sexta-feira, julho 15, 2005

Félix Ravaisson - Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Este é um filho meu que não vingou. Como me falta tempo a mim para traduzir, resolvi exibir-lhes o cadáver em português do que foi a tese de doutorado de Félix Ravaisson, um dos freqüentadores do blog Traduções Gratuitas. Queira Deus que um dia possa verter este e outros mais livros; mas, antes de tudo, faça-se a vontade d'Ele, e não a minha.

Luiz de Carvalho
P.S.: esse texto não foi revisado; perdoem-me, d'antemão, todos os galicismos e incorreções coesivas que, de relance, pude notar.

Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Livro Primeiro
Da história da Metafísica de Aristóteles


Capítulo I
Da história das obras de Aristóteles em geral, até à época de Apelicão de Téos e Andrônico de Rodes.


Antes de empreender o estudo da Metafísica de Aristóteles, iremos tratar de questões históricas que nos deterão por algum tempo.
De todas as dúvidas suscitadas a respeito do grande poema da antiguidade, suscitamo-las paralelamente sobre o maior monumento, talvez, da filosofia antiga; a Metafísica teve a mesma sorte da Ilíada. A Metafísica tem por autor Aristóteles, ou será mesmo inteiramente dele? Não será apenas uma coletânea de diferentes tratados reunidos, ao acaso ou ordenadamente, sob um título comum? É realmente um só e mesmo livro, autêntico em todas as suas partes, mas que circunstâncias diversas - Aristóteles ainda vivo ou póstumo - vieram a alterar o plano original, o qual podemos restabelecer numa ordem mais conforme ao desejo do autor? Os críticos puseram-se todos esses problemas, ainda não completamente resolvidos: devemos, por nossa vez, procurar a solução.
A questão da autenticidade e da ordem da Metafísica esta ligada a da história, mui obscura ainda, das obras de Aristóteles. É por essa historia que começaremos. Nós a dividiremos, na medida do possível, entre a historia da Metafísica em particular desde a época de sua composição, daquela onde encontramo-la conhecida e divulgada universalmente no mundo filosófico.
Este trabalho seria mais fácil, sem dúvida, se tivéssemos a obra de Hermipo de Esmirna, Peri Aristhotelous, da qual Diógenes Laércio fez uso; os livros de Apelicão e de Andrônico de Rodes; os comentários de Eudoro, de Evarmosto, de Aspásio; e o de Simplício, tão rico quanto seus demais escritos – preciosas resenhas históricas –; finalmente, o tratado especial que compusera Adrasto de Afrodisia a respeito da ordem dos livros de Aristóteles (Peri tes taxios ton Aristhotelous suggrammaton). Todos se perderam; estamos reduzidos a um pequeno número de testemunhos diretos que precisamos fertilizar para [empreender] uma comparação e discussão profundas; junte-se mais uma multidão de indicações mais ou menos indiretas, cujo cruzamento pode fornecer algumas luzes.
Este é o tema que provocava as mais vivas e longas controvérsias nos tempos modernos. Elas se iniciaram com a Renascença, em meio aos combates do platonismo e do peripatetismo: a crítica nascia da paixão. Francisco Pico de la Mirândola propunha a derrubada da autoridade de Aristóteles: suscitava dúvidas sobre a autenticidade de todos os seus escritos . A discussão animava-se, sem qualquer progresso, entre Nizzoli e Majoragio . O primeiro a reunir os principais textos e que buscou determinar as regras da crítica foi Pratrizzi, o sábio porém parcial autor das Discussiones Peripateticae . Um século e meio mais tarde apareceu na França uma dissertação anônima onde finalmente chegamos ao nó da questão: ela questionava, através duma engenhosa argumentação, o relato, admitido há muito sem contestação, de Estrabão e de Plutarco, sobre o destino dos manuscritos de Aristóteles. Este livro, esquecido desde então, indicado atualmente por Stahr, que o conheceu através duma análise , era obra do beneditino D. Liron. – A crítica alemã, agora e sempre, soube logo se valer deste avanço. Schneider destrói para sempre a tradição vulgar das Epimetra, em sua edição da História dos animais; Brandis e depois Kopp ampliaram o escopo da aplicação desta questão, generalizando o que somente se aplicava a uma das obras de Aristóteles. Enfim, Stahr recentemente tratou a fundo tudo o que concerne à história de Aristóteles e de seus escritos, com tanta sagacidade quanto erudição. – Tais são os principais trabalhos donde baseamo-nos para pesquisas ulteriores.

