quinta-feira, julho 28, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal

Apresento-vos uma de minhas primeiras traduções; embora pobre em estilo e um tanto claudicante, as idéias estão todas aí, para vosso proveito. Peço-vos comunicar-me todos os erros que porventura encontreis neste capítulo (o primeiro de muitos, espero) que ora se vos dá.

À memória de

CHANOINE RENE POIGNET
(1885-1962)
doutor em teologia,
doutor em filosofia,
doutor em Direito Canônico;

e de ROBERT LEJEUNE (+ 1940)
doutor em Letras,
antigo aluno da Escola de Atenas, grande humanista, e meu mestre de latim,

que fazem parte, ambos, das “figuras votivas” de minha infância e adolescência, à casa de meu pai.



A língua latina tem a natureza das
coisas que só devem perecer
à ruína do mundo

Jean BELOY
Jurista Parisiense (1637)


Prólogo

Há vários anos, a cristandade está perturbada devido a um acontecimento inesperado: aproveitando a ocasião de algumas reformas aconselhadas pelo Concilio Vaticano II, uma grande parte do clero católico instaura subitamente liturgias em línguas nacionais e mesmo dialetais, num universo ainda ferido pelos estilhaços das guerras. As numerosas publicações de então expuseram que o próprio texto redigido pelas autoridades conciliares não exigia esta verdadeira revolução e que o latim permanecia a língua da Igreja Católica Romana.[1]
Queremos abordar neste livro um outro fenômeno, mais especial e menos limitado. Queremos estudar o processo do abandono geral do latim nas sociedades ocidentais, há três séculos. Pois, em nossa opinião, a experimento de um clero de “vanguarda” não é uma manobra que concerne somente à Igreja, ou aos seus problemas pastorais. Este experimento diz respeito ao mundo inteiro: ele apenas continua ou arremata uma ação cujas origens é muito importante conhecer objetivamente.
Em todos os períodos de crise e revolução, vemos, infelizmente, confrontarem-se dois partidos igualmente inimigos das convenções: os progressistas radicais, que desejam a destruição e o desarraigamento sem limites; e os tradicionalistas, que respondem por uma veneração ao passado, excluindo toda discussão e nuance. Nenhum diálogo é possível entre esses dois campos, pois o movimento e progresso de um provoca o recrudescimento imediato e cada vez mais intenso do outro.
Ora, a primeira tentativa de uma discussão objetiva consiste em conhecer bem o debate. E nós sustentamos que no seu desenrolar, este escapa de todas as formas do terreno puramente religioso. Interessa à História, a História do mundo, pois a glória menos inconteste de Roma é a de ter sido berço da civilização universal. Roma não foi uma nação (da qual, há muito tempo, nada resta): ela inventou um Império; reina sobre o Ocidente e Oriente. Descobre o meio de fazer viver reunidos os povos e as diversas civilizações, transmitindo assim um ensinamento imortal para ordem de toda cidade humana.
A atual reviravolta, cujo palco é a Igreja, toma uma caráter diverso do de um debate que só interessa a cristãos quando damos a palavra aos detratores e aos defensores do latim, nos últimos três séculos.
Pois a sociedade laica tem suas responsabilidades no que acontece hoje: e as têm bem grandes. O assalto de um certo clero contra o latim dá prosseguimento a um abandono cujo palco é a sociedade civil ocidental há quase três séculos. E este assalto não teria uma tal amplidão e rapidez, sem as previsíveis renúncias...
Não pomos em causa, de forma alguma, o dogma da Igreja, mas o simples problema do recrutamento do clero e de sua formação. Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, afirma que os homens, no exercício das virtudes, são ajudados pela forma da sociedade a qual pertencem... e que pouquíssimos homens, ao contrário, sabem resistir à pressão exercida sobre si pela moral comum e pelas instituições...
Observamos, felizmente, que, a respeito do problema do latim, não são somente os católicos que se alinham na defesa de seus redutos, mas todos os civilizados cônscios de que ainda pertencem ao universo.
Ao final deste século, um grande humanista escreveu: “A questão é saber se, em lugar da mistura moderna de povos, de raças, de civilizações, confundindo-se e interpenetrando-se por todas as partes, a civilização latina deve possuir uma obra distinta, cultivar suas características fundamentais e, como diz o filósofo, preservar em seu ser”.[2]
Por sua vez, em 1910, o grande escritor italiano Guglielmo Ferrero, comemorando a fundação da Cidade, constatava: “A história de Roma começa pela ordem. Ela não começa pelo caos, como a história bíblica do universo. Inicia pela paz interior, pela disciplina política, pelo equilíbrio bem assente nas fortunas, mas ainda modestas e quase todas baseadas na terra... Roma deu a todos a criação de diferentes modelos, para resolver os problemas políticos mais difíceis... A história de Roma é universal e tão-somente ela, pois não se pode reconstruir impérios mortos...”.
Escrevemos nosso livro, sempre tendo sob os olhos o destino impressionante desta cidade, que soube servir de modelo a todas as outras, antes que o martírio dos dois Apóstolos e que o estabelecimento do século da Igreja a “lançassem na Eternidade”.

Primeiro Capítulo
OS DEZ PRIMEIROS SÉCULOS DO DESTINO DE ROMA


Há uma hierarquia entre os povos. Nenhum deles possui igual valor nem pesam o mesmo peso numa civilização; não se civilizaram ao mesmo tempo, nem seguiram o mesmo ritmo.
Gonzague de REYNOLD


Os romanos deram ao mundo sem que nenhum outro povo lhes tenha dado.
R. H. BARROW
(The Romans)


Acima de tudo, o romano começava por venerar a terra. Não apenas os pedaços do universo visível, a cor dos dias e das noites e o perfume de cada estação, mas mas também o que interessa à vida cotidiana do agricultor, do homem do campo. O sol que estiolava as espigas, o granizo que desolava as hortas suplicantes no outono, o solo endurecido sob as geleiras de dezembro, seguido da retomada da vida em seus vários influxos ao primeiro mormaço da primavera; o verão transbordando nas colméias das abelhas; o agonizante esgrouvinhar das ferramentas do trabalhador ou do jardineiro, a lamúria do gado à densa atmosfera dos estábulos. Enfim, as tardes onde os pastores da Itália repousavam tocando o flautim, à sombra delgaçada das oliveiras ou dos pinos sobre as pradarias, até a aparição da primeira estrela na abóbada noturna.
Estas são as primitivas lições, espetáculos eternos que darão à língua de Roma seu sabor singular de realismo e simplicidade e que instruirá todo romano a respeito de sua influência, assinalando o destino do homem cá em baixo. (Para além disso, um temor reverencial que a Roma mais antiga manifestava frente à divindade). O romano não esquecerá jamais hábitos assim tão caros e familiares, quando vierem a ser o norte do mundo. No apogeu do poder da cidade, Virgilio, antes de chamá-la “mãe dos homens”, não esqueceu de chamá-la “mãe da colheita”; Horácio o Cético sente-se mais feliz quando está em sua propriedade rural no campo, diante da mesa fornida das frutas da parreira e da oliveira. Só entre os romanos veremos os soldados e os generais – antes das expedições que iam até aos confins da terra, ou mesmo em triunfo no Capitólio – recordar o exemplo do gigante Anteu, ao curvarem-se sobre a terra, sua nutriz. É assim que nos grandes domínios campestres os príncipes da literatura, um Cícero, um Plínio o Moço, cobertos com suas togas meneantes, amaram contar a seus libertos[3] os últimos boatos de Roma, adjudicadas numa língua soberana, além dos segredos da arte e da filosofia.

