas legiões, a solidez de seu governo e de seu Direito. Assim, não reconhecia apenas os burgos ou os campos de pilhagem: instalava então as repartições e construía o fórum. (Sou romano: animal que constrói as cidades e os Estados... não destruidor errante como hordas e sobrevivente dos vestígios de ruína que criou... ”).

* * *

Campanha vitoriosa contra Cartago; é primeira vez que dominam estes portais de tráfego e vida sensual, que os Fenícios semearam por todo o Mediterrâneo. “Aníbal, e mais tarde Cleópatra, inspiraram nos romanos um rancor particular, escreveu um dos mais perspicazes historiadores romanos, um temor estranho, o temor de qualquer coisa que o Ocidente desconhecia”.

Para os guerreiros rurais que os romanos eram ao século III a.C., Cartago era a cidade do comércio e do ouro,; Cartago era a cidade dos cultos de terror e de mistério, onde os ídolos abriam a bocas nas crateras em chamas, tal como Moloch, ao qual lançavam como alimento crianças vivas. Havia no nome desta cidade, e atrás dele, toda a África das terras ignotas, dos terrificantes desertos, da animalidade e da magia ligada a terra (melhor, aos poderes que pulsavam sob a terra)... Os romanos, como Cipião o Africano, sentiam a vertigem de uma tal conquista com orgulho; mas os velhos senadores viam-na sobretudo como ameaça de futuros contágios...

Mormente a expansão de Roma orienta-se à África do Norte, esta torna-se tão próxima e semelhante àquela, aparentemente, com seus pequenos burgos de muros vermelhos sobre aos quais cresciam as palmeiras. (O cristianismo romano cumprirá a mesma rota: sua primeira colônia, herança dos bispos, será a da África do Norte).

* * *

Mas Roma encaminha-se rápido ao que devia ser a sua mais importante conquista: a Grécia. Sabemos hoje que este acontecimento inicia-se antes do que nos indica a data mesma das vitórias militares de Roma na Acádia; começara pela chegada à Roma dos intelectuais gregos, vendidos como escravos nas prisões de Taranto, em 272 a.C., vindos para enriquecer o início da literatura latina, tornando-se, deste modo, os mestres-escolas por excelência dos pequenos aristocratas romanos.

Não obstante, nada supera a força do aforismo de Horácio a respeito dos gregos derrotados em 46 a.C., dominando finalmente sua acrimônia vencedora.

“Græcia capta, gerum victorem cepit”.

Apesar de tudo escrito e mesmo esmiuçado há séculos a propósito destes acontecimentos, não devemos temer atermo-nos especialmente a um ponto capital, para destacar um fato que há muito esquecemos. Roma tão bem compreendeu a importância da civilização grega, tão bem provou o que ela apresentava por meio das descobertas dos etruscos ou das cidades da Itália do sul; tão bem reconheceu o que ofereciam, não tal ou qual contribuição nacional, mas o mais alto esforço filosófico da humanidade, com uma linguagem precisa em seu ânimo de pensamento (não falo de influência artística, porque me parece que Roma era pouco sensível a ela; ao menos não a admirava mais do que a do Egito ou a do Oriente); Roma iniciou, a partir deste momento, uma busca intelectual guiada por Atenas, e já não podemos separar daí em diante as duas civilizações no que elas têm de mais precioso.

Queria insistir doravante neste ponto: durante séculos e séculos, é através de Roma que o mundo descobrirá a Grécia (a Grécia clássica), pois conquistara de uma vez por todas o que Atenas descobrira de melhor. Gonzaga de Reynold pôde escrever que “Roma dissociou os helenismos dos Helenos”; e ainda, já que a Grécia contaminar-se-ia cada vez mais em civilizações do Oriente desde as conquistas de Alexandre, foi para Roma que a [filosofia] clássica de Aristóteles, de Péricles e de Fídias migrou: o que Atenas tinha de mais sublime passou a Roma, recebendo o selo definitivo da universalidade; é por esta maravilhosa junção que Roma formulará o termo HUMANITAS. Não é apenas um fenômeno que interesse às duas nações, mas um momento supremo do mundo civilizado. A Igreja Ocidental, desde cedo, agarrará, para estabelecer-se sobre a terra, este presente imperecível; a Igreja do Ocidente carregará o que a humanidade descobrira antes de Cristo, em uma síntese greco-romana.

