quinta-feira, julho 28, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal

Apresento-vos uma de minhas primeiras traduções; embora pobre em estilo e um tanto claudicante, as idéias estão todas aí, para vosso proveito. Peço-vos comunicar-me todos os erros que porventura encontreis neste capítulo (o primeiro de muitos, espero) que ora se vos dá.

À memória de

CHANOINE RENE POIGNET
(1885-1962)
doutor em teologia,
doutor em filosofia,
doutor em Direito Canônico;

e de ROBERT LEJEUNE (+ 1940)
doutor em Letras,
antigo aluno da Escola de Atenas, grande humanista, e meu mestre de latim,

que fazem parte, ambos, das “figuras votivas” de minha infância e adolescência, à casa de meu pai.



A língua latina tem a natureza das
coisas que só devem perecer
à ruína do mundo

Jean BELOY
Jurista Parisiense (1637)


Prólogo

Há vários anos, a cristandade está perturbada devido a um acontecimento inesperado: aproveitando a ocasião de algumas reformas aconselhadas pelo Concilio Vaticano II, uma grande parte do clero católico instaura subitamente liturgias em línguas nacionais e mesmo dialetais, num universo ainda ferido pelos estilhaços das guerras. As numerosas publicações de então expuseram que o próprio texto redigido pelas autoridades conciliares não exigia esta verdadeira revolução e que o latim permanecia a língua da Igreja Católica Romana.[1]
Queremos abordar neste livro um outro fenômeno, mais especial e menos limitado. Queremos estudar o processo do abandono geral do latim nas sociedades ocidentais, há três séculos. Pois, em nossa opinião, a experimento de um clero de “vanguarda” não é uma manobra que concerne somente à Igreja, ou aos seus problemas pastorais. Este experimento diz respeito ao mundo inteiro: ele apenas continua ou arremata uma ação cujas origens é muito importante conhecer objetivamente.
Em todos os períodos de crise e revolução, vemos, infelizmente, confrontarem-se dois partidos igualmente inimigos das convenções: os progressistas radicais, que desejam a destruição e o desarraigamento sem limites; e os tradicionalistas, que respondem por uma veneração ao passado, excluindo toda discussão e nuance. Nenhum diálogo é possível entre esses dois campos, pois o movimento e progresso de um provoca o recrudescimento imediato e cada vez mais intenso do outro.
Ora, a primeira tentativa de uma discussão objetiva consiste em conhecer bem o debate. E nós sustentamos que no seu desenrolar, este escapa de todas as formas do terreno puramente religioso. Interessa à História, a História do mundo, pois a glória menos inconteste de Roma é a de ter sido berço da civilização universal. Roma não foi uma nação (da qual, há muito tempo, nada resta): ela inventou um Império; reina sobre o Ocidente e Oriente. Descobre o meio de fazer viver reunidos os povos e as diversas civilizações, transmitindo assim um ensinamento imortal para ordem de toda cidade humana.
A atual reviravolta, cujo palco é a Igreja, toma uma caráter diverso do de um debate que só interessa a cristãos quando damos a palavra aos detratores e aos defensores do latim, nos últimos três séculos.
Pois a sociedade laica tem suas responsabilidades no que acontece hoje: e as têm bem grandes. O assalto de um certo clero contra o latim dá prosseguimento a um abandono cujo palco é a sociedade civil ocidental há quase três séculos. E este assalto não teria uma tal amplidão e rapidez, sem as previsíveis renúncias...
Não pomos em causa, de forma alguma, o dogma da Igreja, mas o simples problema do recrutamento do clero e de sua formação. Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, afirma que os homens, no exercício das virtudes, são ajudados pela forma da sociedade a qual pertencem... e que pouquíssimos homens, ao contrário, sabem resistir à pressão exercida sobre si pela moral comum e pelas instituições...
Observamos, felizmente, que, a respeito do problema do latim, não são somente os católicos que se alinham na defesa de seus redutos, mas todos os civilizados cônscios de que ainda pertencem ao universo.
Ao final deste século, um grande humanista escreveu: “A questão é saber se, em lugar da mistura moderna de povos, de raças, de civilizações, confundindo-se e interpenetrando-se por todas as partes, a civilização latina deve possuir uma obra distinta, cultivar suas características fundamentais e, como diz o filósofo, preservar em seu ser”.[2]
Por sua vez, em 1910, o grande escritor italiano Guglielmo Ferrero, comemorando a fundação da Cidade, constatava: “A história de Roma começa pela ordem. Ela não começa pelo caos, como a história bíblica do universo. Inicia pela paz interior, pela disciplina política, pelo equilíbrio bem assente nas fortunas, mas ainda modestas e quase todas baseadas na terra... Roma deu a todos a criação de diferentes modelos, para resolver os problemas políticos mais difíceis... A história de Roma é universal e tão-somente ela, pois não se pode reconstruir impérios mortos...”.
Escrevemos nosso livro, sempre tendo sob os olhos o destino impressionante desta cidade, que soube servir de modelo a todas as outras, antes que o martírio dos dois Apóstolos e que o estabelecimento do século da Igreja a “lançassem na Eternidade”.

