domingo, maio 08, 2005

Seleta de poemas religiosos

Para quem já se esqueceu qual o tema por excelência de toda arte que quer merecer-se.

MANUEL BANDEIRA

Oração para aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, vosso pai,
Santa clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.



Alegrias de Nossa Senhora

Esta composição está inspirada
no texto de oratório do poema
de uma monja carmelita.

I

RECITANTE

O anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:


ANJO

O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.


RECITANTE

A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:


MARIA

Sou a escrava so Senhor;
Faça-se em mim segundo a sua palabra.


CORO

Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!


II

RECITANTE

Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espirito Santo.


ISABEL

Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto do teu ventre!


RECITANTE

O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:


MARIA

Minh´alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grande coisas faz o Poderoso:
Depoe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.


CORO

Aleluia! Aleluia! Aleluia!


III

RECITANTE

Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, insenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:


CORO DE PASTORES

Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nas alturas!


IV

RECITANTE

Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no tempo, sentado entre os doutores,
Disse-lhe então Maria:


MARIA

Filho, por que fizeste assim para conosco!
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.


RECITANTE

Ao que Jesus responde:


JESUS (menino de doze anos)

Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?


RECITANTE

E Maria:


MARIA

Achei aquele a quem minh´alma adora.
Recobreio-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador


CORO

Santo! Santo! Santo!


V

RECITANTE

A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de veses resplandecentes falaram:


OS DOIS VARÕES

Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aquí, já ressucitou.
Lembrai-vos de que vos disse em Galiléia:
“Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
“E seja crucificado,
“E ao terceiro dia ressucite.”


CORO

Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!


A Anunciação

Seis meses passados sobre
A angélica anunciação
Do nascimento de João,
Santo filho de Isabel,
Baixou o arcanjo Gabriel
À Galiléia e na casa
Do carpinteiro José
Entrou e diante da Virgem
Desposada com o varão
– Maria ela se chamava –
Curvou-se em genuflexão.
Dizendo com voz suave
Mais que a aura da manhã: “Ave
Marai cheia de graça!
Nosso senhor é contigo,
Tu bendita entre as mulheres.”
E ela, vendo-o assim, turbou-se
Muito de suas palavras.
Mas o anjo, tranquilizando-a,
Falou: “Maria, não temas:
Deus escolheu-te, a mais pura
Entre todas as mulheres,
Para um filho conceberes
No teu ventre e, dado à luz,
O chamarás de Jesus,
O santo Deus fá-lo-á grande,
Dar-lhe-á o trono de Davi,
Seu reino não terá fim.”
E disse Maria ao anjo:
“Como pode ser assim,
Se não conheço varão?”
E, respondendo, o anjo disse-lhe:
“Descerá sobre ti o Espírito
Santo e a virtude do Altíssimo
Te cobrirá com sua sombra;
Pelo que também o Santo
Que de ti há de nascer,
Filho de Deus terá nome,
Com ser filho de mulher,
Pois tua prima Isabel
Não concebeu na velhice,
Sendo estéril? A Deus nada
É impossível.” O anjo disse
E afastou-se de Maria.
Como no extremo horizonte
A primeira, a desmaiaad
Celagem da madrugada,
Duas rosas transluziram
Nas faces da Virgem pura:
Já era Jesus no seu sangue,
Antes de, infinito Espírito
Mudado em corpo finito,
Se fixar em forma humana
Na matriz santificada.


O Cruxifixo

É um crucifixo de marfim
Ligeiramente amarelado,
Pátina do tempo escoado.
Sempre o vi patinado assim.

Mãe, irmã, pai meus estreitando
Tiveram-no ao chegar o fim.
Hoje, em meu quarto colocado,
Ei-lo velando sobre mim.

E quando se cumprir aquele
Instante, que tardando vai,
De eu deixar esta vida, quero

Morrer agarrado com ele.
Talvez me salve. Como – espero –
Minha mãe, minha irmã, meu pai.

Teresópolis, março de 1966


Poemas traduzidos por MANUEL BANDEIRA


A Cristo crucificado
De autor espanhol não identificado

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara
E a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.


Nossa Senhora da Ternura

K. H. De Josselin de Jong

Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.

Dissipa a sua niote, ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.

Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.

