quinta-feira, junho 30, 2005

Blaise Pascal - Acerca da conversão do pecador

O conhecimento e a visão extraordinária pela qual a alma considera as coisas e a si mesma de um modo totalmente novo são as primeiras coisas que Deus inspira àquelas que Ele verdadeiramente toca. Esta nova luz dá-lhe o temor, produzindo uma turbação que trespassa o repouso que ela encontrava naquilo que fazia suas delícias. Não pode mais gozar tranqüilamente das coisas que a encantavam. Um contínuo escrúpulo se lhe opõe a esse gozo, essa visão interior não mais fá-la provar a habitual doçura das coisas em que se abandonava numa efusão plena de seu coração.

Ela experimenta mais amargor nos exercícios da piedade que nas vaidades do mundo. Por um lado, a presença dos objetos visíveis a comove mais que a esperança das invisíveis; por outro lado, a solidez das invisíveis a comove mais que a vaidade das visíveis. Desta feita, a presença de umas e a solidez de outras disputam sua afeição; além disso, a vaidade de umas e a ausência de outras excitam sua aversão, de sorte que nela nasça uma desordem e confusão qu [duas linhas em branco].

Ela considera as coisas perecíveis como fenescentes, ou mesmo já mortas, à vista dum indibutável aniquilamento de tudo quanto ama, vendo que a cada instante arracam-lhe o gozo de seus bens – o que lhe é mais caro escoa a todo momento – e que finalmente virá o dia em que encontrar-se-á despojada de todas coisas em que pusera a esperança. Assim, compreenderá perfeiramente o seu coração, o qual se enlaçara apenas a coisas frágeis e vãs, que sua alma se deve encontrar só e abandonada ao sair desta vida, porque ela não teve o cuidado de se prender a um bem verdadeiro e subsistente em si mesmo, que a pudesse suportar durante e após esta vida. Daí ocorre que começa a considerar como nada tudo o que ao pó retorna: o céu, a terra, seu espírito, seu corpo, seus parentes, seus amigos, seus inimigos, os bens, a pobreza, a desgraça, a prosperidade, a vergonha, a ignomínia, a estima, o desprezo, a autoridade, a indigência, a saúde, a doença e até a vida; enfim, tudo o que deve durar menos que sua alma é incapaz de satisfazer o desejo desta alma, a qual busca cuidadosamente estabelecer-se numa felicidade que dure tanto quanto ela.

Começa por admirar-se da cegueira na qual vivia; e quando considera, por um lado, o longo tempo em que vivera sem fazer tais reflexões e o grande número de pessoas que viveram deste modo e, por outro lado, o quanto está provado que a alma, sendo imóvel como é, não pode encontrar a felicidade entre as coisas perecíveis, as quais lhe serão arrancadas quando menos à morte, ela entra numa santa confusão e admiração, que lhe traz um problema mui salutar. Pois considera que, quão grande seja o número daqueles que envelhecem em meio aos louvores do mundo, ou quamanha autoridade possa ter a multidão dos exemplos dos que depositam sua felicidade no mundo, é certo todavia que, mesmo que as coisas do mundo possuíssem algum prazer sólido – o que é tido como falso por um número infinito de experiências funestíssimas e contínuadas – é inevitável que a perda destas coisas – ou que a morte enfim – nos prive delas, encontrando-se a alma – mesmo que ela esteja cumulada dos tesouros dos bens temporais, não importando sua natureza, qual seja, o ouro, a ciência ou a reputação – despojada de todos esses objetos de sua felicidade; se eles possuem algo que a possa satisfazer, não terão como satisfazê-la para sempre; e ainda, se isso é querer-se encontrar verdadeira felicidade, não tem como propor-se uma felicidade que seja durável, uma vez que deve ser limitada pelo curso da vida.