* * *

Concomitantemente a terra, o romano agarrava-se à sua espada de guerreiro, pois devia, desde o começo, acumular as funções de trabalhador e soldado, de arar a terra embainhando a espada ao lado.
[O romano] era chefe de um pequeno burgo cobiçado por seus vizinhos (burgo este que Rômulo, no ano de 737 a.C., tinha, segundo Ferrero, “lançado na eternidade”); e, tão logo se pusera a capturar aldeias e cidades, o romano, antes da eliminação das mulheres sabinas, absorvia-lhes parte da arte militar, além do modo de construir dos Etruscos (junto com muitos de seus costumes pios, observados na intimidade ou erigidos solenemente sobre as tumbas); conquistado mares e desertos, estendia seu império sem conhecer obstáculo.
Eis as cidades do Mediterrâneo fervilhantes de pessoas, destilando os vícios mais vis ou tentados pelos místicos mais extravagantes; eis a Espanha de lanças encrespadas ou estendendo suas planícies até a África de Cartago; eis a Gália que tornar-se-á a jóia do Império. Mas, sobretudo, eis a Grécia de Esparta e Atenas, o lugar onde os homens conquistaram a sabedoria e mais especificamente a Beleza; e eis esta outra Grécia das conquistas de Alexandre, que vai coalhar os delírios de Roma com os mistérios do Egito, além dos silenciosos abismos do pensamento hindu, que vai atrair Roma de forma irresistível à vertigem do Oriente...
Eis as brumas do norte, os mares mesclados ao céu azul, a futura Inglaterra, os futuros Países Baixos e este caminho do Reno que se tornará uma das mais belas conquistas (às portas das florestas germânicas assediadas por Armínio), o caminho do Reno onde se erigirá um dia Treves, a segunda cidade do império, a qual viria a ser Roma; o caminho do Reno onde reinará, bem mais tarde, em Aix-la-Chapelle, este imperador franco que reivindicará Roma...
Em sua prodigiosa conquista, Roma sempre fora guiada unicamente por seus motivos realistas, só possuindo metas mensuráveis, deixando-se levar apenas pela lógica das circunstancias, por meio de um exame lúcido das falhas. O que quer que seja dito, jamais concebeu (exceto nos tempos de César, de Antonio e Cleópatra) planos grandiosos de edificação, pois sabiam que os deuses puniam o excesso, sem perdão.
O romano não deixava de venerar sua qualidade de proprietário rural e soldado como a razão de seu destino supremo, caminho inicial que o levaria finalmente até aos limites do poder. Isso correspondia a seu senso de realidade e sua submissão constante em face às ordens dos deuses.
Não é sem razão que, para eles, Marte, deus da Agricultura, tornou-se rapidamente o deus da guerra; pois a guerra, por Roma e somente por ela, era um dever incorporado nas necessidades da cidade, um prelúdio a esta ordem superior que devia um dia, de uma ponta a outra do mundo conhecido, chamar-se PAX ROMANA.
Roma não esquecia sua origem primitiva de pequeno burgo agrícola e guerreiro, exercendo, ao mesmo tempo e em vários lugares, a arte da produtividade do solo e do acometimento dos povos, esteados pelas espadas. É sobre estes dois pivôs que repousará o que Plínio o Velho chamará, um dia: “a imensa majestade da paz romana”.

* * *
Mas Roma sabia também que, em suas raízes, tinham nascido virtudes individuais mais preciosas que a mera solidez realista ou política: a devoção dos lugares de reunião doméstica, a deferência em face ao Pater familias, o respeito à mulher, mãe e rainha do lar, todas estas virtudes que Catão o Antigo recordará, nos dias mais dramáticos da luta contra Cartago, clamando a seus concidadãos para vê-las como um baluarte tão importante para Roma quanto a força política e guerreira; moral esta que santo Agostinho benquistará como sendo o começo de um tipo de estoicismo cristão e querido pela Providência para ser o alicerce da Roma batizada; hábitos estes que Cícero definirá beatamente nas palavras “costumes de nossos ancestrais”, mores majorum; tudo aquilo que o irônico Horácio evocará, com inesperada gravidade, ao descrever a vida de seu pai (tal como um Nativo da Bretanha descobrindo, em meio ao século XVIII francês da frivolidade e do erotismo, a recordação da severa e nobre vida de um pagão do Antigo Regime).
E além das virtudes do campônio, as do soldado: coragem e o senso do sacrifício, fidelidade à fé jurada, gosto pela honra e pela justiça. Se Roma um dia saberá, melhor que todas as nações, constituir-se a fundadora de um Direito Universal, é por causa do dom primordial de derivar, dos fatos concretos, os princípios gerais que se estabilizarão em fórmulas curtas e majestosas: “imperatoria brevitas”.
Campônios e soldados, os romanos serão assim, por muito tempo, homens rudes, de uma coragem inquebrantável, venerando secretamente várias palavras que descrevem melhor que outras suas predileções: gravitas, severitas, constantia, firmitas, e enfim, uma das mais plenas de sentido: virtus, que quer dizer a fé na força do corpo e da nobreza da alma; dito de outro modo, a realização perfeita da palavra vir designando o homem tout court.
Naturalmente, esta rudeza acompanhará por sua vez a crueldade, e é na língua de Roma que a maldição gaulesa toma seu sentido mais incisivo: Væ Victis, morte aos derrotados! (Mas, verdadeiramente, Roma é a nação da antiguidade que menos merece ser acusada de incompreensão para com os vencidos). Queremos tão-somente dizer que a história da fundação de um império não é uma matança nem um idílio, e que os maiores admiradores de Roma conhecem evidentemente seus massacres de reféns e as vendas de escravos nos mercados públicos. Não exigiremos da antiguidade um respeito total à pessoa humana que somente o cristianismo possuirá. Mas ainda havemos de contemplar as virtudes do romano das primeiras eras.

* * *

Nossos romanos serão sempre homens de ação mais que de pensamento (“Os melhores dentre nós, dirá Salústio, sempre preferiram a ação à palavra”), o que lhes limitaria sobremaneira, isso se sua curiosidade universal e sua tolerância às épocas de conquistas, se sua humildade e o sentimento bem presente de sua inferioridade em certas áreas não lhes tivessem feito o povo escolhido para receber dos deuses as mais altas incumbências: o esforço de perfeição do pensamento grego, a revelação transcendente do cristianismo.
Tudo aquilo que faltava de aptidão à obra de Roma, demais chegada às coisas daqui debaixo, ela teve o gênio de aceitar dos outros, de receber com reconhecimento e assimilar.