Guarda-o da dor, dá-lhe alegria,
Para que, junto a ti, sorria.

Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para a visão de teu semblante.

Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.

E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.

Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, virgem pura.


Poemas de Natal

Rafael de la Fuente

I

Teus olhos
Juntam as mãos
Com as madonas
De Leonardo

Os bosques do ocaso,
As frondes amoradas
De um Renascimento sombrio.

O rebanho do mar
Bale para a gruta
Do céu cheio de anjos.

Deus encarna-se
Num menino que busca os brinquedos
De tuas mãos.

Teus lábios
Dão o calor que negam
A vaca e o burro.

E na penumbra
Tua cabeleira afofa as suas palhas
Para o Deus Menino.




II

González Carballo

Cristo, o Cristo menino,
Pisa, com o pé desnudo,
A rosa proibida.
Pisa o áspero cravo.
Para Jesus menino
Nardo é o espinho agudo.

Alvas vermelhas, céus
De algum entardecer
Teu destino anunciaram
Sangrento, Emanuel.

Em lágrimas o advertiam
A Virgem e josé.

Tu nada mais olhavas:
O pássaro caindo,
A nuvem fatigada,
A estrela de Israel.


III

Victor Londoño

Desceu sobre os homens a doce paz das alturas,
E num estábulo, berço de pobreza e dor,
Após toda um noite de maternas torturas
Jesus caiu na terra, débil como uma flor.

A música das coisas alegrou as obscuras
Abóbadas do presepe e num hino de amor
Adoraram o menino as humildes criaturas:
Um burro com seu bafo, com sua flauta um pastor.

Depois os adivinhos de comarcas remotas
Ofertaram-lhe mirra, e em suas línguas ignotas
Ao pequeño chamaram Príncipe de Salém.

E enquanto no Levante, com revérberos vagos,
Suavemente brilhava a estrela dos Reis Magos,
Os cordeiros olhavam para Jerusalém.



DA COSTA E SILVA

Consolatrix Afflictorum

- Bendita esta visão, que ainda descerra
Os olhos para o mundo e abre os ouvidos
Ao coração dos triestes oprimidos
Que vivem degradados pela terra!

Diz a alma humana, que em tormentos erra,
Quando a vitória trazes aos vencidos,
Presos à dor, numa infindável guerra,
Neste Vale de Lágrimas perdidos...

- Ave Maria! – exclama o mundo inteiro,
Que no teu manto vai buscar guarida,
Pelo sangue divino do Cordeiro.

- Bentida sejas, Mãe dos Desgraçados,
Que és no eclipse tristíssimo da Vida
A única luz dos olhos apagados!


O sinal da Cruz

Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranqüilo merecer a morte.
Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.
A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.
E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço

Santa Teresa

Graças à minha fé, vejo com o pensamento
Que as imagens da vida ao vivo reproduz,
No silêncio e na paz de um vestuto convento,
Um vulto de mulher sob um halo de luz...

É uma virgem que, alheia à vontade e à lisonja,
Ocultando a beleza à sombra do capuz,
Num voto de renúncia, um dia se fez monja,
A alma elevando ao céu, que em êxtase a seduz.

Bela e jovem, fugindo ao doce amor humano,
Que na febre do instinto a vida reproduz,
Vive só para Deus, num sonho ardente e insano,
O inquieto coração abraçado com a cruz.

A divina paixão que, isolando-a do mundo,
O seu místico ser à pefeição conduz,
O espírito lhe faz tão límpido e profundo
Como o céu, na ilusão do mistério e da luz.

Pura, humilde e feliz, entre versos e flores,
Hoje é Santa Teresa, a crença nô-lo induz,
Porque ao triste prazer de mãe de pecadores,
Preferiu, pela fé, ser noiva de Jesus.


SONETOS RELIGIOSOS
Fonte: Site Sonetário Brasileiro

SÃO JOÃO DA CRUZ
Alfonso de Guimaraes Filho


Da noite a solidão sonora invade
a alma, e a alma sozinha, companheira
do silêncio noturno, é a primeira
a penetrar a doce escuridade.

Deixem-na ir até onde a calada,
silenciosa música se espraia;
o vento é manso, a noite é sossegada,
o fulgor das estrelas já desmaia.

