sábado, maio 21, 2005

Santo Tomás de Aquino em Sentenças



Trad: Jean Lauand

RAZÃO - NATUREZA

1. A razão reproduz a natureza. (I,60,5).
2. A causa e a raiz do bem humano é a razão. (I-II,66,1).
3. "Natureza" procede de nascer. (III,2,1).
4. A palavra natureza se impôs primeiramente para significar a geração dos seres vivos, que se chama nascimento. E como tal geração provém de um princípio intrínseco, estendeu-se o uso da palavra para significar princípio intrínseco de qualquer mudança. Sendo tal princípio formal ou material, tanto a matéria quanto a forma são comumente chamadas natureza. Mas como é pela forma que se perfaz a essência de uma coisa qualquer, a essência, que é expressa na definição, é comumente chamada natureza. (I,29,2 ad 4).
5. A reta ordem das coisas coincide com a ordem da natureza; pois as coisas naturais se ordenam a seu fim sem qualquer desvio. (CG 3,26).
6. O intelecto é naturalmente apto a entender tudo o que há na natureza das coisas. (CG 3,59)
7. Os princípios da razão são os mesmos que estruturam a natureza. (II-II,154,12).
8. Assim como a ordem da razão reta procede do homem, assim também a ordem da natureza procede do próprio Deus (II-II,154,12 ad 1).
9. O primeiro princípio de todas as ações humanas é a razão e quaisquer outros princípios que se encontrem para as ações humanas obedecem, de algum modo, à razão. (I-II,58,2).
10. O ser do homem propriamente consiste em ser de acordo com a razão. E assim, manter-se alguém em seu ser, é manter-se naquilo que condiz com a razão. (II-II,155, ad 1).
11. Aquilo que é segundo a ordem da razão quadra naturalmente ao homem. (II-II,145,3).
12. A razão é a natureza do homem. Daí que tudo o que é contra a razão é contra a natureza do homem. (Mal. 14,2 ad 8).
13. O que por natureza é dado imediatamente à razão é verdadeiríssimo, a tal ponto que nem sequer é possível pensar que seja falso. (CG 1,7).
14. Todos os atos da vontade têm como que sua primeira raiz, naquilo que o homem naturalmente quer. (Car. I).
15. A vontade por sua natureza é boa, daí que também seu ato natural sempre é bom. E ao dizer ato natural da vontade refiro-me a que o homem por natureza quer a felicidade, ser, viver e a bem-aventurança. Quando porém se trata do bem moral, a vontade em si considerada não é boa nem má, mas mantém-se em potência para o bem ou para o mal. (Mal. 2,3 ad 2).
16. O primeiro ato da vontade não procede de ordem da razão, mas de instinto da natureza ou de uma causa superior. (I-II,17,5 ad 3).
17. Assim como o conhecimento natural é sempre verdadeiro, assim também o amor natural é sempre reto, pois o amor natural não é senão a inclinação da natureza, inserida pelo autor da natureza. Portanto, afirmar que a inclinação natural não é reta é desacreditar o autor da natureza. (I,60,1 ad 3).
18. A vontade não tem caráter de regra suprema, mas é uma regra que recebe sua retidão e orientação da razão e do intelecto não só em nós, mas também em Deus; se bem que, em nós, entender e querer as coisas são atos diferentes, e, por isso, não se identificam vontade e retidão da vontade. Em Deus, porém, é o mesmo e único ato entender e querer algo: daí que vontade e retidão da vontade se identifiquem (Ver. 23,6).
19. A regra para a vontade humana é dúplice: uma próxima e homogênea: a própria razão humana; a outra, que é a regra primeira, é a lei eterna, que é como que a razão de Deus. (I-II,71,6).
20. O bem do homem enquanto homem está em que a razão seja perfeita no conhecimento da verdade e em que os apetites inferiores se regulem pela regra da razão. Pois, se o homem é homem, é por ser racional. (Virt. comm., 9)