* * *

Dentre virtudes primitivas e principais do romano, figurava a veneração à cidade, pois ela protegia e reunia em si o destino das famílias; mas também porque nela está o centro do culto aos deuses. Entre os homens da antiguidade, os primeiros romanos são sem dúvida os que tinham mais clara a noção da presença dos deuses ao lado dos homens (e eles os encontravam nos mais simples objetos, e os invocavam a todo o momento); donde a pluralidade de seus ritos e seu respeito, mais tarde, para com as religiões dos povos que conquistavam.
O romano teme os deuses, não como os celtas, que recusavam-se à dar-lhes uma figura visível e os envolviam constantemente de mistério; nem como os germânicos, que se faziam uma representação heróica e guerreira; nem como os gregos, que inclinavam-se com terror sob a fatalidade absurda do Altíssimo sobre os homens, mostrando-se, mais das vezes, cega; mas com uma fé invencível na proteção das bem-aventuranças celestes, que assinalavam para a cidade de Roma uma jubilante missão.
Daí originou-se nos romanos esta fé em seu destino, este impulso que parece cruzar toda sua história, esta esperança quase sem limites que os sustinham nas adversidades (quando Hanibal ultrapassou os Alpes ou quando os gauleses estavam às portas de Roma); esperança que não os abandonará quando se tornarem, sem surpresa, os senhores do mundo. Acusaram-lhes de ter deificado Roma qual um ídolo pagão: mas eles deificavam Roma como centro de um culto que lhes ultrapassava infinitamente! (é quando são invadidos pelos costumes orientais que os romanos prestarão um culto quase divino à sua cidade e ao Imperador, caindo em uma idolatria do Estado contra a qual os primeiros cristãos lutarão até ao martírio).
À origem, o romano não pensava que a cidade era sagrada, sobretudo por causa dos deuses que conhecia sobre o altar. Os reis e os magistrados eram, antes de todos, os sacerdotes do culto; nenhuma grande expedição lançava-se sem se ter consultado os auspícios, a fim de conhecer a vontade do céu.
Assim, solidamente fixados sobre a terra, mas cheios de humildade frente aos poderes invisíveis; segurando firme a espada de combate, mas declamando os adágios da justiça e do direito; desconfiando das sanções da imaginação, enredada nas ousadias desmedidas do pensamento, o romano avança metodicamente para a conquista do mundo. Julga os demais Estados mal edificados e destituídos de vigor e achava nesta constatação uma das mais belas justificativas das vitórias sem igual de Roma. Compreendia rápida e profundamente a missão especial, o gênio próprio de seu povo; seu genius (pois havia um genius, protetor e inspirador, para cada Estado como para cada família, tal como os gregos conceberam). O genius de Roma era justamente saber instalar o esqueleto das cidades, sua ordem, seu equilíbrio, sua organização. É notável que, campônio ou soldado, o romano não pensava que vinha para aprender, sobretudo do mundo da agricultura ou da arte da guerra: sabia que outros povos – os gauleses, por exemplo, ou os germânicos – poderiam rivalizar com eles em suas práticas, ou ao menos na aptidão destas. Seu gênio próprio, romano, era levar aquilo que Santo Agostinho definirá um dia: “a paz, a tranqüilidade da ordem”, fazendo os homens viver reunidos, junto aos demais povos, regendo-os sem massacrá-los, respeitando desde logo seus costumes, suas leis, fazendo-os penetrar pouco a pouco no cerne de uma cidade cujos limites coincidem com os do mundo conhecido; fazendo de todos os vencidos cidadãos felizes por sentirem-se romanos.
E neste novo ajuntamento de tradições particularistas e de costumes universais, Roma não abandona a solitária e frágil memória dos homens, como os celtas; nem as tradições familiares e de tribos, como os germânicos. Grava em pedra e em bronze; ou então codificam-nas nos monumentos do Direito.
O sentimento que os romanos tinham de sua missão universal (Tu, regere império populus, romane, memento) poderia ser um orgulho pueril, mesmo insuportável, se não viesse acompanhado de uma submissão à divindade, de uma consciência tal para cumprir um caminho que os Todo-Poderosos tinham traçado – não comportariam uma tal curiosidade em face às idéias e aos cultos de outrem, uma tolerância ao que diferia de si mesmo, à condição de não atingir nem a moral tradicional, nem a independência e a salvação da pátria. (As perseguições aos primeiros cristãos remetiam a dois fatos: as calúnias espalhadas sobre o que acontecia nas catacumbas, que faziam os romanos acreditar que o novo culto era ocasião de orgias, o cristianismo ameaçando a moral dos antigos; a recusa cristã de adorar a imagem do imperador, que parecia ser um fator desagregador para cidade e para o exército).
Consciente de sua força e da utilidade política da força, o romano tinha uma profunda compaixão das fraquezas do homem, não somente diante da divindade, mas dos caprichos da glória e do implacável curso do tempo. Mas sua fé na missão de Roma incita-lhe continuamente a “trabalhar para a eternidade”. Mais que todos os povos da terra, ele dá anseio à duração quando constrói ou fala; quando traça os caminhos ou ajunta as pedras; quando cinzela uma sentença ou modela uma oração. Forja, petrifica as coisas e as idéias, até que as semeia, direta e objetivamente, na terra como no céu. (Nós percebemos logo que deste modo domina seu Credo in unum Deum antes que seu Veni, vidi, vici).
Por isso a súplica de Roma a seus deuses (da duração de sua influência até ao fim dos tempos) foi finalmente atendida. Todos os grandes espíritos entenderam esta mensagem, que achamos tanto na obra política de Carlos Magno como na redação da Regra de São Bento, na arquitetura da Suma de Tomás de Aquino ou no desenrolar de um sermão de Bossuet. Ninguém, durante os séculos, quis intervir de forma durável na ordem terrestre, sem evocar o exemplo de Roma e suas lições. Este povo aparentemente era voltado em demasia para a vida material, mas sua severa moral preservava a liberdade de várias civilizações mediterrâneas; este povo, que não perdeu jamais, diante de toda a novidade solícita, liga-se solidamente ao que lhe remete ao passado. (“Roma mantém-se graças a seus antigos costumes e aos homens de outrora” falava Ênio no século II antes de J.C.); este povo, que tinha a habilidade e a força de reunir as nações do universo, onde Alexandre e os gregos ruíram, apesar de seu gênio; este povo do Ocidente, mais curioso que todos do Oriente (hoje sabemos que Adriano enviava missões comerciais até a China); este povo que inventava, ajudado pelos gregos, o termo Bárbaro para os que não eram da Itália nem da Grécia, mas que tornava-se o anfitrião e o educador de todos os bárbaros; este povo que realmente possuía a base terrestre sobre a qual viria, um dia, pousar uma religião que se queria universal.
Para nós, homens atuais, que podemos reconhecer a história dos séculos, e que sabemos que a Igreja Católica devia adotar em sua forma humana, para sua missão terrestre, a lição de Roma, não podemos rever sem comoção as orações dos cidadãos a seus deuses, nem deixar de admirar sua fé na certeza de um dia serem redimidos. Eles creram na eternidade de Roma e sua esperança não foi em vão (mas a realização de seu sonho não foi a que esperaram). É um dos mais emocionantes espetáculos da história.
Eis como exprimia-se Horácio no apogeu do século de Augusto. “Cantemos um hino aos deuses que são propícios às sete colinas. Ó Sol... que tu não possas jamais contemplar coisa alguma maior e mais admirável que esta cidade de Roma”.
Esta cidade de Roma torna-se todo o universo civilizado:
“O poder do império romano, afirma Plínio o Velho, deu a todos os homens a possessão do mundo. A vida humana beneficiou-se da troca de riquezas e tem convidado a dividir as benfeitorias da paz”.
...”Graças a vós, romanos, disse Ælius Aristides, no século II século antes de Jesus Cristo, o mundo tornou-se a pátria comum de todos os homens... Cada um de vossos empreendimentos confirmava a palavra de Homero que declarava que a terra pertencia a todos... Lançastes embarcações sobre os rios, rasgaram os caminhos nas encostas das montanhas, povoaram lugares desolados e... fizeram reinar por toda parte a ordem e a lei”.

* * *


Contudo, a mais bela oração é a que parece prever outra Roma sucedendo à antiga: “Ó deuses, celebra Velleius Paterculus, que levaram aos píncaros da glória este vasto império romano... guardem, conservem, protejam esta ordem, e quando sua tarefa chegar ao termo... ainda, à última hora, suscitem os homens dignos de sucedê-lo... e de sustentar os pés do império do mundo”.
Como seria cumprida tal oração?
À extremidade da Via Ápia, procedendo de suas colônias do sul, onde outrora o alfabeto grego ensinara toda a península, caminha no ano 60 um vagabundo aos olhos carnais. Chamava-se Saul o Judeu, mas desde o seu arrebatamento sobre o caminho de Damas, chamou-se Paulo. Perante a cidade do poder, da riqueza e da glória, ele persiste em sua crença. Este pequeno homem ardente cuja alma parece carregar o fogo que o mundo jamais conheceu, vem pregar um culto inimaginável: a Cruz, vil instrumento de suplício dos escravos e símbolo de indizível tortura; a Cruz torna-se o trono de seu Deus desconhecido que a antiguidade pressentia; a Cruz, murmura Paulo, “escândalo para os Judeus e loucura para os gentios”. (O apóstolo leva nos ouvidos as marcas do risos dos membros do Areópago de Atenas, ofendidos, por sua vez, em sua estética e em seu culto da razão).
Paulo descansa um instante, à hora do crepúsculo. Na cidade vislumbra ao longe: o mundo antigo glorifica seu mais completo êxito, o mundo antigo carrega sobre a sola de seus pés o mais grosseiro dos vícios e das devassidões, do orgulho e da ciência.
Mas Paulo sabia também que, diante dele, surgia a cidade da hierarquia e da força organizada, a cidade que adornará um dia a Igreja, sua vestimenta de solidez, sua armadura terrestre. Adivinha que a língua desta cidade será digna, um dia, de revestir de realeza o aguilhão dos escravos, e que este prosseguirá, como outrora os estandartes de Roma, em meio à genuflexão das massas:

Vexilla Regis prodeunt...
O Cruz ave, spes unica!

Contudo, o coração de Paulo, neste dia, não se achou dividido entre o culto do Evangelho e o amor singelo por sua pátria humana; assim o pequeno judeu de Tarso, colônia romana, pode murmurar: “Sou cidadão romano”.

* * *

Mais alguns anos, e Roma receberá seu duplo batismo. Tanto que, sobre a colina do Vaticano, erigir-se-á a cruz de Pedro, a fim de que o poder futuro da Igreja ancore-se neste abismo de humilhações, à entrada da cidade; Paulo bradará para ser imolado segundo o modo habitual aos cidadãos de Roma. E porque o universo devia aprender a partir de agora quanto a caridade ultrapassa a justiça (sem portanto esquecê-la), o homem que falava da caridade, em uma ênfase singular, se ajoelhará sob a espada de Roma e a batizará com seu sangue.
Notas
[1] Cf em particular: Christine Mohrmann, Liturgucal Latin, its origin and character, Washinton 1957; Franz Cumont, Pourquoi le latin fut la seule langue liturgique de l´Ocident, Bruxelles, 1904, e Le Latin, langue de l´Eglise, por Bernadette Lécureux, Paris, 1964.
[2] Pierre Lasserre, Cinquante ans de pensée française, Paris, 1921.
[3] Escravos que possuíam algumas regalias, como a de se exprimir livremente. (N. do T.)

sexta-feira, julho 15, 2005

Félix Ravaisson - Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Este é um filho meu que não vingou. Como me falta tempo a mim para traduzir, resolvi exibir-lhes o cadáver em português do que foi a tese de doutorado de Félix Ravaisson, um dos freqüentadores do blog Traduções Gratuitas. Queira Deus que um dia possa verter este e outros mais livros; mas, antes de tudo, faça-se a vontade d'Ele, e não a minha.

Luiz de Carvalho
P.S.: esse texto não foi revisado; perdoem-me, d'antemão, todos os galicismos e incorreções coesivas que, de relance, pude notar.

Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Livro Primeiro
Da história da Metafísica de Aristóteles


Capítulo I
Da história das obras de Aristóteles em geral, até à época de Apelicão de Téos e Andrônico de Rodes.