Paremos por aqui, por dois motivos: primeiramente, devido à importância do fenômeno que se esboça, mas também porque, a partir de agora temos uma chave que permite explicitar muitos aspectos da Idade Média, da Renascença ou da época contemporânea. Quase todos os erros ou vícios cometidos a respeito de Roma ou da Grécia vêm daqueles que esqueceram o fato histórico que acabamos de descrever: a absorção do gênio helênico por Roma e sua fusão; em certas épocas, desejávamos ressuscitar o gênio grego ou gênio romano em um de seus aspectos particularistas, em vez de querer encontrar neles o que significava a civilização tout court, um dos raros momentos de realização perfeita na história dos homens. (Apontamos, pois, por exemplo, a ressurreição medieval do Direito Romano na Universidade de Bolonha e de Pádua e a renascença do helenismo científico – tornado bizantino – nas cidades italianas do século XV.)

Roma conquistou a Grécia entre os séculos III e II a.C., almentando-se rapidamente das descobertas de seus filósofos, cientistas, literatos e artistas. É esta escola que despertará de forma definitiva o gênio romano, pela qual o período clássico romano florescerá. É esta mensagem, tornada própria e calcada em seu gênio que Roma levará um dia por todo o Ocidente, antes de deixá-la nas mãos da Igreja.

* * *

Mas a Grécia, durante esse tempo, orientalizou-se cada vez mais. Guiada por Alexandre, lançou-se ao Egito, inclinando-se ante o culto do sol e da arte do silencio e imobilismo, e ante a Pérsia (Alexandre sonhava em unir-se a Pérsia, para melhor dominar os outros povos, considerados simplesmente como bárbaros); na Índia, entrincheirou-se no ocultismo vegetal e em contrários mais e mais distantes, onde o sorriso de Apolo posava sobre os lábios enigmáticos de Buda. Eis, portanto, onde está a nova Grécia, até aos últimos séculos da Idade Média; eis a nova Grécia, sua fama e seus perigos.

Hoje em dia, sabemos, graças ao progresso da erudição, sobre que base apoiavam-se as descobertas científicas e riquezas deste gigantesco império mediterrâneo: descobrira o petróleo, o ferro, o bronze, triunfava em suas industrias químicas e na arte da tinturaria, da cerâmica, da vidraria. Superava-se ao compor os perfumes que ataviavam os reinos e cortesãos, e os ungüentos que acalmavam a fatiga e a dor. Fabricava o papiro do Egito com arte admirável, dominava a construção naval e a forja de armas. (Foi em um navio da época helenística que foi esculpida a “Vitória da Samotrácia”, hoje no Museu do Louvre). Religavam por canais os rios e os mares, conheciam sistemas de aquecimento de casas e banhos públicos.

Grandes cidades como Alexandria ou Babilônia, com suas casas brancas sob um céu de opressora claridade; palácios onde se erigem esculturas de tormentos (Laocoonte) ou de volúpia complexas e inquietantes, como certos Apolos ou Vênus recolhidas nos museus; populacho em algazarra ou então tragado pelo sono (após o meio dia, as cidades mediterrâneas sentem a óleo quente e suor, antes da brisa do mar conduzir o olor dos loureiros e jasmins); que importa se o conquistador semidivino cria impor-lhes eternamente a ordem do Partenon? O que mais interessa, para além de suas paixões e prazeres, é a busca insaciável e duvidosa do Oriente, a vertigem dos conhecimentos recusando todos os limites, a confusão de um saber que muito a custo libera-se de um torpor vegetal (ou das volúpias tentadoras da carne), para captar as definições do verdadeiro. O que conta assim, nas cidades do Oriente, é a adesão das massas, não a convicção da aristocracia da vida e do pensamento, dos quais Atenas fizera os seus educados, seus cidadãos...

É por isso que os Ocidentais correrão mais perigo (quer sejam laicos ou da Igreja), ao buscar a Grécia e seu gênio, NOS PRÓPRIOS LIMITES GEOGRÁFICOS DA GRÉCIA OU DO IMPERIO DE ALEXANDRE.

O imperador Constantino fracassará, quando creu fundar uma nova Roma em Bizâncio, sobre a efígie da terra e do mar onde a antiga Grécia juntava-se estreitamente ao Oriente. Constantinopla, a cidade de Constantino, exaltará tão-somente o Oriente.

Juliano o Apóstata, apesar de sua piedade com Atenas, só conseguirá redescobrir um neoplatonismo judaizante para lutar contra o cristianismo vitorioso do “Galileu”.

E a história da Idade Média nos mostrará outros fracassos...