Comecemos por reproduzir integralmente os relatos que provocaram a controvérsia. Eis o de Estrabão :

Em Scépsis nasceram Corisco e seu filho Nélio; discípulo de Aristóteles e Teofrasto, Nélio herdou a biblioteca de Teofrasto, da qual a de Aristóteles fazia parte; Aristóteles (o primeiro, que eu saiba, que colecionara livros , e ensinava aos reis do Egito a organizar uma biblioteca) deixara ao morrer sua biblioteca e sua escola a Teofrasto. Teofrasto então deixa os livros a Nélio. Esse, levando-os a Scépsis, transmitiu-os aos seus herdeiros, gentes ignorantes, que os deixaram fechados e amontoados em desordem. Quando vieram a saber com qual ardor arremetiam os Atales, a quem sua cidade rendia tributo, na busca de livros para a biblioteca de Pérgamo, eles esconderam os seus sob a terra, numa caverna, onde foram corroídos pela umidade e pelos vermes. Muito tempo depois, seus descendentes venderam, por um alto preço, a Apelicão de Téos os livros de Aristóteles e os de Teofrasto. Ora, esse Apelicão era mais bibliófilo que filósofo (philóbiblos malloi he philósophos). Desejando restituir o que estava deteriorado, ele transcreveu os livros, preenchendo-lhes precariamente as lacunas, e os publicou cheios de erros. Assim, os antigos peripatéticos, os sucessores de Teofrasto, não possuíam tais livros, com algumas poucas exceções, e, ainda que [alguns desses livros fossem] exotéricos para a maioria, [os tais filósofos] não conseguiam filosofar seriamente, limitando-se às amplificações sobre um tema dado . Aqueles que vieram em seguida, quando os livros lhes apareceram, foram melhores na filosofia e no aristotelismo, porém forçados a falar freqüentemente por conjeturas, devido à multidão de erros. Roma recolheu vários desses volumes: logo após a morte de Apelicão, Sila levou a biblioteca ao conquistar Atenas, transportando-a para Roma. Lá, ela passa para as mãos do gramático Tirânio , que gostava muito de Aristóteles e ganhara um bibliotecário; os livreiros serviam-se freqüentemente de cópias defeituosas que não catalogavam, e que chegavam diariamente junto com os outros livros que punham a venda, seja em Roma, seja em Alexandria.

Passemos agora ao relato de Plutarco :

Sila trouxe para si a biblioteca de Apelicão de Téos, onde se encontrou a maioria dos livros de Aristóteles e de Teofrasto, ainda pouco conhecidos pelo público. Dizem que quando a transportaram para Roma, o gramático Tirânio lhe arrebatou a maior parte; Andrônico de Rodes adquiriu suas cópias, as quais publicou, organizando os índices que até hoje circulam. Os antigos peripatéticos pareciam ser homens doutos e letrados, mas conheceram apenas, senão imperfeitamente, um pequeno número de livros de Aristóteles e de Teofrasto , pois a herança de Nélio de Scépsis, a quem Teofrasto deixara os livros, caiu em mãos de gentes negligentes e ignorantes.

Antes de ir além, examinemos a relação entre os dois relatos. O segundo é evidentemente uma abreviação do primeiro; porém encontramos nele diferenças consideráveis. Não mencionemos o silêncio de Estrabão sobre Andrônico: podemos explicar, juntamente com Schneider, considerando a última frase como mutilada; falamos duma diferença geral no modo em que ambos os autores expuseram os mesmos fatos. Plutarco exprime-se com uma reserva cheia de dúvidas; não chama para si a responsabilidade da tradição: não é mais que um alguém disse, légitai; não nega que a maioria dos livros de Aristóteles jamais vieram ao conhecimento dos sucessores de Teofrasto: contenta-se em dizer que eles eram pouco conhecidos do público (oute tote saphos gnorizomena tois pollois); não acusa os antigos peripatéticos de estarem limitados às declamações frívolas, e finalmente, passa rapidamente pela história de Nélio e seus herdeiros, como para desobrigar-se de insistir em algo tão pouco verossímil. Ao contrario, as palavras de Estrabão estão repletas duma exageração que, em vários trechos, parece um tanto passional . Ora, sabemos que ele recebera lições de Tirânio , e que estudara filosofia peripatetica com Boécio de Sidon, quer dizer, com um aluno, e talvez mesmo na própria escola de Andrônico de Rodes . Não é evidente que ele busca diminuir o mérito do trabalho de seus mestres, exagerando a ignorância daqueles que possuíram antes destes os principais escritos dos fundadores do Liceu? Talvez a fonte esteja realmente desinteressada pela questão, e somente por isso, merece mais crédito.
[...] Andrônico de Rodes escrevera [um livro] sobre Aristóteles e suas obras. Plutarco mostrou conhecer este livro ao referir-se às cartas de Aristóteles e de Alexandre, cartas estas que Aulio Gálico declara tirar ex libro Andronici philosophi . Seria possível que Estrabão e Plutarco se baseassem numa fonte comum, um tanto suspeita, mas que o primeiro dispunha-se a confiar [...]?
Agora, iremos ver uma tradição totalmente diferente. O compendiador Ateneu diz, no final do Banquete dos sofistas :

“... Nélio herda os livros de Aristóteles (e de Teofrasto): Ptolomeu Filadelfo os comprou todos, e os transportou com os que vinham de Atenas e de Rodes para Alexandria”.