Antes de empreender o estudo da Metafísica de Aristóteles, iremos tratar de questões históricas que nos deterão por algum tempo.
De todas as dúvidas suscitadas a respeito do grande poema da antiguidade, suscitamo-las paralelamente sobre o maior monumento, talvez, da filosofia antiga; a Metafísica teve a mesma sorte da Ilíada. A Metafísica tem por autor Aristóteles, ou será mesmo inteiramente dele? Não será apenas uma coletânea de diferentes tratados reunidos, ao acaso ou ordenadamente, sob um título comum? É realmente um só e mesmo livro, autêntico em todas as suas partes, mas que circunstâncias diversas - Aristóteles ainda vivo ou póstumo - vieram a alterar o plano original, o qual podemos restabelecer numa ordem mais conforme ao desejo do autor? Os críticos puseram-se todos esses problemas, ainda não completamente resolvidos: devemos, por nossa vez, procurar a solução.
A questão da autenticidade e da ordem da Metafísica esta ligada a da história, mui obscura ainda, das obras de Aristóteles. É por essa historia que começaremos. Nós a dividiremos, na medida do possível, entre a historia da Metafísica em particular desde a época de sua composição, daquela onde encontramo-la conhecida e divulgada universalmente no mundo filosófico.
Este trabalho seria mais fácil, sem dúvida, se tivéssemos a obra de Hermipo de Esmirna, Peri Aristhotelous, da qual Diógenes Laércio fez uso; os livros de Apelicão e de Andrônico de Rodes; os comentários de Eudoro, de Evarmosto, de Aspásio; e o de Simplício, tão rico quanto seus demais escritos – preciosas resenhas históricas –; finalmente, o tratado especial que compusera Adrasto de Afrodisia a respeito da ordem dos livros de Aristóteles (Peri tes taxios ton Aristhotelous suggrammaton). Todos se perderam; estamos reduzidos a um pequeno número de testemunhos diretos que precisamos fertilizar para [empreender] uma comparação e discussão profundas; junte-se mais uma multidão de indicações mais ou menos indiretas, cujo cruzamento pode fornecer algumas luzes.
Este é o tema que provocava as mais vivas e longas controvérsias nos tempos modernos. Elas se iniciaram com a Renascença, em meio aos combates do platonismo e do peripatetismo: a crítica nascia da paixão. Francisco Pico de la Mirândola propunha a derrubada da autoridade de Aristóteles: suscitava dúvidas sobre a autenticidade de todos os seus escritos . A discussão animava-se, sem qualquer progresso, entre Nizzoli e Majoragio . O primeiro a reunir os principais textos e que buscou determinar as regras da crítica foi Pratrizzi, o sábio porém parcial autor das Discussiones Peripateticae . Um século e meio mais tarde apareceu na França uma dissertação anônima onde finalmente chegamos ao nó da questão: ela questionava, através duma engenhosa argumentação, o relato, admitido há muito sem contestação, de Estrabão e de Plutarco, sobre o destino dos manuscritos de Aristóteles. Este livro, esquecido desde então, indicado atualmente por Stahr, que o conheceu através duma análise , era obra do beneditino D. Liron. – A crítica alemã, agora e sempre, soube logo se valer deste avanço. Schneider destrói para sempre a tradição vulgar das Epimetra, em sua edição da História dos animais; Brandis e depois Kopp ampliaram o escopo da aplicação desta questão, generalizando o que somente se aplicava a uma das obras de Aristóteles. Enfim, Stahr recentemente tratou a fundo tudo o que concerne à história de Aristóteles e de seus escritos, com tanta sagacidade quanto erudição. – Tais são os principais trabalhos donde baseamo-nos para pesquisas ulteriores.

Comecemos por reproduzir integralmente os relatos que provocaram a controvérsia. Eis o de Estrabão :

Em Scépsis nasceram Corisco e seu filho Nélio; discípulo de Aristóteles e Teofrasto, Nélio herdou a biblioteca de Teofrasto, da qual a de Aristóteles fazia parte; Aristóteles (o primeiro, que eu saiba, que colecionara livros , e ensinava aos reis do Egito a organizar uma biblioteca) deixara ao morrer sua biblioteca e sua escola a Teofrasto. Teofrasto então deixa os livros a Nélio. Esse, levando-os a Scépsis, transmitiu-os aos seus herdeiros, gentes ignorantes, que os deixaram fechados e amontoados em desordem. Quando vieram a saber com qual ardor arremetiam os Atales, a quem sua cidade rendia tributo, na busca de livros para a biblioteca de Pérgamo, eles esconderam os seus sob a terra, numa caverna, onde foram corroídos pela umidade e pelos vermes. Muito tempo depois, seus descendentes venderam, por um alto preço, a Apelicão de Téos os livros de Aristóteles e os de Teofrasto. Ora, esse Apelicão era mais bibliófilo que filósofo (philóbiblos malloi he philósophos). Desejando restituir o que estava deteriorado, ele transcreveu os livros, preenchendo-lhes precariamente as lacunas, e os publicou cheios de erros. Assim, os antigos peripatéticos, os sucessores de Teofrasto, não possuíam tais livros, com algumas poucas exceções, e, ainda que [alguns desses livros fossem] exotéricos para a maioria, [os tais filósofos] não conseguiam filosofar seriamente, limitando-se às amplificações sobre um tema dado . Aqueles que vieram em seguida, quando os livros lhes apareceram, foram melhores na filosofia e no aristotelismo, porém forçados a falar freqüentemente por conjeturas, devido à multidão de erros. Roma recolheu vários desses volumes: logo após a morte de Apelicão, Sila levou a biblioteca ao conquistar Atenas, transportando-a para Roma. Lá, ela passa para as mãos do gramático Tirânio , que gostava muito de Aristóteles e ganhara um bibliotecário; os livreiros serviam-se freqüentemente de cópias defeituosas que não catalogavam, e que chegavam diariamente junto com os outros livros que punham a venda, seja em Roma, seja em Alexandria.

Passemos agora ao relato de Plutarco :

Sila trouxe para si a biblioteca de Apelicão de Téos, onde se encontrou a maioria dos livros de Aristóteles e de Teofrasto, ainda pouco conhecidos pelo público. Dizem que quando a transportaram para Roma, o gramático Tirânio lhe arrebatou a maior parte; Andrônico de Rodes adquiriu suas cópias, as quais publicou, organizando os índices que até hoje circulam. Os antigos peripatéticos pareciam ser homens doutos e letrados, mas conheceram apenas, senão imperfeitamente, um pequeno número de livros de Aristóteles e de Teofrasto , pois a herança de Nélio de Scépsis, a quem Teofrasto deixara os livros, caiu em mãos de gentes negligentes e ignorantes.

Antes de ir além, examinemos a relação entre os dois relatos. O segundo é evidentemente uma abreviação do primeiro; porém encontramos nele diferenças consideráveis. Não mencionemos o silêncio de Estrabão sobre Andrônico: podemos explicar, juntamente com Schneider, considerando a última frase como mutilada; falamos duma diferença geral no modo em que ambos os autores expuseram os mesmos fatos. Plutarco exprime-se com uma reserva cheia de dúvidas; não chama para si a responsabilidade da tradição: não é mais que um alguém disse, légitai; não nega que a maioria dos livros de Aristóteles jamais vieram ao conhecimento dos sucessores de Teofrasto: contenta-se em dizer que eles eram pouco conhecidos do público (oute tote saphos gnorizomena tois pollois); não acusa os antigos peripatéticos de estarem limitados às declamações frívolas, e finalmente, passa rapidamente pela história de Nélio e seus herdeiros, como para desobrigar-se de insistir em algo tão pouco verossímil. Ao contrario, as palavras de Estrabão estão repletas duma exageração que, em vários trechos, parece um tanto passional . Ora, sabemos que ele recebera lições de Tirânio , e que estudara filosofia peripatetica com Boécio de Sidon, quer dizer, com um aluno, e talvez mesmo na própria escola de Andrônico de Rodes . Não é evidente que ele busca diminuir o mérito do trabalho de seus mestres, exagerando a ignorância daqueles que possuíram antes destes os principais escritos dos fundadores do Liceu? Talvez a fonte esteja realmente desinteressada pela questão, e somente por isso, merece mais crédito.
[...] Andrônico de Rodes escrevera [um livro] sobre Aristóteles e suas obras. Plutarco mostrou conhecer este livro ao referir-se às cartas de Aristóteles e de Alexandre, cartas estas que Aulio Gálico declara tirar ex libro Andronici philosophi . Seria possível que Estrabão e Plutarco se baseassem numa fonte comum, um tanto suspeita, mas que o primeiro dispunha-se a confiar [...]?
Agora, iremos ver uma tradição totalmente diferente. O compendiador Ateneu diz, no final do Banquete dos sofistas :

“... Nélio herda os livros de Aristóteles (e de Teofrasto): Ptolomeu Filadelfo os comprou todos, e os transportou com os que vinham de Atenas e de Rodes para Alexandria”.