Sim, é bom para Roma, e é bom só para Roma, que hoje a Grécia antiga sobreviva e sobrevive. A língua latina já trazia consigo uma nobreza, naquele instante em que Igreja a escolhia para elevar sua prece ao céu. Depois, torna-se não somente a língua dos vários povos: traz consigo o selo da razão de Palas Atenas.
Quando Santo Agostinho, romano da África, ou quando os Padres da Igreja medieval, queriam levar ao mundo bárbaro as recordações da civilização antiga, serviram-se da linguagem de Roma, como antes Cícero ou Lucrécio, para invocar as grandes mensagens gregas: a idéia de que a educação vale tanto quanto o sangue, por aristocratizar um ser humano; a idéia de que a cidade não deve dominar toda nossa alma, mas fornecer-nos a melhor condição para o desabrochamento da pessoa humana; a idéia de que a divindade merece somente a nossa genuflexão (e não os poderes civis); a idéia de que devemos reproduzir em nós a harmonia superior esperada pelo Autor da criação, sobretudo no sentido crítico, na claridade de espírito, no gosto da definição e do julgamento justos, onde estavam as mais belas contribuições gregas e que, na língua de Roma, deram origem ao rigor dos dogmas, encerrados nas formulas lapidares; confusão dos heréticos, triunfo da fé.

O pensamento grego, enfim, no auge de sua busca intelectual, descobrira o Logos (principio absoluto da unidade e da perfeição), mas o apóstolo João identificava este Logos com o Filho de Deus, encarnado cá embaixo segundo as profecias dos Profetas. E na língua de Roma, esta fusão tornava-se a apoteose do Verbo (há pouco, era ainda este o texto duplamente sublime que recitávamos, o ultimo evangelho da missa, na Igreja Católica Romana...).

Através da Roma cristã, as mais altas conquistas da Grécia e de Roma antigas achavam-se entrelaçadas; e do Oriente só restava um mistério inundado de luz. In principio erat Verbum, Verbum erat apud Deum...

* * *

Mas retornemos ao império grego, ou melhor, helenístico, do século III antes de Jesus Cristo.

Naqueles domínios imensos, sempre achamos fusão de idéias gregas com as escolas orientais. Bem antes do nascimento de Cristo, já havia existido uma impregnação de judaísmo no helenismo: ela servirá de prefácio ao reencontro de gregos e cristãos.
É muito perigoso falar da igreja grega original, sem fazer esclarecer todos os aspectos da história. Muitos cristãos enganaram-se (e também os homens da Renascença e da Reforma do século XVI que acreditarão destruir Roma clamando a vitória da cultura helena: a primeira língua da Igreja foi a língua grega, e assim durante três séculos!).

Isto, contudo, é certo: tratava-se apenas de uma língua de um império oriental. Durante Alexandre, quando se estabelecia a primeira grande escola de filosofia do cristianismo, o grego rapidamente se associará às escolas judias e gnósticas, e sabemos quanto um dos mais célebres padres da Igreja grega, Clemente de Alexandria, aconselhava a se valerem destas com prudência. Da mesma forma, o genial Orígenes, o egípcio de dois mil manuscritos consagrados à apologia do cristianismo, em face às investidas dos últimos filósofos pagãos, mantinha-se, por várias vezes, no limite de um controvertido neoplatonismo, deixando imensa lacuna para as interpretações individuais da Escritura. Como os maiores doutores da Igreja desconfiaram dele!

* * *

A língua desta Igreja grega primitiva é propriamente oriental. Bossuet demonstrava-o perfeitamente ao Delfim, filho de Luis XIV, ao explicar como os Livros do Antigo e do Novo Testamento chegaram até nós. Abria, por assim dizer, sob as vistas, o velho Pentateuco em que o hebreu já se misturava com a língua de Babilônia e que São Jerônimo conhecerá antes de compor a tradução latina. Mas, sobretudo, o santo destacava que os primeiros tradutores cristãos, que chamamos abusivamente de gregos, começaram seu trabalho de transcrição dos Santos Livros no Egito alexandrino, contaminado, àquela época, pelas diversas correntes do pensamento oriental.

“Serviam-se eles, diz o bispo de Meaux, de um grego mesclado de hebraísmos, que chamamos língua helenística” (e na qual a Bíblia Septante e todo o Novo Testamento foram escritos antes que São Jerônimo desse a ela sua magnífica forma latina).

A Igreja primitiva, chamada geralmente igreja grega, não existe[1]. Havia uma igreja da época helenística, então disseminada por todo Oriente.