Primeiro Capítulo
OS DEZ PRIMEIROS SÉCULOS DO DESTINO DE ROMA


Há uma hierarquia entre os povos. Nenhum deles possui igual valor nem pesam o mesmo peso numa civilização; não se civilizaram ao mesmo tempo, nem seguiram o mesmo ritmo.
Gonzague de REYNOLD


Os romanos deram ao mundo sem que nenhum outro povo lhes tenha dado.
R. H. BARROW
(The Romans)


Acima de tudo, o romano começava por venerar a terra. Não apenas os pedaços do universo visível, a cor dos dias e das noites e o perfume de cada estação, mas mas também o que interessa à vida cotidiana do agricultor, do homem do campo. O sol que estiolava as espigas, o granizo que desolava as hortas suplicantes no outono, o solo endurecido sob as geleiras de dezembro, seguido da retomada da vida em seus vários influxos ao primeiro mormaço da primavera; o verão transbordando nas colméias das abelhas; o agonizante esgrouvinhar das ferramentas do trabalhador ou do jardineiro, a lamúria do gado à densa atmosfera dos estábulos. Enfim, as tardes onde os pastores da Itália repousavam tocando o flautim, à sombra delgaçada das oliveiras ou dos pinos sobre as pradarias, até a aparição da primeira estrela na abóbada noturna.
Estas são as primitivas lições, espetáculos eternos que darão à língua de Roma seu sabor singular de realismo e simplicidade e que instruirá todo romano a respeito de sua influência, assinalando o destino do homem cá em baixo. (Para além disso, um temor reverencial que a Roma mais antiga manifestava frente à divindade). O romano não esquecerá jamais hábitos assim tão caros e familiares, quando vierem a ser o norte do mundo. No apogeu do poder da cidade, Virgilio, antes de chamá-la “mãe dos homens”, não esqueceu de chamá-la “mãe da colheita”; Horácio o Cético sente-se mais feliz quando está em sua propriedade rural no campo, diante da mesa fornida das frutas da parreira e da oliveira. Só entre os romanos veremos os soldados e os generais – antes das expedições que iam até aos confins da terra, ou mesmo em triunfo no Capitólio – recordar o exemplo do gigante Anteu, ao curvarem-se sobre a terra, sua nutriz. É assim que nos grandes domínios campestres os príncipes da literatura, um Cícero, um Plínio o Moço, cobertos com suas togas meneantes, amaram contar a seus libertos[3] os últimos boatos de Roma, adjudicadas numa língua soberana, além dos segredos da arte e da filosofia.