Esta tradição parece ser a primeira abordagem a contradizer aquela de que falamos acima. Contudo a contradição não diz respeito à história de toda a biblioteca de Teofrasto, pois Estrabão e Plutarco nada nos dizem, senão que ela passou às mãos de Nélio; na seqüência de seu relato, falam apenas dos manuscritos de Aristóteles e de seu sucessor; foram tais manuscritos que Apelicão comprou e que foram trazidos por Sila.
Se supormos com Vossius que Nélio vendeu a Ptolomeu sua biblioteca exceto os manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, ambas as tradições poderiam concordar. Mas esta conjetura contradiz Ateneu num ponto mui importante, porque, segundo este, os livros que Nélio herdara foram vendidos à biblioteca alexandrina; como os escritos de Aristóteles e Teofrasto, quer dizer, a parte mais importante da coleção, aquela a qual Ptolomeu dava mais valor, não estavam inclusas na transação antes das demais? Só resta esta segunda hipótese : Nélio vendera cópias a Ptolomeu e transmitira aos seus descendentes os manuscritos originais. O relato de Ateneu concorda com a parte histórica daquele de Estrabão. Quanto ao que Estrabão acrescenta sobre o pouco conhecimento que tinham os peripatéticos das principais obras de seus mestres, nada mais é que uma conclusão, que a crítica pode discutir e combater. É o que de fato fez e, parece-nos, com sucesso.
Vejamos a frase de Estrabão sobre a qual se dá, em realidade, toda a discussão: Sunebe de tois ok ton Peripaton, tois men palai tois meta Theophraston, holos ouk ekousi ta bíblia, plen oligon, kai malisa ton exotérikon; Estrabão não nos diz em que sentido empresta a expressão exotéricas; mas está claro, e isso nos basta, que ele a entende como as obras menos importantes, seja pelo fundamento, seja pelo método. Destaquemos ainda que Estrabão alerta implicitamente que os livros exotéricos não eram os únicos conhecidos antes de Apelicão: “Entre o pequeno número daqueles que as possuíam, a maioria, disse, estavam exotéricas”. Plutarco serviu-se de termos mais vagos, e não estabeleceu nenhuma distinção deste gênero.
Ora, temos provas mais ou menos diretas de que em Alexandria era conhecida uma grande parte das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Segundo o próprio Estrabão: “Aristóteles ensina os reis do Egito a organizar uma biblioteca”. Isto não quer dizer que dava instruções diretas a este jaez; o primeiro Ptolomeu não pôde começar formar sua biblioteca de Brucheion ??? senão após a batalha de Ipsus (301 a. C.), a qual se deu 21 anos após a morte de Aristóteles (322) . Isto significa que ele instruía os reis do Egito através de seu exemplo; por conseguinte, sua biblioteca não lhes era desconhecida.
Segundo vários autores antigos, foi Demétrio de Falera que, sob os dois primeiros Ptolomeus, estava a frente da biblioteca de Alexandria . Era amigo de Lagus, a quem generosamente acolhera ; era também amigo de Teofrasto, e foi este que aconselhara ao rei do Egito convidar este filósofo à sua corte . Como não obteria de seu amigo cópias destes livros, sobretudo os de Aristóteles, para a coleção que estava encarregado de formar?
Filadelfo tinha, para enriquecer sua biblioteca, mais ardor que seu pai, buscando por todos lugares, dizem-nos, as obras de Aristóteles, pagando por elas altos preços . Ele recebera a lições de Estratão de Lampsaco , o sucessor imediato de Teofrasto na direção do Liceu, e que certamente conhecia a fundo os escritos de seus predecessores. Ptolomeu devia receber tais escritos diretamente dele, ou entrar através de seu intermédio em contato com Nélio. Mais ainda, segundo o comentador David , este Ptolomeu Filadelfo comporá uma biografa de Aristóteles onde fornece um catálogo de suas obras. Este as contava, acrescenta, em vários milhares. Este número absurdo encontrará uma explicação, e tornar-se-á uma prova a mais para a tese que sustentamos. Amônio, Simplicio, João Felipônio, David, Galeno , avisam-nos que a prodigalidade de Filadelfo encorajou as falsificações; que de todos os lugares traziam-lhe supostos livros sob o nome de Aristóteles, e que por tal encontra-se na Grande biblioteca dois livros das Categorias e até quarenta dos Analíticos. Ptolomeu tinha, sem dúvida, registrado tudo o que se acumulava em Alexandria, talvez mesmo tudo o que possuíam em Pérgamo, e tudo o que os demais catálogos pudessem enumerar.
Ora, destes fatos tiram-se duas conseqüências importantes. A primeira é que tínhamos em Alexandria várias das principais obras de Aristóteles: ninguém pode negar que as Categorias e os Analíticos estejam entre esses números; a segunda é de que a biblioteca de Nélio não era considerada como a única fonte donde podia-se tirar as obras de Aristóteles: a esta hipótese, qualquer tentativa de falsificação seria inútil. Desta feita, nada afiança-nos de que não tinham semelhante opinião. João Felipônio parece afirmar o contrário, de que foi em bibliotecas diversas que recolheram os quarenta livros dos Analíticos que foram levados a Alexandria . Vemo-lo também pelo Cânon dos gramáticos alexandrinos , que sucessivamente os adicionavam, na medida que adquiriam novos documentos, à lista de escritos de Aristóteles.
Por outro lado, os principais discípulos de Aristóteles, dos quais Eudêmio e Fânias, escrevem “por vontade de seu mestre”, diz Amônio, a respeito dos temas que tratara, e mesmo os títulos que escolhera, sobre as Categorias, os Analíticos e o Da Interpretação . Eudêmio também escrevera sobre a Física e sabemos positivamente que ele possuía a Phisike Acroasis, pois Teofrasto, numa carta que Simplicio nos conserva um fragmento, envia-lhe uma retificação duma passagem do livro quinto, a qual lhe pedira . Falaremos ainda mais das tradições relativas à Metafísica. – Estratão “o corifeu da escola peripatética ”, Dicearco, que Cícero põe ao lado de Aristóteles e de Teofrasto , não foram versados na leitura do escritos de seus mestres? O acadêmico Xenócrates, que escrevera vários livros com títulos similares aos de Aristóteles, cujas doutrinas refutava; o megárico Eubúlido que intitula um seu dialogo: Aristhoteles; Hermaquio, o sucessor de Epicuro, que fez um livro contra Aristóteles: Pros Aristhotelen ; os estóicos que seguiram-no e combateram-no tão freqüentemente em sua lógica , e que lhe pegaram emprestada uma parte de sua física e de sua moral ; todos estes filósofos de diferentes seitas e épocas poderiam ignorar as suas mais importantes obras?
Ao demais, só podemos indicar aqui os principais pontos que Schneider, Brandis, Kopp e Stahr estabeleceram através de numerosas pesquisas e engenhosas induções. Contetemo-nos de enunciar sumariamente os resultados: os livros de Aristóteles sobre Lógica que havemos citado, seus principais tratados sobre a ciência da natureza, como a física, a História dos animais, a Moral, vários de seus escritos sobre Política, seus livros de Retórica, foram conhecidos, comparados e refutados antes da época de Apelicão de Téos.


Capítulo II
Dos trabalhos de Apelicão e de Andrônico sobre as obras de Aristóteles