Vir acusar o latim, que a Igreja adotará mais tarde, de ter deformado uma pretensa pureza primitiva melhor conservada em grego, é ignorar a verdade histórica. Roma possuía méritos maiores que a Grécia de Alexandre para se julgar a senhora do mundo no momento do nascimento do cristianismo. Ela possuía a vantagem incontestável, neste momento, de uma linguagem mais rigorosa, mais estruturada e próxima do gênio grego em seu aspecto clássico e universal, do que o helenismo orientalizado poderia ter.

Dizemos que depois da Ascensão de Cristo, a grande data do nascimento da Igreja é a famosa discussão entre Pedro e Paulo, a propósito da oportunidade de reservar a Boa Nova somente aos Judeus ou de pregá-la para todos os povos da terra. Acertado este ponto, o cristianismo vem ao encontro de Roma e somente ela, pois Roma era a dona do mundo conhecido.

Não vemos porque os cristãos deveriam sentir-se separados de suas origens, ao proclamarem-se romanos.

Mas vemos ao contrário quais são os riscos que encontram quando querem intitular-se unicamente como “gregos” (cada vez que assim o desejavam, ou voltavam-se para Israel – assinalaremos como, durante o século XVI – ou para um sincretismo oriental – para com os árabes, no século XIII).

Donde retomarmos nossa fórmula: a partir do século I, é para Roma e somente para ela que deve obrigatoriamente passar a busca do verdadeiro helenismo clássico. Só há uma civilização ocidental e esta civilização é a greco-romana[2].

Um outro exemplo acachapante apresenta-se quando consideramos, vários séculos mais tarde, a atividade intelectual florescente no Oriente Médio, graças ao revigoramento do poder romano em sua terra – grosso modo, do século IV até ao VIII.

É certo, por exemplo, que à difusão da religião cristã na Mesopotâmia e na Síria segue-se um florescimento dos monastérios e escolas (como a de Edessa), onde ensinavam Aristóteles, Hipócrates e Galeno. Quando fecharam a escola de Edessa, os professores mudaram-se para a Pérsia; e é com estes doutores cristãos que as escolas persas e sírias, que conheciam tão bem Aristóteles como Ptolomeu, Euclides e Arquimedes, que os árabes de Mafamede – os califas eram curiosos e refinados – viriam instruir-se como civilização. Quando um dia o mundo árabe expuser um esplendor comparável ao do mundo helenístico de outrora, será por intermédio dos monastérios e das escolas do Oriente Médio.

Percebamos, contudo, que Roma e sua ordem permitiam este novo desabrochar.

Percebamos assim que esses monastérios não podiam sempre se guardar dos erros orientais que afloravam no helenismo. Será necessário o gênio romano de um Santo Tomás de Aquino para reconstruir a síntese da religião cristã, liberando o pensamento de Aristóteles da ganga que as escolas do mundo sírio, árabe e judeu ali depositaram.

* * *

De qualquer modo, a Roma de César e de Augusto não foi salva das tentações orientais por suas tradições superiores. Ela foi salva pela conquista da Gália.

Os melhores historiadores sustentam que a Gália equilibrou as conquistas de Roma, e restaurou-lhe, diante das tentações orientais e seu abismo, sua estabilidade e fundações Ocidentais, oferecendo-lhe um território excepcionalmente rico e fértil à sua porta[3]; levando a ela uma população agrícola, guerreira, mas igualmente apaixonada pelas escolas de retórica e Direito; anexando a ela um território onde puderam multiplicar-se os caminhos, favoráveis às trocas do comércio ou de idéias; dando-lhe soldados cujo ímpeto rapidamente aceitara a disciplina das legiões; a Gália fixou novamente Roma no Ocidente; mais exatamente, recordou-lhe de seu papel de centro do Oriente e do Ocidente.

Roma, além disso, encontrou na Gália um povo cujos defeitos e qualidades imitavam os seus: “Os gauleses, diz Catão o Antigo, buscam sobretudo a arte da guerra e a dos belos discursos”. E César, antes de vencer, acrescenta: “é uma raça de um extremo denodo e muito apta a seguir e reproduzir tudo o que é-lhes ensinado por qualquer um”.

Apesar de a Gália, por um encadeamento lógico de circunstancias, ter sido rapidamente assimilada, obrigou Roma a assegurar suas conquistas européias. A dificuldade de submeter as tribos da Gália belga conduzirá César até a Bretanha (futura Inglaterra); a necessidade de proteger sua nova província contra as incursões da Germânia levará a invasão à região do Reno. A Espanha, ocupada desde há muito (por causa dos misteres africanos na luta contra Cartago), achará, na conquista da Gália, um reforço à romanização.