ORDEM

21. O que é próprio do sábio é ordenar. (CG I,1).
22. Fala-se de ordem sempre com relação a algum princípio. (I,42,3).
23. A ordem sempre implica anterioridade e posterioridade. Daí que, necessariamente, onde quer que haja um princípio, aí haverá também alguma ordem. (II-II,26,1).
24. Tudo o que é imperfeito tende à perfeição. (I-II,16,4).
25. A ordem que se dá reciprocamente entre as partes do todo existe pela ordem global do todo para Deus. (Pot. 7,9).
26. Deus age perfeitamente como causa primeira, mas requer o agir da natureza como causa segunda. Embora Deus pudesse produzir o efeito da natureza, mesmo sem a natureza, Ele quer agir mediante a natureza, para observar a ordem das coisas. (Pot. 3,7 ad 16).
27. A ordem se encontra primariamente nas próprias coisas e delas é que passa para nosso conhecimento. (II-II,26,1 ad 2).
28. "O que procede de Deus é ordenado" (Rom 13, 1). E a ordem das coisas consiste em que algumas sejam por outras reconduzidas a Deus. (I-II,111,1).
29. Daí que... haja criaturas espirituais, que retornam a Deus não só segundo a semelhança de sua natureza, mas também por suas operações. E isto, certamente, só pode se dar pelo ato do intelecto e da vontade, pois nem no próprio Deus há outra operação em relação a Si mesmo. (CG 2,46).
30. A lei divina ordena os homens entre si, de tal modo que cada um guarde sua ordem, isto é, que os homens vivam em paz uns com os outros. Pois a paz entre os homens não é senão a concórdia na ordem, como diz Agostinho. (CG 3,128).
31. Aproximamo-nos de Deus não por passos corporais, mas pela consideração da mente. (I,3,2 ad 5).
32. Pode-se considerar de dois modos a ordem entre as criaturas e Deus. Um é aquele segundo o qual as criaturas, sendo causadas por Deus, dependem dele enquanto princípio do seu ser. E, assim, pela infinitude de seu poder, Deus atinge cada coisa, causando-a e conservando-a e é nesse sentido que se afirma que Deus está imediatamente em todas as realidades por essência, por presença e por potência. Há, porém, uma outra ordem: pela qual uma realidade tende para Deus como fim e aí, como diz Dionísio, há mediação entre as criaturas e Deus: porque as inferiores são conduzidas a Deus pelas superiores. (III,6,1 ad 1).


MEDIDA

33. Deus é a medida de todos os entes. (CG 2,12).
34. As próprias coisas são causa e medida de nosso conhecimento. (Pot. 7,10 ad 5).
35. A verdade do intelecto humano tem sua regra e medida na essência da coisa. Uma opinião é verdadeira ou falsa de acordo com o que a coisa é ou não é. (Spe I ad 7).
36. O intelecto humano recebe sua medida das coisas, de tal modo que um conceito do homem não é verdadeiro por si mesmo, mas se diz verdadeiro pela consonância com a realidade. O intelecto divino, porém, é a medida das coisas, já que uma coisa tem tanto de verdade quanto reproduz em si o intelecto divino. (I-II,93,1 ad 3).
37. As coisas naturais estão no meio entre o conhecimento de Deus e o nosso. Pois nós recebemos o conhecimento das coisas naturais, das quais, Deus, pelo seu conhecimento, é a causa. Daí que: assim como o cognoscível das coisas antecede o nosso conhecimento e é a sua medida; assim também o conhecimento de Deus antecede as coisas naturais e é medida para elas. Do mesmo modo que uma casa está entre o conhecimento do arquiteto que a projetou e o conhecimento que dela adquire alguém, uma vez construída a casa. (I,14,8 ad 3).
38. (Qualquer criatura...) Por ter uma certa forma e espécie representa o Verbo, porque a obra procede da concepção de quem a projetou. (I,45,8).
39. O conhecimento de Deus é a medida das coisas: não quantitativa, mas porque mede a essência e a verdade da coisa. Pois uma coisa tanto tem de verdade em sua natureza, quanto reproduz o conhecimento de Deus; do mesmo modo que um objeto artificial em relação a seu projeto. (I,14,12 ad 3).

TRANSCENDENTAIS

40. O bom, o verdadeiro e o ente coincidem na coisa, mas diferem pelo título. (I-II,29,5).
41. O verdadeiro e o bem estão incluídos um no outro. Pois o verdadeiro é um certo bem, senão não seria apetecível; e o bem, um certo verdadeiro, senão não seria inteligível. (I,79,11 ad 2).
42. Na realidade objetiva das coisas, o bem e a verdade são permutáveis. Daí que o bem seja entendido pelo intelecto a título de verdade; e o verdadeiro, apetecido pela vontade a título de bem. (I,59,2, ad 3).
43. Qualquer criatura participa da bondade, tanto quanto participa do ser. (Ver. 20,4).
44. Deus, sendo uno, produz o uno: não só porque qualquer coisa é em si una, mas também porque, de certo modo, a totalidade das coisas, encerra unidade de perfeição. (Pot. 3,16 ad 1).
45. Quanto mais algo é uno, tanto mais perfeita sua bondade e força. (CG I,102).
46. Diz Avicena que "a verdade de uma coisa é a característica própria do ser que lhe foi estabelecida" ... enquanto segue a razão própria que dela existe na mente divina. (CG I,60).
47. A própria realidade da coisa é, de certo modo, sua luz. (Comentário ao Liber de causis I,6).