A que se resumem as publicações que Estrabão e Plutarco atribuem a Andrônico?
Notemos antes de tudo que Cícero não nomeia sequer uma vez um ou outro, que não faz a menor alusão à pretendida descoberta das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Todavia fala em várias ocasiões destes dois filósofos e do mérito de seus sucessores; diz até nalguma parte que os peripatéticos distanciaram-se a tal ponto da doutrina primeva do Liceu (degenerant) “que pareciam se terem gerados” . Não era o momento de apontar a razão, se a enxergara, junto com Estrabão, da impossibilidade de saber sobre fontes primeiras do peripatetismo? Não podemos esquecer que Cícero tinha ligações com Tirânio, que dava lições ao filho daquele e pôs em ordem sua biblioteca , e que recebera lições do estóico Diódoto, irmão de Boécio, discípulo de Andrônico e condiscípulo de Estrabão . Se, contudo, os trabalhos de Apelicão e Andrônico não mereceram dele qualquer menção, não é prova de que não lhes emprestava grande importância?
Tentemos agora determinar duma maneira direta em que consistem tais trabalhos.
Temos dito que os diferentes relatos, senão opostos, dos historiadores reconciliam-se denodadamente à hipótese em que a biblioteca de Alexandria não adquirira senão cópias dos manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, tanto que Nélio transmitira os originais aos seus descendentes. Ora, Ateneu nos adverte que Apelicão tinha pelos autógrafos uma tal paixão, que ele violou o templo da Mãe dos Deuses a Atenas, a fim de perscrutar as antigas peças que ali estavam depositadas, para procurar sobretudo obras de Aristóteles e documentos de filosofia peripatética em geral . Estas anedotas tornam verossímil a suposição de que os manuscritos que ele comprou em Scépsis eram ou os autógrafos de Aristóteles e de Teofrasto, ou pelo menos cópias de grande antiguidade: o que não é verossímil é que todas as obras de Aristóteles e Teofrasto estavam ali; é crível, pelo contrário, que ali havia somente uma pequena parte. De fato, segundo o relato de Estrabão, Apelicão transcrevia todos os manuscritos que comprava; um imenso empreendimento, se se adquirira todos ou quase todos os escritos de Aristóteles e de Teofrasto, aqueles que conhecemos e aqueles que a antiguidade conhecia e não mais possuímos. Além disso, acrescenta, como a umidade e os vermes destruíram algumas passagens, Apelicão preencheu todas estas lacunas. Aqui torna-se impossível admitir que seu trabalho haja abrangido um jaez desta magnetude . Em segundo lugar, qualquer temerário que queira supor tal crítica, da qual Aristócles de Messena fazia muito caso, não pode crer que ele haja empreendido tamanho trabalho de restituição sem ter sob as vistas outros manuscritos que viessem em socorro dos seus.
Porém, fala Estrabão, a edição fornecida por Apelicão era de tal modo falha que o leitor, para entender o texto, estava na maioria das vezes reduzido à conjeturas (ta polla heoichota legein). Em Roma, a negligência dos copistas aumenta consideravelmente o número de falhas. De ambas asserções, tira-se duas conseqüências.
Primeiro, não é exato dizer, como sempre repetem sem provar, que Andrônico dera uma edição verdadeira de Aristóteles . Bem longe de querer fixar ao tempo de Tirânio e Andrônico a época da restituição do texto alterado por Apelicão, Estrabão diz que “Roma colabora muito às falhas”. Por outro lado, o texto de Aristóteles não estava, ao tempo de Alexandre de Afrodisia, em tão mau estado como no-lo representa Estrabão. É no intervalo que vai de Andrônico a Alexandre que esse texto foi corrigido; ora, não poderia sê-lo senão com o auxilio de novos manuscritos, ainda díspares, ao que parece, dos quais aqueles que colecionara Apelicão .
Reunamos os testemunhos que nos vieram a respeito da natureza e do valor dos trabalhos de Andrônico de Rodes.
Plutarco diz somente que dará publicidade às cópias que obteve de Tirânio, e que compôs tabelas e índices . Porfírio, que dividiu em Enéiadas os tratados de Plotino, declara imitar “Apolodoro, que divide em dez seções as comedias de Epicarmo, e Andrônico o peripatético, que classifica por ordem de assunto os livros de Aristóteles e de Teofrasto, reunindo num volume tratados parciais sobre o mesmo assunto” . Deste modo, Andrônico de Rodes espalhou os escritos de ambos filósofos nas Pragmateias; ele os reuniu em pequenos tratados avulsos; confeccionou um catálogo completo. Finalmente, consigna os resultados de seu trabalho numa obra em vários livros, onde trata por alto da vida de Aristóteles e de Teofrasto, da ordem e da autenticidade de seus escritos. [Este trabalho] foi o resultado de diversos testemunhos, aos quais nos reportaremos para tirar algumas conclusões.
“Encontramos na obra de Andrônico, segundo Amônio, o testamento de Aristóteles ; e segundo Áulio Gálico, as famosas cartas de Alexandre a Aristóteles e de Aristóteles a Alexandre ”. 2° Segundo o autor árabe da Biblioteca dos filósofos, o quinto livro continha as cartas de Aristóteles, além do índice de seis escritos . 3° Uma glosa que se encontra nos manuscritos do final da Metafísica de Teofrasto, avisa-nos que Andrônico fizera paralelamente uma lista das obras deste filósofo . 4° Na organização das Pragmateias pôs a Lógica a frente de todas as outras [obras] . Na própria Lógica, colocou as Categorias logo antes dos Tópicos . 6° Enfim, noutro arranjo das Pragmateias em geral e das partes pelas quais a compôs, ele busca determinar a ordem e a constituição de cada obra em particular. Conclui-se de diversa passagens de Simplício de que foi Andrônico que reuniu definitivamente os três últimos livros da Física aos cinco primeiros. 7° Ele noticiam o fato dos dois livros das Categorias na biblioteca de Alexandria: é a Andrônico que David o Armênio declara publicá-los . 8° Andrônico considerava como apócrifos o apêndice das Categorias (hypotheoria) , e o tratado Da Interpretação . 9° Escrevera os comentários sobre a Física e as Categorias , e um livro sobre a Divisão que Plotino tinha em consideração .
É provável que Andrônico de Rodes servia-se para a composição da parte biográfica e bibliográfica de seu livro, dos escritos dos alexandrinos Hermipo e Ptolomeu: encontramos nestes dois autores o testamento e a lista dos escritos de Aristóteles . Ele também devia empregar uma fonte mui recente, o livro de Apelicão, estimado por Aristócles, como já dissemos.
Mas parece que nem esses autores nem seus investigadores forneceram-no o critério da autenticidade das obras de Aristóteles. Não se baseava, para rejeitar o tratado Da Interpretação, em provas exteriores, históricas, mas num argumento retirado de dentro da própria obra, sobre a pretensa inexatidão duma citação do tratado Da Alma; Alexandre de Afrodisia refuta-o vitoriosamente . Porfírio paralelamente defendia contra ele o apêndice das Categorias . Todavia se Andrônico ou Apelicão poderiam consultar os manuscritos tirados da biblioteca de Aristóteles e de seus discípulos imediatos, fora uma escolha mui grave para quem lhes silenciou, mais ainda, se este manuscritos eram únicos; nenhum comentador jamais os citou. Estamos no direito de concluir deste silêncio que, a respeito das grandes obras das quais nos restam comentários preclaros e extensos, nenhuma delas foi descoberta e publicada pela primeira vez por Apelicão ou Andrônico. Assim, quando Boécio fala deste : “quem cum exactum diligentemque Aristotelis librorum et judicem et repertorem judicarit antiquitas, etc.”, não é exagero quando lhe alcunha o epíteto de repertor. Se Andrônico encontrara a Metafísica, a Física, os Analíticos, os Tópicos, a Meteorologia, os tratados dos Sofismas, o Da Alma, o Do Céu, e o Da Geração e Da Corrupção, certamente Alexandre de Afrodisia, Simplício, Amônio, Filopão não nos deixariam na ignorância. Talvez pesquisas ulteriores revelassem quais fossem os opúsculos ou fragmentos que ele pôde descobrir nas bibliotecas dos grandes de Roma; mas até o presente não temos qualquer indício deste fato.
Quando à ordem a qual dispõe os livros de Aristóteles, seu traço ainda subsiste: seu discípulo Boecio de Sidon pensou que Pragmateia Physique devia ser posta antes da Pragmateia Logique ; a opinião de andrônico prevaleceu. Será verdade, como supõe Brandis , que a ordem e as divisões que adotara Andrônico sejam as mesmas que serviram de base a nossa mais antigas edições? Stahr crê achar a prova desta conjetura numa noticia encontrada por Bekker a respeito dalguns manuscritos da Retórica, e que atesta a existência de duas divisões diferentes: uma (em quatro livros) usada pelos gregos, outra (em três) pelos latinos ; ora, esta é a divisão feita em todas as edições.
A denominação de latino pode aplicar-se a Andrônico? Não, pois Andrônico é um escritor grego. Suponhamos que os latinos adotaram esta divisão, e que os gregos seguiram outra? Cremos poder dar a prova em contrário: as mais antigas edições partem em dois livros o tratado Dos Sofismas, e segundo uma nota que encontramos na margem de uma tradução latina, e que certamente fora retirada dalgum manuscrito, esta divisão era aquela dos latinos , tanto que Alexandre de Afrodisia não faz da obra inteira um só livro. Do mesmo modo os comentaristas gregos contam na Metafísica apenas treze livros; os latinos contam catorze ; o 1°dos gregos é para eles o 2°, e assim por diante. Enfim, o tratado Da Interpretação está dividido em dois livros em vários manuscritos e nas edições de 1496, 1544, 1551, 1578, etc., como admitida por Boécio , que divide igualmente em duas partes o livro Dos Sofismas , é verossímil que ainda trata-se da divisão latina. Agora, não há uma grande probabilidade de que a divisão latina não seja aquela de Andrônico de Rodes? Fundamentamo-nos numa prova negativa da qual já servimo-nos e que possui, ainda, a força dum argumento positivo: se os comentadores gregos não se puseram em oposição com Andrônico sobre a divisão das obras de Aristóteles, não se imiscuiriam de expressar e discutir sua opinião, como o vimos fazer sobre as questões de ordem de autenticidade. Ainda destaquemos en passant que os comentadores gregos parecem concordar de forma geral com Adrasto, o autor de Peri tes taxeos ton Aristotelous suggrammaton, e este, na medida que o sabemos, não desgostava da maneira de ver de Andrônico . Assim, parece que é preciso adotar uma opinião oposta àquela de Stahr: a divisão grega era geralmente conforme àquela de Andrônico. Faltará determinar a origem da divisão latina; inclinamo-nos a pensar que é preciso vinculá-la a uma época mais recente, àquela dos tradutores e dos comentadores latinos de Aristóteles, entre os séculos 4 e 6, de Vitorino à Boécio . Poderíamos ter tentado crer que pela palavra Latinos, não deveríamos entender senão escolásticos, e que as noticias transcritas por Bekker são originas em copistas modernos. Porém a divisão em questão é anterior à Idade Média, porque ela se encontra em Boécio e é seguida pelos árabes e pelos dois mais antigos comentaristas escolásticos de Aristóteles, Alberto O Grande e Santo Tomás. Além disso, Alberto o Grande discute em mais de uma ocasião a interpretação de certos philosophi latini que ele opõe aos gregos, e que designa como posteriores a Temistio . Ao demais, não temos nossa conjuntura mais que uma conjuntura; é necessário obter novos ensinamentos sobre esta escola latina que a história quase esqueceu, de cuja será mui interessante reencontrar as marcas.
Se nos volvemos à hipótese de Brandis, achamos que precisa dalgumas modificações. É verdade que a ordem estabelecida ou conformada por Andrônico de Rodes parece ser a mesma, de forma geral, que a das nossas edições, no sentido de que este é geralmente idêntico com aquele dos comentadores gregos, que por seu lado seguem Andrônico; aquela dos Latinos não difere senão em pontos pouco relevantes. Mas quando existem disparidades, as antigas edições estão concordes às edições dos Latinos.


