sábado, maio 21, 2005

Santo Tomás de Aquino em Sentenças



Trad: Jean Lauand

RAZÃO - NATUREZA

1. A razão reproduz a natureza. (I,60,5).
2. A causa e a raiz do bem humano é a razão. (I-II,66,1).
3. "Natureza" procede de nascer. (III,2,1).
4. A palavra natureza se impôs primeiramente para significar a geração dos seres vivos, que se chama nascimento. E como tal geração provém de um princípio intrínseco, estendeu-se o uso da palavra para significar princípio intrínseco de qualquer mudança. Sendo tal princípio formal ou material, tanto a matéria quanto a forma são comumente chamadas natureza. Mas como é pela forma que se perfaz a essência de uma coisa qualquer, a essência, que é expressa na definição, é comumente chamada natureza. (I,29,2 ad 4).
5. A reta ordem das coisas coincide com a ordem da natureza; pois as coisas naturais se ordenam a seu fim sem qualquer desvio. (CG 3,26).
6. O intelecto é naturalmente apto a entender tudo o que há na natureza das coisas. (CG 3,59)
7. Os princípios da razão são os mesmos que estruturam a natureza. (II-II,154,12).
8. Assim como a ordem da razão reta procede do homem, assim também a ordem da natureza procede do próprio Deus (II-II,154,12 ad 1).
9. O primeiro princípio de todas as ações humanas é a razão e quaisquer outros princípios que se encontrem para as ações humanas obedecem, de algum modo, à razão. (I-II,58,2).
10. O ser do homem propriamente consiste em ser de acordo com a razão. E assim, manter-se alguém em seu ser, é manter-se naquilo que condiz com a razão. (II-II,155, ad 1).
11. Aquilo que é segundo a ordem da razão quadra naturalmente ao homem. (II-II,145,3).
12. A razão é a natureza do homem. Daí que tudo o que é contra a razão é contra a natureza do homem. (Mal. 14,2 ad 8).
13. O que por natureza é dado imediatamente à razão é verdadeiríssimo, a tal ponto que nem sequer é possível pensar que seja falso. (CG 1,7).
14. Todos os atos da vontade têm como que sua primeira raiz, naquilo que o homem naturalmente quer. (Car. I).
15. A vontade por sua natureza é boa, daí que também seu ato natural sempre é bom. E ao dizer ato natural da vontade refiro-me a que o homem por natureza quer a felicidade, ser, viver e a bem-aventurança. Quando porém se trata do bem moral, a vontade em si considerada não é boa nem má, mas mantém-se em potência para o bem ou para o mal. (Mal. 2,3 ad 2).
16. O primeiro ato da vontade não procede de ordem da razão, mas de instinto da natureza ou de uma causa superior. (I-II,17,5 ad 3).
17. Assim como o conhecimento natural é sempre verdadeiro, assim também o amor natural é sempre reto, pois o amor natural não é senão a inclinação da natureza, inserida pelo autor da natureza. Portanto, afirmar que a inclinação natural não é reta é desacreditar o autor da natureza. (I,60,1 ad 3).
18. A vontade não tem caráter de regra suprema, mas é uma regra que recebe sua retidão e orientação da razão e do intelecto não só em nós, mas também em Deus; se bem que, em nós, entender e querer as coisas são atos diferentes, e, por isso, não se identificam vontade e retidão da vontade. Em Deus, porém, é o mesmo e único ato entender e querer algo: daí que vontade e retidão da vontade se identifiquem (Ver. 23,6).
19. A regra para a vontade humana é dúplice: uma próxima e homogênea: a própria razão humana; a outra, que é a regra primeira, é a lei eterna, que é como que a razão de Deus. (I-II,71,6).
20. O bem do homem enquanto homem está em que a razão seja perfeita no conhecimento da verdade e em que os apetites inferiores se regulem pela regra da razão. Pois, se o homem é homem, é por ser racional. (Virt. comm., 9)