A ALMA COMO FORMA ESPIRITUAL

48. Sempre se verifica o fato de que o ínfimo de uma ordem de ser superior é limítrofe ao supremo da ordem inferior. Assim, certos ínfimos do gênero animal, mal superam a vida das plantas, como é o caso da ostra, que é imóvel, só tem tato e está fixa como as plantas. Daí que S. Dionísio diga que "a sabedoria divina enlaçou os fins dos superiores com os princípios dos inferiores". No âmbito corporal há também algo, o corpo humano, harmonicamnete disposto, que também se enlaça com o ínfimo do superior, a alma humana, que está no último grau das realidades espirituais. Tal enlace manifesta-se no próprio modo de conhecer da inteligência humana. Daí que a alma espiritual humana seja como que um certo horizonte e fronteira entre as realidades corpóreas e as incorpóreas: ela mesma é incorpórea e, no entanto, é forma de corpo. (CG 2,68).
49. Deve-se considerar que a natureza de algo é principalissimamente a forma segundo a qual se constitui a espécie da coisa. Ora, o homem é constituído em sua espécie pela alma racional. Daí que aquilo que é contra a ordem da razão seja propriamente contra a natureza do homem enquanto tal. (I-II,71,2).
50. Para cada ente, bom é aquilo que é adequado à sua forma; mau, o que fica fora da ordem de sua forma. (I-II,18,5).
51. Diferem a apreensão dos sentidos e a do intelecto: ao sentido compete apreender este colorido; ao intelecto, a própria natureza da cor. (Ver. 25,1).
52. É conatural ao homem atingir o conhecimento do inteligível pelo sensível. E é pelo signo que se atinge o conhecimento de alguma outra coisa. (III,60,4).
53. A plenitude de toda a natureza corporal depende, de certo modo, da plenitude do homem. (Comp. Theol. I,148).
54. As naturezas intelectuais, porém, têm maior afinidade com o todo do que as outras naturezas; pois, uma substância intelectual qualquer é, de certo modo, todas as coisas, já que pode apreender a totalidade do real pelo seu intelecto; ao passo que qualquer outra substância participa apenas de um setor particular do ser. (CG 3, 112).
55. Ver a verdade é possuí-la. (II-II,4,1).
56. Diz-se que a alma é de certo modo todas as coisas porque é naturalmente apta para conhecer tudo. E, desse modo, é possível que num único ente esteja toda a perfeição do universo. Daí que esta seja, segundo os filósofos (pagãos), a plenitude de perfeição a que a alma pode aspirar: reproduzir em si a ordem do universo como um todo e suas causas. E tal é também para eles o fim último do homem, que, para nós, se realizará na visão de Deus, pois, como diz Gregório: "O que é que não vêem os que vêem Aquele que tudo vê?" (Ver. 2,2).

MORAL
57. Somos senhores de nossas ações no sentido de que podemos escolher isto ou aquilo. Não há escolha, porém, no que diz respeito ao fim, mas somente sobre "o que se ordena ao fim" (como se diz na Ética de Aristóteles). Daí que o querer o último fim não seja uma daquelas coisas de que somos senhores. (I,82,1 ad 3).
58. O moral pressupõe o natural. (Corr. Frat. I ad 5).
59. A graça não suprime a natureza, aperfeiçoa-a. (I,8,1 ad 2).
60. As paixões de per si não têm caráter de bem nem de mal. Pois o bem e o mal do homem se dão no âmbito da razão. Daí que as paixões em si consideradas são para o bem ou para o mal, conforme correspondam à razão ou a contradigam. (I-II,59,1).
61. O natural tanto precede as virtudes conferidas pela graça, como as adquiridas. (Ver. 16,2 ad 5).
62. A consciência é chamada de lei do nosso intelecto porque é o juízo da razão deduzido da lei natural. (Ver. 17,1 ad 1).
63. Quando a razão, mesmo errando, propõe algo como preceito de Deus, então desprezar o ditame da razão é o mesmo que desprezar o preceito de Deus. (I-II,19,5 ad 2)


VIRTUDE E PECADO

64. Pela virtude o homem se dirige ao máximo daquilo que pode ser. (Virt. comm. 11 ad 15).
65. É da essência da virtude que ela vise ao máximo. (II-II,123,4).
66. As virtudes nos aperfeiçoam, capacitando-nos para seguir de modo devido as inclinações naturais. (II-II,108,2).
67. O desordenado amor de si é a causa de qualquer pecado. (I-II,77,4).
68. O pecado contraria a inclinação natural. (I,63,9).
69. Tudo que vá contra a razão é pecado. (II-II,168,4).
70. O pecado é uma desordem que rejeita a ordem do fim último. (Mal. 15,2).

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