Capítulo III
Da história da Metafísica de Aristóteles

Agora podemos passar da história dos escritos de Aristóteles em geral para a historia da Metafísica, e da discussão dos problemas relativos à autenticidade e à ordem desta obra, em seu conjunto como em suas partes.
Em qual época a Metafísica foi conhecida pela primeira vez? Tal resultaria das cartas de Aristóteles e Alexandre das quais tivemos ocasião de falar, onde o primeiro, por espontânea vontade, deu à publicidade uma parte de suas obras, as quais a antiguidade designara o nome de acroamáticos. Ora, Plutarco pretende que por esta expressão entendamos a Metafísica . Antes de decidirmos qualquer coisa, citemos ambas as cartas:

De Alexandre a Aristóteles: Não fizeste bem a ti ter publicado teus escritos acroamáticos. Em que nos distinguiríamos dos outros, se a doutrina na qual fomos elevados tornar-se comum a todos? Eu apreciaria mais sobrepujar os demais pelo conhecimento das coisas mais altas que pelo poder. – Aristóteles a Alexandre: Escreveste-me a respeito dos tratados acroamáticos, pensando que seria necessário tê-los secretos; pois saiba que eles estão e não estão publicados: só são inteligíveis para os que me escutaram.

Se bem que esta correspondência fosse noticiada por Andrônico, e que os três autores que transmitiram-na após ele não lhe põem dúvida à autenticidade, contudo o caráter do pensamento e do estilo basta para ter forte suspeita – poderia mui bem ter sido fabricada, como a carta que forma a introdução da Retórica de Alexandre, por este creditar em face aos reis de Pérgamo e do Egito qualquer obra de Aristóteles, verdadeira ou suposta, que quisessem vender-lhes. Porém sempre permanecerá o fato de que o autor desta hipótese considerara como verossímil a publicação, por Aristóteles, de seus tratados acroamáticos, e que Andrônico, Plutarco, Áulio Gálico e Simplício pensaram a mesma coisa . Desta feita, mesmo que tais cartas sejam autenticas ou não, o que nos importa saber é se à Metafísica que fazem alusão. Nós logo notamos que se trata da questão dos livros acroamáticos em geral (tos akroamatikous e não simplesmente akroamatikous, sem artigo), o que parece dever estender-se a todos os livros deste gênero que foram escritos por Aristóteles até à época desta correspondência. Se, ao observarmos melhor, não é preciso entender akroamatikous em seu sentido mais restrito, mas em só aplicá-lo à ciência mais excelsa e mais difícil; é o que dá a entender estes termos de Alexandre: peri ta arista, e a resposta de Aristóteles. Poderia ser sobre a Metafísica e a Peri Philosophias, quem têm por objeto a Filosofia Primeira, ou somente a uma destas duas obras.
Iremos ver outros testemunhos que só podem tratar da Metafísica .
Lemos no comentário, ainda inédito, de Asclépio de Trales sobre a Metafisica:

A presente obra não possui a unidade dos demais escritos de Aristóteles, pois falta ordem e encadeamento. Ele deixa a desejar em relação à continuidade do discurso; encontramos nela passagens emprestadas de tratados que versam outros assuntos; freqüentemente a mesma coisa é dita e redita muitas vezes. Alegamos com razão, para justificar o autor, que após ter escrito este livro ele o enviou a Eudêmio de Rodes, seu discípulo, e que este não creu que ele lhe propôs publicá-lo, no estado em que estava, uma tão relevante obra; todavia Eudêmio veio a morrer, e o livro sofreu várias correções. Aqueles que vieram em seguida, não ousando corrigir seu mestre, puseram, para preencher as lacunas, trechos de outras obras, e a reorganizaram melhor que puderam .

Assim, o livro de Aristóteles não apareceu senão depois da morte de Eudêmio, que aceitara a revisão. Asclépio acrescenta que muitos atribuíram o primeiro livro da Metafísica a Pásicles, filho de Boécio, irmão de Eudêmio, e também discípulo de Aristóteles . Encontramos este trecho de seu relato reproduzido em João Felipônio, com algumas diferenças, é verdade: aqui, em vez do primeiro livro, A, é o segundo, a; em vez de Pásicles, Pasícrates; ao invés de Boécio, Boneus ; porém as diferenças de nome próprio não têm importância, pois só conhecemos o comentário de Felipônio através duma péssima tradução latina; o texto original provavelmente trás Pásicles e Boécio. Ora os comentários de Asclépio e de Felipônio possuem relevância histórica; estes são, propositadamente, as redações das lições de amônio, que tinha reunido curiosas observações sobre a historia da obra de Aristóteles. Enfim, se o relato de Asclépio deixa qualquer dúvida, poderíamos nos apoiar numa passagem de Alexandre de Afrodisia que lhe dá uma indicação indireta, informando-nos que Eudêmio revisou e corrigiu o texto da Metafísica . Brandis já conjeturara que o relato de Asclépio era tirado do de Alexandre. Poderia dizer que foi retirado de qualquer parte deste precioso comentário hoje perdido, do qual possuímos apenas os cinco primeiros livros .
Finalmente, toda esta tradição é somente verossímil. Eudêmio era o mais fiel discípulo de Aristóteles, aquele que reproduzia o mais exatamente suas doutrinas . Era natural que fosse para ele que Aristóteles confiasse a revisão de sua obra, como lhe confiou provavelmente a redação ou a revisão de uma de suas Morais, que ainda trás o nome de Eudêmio .
Assim, a primeira parte do relato de Asclépio pode ser considerada como totalmente autentica. Pra ela estabelece a autentividade da Metafísica de Aristóteles em geral. Ao mesmo tempo prova que a principal obra de Aristóteles não foi ignorada por seus discípulos, destruindo a exagerada refutação de Estrabão.
Quanto à segunda parte, reina um suspense e uma incerteza consideráveis. Asclépio não determina nem a causa nem a natureza do sinistro que sofreu o manuscrito da Metafísica, nem a época em que trataram de concertá-la. É evidente que ele não tem nenhuma autoridade sobre a qual apoiar-se com confiança. Poderemos ser tentados a crer que ele contenta-se em dar alguma curta citação do relato de Estrabão; ms tal suposição não se conciliaria com a precedente. Se a Metafísica foi enviada a Eudêmio por Aristóteles, ela não passou ao poder de Nélio pela herança de Teofrasto, e ficar escondida até a época de Sila. É mui verossímil que os metaginetiros de Asclépio devem ser referidos à uma época anterior a Apelicão; também é bastante verossímil, de fato, que Eudêmio comunica a obra do mestre aos seus condiscípulos, e que estes trabalharam com ele e após, para preencher as lacunas. Viemos a dizer que o livro foi atribuído a Pásicles: era uma tradição entre os Árabes que uma parte do primeiro livro foi reunida por Teofrasto ; enfim, Teofrasto escrevia uma Metafísica da qual veio-nos à mão um dos fragmentos . Se os peripatéticos não se dedicaram a contínuos trabalhos de interpretação sobre a Metafísica de Aristóteles tanto como sobre a Física e a Lógica, não é preciso espantar-se. Por um lado, a Metafísica nunca foi completada; por outro, o Liceu tendia a cada dia distanciar-se cada vez mais das altas especulações. Eis porque, desde o tempo de Eudêmio e de Teofrasto até o século de Augusto, não encontramos mais uma só menção, direta ou indireta, à Metafísica.
Não é preciso concluir nada do silêncio de Cícero, pois, na sua época, o livro era totalmente inédito. Não fala sequer das Categorias e dos Analíticos. Nesta época, o próprio nos comprova, os filósofos mal conheciam Aristóteles , porém Platão e os Socráticos eram acessíveis a todos . Os Tópicos ainda pareciam obscuros , estes mesmos que Simplício diz, com razão, serem das obras de Aristóteles mais fáceis de se compreender . Cícero queria, além do mais, tão-somente aplicar à filosofia a pratica da vida pública e privada, e não recorria aos livros que não se recomendassem pelo mérito literário, pela facilidade e pela elegância da exposição . Mesmo que tivesse em suas mãos a Metafisica, estaria pouco disposto a lhe sondar as obscuras profundidades; limita-se a uma rápida leitura e a uma intelecção superficial do Peri Philosophuas .
Quanto a Apelicão e Andrônico de Rodes, nada nos garante que não tenham feito um trabalho especial sobre a Metafísica. Logo após andrônico, chegam os comentadores. Foi Eudoro, seu discípulo, que se dedica à critica do texto; em seguida Evarmostos, que não conhecemos senão pela menção que lhe faz Alexandre de Afrodisia ; enfim, um filosofo célebre da época de Augusto, Nicolau de Damas, que parecia ter composto um livro intitulado: Theoria ton Aristhotelous mata ta physika ; é aqui que encontramos pela primeira vez este singular título de meta ta physika, que a obra de Aristotels ainda conserva.
Este fato fornece a prova daquilo que tanto repetimos desde Patrizzi, que o título da Metafísica é de Andrônico de Rodes? É verdade que o título que Aristóteles destinava ao seu livro era aquele de Filosofia Primeira; deixando-a incompleta, só pode pôr-lhe esta simples inscrição: O que vem depois da física; para ele, de fato, a ciência do ser absoluto é o fim e o coroamento da ciência da natureza. Ou, se não queremos admitir com Amônio que este título seja mesmo de Aristóteles , será entre os discípulos imediatos que devemos procurar o autor. O título de Metafísica encontra-se no cabeçalho dum fragmento sobre a filosofia primeira, de Teofrasto, citado por Nicolau de Damas; ora, desta feita, é impossível atribui-lo a Andrônico, pois ele não conhece esta obra. Acrescentemos que a denominação de meta ta physica apresenta em sua simplicidade um caráter antiquado: um comentador grego do tempo de Augusto certamente escolheria um outro título.
Entraremos agora na questão, obscura e complexa, da autenticidade da Metafísica.