ORDEM

21. O que é próprio do sábio é ordenar. (CG I,1).
22. Fala-se de ordem sempre com relação a algum princípio. (I,42,3).
23. A ordem sempre implica anterioridade e posterioridade. Daí que, necessariamente, onde quer que haja um princípio, aí haverá também alguma ordem. (II-II,26,1).
24. Tudo o que é imperfeito tende à perfeição. (I-II,16,4).
25. A ordem que se dá reciprocamente entre as partes do todo existe pela ordem global do todo para Deus. (Pot. 7,9).
26. Deus age perfeitamente como causa primeira, mas requer o agir da natureza como causa segunda. Embora Deus pudesse produzir o efeito da natureza, mesmo sem a natureza, Ele quer agir mediante a natureza, para observar a ordem das coisas. (Pot. 3,7 ad 16).
27. A ordem se encontra primariamente nas próprias coisas e delas é que passa para nosso conhecimento. (II-II,26,1 ad 2).
28. "O que procede de Deus é ordenado" (Rom 13, 1). E a ordem das coisas consiste em que algumas sejam por outras reconduzidas a Deus. (I-II,111,1).
29. Daí que... haja criaturas espirituais, que retornam a Deus não só segundo a semelhança de sua natureza, mas também por suas operações. E isto, certamente, só pode se dar pelo ato do intelecto e da vontade, pois nem no próprio Deus há outra operação em relação a Si mesmo. (CG 2,46).
30. A lei divina ordena os homens entre si, de tal modo que cada um guarde sua ordem, isto é, que os homens vivam em paz uns com os outros. Pois a paz entre os homens não é senão a concórdia na ordem, como diz Agostinho. (CG 3,128).
31. Aproximamo-nos de Deus não por passos corporais, mas pela consideração da mente. (I,3,2 ad 5).
32. Pode-se considerar de dois modos a ordem entre as criaturas e Deus. Um é aquele segundo o qual as criaturas, sendo causadas por Deus, dependem dele enquanto princípio do seu ser. E, assim, pela infinitude de seu poder, Deus atinge cada coisa, causando-a e conservando-a e é nesse sentido que se afirma que Deus está imediatamente em todas as realidades por essência, por presença e por potência. Há, porém, uma outra ordem: pela qual uma realidade tende para Deus como fim e aí, como diz Dionísio, há mediação entre as criaturas e Deus: porque as inferiores são conduzidas a Deus pelas superiores. (III,6,1 ad 1).


MEDIDA

33. Deus é a medida de todos os entes. (CG 2,12).
34. As próprias coisas são causa e medida de nosso conhecimento. (Pot. 7,10 ad 5).
35. A verdade do intelecto humano tem sua regra e medida na essência da coisa. Uma opinião é verdadeira ou falsa de acordo com o que a coisa é ou não é. (Spe I ad 7).
36. O intelecto humano recebe sua medida das coisas, de tal modo que um conceito do homem não é verdadeiro por si mesmo, mas se diz verdadeiro pela consonância com a realidade. O intelecto divino, porém, é a medida das coisas, já que uma coisa tem tanto de verdade quanto reproduz em si o intelecto divino. (I-II,93,1 ad 3).
37. As coisas naturais estão no meio entre o conhecimento de Deus e o nosso. Pois nós recebemos o conhecimento das coisas naturais, das quais, Deus, pelo seu conhecimento, é a causa. Daí que: assim como o cognoscível das coisas antecede o nosso conhecimento e é a sua medida; assim também o conhecimento de Deus antecede as coisas naturais e é medida para elas. Do mesmo modo que uma casa está entre o conhecimento do arquiteto que a projetou e o conhecimento que dela adquire alguém, uma vez construída a casa. (I,14,8 ad 3).
38. (Qualquer criatura...) Por ter uma certa forma e espécie representa o Verbo, porque a obra procede da concepção de quem a projetou. (I,45,8).
39. O conhecimento de Deus é a medida das coisas: não quantitativa, mas porque mede a essência e a verdade da coisa. Pois uma coisa tanto tem de verdade em sua natureza, quanto reproduz o conhecimento de Deus; do mesmo modo que um objeto artificial em relação a seu projeto. (I,14,12 ad 3).