A Grécia fixou o destino intelectual de Roma, mas a Gália fixa seu destino político. Roma não será apenas a sucessora do império greco-oriental de Alexandria, mas o reino do Oriente e do Ocidente.

* * *

Assim, quando o imperador Constantino dá ao cristianismo o direito à cidade em seu império – e já bem antes a Igreja adotara a língua de Roma –, este verdadeiramente recebe os dons de um império universal. Se os gregos sonhavam com uma autoridade para todos os homens e forjaram a palavra Ecumenismo, é Roma que realizará este sonho, servindo-se de uma palavra grega latinizada: Católico.

O poeta Charles Péguy, naquelas estrofes admiráveis de seu poema Eva, evocou o prestigioso império, no momento em que este encontrava-se abraçado com todas as civilizações:

Les Romains préposés à la garde du monde
Etaient Assis em rond devant les triple portes,
Et l´univers était une immense rotonde
Sous le gouvernement de deux mille cohortes.

Et ces peuples crevés, ces acres mercenaires,
Se payaient d´or, d´argent, de crime et d´ordure,
Mais ces peuple sevrés, les grand legionnaires,
Se payaient d´avoir fait une magistrature.

Et ces peuple brûlés, et tous es marchants d´hommes,
Se payaient d´avoir fait um monde mercenaire,
Mais les peuple civils et les hommes de Rome
Se payaient d´avoir fait um monde centenaire.

A maioria dos Padres da Igreja, e toda a Idade Média, verão neste império um sucesso único, o prefácio providencial da rápida expansão do cristianismo. Um deles escrevia ao fim do século II d.C.: “Deus, desejando que as nações estivessem dispostas a receber a doutrina do Cristo, em sua Providencia os submeteu ao imperador único do romanos... uma multiplicidade de impérios seria um obstáculo à difusão da doutrina de Jesus em todo o universo.”

Roma não é mais, de fato, desde esta época, uma cidade italiana, nem mesmo uma cidade mediterrânea; o que apreendeu da Grécia, do Oriente, da África, reúne agora com o que lhes murmurou os celtas e os germânicos.

Roma cria em centenas de deuses, mas os celtas criam em um deus único (entendemos, por este simples fato, o sucesso tão rápido da pregação de São Paulo aos Gálatas da Ásia Menor). Os germânicos possuíam o culto dos heróis, o sentido do sofrimento e do sacrifício que faltavam aos greco-romanos; por isso admitiram um mistério como o da Redenção, que tinha feito o areópago de Atenas sorrir e indignar-se.

* * *

Mas os romanos e os celtas tinham em comum uma devoção: a que se dirigia a um clero sapiente e poderoso.

E eis que, entre os gauleses, no momento em que o assalto dos bárbaros e a decadência total do mundo pagão antigo fazem ruir aparentemente o Império, acha-se já designada a força, a administração e os homens que vão ter nas mãos, durante séculos, o Ocidente.

Roma implantou uma administração de uma solidez singular. Quando a sociedade dissolve-se, o clero, que a devoção céltica aos druidas já aureolavam de prestígio, só terá de adaptar a estrutura de ordem romana, para restabeler os sustentáculos da civilização. Francos, burgundos, visigodos, ostrogodos e hunos puderam alastrar-se sobre o Ocidente. Os bispos cristãos, percebendo que não podiam pregar uma religião à extinção de toda uma sociedade, compreendem rapidamente o que acontecia com o império. Da África de Santo Agostinho à Renânia; da Bretanha encerrada em sua ilha à Gália de Santo Hilário de Poitiers, agüentaram e sustentaram em suas próprias mãos os muros tombadiços de Roma, já que aí acharam o único baluarte que lhes permitia não desaparecer. Suas dioceses continuavam inabaláveis, como as da administração de outrora. “Sou romano, notará um dia um grande escritor Ocidental, pois Roma, a Roma dos padres e dos Papas, deu a solidez eterna dos sentimentos, da língua, do culto, à obra política dos administradores e dos juizes romanos”.

Renan – de inteligência luminosa, quando se não deixava dominar pelos erros do século – soube analisar mui justamente o estado de espírito dos grandes bispos dos primeiros séculos: “Basicamente, disse, a Igreja experimentava uma necessidade do braço secular. À medida que ela se organizava, sentia a necessidade católica da unidade; compreendia a impossibilidade de triunfar das dissidências, sem a ajuda da força”. Aconteceu, é claro, criado este estado de coisas, abusos e excessos,; mas nisso cabe uma observação justa e mui romana: o reconhecimento da necessidade de ordem em toda a sociedade humana”[4].