Deixem-na ir, sem ser notada, a casa
quieta, o repouso do infinito em tudo
que a cerca e docemente é que a domina.

Deixem-na ir, pequena, humilde brasa
acesa contra a treva e contra o mundo
céu de que desce a estranha paz divina.



REGINA MARTYRUM
Auta de Souza

Lírio do Céu, sagrada criatura,
Mãe das crianças e dos pecadores,
Alma divina como a luz e as flores
Das virgens castas a mais casta e pura;

Do Azul imenso, dessa imensa altura
Para onde voam nossas grandes dores,
Desce os teus olhos cheios de fulgores
Sobre os meus olhos cheios de amargura!

Na dor sem termo pela negra estrada
Vou caminhando, a sós, desatinada,
- Ai! pobre cega sem amparo ou guia! -

Sê tu a mão que me conduza ao porto.
Ó doce mãe da luz e do conforto,
Ilumina o terror desta agonia!



MARIA
Berilo Neves

Essa, que às leis universais se exime,
E dos erros de Adão não se ressente;
Que os pecados afasta, e afasta o crime,
E transforma em sorriso a dor ardente;

Essa, que o Bem resume, a Luz exprime,
E alegra o coração de toda a gente,
É a Virgem, Mãe de Deus, mulher sublime,
Que a Divina Justiça faz clemente.

Linda flor, divinal, mimosa e pura,
Obra-prima da Graça e da Beleza,
Maravilha da Arte e da Natura;

Palpitante sacrário, pequenino
Templo feito de carne e de pureza,
Onde andou a sorrir um Deus Menino...



A MONTANHA DE CRISTO
Carlos Maúl

Tu que trouxeste a voz consoladora
Do perdão, e de séculos distantes
Traças ao mundo a rota redentora
Que leva o amor a todos os quadrantes;

Tu que possuis as forças dominantes
Da bondade e da luz inspiradora,
És a fonte da Fé confortadora
Da intrépida vontade dos gigantes...

Descem de ti eflúvios de virtude,
Fulguração de sol que as almas banha
Na frescura da tua juventude...

O homem na terra os passos acompanha,
Altitude a fulgir noutra altitude,
Montanha culminando outra montanha...



Clóvis Monteiro

Fé! Prenda concedida às almas puras!
Sem ti, luz fecundante, que era do homem,
Sujeito, nesta vida, às amarguras,
Que a própria seiva espiritual consomem?

Sopro do céu! Nas regiões escuras
Da terra não há forças que te domem.
Salvas do lodo as pobres criaturas,
Que as más idéias ante ti se somem.

Mas, ai! do pecador que te não sente!
Quem há, porém, que, mísero, se esquive
De ti, obra de um Deus justo e clemente?

Todo bem, todo bem por ti ocorre...
- Alegria suprema de quem vive!
- Derradeiro consolo de quem morre!



LÁGRIMA!...
Ernâni Rosas

Ó lágrima nitente de Maria
Estrela d'alva a cintilar tremente,
És a divina lágrima d'um crente
Na fervorosa prece da agonia.

Rolas de olhos trêmula e fremente
Celestial, misteriosa e fria,
Caias talvez na pétala sombria
Dum olímpico lírio alvinitente.

É tão divina, mística e singela...
Parece feita de luar ou neve
Ou do estilhaço duma branca estrela,

Na flor silvestre de celeste alvura
A pequenina lágrima tão breve
Se congelara para sempre pura!...



PEQUEI, SENHOR
Gregório de Matos

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.



GLÓRIA!
Hermes Fontes

Glória é a expressão de Deus, sobre a miséria humana.
É o Céu, arqueado, em loa aos milagres da Terra.
Glória é ressurreição, sobrevivência... Emana
do alto: que só a Altura as alturas descerra.

Árvore, ó cruz verdeal do píncaro da serra!
Ó cruz das catedrais de que o torreão se ufana!
glória é a repatriação da alma que se desterra
no Sonho, para o Sonho... O sonho é a glória... Hosana!

Ser alma é professar na Dor. - Calvário ou Pindo,
dor pela Fé ou pelo Ideal - a glória é o pouso,
culminância a que, Deus e Poeta, vão subindo:

Que o só heroísmo - o só, verdadeiro e glorioso -
é o de sofrer cantando, é o de morrer sorrindo
para não perturbar o bem do alheio gozo...