sábado, julho 09, 2005

Nestas horas, por onde anda?




Don Pelayo, O herói da Covadonga

quinta-feira, julho 07, 2005

sábado, julho 02, 2005

Beda o Venerável



Jorge Luis Borges

Beda escreveu em latim, mas a história da literatura anglo-saxã não pode prescindir de seu nome. Beda e Alfredo o Grande foram os varões mais ilustres que produziu a Inglaterra germânica. Sua fama espraiou-se pela Europa; ao quarto céu, Dante viu no Sol, mais luminosos que este, a doces espíritos ardentes que formavam uma coroa no ar; um destes era Beda o Historiador (Paraíso, X)

Beda (673‑735) representa, segundo Maurice de Wulf, a cultura céltica dos monastérios irlandeses do século VII. Com efeito, seus mestres foram os monges irlandeses do monastério de Jarrow.

O qualificativo de venerável conferiu a Beda, em certos livros medievais, uma falsa longevidade; em verdade, morreu aos sessenta e três anos. Diz-se que venerável era um título dado a seu tempo a todos os sacerdotes. Uma lenda conta que um monge quis escrever o epitáfio de Beda, e não conseguindo terminar o primeiro verso:

Hac sunt in fossa Bedae... ossa,

decidiu descansar. Ao despertar, viu que uma mão desconhecida – sem dúvida, a de um anjo – havia intercalado durante a noite a palavra venerabilis.

Ele nasceu nas terras do monastério de São Paulo, em Jarrow, que está no norte da Inglaterra. Aos cinqüenta e nove anos escreveu: “Toda a a minha vida passei neste monastério, consagrado ao estudo da Bíblia e, entre a observação da disciplina monástica e a tarefa cotidiana de cantar durante os ofícios, meu deleite fora aprender, ensinar e escrever.”

Deixou um tratado de métrica, uma história natural baseada na obra de Plínio, uma cronologia universal da era cristã, um martirológio, biografias dos abades de Jarroe e a famosa História Eclesiástica da Nação Inglesa (Historia ecclesiastica gentis Anglorum), em cinco livros. Todos em latim, assim como copiosos comentários e interpretações da Escritura segundo o método alegórico. Escreveu hinos e epigrmas latinos, mais um livro de ortografia. Versificou também em anglo-saxão e deixou alguns versos, que murmurou em seu leito de morte, sobre a vaidade dos conhecimentos humanos. Soube do grego e do hebráico “tudo o que lhe puderam ensinar as obras de Jerônimo”. Um amigo seu escreveu que era doctus in nostris carminibus, versado em poesia vernácula. Na sua História Eclasiástica, narra a conversão de Edwin, o sonho de Caedmon, e recolhe duas visões ultraterrenas.

A primeira é a visão de Fursa, monge irlandês que havia convertido a muitos saxões. Fursa viu o inferno: uma cova cheia de fogo. O fogo não o queima; um anjo lhe explica: “Não te queimara o fogo que não ateaste.” Os demônios o acusam de haver roubado a roupa de um pescador que agonizava. No purgatório, arrojam contra ele uma alma em chamas. Esta lhe queima o rosto e um ombro. O anjo lhe diz: “Agora te queima o fogo que ateaste. Na terra tomaste a roupa desse pescador; agora, teu castigo te alcança.” Fursa, até o dia de sua morte, levou em seu rosto e no ombro os estigmas do fogo de sua visão.

A segunda visão é a de um homem de Nortumbria, chamado Drycthelm. Este morrera e ressusitara, e relatou (depois de dar todo seu dinheiro aos pobres) que um homem de rosto resplandecente o conduziu a um vale infinito e que à esquerda havia tempestades de fogo e, à direita, de granizo e de neve. “Ainda não estás no inferno”, disse-lhe o anjo. Depois, vê muitas bolas de fogo negro que sobem de um abismo e que caem. Depois, vê demônios que se riem porque arrastam ao fundo desse abismo as almas de um clérigo, de um leigo e de uma mulher. Depois, vê um muro de extensão infinita e de infinita altura, e mais além, uma grande pradaria florida com uma aglomeração de gente vestida de branco. “Ainda não estás no céu”, disse-lhe o anjo. Quando Drycthelm vai descendo pelo vale, atravessa uma região tão escura que só vê o traje do anjo que o precede. Beda, ao contar a cena, intercala um verso do livro VI da Eneida:

(Ibant obscuri) sola sub nocte per umbram

Um pequeno erro – Beda não escreve umbram, mas umbras – prova de que a citação foi feita de memória e, ainda, a familiaridade do historiador saxão com Virgílio. No texto há outras reminiscências virgilianas. Beda conta também a história de um homem a quem o anjo deu para ler um livro minúsculo e branco em que estavam registrados seus bons atos – que eram poucos – e o demônio um livro horrível e negro, “de tamanho descomunal e de peso quase insuportável”, em que estavam registrados seus crimes, além de seus maus pensamentos.

Citamos algumas curiosidades da História Eclesiástica, mas a impressão geral que o volume deixa é de serenidade e sensatez. A extravagância parece corresponder à época, não ao indivíduo.

“Quase todas as obras de Beda – escreveu Stopford Brooke – são epítomes instrutivas, de grande erudição, de escassa originalidade, mas repletos de claridade e mansidão.” Suas obras foram livros de texto da escola de York, a que concorreram estudantes da França, da Alemanha, da Irlanda e da Itália.

Beda, muito doente, estava traduzindo em anglo-saxão o Evangelho de São João. O amanuense lhe disse: “Falta um capítulo.” Beda ditou-lhe a tradução; logo, disse-lhe o amanuense: “Falta uma linha, mas estás muito cansado.” Beda ditou-lhe a linha; o amanusense disse: “Agora acabou-se.” “Sim, acabou-se”, disse Beda, e pouco depois morreu. É belo pensar que morreu traduzindo – quer dizer, cumprindo a menos vaidosa e a mais abnegada das tareas literárias – traduzindo do grego, do latim, para o saxão, que, com o tempo, viria a ser o grande idioma inglês.