TRANSCENDENTAIS

40. O bom, o verdadeiro e o ente coincidem na coisa, mas diferem pelo título. (I-II,29,5).
41. O verdadeiro e o bem estão incluídos um no outro. Pois o verdadeiro é um certo bem, senão não seria apetecível; e o bem, um certo verdadeiro, senão não seria inteligível. (I,79,11 ad 2).
42. Na realidade objetiva das coisas, o bem e a verdade são permutáveis. Daí que o bem seja entendido pelo intelecto a título de verdade; e o verdadeiro, apetecido pela vontade a título de bem. (I,59,2, ad 3).
43. Qualquer criatura participa da bondade, tanto quanto participa do ser. (Ver. 20,4).
44. Deus, sendo uno, produz o uno: não só porque qualquer coisa é em si una, mas também porque, de certo modo, a totalidade das coisas, encerra unidade de perfeição. (Pot. 3,16 ad 1).
45. Quanto mais algo é uno, tanto mais perfeita sua bondade e força. (CG I,102).
46. Diz Avicena que "a verdade de uma coisa é a característica própria do ser que lhe foi estabelecida" ... enquanto segue a razão própria que dela existe na mente divina. (CG I,60).
47. A própria realidade da coisa é, de certo modo, sua luz. (Comentário ao Liber de causis I,6).


A ALMA COMO FORMA ESPIRITUAL

48. Sempre se verifica o fato de que o ínfimo de uma ordem de ser superior é limítrofe ao supremo da ordem inferior. Assim, certos ínfimos do gênero animal, mal superam a vida das plantas, como é o caso da ostra, que é imóvel, só tem tato e está fixa como as plantas. Daí que S. Dionísio diga que "a sabedoria divina enlaçou os fins dos superiores com os princípios dos inferiores". No âmbito corporal há também algo, o corpo humano, harmonicamnete disposto, que também se enlaça com o ínfimo do superior, a alma humana, que está no último grau das realidades espirituais. Tal enlace manifesta-se no próprio modo de conhecer da inteligência humana. Daí que a alma espiritual humana seja como que um certo horizonte e fronteira entre as realidades corpóreas e as incorpóreas: ela mesma é incorpórea e, no entanto, é forma de corpo. (CG 2,68).
49. Deve-se considerar que a natureza de algo é principalissimamente a forma segundo a qual se constitui a espécie da coisa. Ora, o homem é constituído em sua espécie pela alma racional. Daí que aquilo que é contra a ordem da razão seja propriamente contra a natureza do homem enquanto tal. (I-II,71,2).
50. Para cada ente, bom é aquilo que é adequado à sua forma; mau, o que fica fora da ordem de sua forma. (I-II,18,5).
51. Diferem a apreensão dos sentidos e a do intelecto: ao sentido compete apreender este colorido; ao intelecto, a própria natureza da cor. (Ver. 25,1).
52. É conatural ao homem atingir o conhecimento do inteligível pelo sensível. E é pelo signo que se atinge o conhecimento de alguma outra coisa. (III,60,4).
53. A plenitude de toda a natureza corporal depende, de certo modo, da plenitude do homem. (Comp. Theol. I,148).
54. As naturezas intelectuais, porém, têm maior afinidade com o todo do que as outras naturezas; pois, uma substância intelectual qualquer é, de certo modo, todas as coisas, já que pode apreender a totalidade do real pelo seu intelecto; ao passo que qualquer outra substância participa apenas de um setor particular do ser. (CG 3, 112).
55. Ver a verdade é possuí-la. (II-II,4,1).
56. Diz-se que a alma é de certo modo todas as coisas porque é naturalmente apta para conhecer tudo. E, desse modo, é possível que num único ente esteja toda a perfeição do universo. Daí que esta seja, segundo os filósofos (pagãos), a plenitude de perfeição a que a alma pode aspirar: reproduzir em si a ordem do universo como um todo e suas causas. E tal é também para eles o fim último do homem, que, para nós, se realizará na visão de Deus, pois, como diz Gregório: "O que é que não vêem os que vêem Aquele que tudo vê?" (Ver. 2,2).