SONETO DA PRECE
José Albano

Bom Jesus, amador das almas puras,
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.

A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino.

E, terminando este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, Pastor Divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!



JESUS
Junquilho Lourival

Senhor, ao teu desejo elevo a taça
Transbordante de fel do meu tormento!
Tua vontade sobre mim se faça
E seja o teu amor meu pensamento!

Que a minha fé, Jesus, não se desfaça,
Das perversões ante o deslumbramento!
Por mim passe a maldade como passa
O grão de poeira no fragor do vento!

Mártir da Cruz, ó símbolo da Mágoa!
Dá-me a cumprir sereno a minha pena
- Chagado o corpo e os olhos rasos d'água.

E faze que esta boca humilde e boa
Nunca maldiga ao que disser - Condena!
Mas beije os pés ao que disser - Perdoa!



JESUS AO COLO DE MADALENA
Luís Delfino

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!...
Sobem já, pela cruz acima, escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas.

Ouve-se o choro em torno. - As mãos primeiro,
Inertes, caem no ar dependuradas;
A fronte oscila; arqueia o tronco inteiro
Nos braços das mulheres desgrenhadas.

Soltam-se os pés. - Aumenta o pranto e a queixa.
Só Madalena ao oiro da madeixa
Limpa-lhe a face, que de manso inclina.

E no meio da lágrima mais linda,
Com o dedo erguendo a pálpebra divina,
Busca ver se Ele a vê... beijando-o ainda!...



AFETOS JACULATÓRIOS
Manuel Botelho de Oliveira

Quem pudera Senhor sempre atender-vos!
quem pudera Senhor sempre agradar-vos!
quem pudera Senhor sempre buscar-vos!
quem pudera Senhor sempre querer-vos!

Quem me dera meu Deus nunca ofender-vos!
quem me dera meu Deus nunca agravar-vos!
quem me dera meu Deus nunca deixar-vos!
quem me dera meu Deus nunca perder-vos!

Oh quem pudera nunca resistir-vos
da terra desprezando a doce guerra
pera em meu peito sempre possuir-vos:

Mas ai! que tal miséria em mim se encerra
que se largá-la quero por seguir-vos,
a terra pega em mim, por ser da terra.



VIRGEM DE NAZARÉ
Osvaldo Orico

De pés descalços e a alma reverente,
Sigo-te, como outrora te seguia,
Santa do coração de minha gente,
Padroeira da graça e da alegria.

Na procissão que passa, humildemente,
Como há vinte e três anos o fazia,
Trago-te a minha dádiva de crente
Nesta salva de luz e poesia.

Sou a grande onda humana que se espalha
Do teto nobre ao tapiri de palha,
Sou essa força anônima e divina,

Que subindo, espontânea como a vaga,
A hesitação dos tímidos apaga
E a virtude dos crentes ilumina.



A AVE-MARIA
Raimundo Correia

Ave-Maria! Enquanto nas campinas
As "boas-noites" abrem, misteriosas
Bocas exalam no ar frases divinas,
Como suave emanação as rosas...

Ó noivas do infortúnio lacrimosas,
Crianças loiras, mórbidas meninas,
Órfãs de lar e beijos, que, piedosas,
Ergueis ao céu as magras mãos franzinas!

Quando rezais, às horas do sol posto,
A ave-maria assim, no azul parece
Sorri-se a Virgem-Mãe aos desvalidos;

Nossa Senhora inclina um pouco o rosto
Para escutar melhor tão meiga prece,
Hino tão doce e grato aos seus ouvidos.


AO LUAR
Rodrigues de Abreu

Os santos óleos, do alto, o luar derrama...
Eu, pecador, ao claro luar ungido,
Sonho: e sonhando rezo comovido
E arrebatado na divina chama.

Deus piedoso, consolo do oprimido,
Se compadece, à voz que ardente clama,
Porque meu coração, impura lama,
É um brado intenso para os céus erguido!

E o divino perdão desce da altura:
Grandes lírios alvíssimos florescem
Sob a lua, floresce a formosura...

E nessa florescência, imaculados
Raios longos do luar piedoso descem,
Choram comigo sobre os meus pecados.

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