Esta tradição parece ser a primeira abordagem a contradizer aquela de que falamos acima. Contudo a contradição não diz respeito à história de toda a biblioteca de Teofrasto, pois Estrabão e Plutarco nada nos dizem, senão que ela passou às mãos de Nélio; na seqüência de seu relato, falam apenas dos manuscritos de Aristóteles e de seu sucessor; foram tais manuscritos que Apelicão comprou e que foram trazidos por Sila.
Se supormos com Vossius que Nélio vendeu a Ptolomeu sua biblioteca exceto os manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, ambas as tradições poderiam concordar. Mas esta conjetura contradiz Ateneu num ponto mui importante, porque, segundo este, os livros que Nélio herdara foram vendidos à biblioteca alexandrina; como os escritos de Aristóteles e Teofrasto, quer dizer, a parte mais importante da coleção, aquela a qual Ptolomeu dava mais valor, não estavam inclusas na transação antes das demais? Só resta esta segunda hipótese : Nélio vendera cópias a Ptolomeu e transmitira aos seus descendentes os manuscritos originais. O relato de Ateneu concorda com a parte histórica daquele de Estrabão. Quanto ao que Estrabão acrescenta sobre o pouco conhecimento que tinham os peripatéticos das principais obras de seus mestres, nada mais é que uma conclusão, que a crítica pode discutir e combater. É o que de fato fez e, parece-nos, com sucesso.
Vejamos a frase de Estrabão sobre a qual se dá, em realidade, toda a discussão: Sunebe de tois ok ton Peripaton, tois men palai tois meta Theophraston, holos ouk ekousi ta bíblia, plen oligon, kai malisa ton exotérikon; Estrabão não nos diz em que sentido empresta a expressão exotéricas; mas está claro, e isso nos basta, que ele a entende como as obras menos importantes, seja pelo fundamento, seja pelo método. Destaquemos ainda que Estrabão alerta implicitamente que os livros exotéricos não eram os únicos conhecidos antes de Apelicão: “Entre o pequeno número daqueles que as possuíam, a maioria, disse, estavam exotéricas”. Plutarco serviu-se de termos mais vagos, e não estabeleceu nenhuma distinção deste gênero.
Ora, temos provas mais ou menos diretas de que em Alexandria era conhecida uma grande parte das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Segundo o próprio Estrabão: “Aristóteles ensina os reis do Egito a organizar uma biblioteca”. Isto não quer dizer que dava instruções diretas a este jaez; o primeiro Ptolomeu não pôde começar formar sua biblioteca de Brucheion ??? senão após a batalha de Ipsus (301 a. C.), a qual se deu 21 anos após a morte de Aristóteles (322) . Isto significa que ele instruía os reis do Egito através de seu exemplo; por conseguinte, sua biblioteca não lhes era desconhecida.
Segundo vários autores antigos, foi Demétrio de Falera que, sob os dois primeiros Ptolomeus, estava a frente da biblioteca de Alexandria . Era amigo de Lagus, a quem generosamente acolhera ; era também amigo de Teofrasto, e foi este que aconselhara ao rei do Egito convidar este filósofo à sua corte . Como não obteria de seu amigo cópias destes livros, sobretudo os de Aristóteles, para a coleção que estava encarregado de formar?
Filadelfo tinha, para enriquecer sua biblioteca, mais ardor que seu pai, buscando por todos lugares, dizem-nos, as obras de Aristóteles, pagando por elas altos preços . Ele recebera a lições de Estratão de Lampsaco , o sucessor imediato de Teofrasto na direção do Liceu, e que certamente conhecia a fundo os escritos de seus predecessores. Ptolomeu devia receber tais escritos diretamente dele, ou entrar através de seu intermédio em contato com Nélio. Mais ainda, segundo o comentador David , este Ptolomeu Filadelfo comporá uma biografa de Aristóteles onde fornece um catálogo de suas obras. Este as contava, acrescenta, em vários milhares. Este número absurdo encontrará uma explicação, e tornar-se-á uma prova a mais para a tese que sustentamos. Amônio, Simplicio, João Felipônio, David, Galeno , avisam-nos que a prodigalidade de Filadelfo encorajou as falsificações; que de todos os lugares traziam-lhe supostos livros sob o nome de Aristóteles, e que por tal encontra-se na Grande biblioteca dois livros das Categorias e até quarenta dos Analíticos. Ptolomeu tinha, sem dúvida, registrado tudo o que se acumulava em Alexandria, talvez mesmo tudo o que possuíam em Pérgamo, e tudo o que os demais catálogos pudessem enumerar.
Ora, destes fatos tiram-se duas conseqüências importantes. A primeira é que tínhamos em Alexandria várias das principais obras de Aristóteles: ninguém pode negar que as Categorias e os Analíticos estejam entre esses números; a segunda é de que a biblioteca de Nélio não era considerada como a única fonte donde podia-se tirar as obras de Aristóteles: a esta hipótese, qualquer tentativa de falsificação seria inútil. Desta feita, nada afiança-nos de que não tinham semelhante opinião. João Felipônio parece afirmar o contrário, de que foi em bibliotecas diversas que recolheram os quarenta livros dos Analíticos que foram levados a Alexandria . Vemo-lo também pelo Cânon dos gramáticos alexandrinos , que sucessivamente os adicionavam, na medida que adquiriam novos documentos, à lista de escritos de Aristóteles.
Por outro lado, os principais discípulos de Aristóteles, dos quais Eudêmio e Fânias, escrevem “por vontade de seu mestre”, diz Amônio, a respeito dos temas que tratara, e mesmo os títulos que escolhera, sobre as Categorias, os Analíticos e o Da Interpretação . Eudêmio também escrevera sobre a Física e sabemos positivamente que ele possuía a Phisike Acroasis, pois Teofrasto, numa carta que Simplicio nos conserva um fragmento, envia-lhe uma retificação duma passagem do livro quinto, a qual lhe pedira . Falaremos ainda mais das tradições relativas à Metafísica. – Estratão “o corifeu da escola peripatética ”, Dicearco, que Cícero põe ao lado de Aristóteles e de Teofrasto , não foram versados na leitura do escritos de seus mestres? O acadêmico Xenócrates, que escrevera vários livros com títulos similares aos de Aristóteles, cujas doutrinas refutava; o megárico Eubúlido que intitula um seu dialogo: Aristhoteles; Hermaquio, o sucessor de Epicuro, que fez um livro contra Aristóteles: Pros Aristhotelen ; os estóicos que seguiram-no e combateram-no tão freqüentemente em sua lógica , e que lhe pegaram emprestada uma parte de sua física e de sua moral ; todos estes filósofos de diferentes seitas e épocas poderiam ignorar as suas mais importantes obras?
Ao demais, só podemos indicar aqui os principais pontos que Schneider, Brandis, Kopp e Stahr estabeleceram através de numerosas pesquisas e engenhosas induções. Contetemo-nos de enunciar sumariamente os resultados: os livros de Aristóteles sobre Lógica que havemos citado, seus principais tratados sobre a ciência da natureza, como a física, a História dos animais, a Moral, vários de seus escritos sobre Política, seus livros de Retórica, foram conhecidos, comparados e refutados antes da época de Apelicão de Téos.