De modo que, por uma santa humildade, que Deus considera acima da soberba, começa a elevar-se acima do comum dos homens; condena sua conduta, detesta suas máximas, lamenta sua cegueira, dedica-se à busca do bem verdadeiro; compreende que precisa possuir duas qualidades, uma que dure tanto quanto ela e que só possa ser-lhe tirada com seu consentimento, e outra que seja dentre todas a mais amável. Ela discerne que, no amor que tinha pelo mundo em meio à cegueira, encontrava nela essa segunda qualidade, pois então não reconhecia nada de mais amável; mas como não via a primeira, reconhecia não ser o bem soberano. Ela o buscava então mais além, e distinguindo através de uma luz puríssima que o bem não se encontrava nas coisas que estavam nela, nem após e nem diante dela (nada em si ou a seus lados), começa a procurá-lo acima de si. Essa elevação é tão eminente e transcendente que não se detém nem no céu, nem acima do céu, nem aos anjos, nem aos seres mais perfeitos. Ultrapassa todas as criaturas, e só freia seu coração quando se depuser diante do trono de Deus, onde começa a encontrar o repouso e Aquele bem perante o qual nada há mais amável, e que não pode ser-lhe retirado sem seu próprio consentimento.

Ainda que não experimente os encantos pelos quais Deus recompensa o hábito da piedade, todavia compreende que as criaturas não podem ser mais amáveis que o Criador, e sua razão, auxiliada pela luz da graça, fá-la conhecer que não há nada de mais amável que Deus, O qual só pode ser afastado por aqueles que O rejeitam, pois desejá-Lo é possuí-Lo, e recusá-Lo é perdê-Lo. Assim, ela se alegra por ter encontrado um bem que lhe não pode ser retirado enquanto o desejar, e que não há nada para além Dele. Nestas novas reflexões, entra em contato com a visão das gradezas de seu Criador, em meio a humilhações e adorações profundas. Por conseguinte, a alma se anula, e não podendo compor de si uma idéia que seja suficientemente baixa, nem concebendo do bem soberano uma assaz elevada, realiza novos esforços para rebaixar-se até os últimos abismos do nada, ao considerar Deus naquelas imensidões, as quais multiplica sem parar; enfim, nessa concepção, que esgota suas forças, adora-O em silêncio, considera-se como vil e inútil criatura, e através das reiteradas deferências adora-O e louva-O, e quereria adorá-Lo e louvá-Lo para sempre. Em seguida, reconhece a graça que Ele lhe fez ao manifestar sua infinita majestade a um vermezinho desprezível e, após uma firme resolução de Lhe ser eternamente agradecido, entra em confusão por ter preferido tantas vaidades a este mestre divino; com espírito de compunção e penitência, apela para Sua piedade, para assim deter a cólera cujo efeito lhe parece aterrorizante.


À vista destas imensidões... Ela faz ardentes orações para conseguir de Sua misericórdia que, tal como Ele se deleitara em fazer-se descobrir por ela, deleite-se em conduzi-la, fazendo-a conhecer os meios de lograr o fim. Sendo a Deus que aspira, ela só aspira alcançá-Lo por meios que estuem do próprio Deus, pois deseja que Ele mesmo seja caminho, objeto e fim último. Após suas preces, começa a agir, buscando entre os [...]

Começa a conhecer a Deus, e deseja alcançá-Lo; mas, como ignora os meios para tal, se seu desejo é sincero e verdadeiro, faz o mesmo que uma pessoa que, desejando chegar em qualquer lugar –
tendo perdido o caminho e conhecendo sua perplexidade – apelasse aos que saberiam perfeitamente o caminho e [...]

Resolve conformar-se às Suas vontades pelo resto da vida; no entanto, com a fraqueza natural, com os hábitos que possui dos pecados em que vivera, restrige-se à impotência de alcançar tal felicidade; implora pois de Sua misericórdia os meios de chegar a Ele, de unir-se a Ele, de aderir-se a Ele eternamente.

Desta forma, reconhece que deve adorar a Deus por ser criatura, render-Lhe graças por ser devedora, satisfazê-Lo por ser culpada, rogar-Lhe por ser indigente.

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