* * *

Concomitantemente a terra, o romano agarrava-se à sua espada de guerreiro, pois devia, desde o começo, acumular as funções de trabalhador e soldado, de arar a terra embainhando a espada ao lado.
[O romano] era chefe de um pequeno burgo cobiçado por seus vizinhos (burgo este que Rômulo, no ano de 737 a.C., tinha, segundo Ferrero, “lançado na eternidade”); e, tão logo se pusera a capturar aldeias e cidades, o romano, antes da eliminação das mulheres sabinas, absorvia-lhes parte da arte militar, além do modo de construir dos Etruscos (junto com muitos de seus costumes pios, observados na intimidade ou erigidos solenemente sobre as tumbas); conquistado mares e desertos, estendia seu império sem conhecer obstáculo.
Eis as cidades do Mediterrâneo fervilhantes de pessoas, destilando os vícios mais vis ou tentados pelos místicos mais extravagantes; eis a Espanha de lanças encrespadas ou estendendo suas planícies até a África de Cartago; eis a Gália que tornar-se-á a jóia do Império. Mas, sobretudo, eis a Grécia de Esparta e Atenas, o lugar onde os homens conquistaram a sabedoria e mais especificamente a Beleza; e eis esta outra Grécia das conquistas de Alexandre, que vai coalhar os delírios de Roma com os mistérios do Egito, além dos silenciosos abismos do pensamento hindu, que vai atrair Roma de forma irresistível à vertigem do Oriente...
Eis as brumas do norte, os mares mesclados ao céu azul, a futura Inglaterra, os futuros Países Baixos e este caminho do Reno que se tornará uma das mais belas conquistas (às portas das florestas germânicas assediadas por Armínio), o caminho do Reno onde se erigirá um dia Treves, a segunda cidade do império, a qual viria a ser Roma; o caminho do Reno onde reinará, bem mais tarde, em Aix-la-Chapelle, este imperador franco que reivindicará Roma...
Em sua prodigiosa conquista, Roma sempre fora guiada unicamente por seus motivos realistas, só possuindo metas mensuráveis, deixando-se levar apenas pela lógica das circunstancias, por meio de um exame lúcido das falhas. O que quer que seja dito, jamais concebeu (exceto nos tempos de César, de Antonio e Cleópatra) planos grandiosos de edificação, pois sabiam que os deuses puniam o excesso, sem perdão.
O romano não deixava de venerar sua qualidade de proprietário rural e soldado como a razão de seu destino supremo, caminho inicial que o levaria finalmente até aos limites do poder. Isso correspondia a seu senso de realidade e sua submissão constante em face às ordens dos deuses.
Não é sem razão que, para eles, Marte, deus da Agricultura, tornou-se rapidamente o deus da guerra; pois a guerra, por Roma e somente por ela, era um dever incorporado nas necessidades da cidade, um prelúdio a esta ordem superior que devia um dia, de uma ponta a outra do mundo conhecido, chamar-se PAX ROMANA.
Roma não esquecia sua origem primitiva de pequeno burgo agrícola e guerreiro, exercendo, ao mesmo tempo e em vários lugares, a arte da produtividade do solo e do acometimento dos povos, esteados pelas espadas. É sobre estes dois pivôs que repousará o que Plínio o Velho chamará, um dia: “a imensa majestade da paz romana”.

* * *
Mas Roma sabia também que, em suas raízes, tinham nascido virtudes individuais mais preciosas que a mera solidez realista ou política: a devoção dos lugares de reunião doméstica, a deferência em face ao Pater familias, o respeito à mulher, mãe e rainha do lar, todas estas virtudes que Catão o Antigo recordará, nos dias mais dramáticos da luta contra Cartago, clamando a seus concidadãos para vê-las como um baluarte tão importante para Roma quanto a força política e guerreira; moral esta que santo Agostinho benquistará como sendo o começo de um tipo de estoicismo cristão e querido pela Providência para ser o alicerce da Roma batizada; hábitos estes que Cícero definirá beatamente nas palavras “costumes de nossos ancestrais”, mores majorum; tudo aquilo que o irônico Horácio evocará, com inesperada gravidade, ao descrever a vida de seu pai (tal como um Nativo da Bretanha descobrindo, em meio ao século XVIII francês da frivolidade e do erotismo, a recordação da severa e nobre vida de um pagão do Antigo Regime).
E além das virtudes do campônio, as do soldado: coragem e o senso do sacrifício, fidelidade à fé jurada, gosto pela honra e pela justiça. Se Roma um dia saberá, melhor que todas as nações, constituir-se a fundadora de um Direito Universal, é por causa do dom primordial de derivar, dos fatos concretos, os princípios gerais que se estabilizarão em fórmulas curtas e majestosas: “imperatoria brevitas”.
Campônios e soldados, os romanos serão assim, por muito tempo, homens rudes, de uma coragem inquebrantável, venerando secretamente várias palavras que descrevem melhor que outras suas predileções: gravitas, severitas, constantia, firmitas, e enfim, uma das mais plenas de sentido: virtus, que quer dizer a fé na força do corpo e da nobreza da alma; dito de outro modo, a realização perfeita da palavra vir designando o homem tout court.
Naturalmente, esta rudeza acompanhará por sua vez a crueldade, e é na língua de Roma que a maldição gaulesa toma seu sentido mais incisivo: Væ Victis, morte aos derrotados! (Mas, verdadeiramente, Roma é a nação da antiguidade que menos merece ser acusada de incompreensão para com os vencidos). Queremos tão-somente dizer que a história da fundação de um império não é uma matança nem um idílio, e que os maiores admiradores de Roma conhecem evidentemente seus massacres de reféns e as vendas de escravos nos mercados públicos. Não exigiremos da antiguidade um respeito total à pessoa humana que somente o cristianismo possuirá. Mas ainda havemos de contemplar as virtudes do romano das primeiras eras.