Capítulo II
Dos trabalhos de Apelicão e de Andrônico sobre as obras de Aristóteles


A que se resumem as publicações que Estrabão e Plutarco atribuem a Andrônico?
Notemos antes de tudo que Cícero não nomeia sequer uma vez um ou outro, que não faz a menor alusão à pretendida descoberta das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Todavia fala em várias ocasiões destes dois filósofos e do mérito de seus sucessores; diz até nalguma parte que os peripatéticos distanciaram-se a tal ponto da doutrina primeva do Liceu (degenerant) “que pareciam se terem gerados” . Não era o momento de apontar a razão, se a enxergara, junto com Estrabão, da impossibilidade de saber sobre fontes primeiras do peripatetismo? Não podemos esquecer que Cícero tinha ligações com Tirânio, que dava lições ao filho daquele e pôs em ordem sua biblioteca , e que recebera lições do estóico Diódoto, irmão de Boécio, discípulo de Andrônico e condiscípulo de Estrabão . Se, contudo, os trabalhos de Apelicão e Andrônico não mereceram dele qualquer menção, não é prova de que não lhes emprestava grande importância?
Tentemos agora determinar duma maneira direta em que consistem tais trabalhos.
Temos dito que os diferentes relatos, senão opostos, dos historiadores reconciliam-se denodadamente à hipótese em que a biblioteca de Alexandria não adquirira senão cópias dos manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, tanto que Nélio transmitira os originais aos seus descendentes. Ora, Ateneu nos adverte que Apelicão tinha pelos autógrafos uma tal paixão, que ele violou o templo da Mãe dos Deuses a Atenas, a fim de perscrutar as antigas peças que ali estavam depositadas, para procurar sobretudo obras de Aristóteles e documentos de filosofia peripatética em geral . Estas anedotas tornam verossímil a suposição de que os manuscritos que ele comprou em Scépsis eram ou os autógrafos de Aristóteles e de Teofrasto, ou pelo menos cópias de grande antiguidade: o que não é verossímil é que todas as obras de Aristóteles e Teofrasto estavam ali; é crível, pelo contrário, que ali havia somente uma pequena parte. De fato, segundo o relato de Estrabão, Apelicão transcrevia todos os manuscritos que comprava; um imenso empreendimento, se se adquirira todos ou quase todos os escritos de Aristóteles e de Teofrasto, aqueles que conhecemos e aqueles que a antiguidade conhecia e não mais possuímos. Além disso, acrescenta, como a umidade e os vermes destruíram algumas passagens, Apelicão preencheu todas estas lacunas. Aqui torna-se impossível admitir que seu trabalho haja abrangido um jaez desta magnetude . Em segundo lugar, qualquer temerário que queira supor tal crítica, da qual Aristócles de Messena fazia muito caso, não pode crer que ele haja empreendido tamanho trabalho de restituição sem ter sob as vistas outros manuscritos que viessem em socorro dos seus.
Porém, fala Estrabão, a edição fornecida por Apelicão era de tal modo falha que o leitor, para entender o texto, estava na maioria das vezes reduzido à conjeturas (ta polla heoichota legein). Em Roma, a negligência dos copistas aumenta consideravelmente o número de falhas. De ambas asserções, tira-se duas conseqüências.
Primeiro, não é exato dizer, como sempre repetem sem provar, que Andrônico dera uma edição verdadeira de Aristóteles . Bem longe de querer fixar ao tempo de Tirânio e Andrônico a época da restituição do texto alterado por Apelicão, Estrabão diz que “Roma colabora muito às falhas”. Por outro lado, o texto de Aristóteles não estava, ao tempo de Alexandre de Afrodisia, em tão mau estado como no-lo representa Estrabão. É no intervalo que vai de Andrônico a Alexandre que esse texto foi corrigido; ora, não poderia sê-lo senão com o auxilio de novos manuscritos, ainda díspares, ao que parece, dos quais aqueles que colecionara Apelicão .
Reunamos os testemunhos que nos vieram a respeito da natureza e do valor dos trabalhos de Andrônico de Rodes.