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E o que os bispos realizam, o orbe dos monges os imita: os ermitões e os penitentes à moda estritamente oriental não se instalarão por muito tempo, no Ocidente.

Eis que no momento em que se fechava, no séc. VI, a Universidade de Atenas, encerrava-se também o último templo pagão da Itália, dedicado ao deus grego Apolo. Este templo erigia-se sobre Monte Cassino.

Um jovem monge de gênio, de nome Bento, dedicou-o a São Martinho, anexando-o ao convento que viria a fundar logo após.

Toda a história da Europa pode parar e silenciar por aqui um instante: se quiséssemos suprimir o passado, seria preciso aniquilar os únicos refúgios da civilização, durante vários séculos, de nossos anais. O monge Bento estabelece uma regra de vida para seus companheiros, e não apenas adapta os ditames do cenobitismo oriental, mas batiza o gênio de Roma em sua ordem, enquanto ciência equilibrada do homem, logo conseguindo uma das mais belas fusões da mensagem evangélica com a paz das cidades terrestres.

Isso vai permitir que o nome beneditino qualifique, até o fim do século XVI, à exceção de breves eclipses, o refugio do pensamento e do labor, o culto das artes e da devoção às letras; fará que estes monastérios tornem-se, não apenas o leira dos homens da Igreja, mas dos conselheiros dos reis, imperadores e promotores das Cruzadas; permitirá que seus estabelecimentos impeçam os bárbaros, batizados, mas sempre ferozes, de esquecer a mensagem greco-romana. Além do mais, a oração Oriental adota, para ascender a Deus, a concisão e o equilíbrio que o Oriente não possuía mais.

* * *

Ao mesmo tempo, na outra extremidade do Mediterrâneo, surgirá Bizâncio, com seus filósofos sutis e perigosos, com seus médicos e engenheiros, com o esplendor dourado de seus palácios e basílicas; Bizâncio, refinada mas pérfida, iniciatriz das ciência do bem e do mal; o Ocidente, sempre arruinado e destroçado por guerras, em longos eclipses bárbaros, não perderá, graças a seus bispos e monges, nem o Evangelho do Cristo, nem a recordação da tutela greco-romana.

E quando um dia este Ocidente tiver com toda força e gênio para cobrir seu solo de catedrais e inventar a cavalaria, reformar o conceito de realeza e reformular a justiça, descobriremos que sua Igreja não se deixara perder a lição de Roma, cimento único das sociedades.

[1] Não devemos esquecer que os Evangelistas eram Israelitas que, segundo a palavra de um historiador “pensavam em aramaico e redigiam em grego”, quer dizer em uma outra língua. (Podemos ver inúmeros matizes, de quanto o gênio semítico influenciou o grego).
[2] Monsenhor Battifol publicou extensos volumes para nos lembrar o que a primitiva Igreja oriental nos trouxe de ensinamento, do culto, da liturgia.
Da mesma forma Monsenhor Duchesne, em sua Histoire ancienne de l´Eglise, evoca todos os testemunhos, profecias, homilias desta Igreja (que seria um dia, dirigida pelo Direito cristão do Oriente e do Ocidente). Ora, ele indicava que todas estas obras, de língua grega sem dúvida, não tinham nada de grego em pensamento nem em forma de expressão. É ora uma mensagem hebraica pura, ora um apanhado de livros orientais. E os primeiros grandes apologistas que traduzirão a sobrecitada mensagem, e assim para os homens do Oriente e Ocidente, serão os Padres da Igreja dos séculos III e IV, quer dizer, homens que habitam o Império de Roma, eles e seus pais, desde há vários séculos.
[3] Há muito tempo conhecemos o papel de Lyon no que tange aos caminhos de Roma, e de como esta cidade deveria tornar-se a capital dos gauleses – torna-se o centro da prelazia da Gália cristã.
[4] A responsabilidade que tentamos imputar, em nossa época de primário, “à era constantina”, demonstra somente a ignorância histórica de nossos contemporâneos e da puerilidade daqueles que não sabem distinguir o simples abuso dos princípios. Enquanto a Igreja estiver sobre a terra, haverá sempre uma era constantina: chame-se Constantino o cavaleiro feudal ou Clóvis, o imperador do Sacro-Império ou o rei da França Toda-Cristã.