* * *

Nossos romanos serão sempre homens de ação mais que de pensamento (“Os melhores dentre nós, dirá Salústio, sempre preferiram a ação à palavra”), o que lhes limitaria sobremaneira, isso se sua curiosidade universal e sua tolerância às épocas de conquistas, se sua humildade e o sentimento bem presente de sua inferioridade em certas áreas não lhes tivessem feito o povo escolhido para receber dos deuses as mais altas incumbências: o esforço de perfeição do pensamento grego, a revelação transcendente do cristianismo.
Tudo aquilo que faltava de aptidão à obra de Roma, demais chegada às coisas daqui debaixo, ela teve o gênio de aceitar dos outros, de receber com reconhecimento e assimilar.

* * *

Dentre virtudes primitivas e principais do romano, figurava a veneração à cidade, pois ela protegia e reunia em si o destino das famílias; mas também porque nela está o centro do culto aos deuses. Entre os homens da antiguidade, os primeiros romanos são sem dúvida os que tinham mais clara a noção da presença dos deuses ao lado dos homens (e eles os encontravam nos mais simples objetos, e os invocavam a todo o momento); donde a pluralidade de seus ritos e seu respeito, mais tarde, para com as religiões dos povos que conquistavam.
O romano teme os deuses, não como os celtas, que recusavam-se à dar-lhes uma figura visível e os envolviam constantemente de mistério; nem como os germânicos, que se faziam uma representação heróica e guerreira; nem como os gregos, que inclinavam-se com terror sob a fatalidade absurda do Altíssimo sobre os homens, mostrando-se, mais das vezes, cega; mas com uma fé invencível na proteção das bem-aventuranças celestes, que assinalavam para a cidade de Roma uma jubilante missão.
Daí originou-se nos romanos esta fé em seu destino, este impulso que parece cruzar toda sua história, esta esperança quase sem limites que os sustinham nas adversidades (quando Hanibal ultrapassou os Alpes ou quando os gauleses estavam às portas de Roma); esperança que não os abandonará quando se tornarem, sem surpresa, os senhores do mundo. Acusaram-lhes de ter deificado Roma qual um ídolo pagão: mas eles deificavam Roma como centro de um culto que lhes ultrapassava infinitamente! (é quando são invadidos pelos costumes orientais que os romanos prestarão um culto quase divino à sua cidade e ao Imperador, caindo em uma idolatria do Estado contra a qual os primeiros cristãos lutarão até ao martírio).
À origem, o romano não pensava que a cidade era sagrada, sobretudo por causa dos deuses que conhecia sobre o altar. Os reis e os magistrados eram, antes de todos, os sacerdotes do culto; nenhuma grande expedição lançava-se sem se ter consultado os auspícios, a fim de conhecer a vontade do céu.
Assim, solidamente fixados sobre a terra, mas cheios de humildade frente aos poderes invisíveis; segurando firme a espada de combate, mas declamando os adágios da justiça e do direito; desconfiando das sanções da imaginação, enredada nas ousadias desmedidas do pensamento, o romano avança metodicamente para a conquista do mundo. Julga os demais Estados mal edificados e destituídos de vigor e achava nesta constatação uma das mais belas justificativas das vitórias sem igual de Roma. Compreendia rápida e profundamente a missão especial, o gênio próprio de seu povo; seu genius (pois havia um genius, protetor e inspirador, para cada Estado como para cada família, tal como os gregos conceberam). O genius de Roma era justamente saber instalar o esqueleto das cidades, sua ordem, seu equilíbrio, sua organização. É notável que, campônio ou soldado, o romano não pensava que vinha para aprender, sobretudo do mundo da agricultura ou da arte da guerra: sabia que outros povos – os gauleses, por exemplo, ou os germânicos – poderiam rivalizar com eles em suas práticas, ou ao menos na aptidão destas. Seu gênio próprio, romano, era levar aquilo que Santo Agostinho definirá um dia: “a paz, a tranqüilidade da ordem”, fazendo os homens viver reunidos, junto aos demais povos, regendo-os sem massacrá-los, respeitando desde logo seus costumes, suas leis, fazendo-os penetrar pouco a pouco no cerne de uma cidade cujos limites coincidem com os do mundo conhecido; fazendo de todos os vencidos cidadãos felizes por sentirem-se romanos.
E neste novo ajuntamento de tradições particularistas e de costumes universais, Roma não abandona a solitária e frágil memória dos homens, como os celtas; nem as tradições familiares e de tribos, como os germânicos. Grava em pedra e em bronze; ou então codificam-nas nos monumentos do Direito.