Plutarco diz somente que dará publicidade às cópias que obteve de Tirânio, e que compôs tabelas e índices . Porfírio, que dividiu em Enéiadas os tratados de Plotino, declara imitar “Apolodoro, que divide em dez seções as comedias de Epicarmo, e Andrônico o peripatético, que classifica por ordem de assunto os livros de Aristóteles e de Teofrasto, reunindo num volume tratados parciais sobre o mesmo assunto” . Deste modo, Andrônico de Rodes espalhou os escritos de ambos filósofos nas Pragmateias; ele os reuniu em pequenos tratados avulsos; confeccionou um catálogo completo. Finalmente, consigna os resultados de seu trabalho numa obra em vários livros, onde trata por alto da vida de Aristóteles e de Teofrasto, da ordem e da autenticidade de seus escritos. [Este trabalho] foi o resultado de diversos testemunhos, aos quais nos reportaremos para tirar algumas conclusões.
“Encontramos na obra de Andrônico, segundo Amônio, o testamento de Aristóteles ; e segundo Áulio Gálico, as famosas cartas de Alexandre a Aristóteles e de Aristóteles a Alexandre ”. 2° Segundo o autor árabe da Biblioteca dos filósofos, o quinto livro continha as cartas de Aristóteles, além do índice de seis escritos . 3° Uma glosa que se encontra nos manuscritos do final da Metafísica de Teofrasto, avisa-nos que Andrônico fizera paralelamente uma lista das obras deste filósofo . 4° Na organização das Pragmateias pôs a Lógica a frente de todas as outras [obras] . Na própria Lógica, colocou as Categorias logo antes dos Tópicos . 6° Enfim, noutro arranjo das Pragmateias em geral e das partes pelas quais a compôs, ele busca determinar a ordem e a constituição de cada obra em particular. Conclui-se de diversa passagens de Simplício de que foi Andrônico que reuniu definitivamente os três últimos livros da Física aos cinco primeiros. 7° Ele noticiam o fato dos dois livros das Categorias na biblioteca de Alexandria: é a Andrônico que David o Armênio declara publicá-los . 8° Andrônico considerava como apócrifos o apêndice das Categorias (hypotheoria) , e o tratado Da Interpretação . 9° Escrevera os comentários sobre a Física e as Categorias , e um livro sobre a Divisão que Plotino tinha em consideração .
É provável que Andrônico de Rodes servia-se para a composição da parte biográfica e bibliográfica de seu livro, dos escritos dos alexandrinos Hermipo e Ptolomeu: encontramos nestes dois autores o testamento e a lista dos escritos de Aristóteles . Ele também devia empregar uma fonte mui recente, o livro de Apelicão, estimado por Aristócles, como já dissemos.
Mas parece que nem esses autores nem seus investigadores forneceram-no o critério da autenticidade das obras de Aristóteles. Não se baseava, para rejeitar o tratado Da Interpretação, em provas exteriores, históricas, mas num argumento retirado de dentro da própria obra, sobre a pretensa inexatidão duma citação do tratado Da Alma; Alexandre de Afrodisia refuta-o vitoriosamente . Porfírio paralelamente defendia contra ele o apêndice das Categorias . Todavia se Andrônico ou Apelicão poderiam consultar os manuscritos tirados da biblioteca de Aristóteles e de seus discípulos imediatos, fora uma escolha mui grave para quem lhes silenciou, mais ainda, se este manuscritos eram únicos; nenhum comentador jamais os citou. Estamos no direito de concluir deste silêncio que, a respeito das grandes obras das quais nos restam comentários preclaros e extensos, nenhuma delas foi descoberta e publicada pela primeira vez por Apelicão ou Andrônico. Assim, quando Boécio fala deste : “quem cum exactum diligentemque Aristotelis librorum et judicem et repertorem judicarit antiquitas, etc.”, não é exagero quando lhe alcunha o epíteto de repertor. Se Andrônico encontrara a Metafísica, a Física, os Analíticos, os Tópicos, a Meteorologia, os tratados dos Sofismas, o Da Alma, o Do Céu, e o Da Geração e Da Corrupção, certamente Alexandre de Afrodisia, Simplício, Amônio, Filopão não nos deixariam na ignorância. Talvez pesquisas ulteriores revelassem quais fossem os opúsculos ou fragmentos que ele pôde descobrir nas bibliotecas dos grandes de Roma; mas até o presente não temos qualquer indício deste fato.
Quando à ordem a qual dispõe os livros de Aristóteles, seu traço ainda subsiste: seu discípulo Boecio de Sidon pensou que Pragmateia Physique devia ser posta antes da Pragmateia Logique ; a opinião de andrônico prevaleceu. Será verdade, como supõe Brandis , que a ordem e as divisões que adotara Andrônico sejam as mesmas que serviram de base a nossa mais antigas edições? Stahr crê achar a prova desta conjetura numa noticia encontrada por Bekker a respeito dalguns manuscritos da Retórica, e que atesta a existência de duas divisões diferentes: uma (em quatro livros) usada pelos gregos, outra (em três) pelos latinos ; ora, esta é a divisão feita em todas as edições.
A denominação de latino pode aplicar-se a Andrônico? Não, pois Andrônico é um escritor grego. Suponhamos que os latinos adotaram esta divisão, e que os gregos seguiram outra? Cremos poder dar a prova em contrário: as mais antigas edições partem em dois livros o tratado Dos Sofismas, e segundo uma nota que encontramos na margem de uma tradução latina, e que certamente fora retirada dalgum manuscrito, esta divisão era aquela dos latinos , tanto que Alexandre de Afrodisia não faz da obra inteira um só livro. Do mesmo modo os comentaristas gregos contam na Metafísica apenas treze livros; os latinos contam catorze ; o 1°dos gregos é para eles o 2°, e assim por diante. Enfim, o tratado Da Interpretação está dividido em dois livros em vários manuscritos e nas edições de 1496, 1544, 1551, 1578, etc., como admitida por Boécio , que divide igualmente em duas partes o livro Dos Sofismas , é verossímil que ainda trata-se da divisão latina. Agora, não há uma grande probabilidade de que a divisão latina não seja aquela de Andrônico de Rodes? Fundamentamo-nos numa prova negativa da qual já servimo-nos e que possui, ainda, a força dum argumento positivo: se os comentadores gregos não se puseram em oposição com Andrônico sobre a divisão das obras de Aristóteles, não se imiscuiriam de expressar e discutir sua opinião, como o vimos fazer sobre as questões de ordem de autenticidade. Ainda destaquemos en passant que os comentadores gregos parecem concordar de forma geral com Adrasto, o autor de Peri tes taxeos ton Aristotelous suggrammaton, e este, na medida que o sabemos, não desgostava da maneira de ver de Andrônico . Assim, parece que é preciso adotar uma opinião oposta àquela de Stahr: a divisão grega era geralmente conforme àquela de Andrônico. Faltará determinar a origem da divisão latina; inclinamo-nos a pensar que é preciso vinculá-la a uma época mais recente, àquela dos tradutores e dos comentadores latinos de Aristóteles, entre os séculos 4 e 6, de Vitorino à Boécio . Poderíamos ter tentado crer que pela palavra Latinos, não deveríamos entender senão escolásticos, e que as noticias transcritas por Bekker são originas em copistas modernos. Porém a divisão em questão é anterior à Idade Média, porque ela se encontra em Boécio e é seguida pelos árabes e pelos dois mais antigos comentaristas escolásticos de Aristóteles, Alberto O Grande e Santo Tomás. Além disso, Alberto o Grande discute em mais de uma ocasião a interpretação de certos philosophi latini que ele opõe aos gregos, e que designa como posteriores a Temistio . Ao demais, não temos nossa conjuntura mais que uma conjuntura; é necessário obter novos ensinamentos sobre esta escola latina que a história quase esqueceu, de cuja será mui interessante reencontrar as marcas.
Se nos volvemos à hipótese de Brandis, achamos que precisa dalgumas modificações. É verdade que a ordem estabelecida ou conformada por Andrônico de Rodes parece ser a mesma, de forma geral, que a das nossas edições, no sentido de que este é geralmente idêntico com aquele dos comentadores gregos, que por seu lado seguem Andrônico; aquela dos Latinos não difere senão em pontos pouco relevantes. Mas quando existem disparidades, as antigas edições estão concordes às edições dos Latinos.