O sentimento que os romanos tinham de sua missão universal (Tu, regere império populus, romane, memento) poderia ser um orgulho pueril, mesmo insuportável, se não viesse acompanhado de uma submissão à divindade, de uma consciência tal para cumprir um caminho que os Todo-Poderosos tinham traçado – não comportariam uma tal curiosidade em face às idéias e aos cultos de outrem, uma tolerância ao que diferia de si mesmo, à condição de não atingir nem a moral tradicional, nem a independência e a salvação da pátria. (As perseguições aos primeiros cristãos remetiam a dois fatos: as calúnias espalhadas sobre o que acontecia nas catacumbas, que faziam os romanos acreditar que o novo culto era ocasião de orgias, o cristianismo ameaçando a moral dos antigos; a recusa cristã de adorar a imagem do imperador, que parecia ser um fator desagregador para cidade e para o exército).
Consciente de sua força e da utilidade política da força, o romano tinha uma profunda compaixão das fraquezas do homem, não somente diante da divindade, mas dos caprichos da glória e do implacável curso do tempo. Mas sua fé na missão de Roma incita-lhe continuamente a “trabalhar para a eternidade”. Mais que todos os povos da terra, ele dá anseio à duração quando constrói ou fala; quando traça os caminhos ou ajunta as pedras; quando cinzela uma sentença ou modela uma oração. Forja, petrifica as coisas e as idéias, até que as semeia, direta e objetivamente, na terra como no céu. (Nós percebemos logo que deste modo domina seu Credo in unum Deum antes que seu Veni, vidi, vici).
Por isso a súplica de Roma a seus deuses (da duração de sua influência até ao fim dos tempos) foi finalmente atendida. Todos os grandes espíritos entenderam esta mensagem, que achamos tanto na obra política de Carlos Magno como na redação da Regra de São Bento, na arquitetura da Suma de Tomás de Aquino ou no desenrolar de um sermão de Bossuet. Ninguém, durante os séculos, quis intervir de forma durável na ordem terrestre, sem evocar o exemplo de Roma e suas lições. Este povo aparentemente era voltado em demasia para a vida material, mas sua severa moral preservava a liberdade de várias civilizações mediterrâneas; este povo, que não perdeu jamais, diante de toda a novidade solícita, liga-se solidamente ao que lhe remete ao passado. (“Roma mantém-se graças a seus antigos costumes e aos homens de outrora” falava Ênio no século II antes de J.C.); este povo, que tinha a habilidade e a força de reunir as nações do universo, onde Alexandre e os gregos ruíram, apesar de seu gênio; este povo do Ocidente, mais curioso que todos do Oriente (hoje sabemos que Adriano enviava missões comerciais até a China); este povo que inventava, ajudado pelos gregos, o termo Bárbaro para os que não eram da Itália nem da Grécia, mas que tornava-se o anfitrião e o educador de todos os bárbaros; este povo que realmente possuía a base terrestre sobre a qual viria, um dia, pousar uma religião que se queria universal.
Para nós, homens atuais, que podemos reconhecer a história dos séculos, e que sabemos que a Igreja Católica devia adotar em sua forma humana, para sua missão terrestre, a lição de Roma, não podemos rever sem comoção as orações dos cidadãos a seus deuses, nem deixar de admirar sua fé na certeza de um dia serem redimidos. Eles creram na eternidade de Roma e sua esperança não foi em vão (mas a realização de seu sonho não foi a que esperaram). É um dos mais emocionantes espetáculos da história.
Eis como exprimia-se Horácio no apogeu do século de Augusto. “Cantemos um hino aos deuses que são propícios às sete colinas. Ó Sol... que tu não possas jamais contemplar coisa alguma maior e mais admirável que esta cidade de Roma”.
Esta cidade de Roma torna-se todo o universo civilizado:
“O poder do império romano, afirma Plínio o Velho, deu a todos os homens a possessão do mundo. A vida humana beneficiou-se da troca de riquezas e tem convidado a dividir as benfeitorias da paz”.
...”Graças a vós, romanos, disse Ælius Aristides, no século II século antes de Jesus Cristo, o mundo tornou-se a pátria comum de todos os homens... Cada um de vossos empreendimentos confirmava a palavra de Homero que declarava que a terra pertencia a todos... Lançastes embarcações sobre os rios, rasgaram os caminhos nas encostas das montanhas, povoaram lugares desolados e... fizeram reinar por toda parte a ordem e a lei”.