Capítulo III
Da história da Metafísica de Aristóteles

Agora podemos passar da história dos escritos de Aristóteles em geral para a historia da Metafísica, e da discussão dos problemas relativos à autenticidade e à ordem desta obra, em seu conjunto como em suas partes.
Em qual época a Metafísica foi conhecida pela primeira vez? Tal resultaria das cartas de Aristóteles e Alexandre das quais tivemos ocasião de falar, onde o primeiro, por espontânea vontade, deu à publicidade uma parte de suas obras, as quais a antiguidade designara o nome de acroamáticos. Ora, Plutarco pretende que por esta expressão entendamos a Metafísica . Antes de decidirmos qualquer coisa, citemos ambas as cartas:

De Alexandre a Aristóteles: Não fizeste bem a ti ter publicado teus escritos acroamáticos. Em que nos distinguiríamos dos outros, se a doutrina na qual fomos elevados tornar-se comum a todos? Eu apreciaria mais sobrepujar os demais pelo conhecimento das coisas mais altas que pelo poder. – Aristóteles a Alexandre: Escreveste-me a respeito dos tratados acroamáticos, pensando que seria necessário tê-los secretos; pois saiba que eles estão e não estão publicados: só são inteligíveis para os que me escutaram.

Se bem que esta correspondência fosse noticiada por Andrônico, e que os três autores que transmitiram-na após ele não lhe põem dúvida à autenticidade, contudo o caráter do pensamento e do estilo basta para ter forte suspeita – poderia mui bem ter sido fabricada, como a carta que forma a introdução da Retórica de Alexandre, por este creditar em face aos reis de Pérgamo e do Egito qualquer obra de Aristóteles, verdadeira ou suposta, que quisessem vender-lhes. Porém sempre permanecerá o fato de que o autor desta hipótese considerara como verossímil a publicação, por Aristóteles, de seus tratados acroamáticos, e que Andrônico, Plutarco, Áulio Gálico e Simplício pensaram a mesma coisa . Desta feita, mesmo que tais cartas sejam autenticas ou não, o que nos importa saber é se à Metafísica que fazem alusão. Nós logo notamos que se trata da questão dos livros acroamáticos em geral (tos akroamatikous e não simplesmente akroamatikous, sem artigo), o que parece dever estender-se a todos os livros deste gênero que foram escritos por Aristóteles até à época desta correspondência. Se, ao observarmos melhor, não é preciso entender akroamatikous em seu sentido mais restrito, mas em só aplicá-lo à ciência mais excelsa e mais difícil; é o que dá a entender estes termos de Alexandre: peri ta arista, e a resposta de Aristóteles. Poderia ser sobre a Metafísica e a Peri Philosophias, quem têm por objeto a Filosofia Primeira, ou somente a uma destas duas obras.
Iremos ver outros testemunhos que só podem tratar da Metafísica .
Lemos no comentário, ainda inédito, de Asclépio de Trales sobre a Metafisica:

A presente obra não possui a unidade dos demais escritos de Aristóteles, pois falta ordem e encadeamento. Ele deixa a desejar em relação à continuidade do discurso; encontramos nela passagens emprestadas de tratados que versam outros assuntos; freqüentemente a mesma coisa é dita e redita muitas vezes. Alegamos com razão, para justificar o autor, que após ter escrito este livro ele o enviou a Eudêmio de Rodes, seu discípulo, e que este não creu que ele lhe propôs publicá-lo, no estado em que estava, uma tão relevante obra; todavia Eudêmio veio a morrer, e o livro sofreu várias correções. Aqueles que vieram em seguida, não ousando corrigir seu mestre, puseram, para preencher as lacunas, trechos de outras obras, e a reorganizaram melhor que puderam .