* * *


Contudo, a mais bela oração é a que parece prever outra Roma sucedendo à antiga: “Ó deuses, celebra Velleius Paterculus, que levaram aos píncaros da glória este vasto império romano... guardem, conservem, protejam esta ordem, e quando sua tarefa chegar ao termo... ainda, à última hora, suscitem os homens dignos de sucedê-lo... e de sustentar os pés do império do mundo”.
Como seria cumprida tal oração?
À extremidade da Via Ápia, procedendo de suas colônias do sul, onde outrora o alfabeto grego ensinara toda a península, caminha no ano 60 um vagabundo aos olhos carnais. Chamava-se Saul o Judeu, mas desde o seu arrebatamento sobre o caminho de Damas, chamou-se Paulo. Perante a cidade do poder, da riqueza e da glória, ele persiste em sua crença. Este pequeno homem ardente cuja alma parece carregar o fogo que o mundo jamais conheceu, vem pregar um culto inimaginável: a Cruz, vil instrumento de suplício dos escravos e símbolo de indizível tortura; a Cruz torna-se o trono de seu Deus desconhecido que a antiguidade pressentia; a Cruz, murmura Paulo, “escândalo para os Judeus e loucura para os gentios”. (O apóstolo leva nos ouvidos as marcas do risos dos membros do Areópago de Atenas, ofendidos, por sua vez, em sua estética e em seu culto da razão).
Paulo descansa um instante, à hora do crepúsculo. Na cidade vislumbra ao longe: o mundo antigo glorifica seu mais completo êxito, o mundo antigo carrega sobre a sola de seus pés o mais grosseiro dos vícios e das devassidões, do orgulho e da ciência.
Mas Paulo sabia também que, diante dele, surgia a cidade da hierarquia e da força organizada, a cidade que adornará um dia a Igreja, sua vestimenta de solidez, sua armadura terrestre. Adivinha que a língua desta cidade será digna, um dia, de revestir de realeza o aguilhão dos escravos, e que este prosseguirá, como outrora os estandartes de Roma, em meio à genuflexão das massas:

Vexilla Regis prodeunt...
O Cruz ave, spes unica!

Contudo, o coração de Paulo, neste dia, não se achou dividido entre o culto do Evangelho e o amor singelo por sua pátria humana; assim o pequeno judeu de Tarso, colônia romana, pode murmurar: “Sou cidadão romano”.

* * *

Mais alguns anos, e Roma receberá seu duplo batismo. Tanto que, sobre a colina do Vaticano, erigir-se-á a cruz de Pedro, a fim de que o poder futuro da Igreja ancore-se neste abismo de humilhações, à entrada da cidade; Paulo bradará para ser imolado segundo o modo habitual aos cidadãos de Roma. E porque o universo devia aprender a partir de agora quanto a caridade ultrapassa a justiça (sem portanto esquecê-la), o homem que falava da caridade, em uma ênfase singular, se ajoelhará sob a espada de Roma e a batizará com seu sangue.
Notas
[1] Cf em particular: Christine Mohrmann, Liturgucal Latin, its origin and character, Washinton 1957; Franz Cumont, Pourquoi le latin fut la seule langue liturgique de l´Ocident, Bruxelles, 1904, e Le Latin, langue de l´Eglise, por Bernadette Lécureux, Paris, 1964.
[2] Pierre Lasserre, Cinquante ans de pensée française, Paris, 1921.
[3] Escravos que possuíam algumas regalias, como a de se exprimir livremente. (N. do T.)

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