Assim, o livro de Aristóteles não apareceu senão depois da morte de Eudêmio, que aceitara a revisão. Asclépio acrescenta que muitos atribuíram o primeiro livro da Metafísica a Pásicles, filho de Boécio, irmão de Eudêmio, e também discípulo de Aristóteles . Encontramos este trecho de seu relato reproduzido em João Felipônio, com algumas diferenças, é verdade: aqui, em vez do primeiro livro, A, é o segundo, a; em vez de Pásicles, Pasícrates; ao invés de Boécio, Boneus ; porém as diferenças de nome próprio não têm importância, pois só conhecemos o comentário de Felipônio através duma péssima tradução latina; o texto original provavelmente trás Pásicles e Boécio. Ora os comentários de Asclépio e de Felipônio possuem relevância histórica; estes são, propositadamente, as redações das lições de amônio, que tinha reunido curiosas observações sobre a historia da obra de Aristóteles. Enfim, se o relato de Asclépio deixa qualquer dúvida, poderíamos nos apoiar numa passagem de Alexandre de Afrodisia que lhe dá uma indicação indireta, informando-nos que Eudêmio revisou e corrigiu o texto da Metafísica . Brandis já conjeturara que o relato de Asclépio era tirado do de Alexandre. Poderia dizer que foi retirado de qualquer parte deste precioso comentário hoje perdido, do qual possuímos apenas os cinco primeiros livros .
Finalmente, toda esta tradição é somente verossímil. Eudêmio era o mais fiel discípulo de Aristóteles, aquele que reproduzia o mais exatamente suas doutrinas . Era natural que fosse para ele que Aristóteles confiasse a revisão de sua obra, como lhe confiou provavelmente a redação ou a revisão de uma de suas Morais, que ainda trás o nome de Eudêmio .
Assim, a primeira parte do relato de Asclépio pode ser considerada como totalmente autentica. Pra ela estabelece a autentividade da Metafísica de Aristóteles em geral. Ao mesmo tempo prova que a principal obra de Aristóteles não foi ignorada por seus discípulos, destruindo a exagerada refutação de Estrabão.
Quanto à segunda parte, reina um suspense e uma incerteza consideráveis. Asclépio não determina nem a causa nem a natureza do sinistro que sofreu o manuscrito da Metafísica, nem a época em que trataram de concertá-la. É evidente que ele não tem nenhuma autoridade sobre a qual apoiar-se com confiança. Poderemos ser tentados a crer que ele contenta-se em dar alguma curta citação do relato de Estrabão; ms tal suposição não se conciliaria com a precedente. Se a Metafísica foi enviada a Eudêmio por Aristóteles, ela não passou ao poder de Nélio pela herança de Teofrasto, e ficar escondida até a época de Sila. É mui verossímil que os metaginetiros de Asclépio devem ser referidos à uma época anterior a Apelicão; também é bastante verossímil, de fato, que Eudêmio comunica a obra do mestre aos seus condiscípulos, e que estes trabalharam com ele e após, para preencher as lacunas. Viemos a dizer que o livro foi atribuído a Pásicles: era uma tradição entre os Árabes que uma parte do primeiro livro foi reunida por Teofrasto ; enfim, Teofrasto escrevia uma Metafísica da qual veio-nos à mão um dos fragmentos . Se os peripatéticos não se dedicaram a contínuos trabalhos de interpretação sobre a Metafísica de Aristóteles tanto como sobre a Física e a Lógica, não é preciso espantar-se. Por um lado, a Metafísica nunca foi completada; por outro, o Liceu tendia a cada dia distanciar-se cada vez mais das altas especulações. Eis porque, desde o tempo de Eudêmio e de Teofrasto até o século de Augusto, não encontramos mais uma só menção, direta ou indireta, à Metafísica.
Não é preciso concluir nada do silêncio de Cícero, pois, na sua época, o livro era totalmente inédito. Não fala sequer das Categorias e dos Analíticos. Nesta época, o próprio nos comprova, os filósofos mal conheciam Aristóteles , porém Platão e os Socráticos eram acessíveis a todos . Os Tópicos ainda pareciam obscuros , estes mesmos que Simplício diz, com razão, serem das obras de Aristóteles mais fáceis de se compreender . Cícero queria, além do mais, tão-somente aplicar à filosofia a pratica da vida pública e privada, e não recorria aos livros que não se recomendassem pelo mérito literário, pela facilidade e pela elegância da exposição . Mesmo que tivesse em suas mãos a Metafisica, estaria pouco disposto a lhe sondar as obscuras profundidades; limita-se a uma rápida leitura e a uma intelecção superficial do Peri Philosophuas .
Quanto a Apelicão e Andrônico de Rodes, nada nos garante que não tenham feito um trabalho especial sobre a Metafísica. Logo após andrônico, chegam os comentadores. Foi Eudoro, seu discípulo, que se dedica à critica do texto; em seguida Evarmostos, que não conhecemos senão pela menção que lhe faz Alexandre de Afrodisia ; enfim, um filosofo célebre da época de Augusto, Nicolau de Damas, que parecia ter composto um livro intitulado: Theoria ton Aristhotelous mata ta physika ; é aqui que encontramos pela primeira vez este singular título de meta ta physika, que a obra de Aristotels ainda conserva.
Este fato fornece a prova daquilo que tanto repetimos desde Patrizzi, que o título da Metafísica é de Andrônico de Rodes? É verdade que o título que Aristóteles destinava ao seu livro era aquele de Filosofia Primeira; deixando-a incompleta, só pode pôr-lhe esta simples inscrição: O que vem depois da física; para ele, de fato, a ciência do ser absoluto é o fim e o coroamento da ciência da natureza. Ou, se não queremos admitir com Amônio que este título seja mesmo de Aristóteles , será entre os discípulos imediatos que devemos procurar o autor. O título de Metafísica encontra-se no cabeçalho dum fragmento sobre a filosofia primeira, de Teofrasto, citado por Nicolau de Damas; ora, desta feita, é impossível atribui-lo a Andrônico, pois ele não conhece esta obra. Acrescentemos que a denominação de meta ta physica apresenta em sua simplicidade um caráter antiquado: um comentador grego do tempo de Augusto certamente escolheria um outro título.
Entraremos agora na questão, obscura e complexa, da autenticidade da Metafísica.

Um comentário:

Luiz de Carvalho disse...

Que tradução ruim! E como está empombado o exórdio a esta coisa!