MORAL
57. Somos senhores de nossas ações no sentido de que podemos escolher isto ou aquilo. Não há escolha, porém, no que diz respeito ao fim, mas somente sobre "o que se ordena ao fim" (como se diz na Ética de Aristóteles). Daí que o querer o último fim não seja uma daquelas coisas de que somos senhores. (I,82,1 ad 3).
58. O moral pressupõe o natural. (Corr. Frat. I ad 5).
59. A graça não suprime a natureza, aperfeiçoa-a. (I,8,1 ad 2).
60. As paixões de per si não têm caráter de bem nem de mal. Pois o bem e o mal do homem se dão no âmbito da razão. Daí que as paixões em si consideradas são para o bem ou para o mal, conforme correspondam à razão ou a contradigam. (I-II,59,1).
61. O natural tanto precede as virtudes conferidas pela graça, como as adquiridas. (Ver. 16,2 ad 5).
62. A consciência é chamada de lei do nosso intelecto porque é o juízo da razão deduzido da lei natural. (Ver. 17,1 ad 1).
63. Quando a razão, mesmo errando, propõe algo como preceito de Deus, então desprezar o ditame da razão é o mesmo que desprezar o preceito de Deus. (I-II,19,5 ad 2)


VIRTUDE E PECADO

64. Pela virtude o homem se dirige ao máximo daquilo que pode ser. (Virt. comm. 11 ad 15).
65. É da essência da virtude que ela vise ao máximo. (II-II,123,4).
66. As virtudes nos aperfeiçoam, capacitando-nos para seguir de modo devido as inclinações naturais. (II-II,108,2).
67. O desordenado amor de si é a causa de qualquer pecado. (I-II,77,4).
68. O pecado contraria a inclinação natural. (I,63,9).
69. Tudo que vá contra a razão é pecado. (II-II,168,4).
70. O pecado é uma desordem que rejeita a ordem do fim último. (Mal. 15,2).

segunda-feira, maio 16, 2005

Dr. Júlio Fleichman (1928 - 2005)


Gustavo Corção e Júlio Fleichman


Dies irae

Dies irae, dies illa
solvet saeclum in favilla,
teste David cum Sybilla.

Quantus tremor est futurus,
quando judex est venturus,
cuncta stricte discussurus.

Tuba mirum spargens sonum
per sepulchra regionum,
coget omnes ante thronum.

Mors stupebit et natura,
cum resurget creatura,
judicanti responsura.

Liber scriptus proferetur,
in quo totum continetur,
unde mundus judicetur.

Judex ergo cum sedebit,
quidquid latet apparebit,
nil inultum remanebit.

Quid sum miser tunc dicturus?
Quem patronum rogaturus,
cum vix justus sit securus?

Rex tremendae majestatis,
qui salvandos salvas gratis,
salva me, fons pietatis.

Recordare Jesu pie,
quod sum causa tuae viae,
ne me perdas illa die.

Quaerens me sedisti lassus,
redemisti crucem passus,
tantus labor non sit cassus.

Juste judex ultionis,
donum fac remissionis
ante diem rationis.

Ingemisco tanquam reus,
culpa rubet vultus meus,
supplicanti parce, Deus.

Qui Mariam absolvisti,
et latronem exaudisti,
mihi quoque spem dedisti.

Preces meae non sunt dignae,
sed tu, bonus, fac benigne,
ne perenni cremer igne.

Inter oves locum praesta,
et ab hoedis me sequestra,
statuens in parte dextra.

Confutatis maledictis,
flammis acribus addictis,
voca me cum benedictis.

Oro supplex et acclinis,
cor contritum quasi cinis,
gere curam mei finis.

Lacrimosa dies illa,
qua resurget ex favilla

judicandus homo reus -
Huic ergo parce, Deus.

Pie Jesu Domine,
dona eis requiem.

Amen.


Requiescat In Pace

domingo, maio 08, 2005

Seleta de poemas religiosos

Para quem já se esqueceu qual o tema por excelência de toda arte que quer merecer-se.

MANUEL BANDEIRA

Oração para aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, vosso pai,
Santa clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.



Alegrias de Nossa Senhora

Esta composição está inspirada
no texto de oratório do poema
de uma monja carmelita.

I

RECITANTE

O anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:


ANJO

O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.


RECITANTE

A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:


MARIA

Sou a escrava so Senhor;
Faça-se em mim segundo a sua palabra.


CORO

Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!


II

RECITANTE

Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espirito Santo.


ISABEL

Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto do teu ventre!


RECITANTE

O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:


MARIA

Minh´alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grande coisas faz o Poderoso:
Depoe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.


CORO

Aleluia! Aleluia! Aleluia!


III

RECITANTE

Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, insenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:


CORO DE PASTORES

Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nas alturas!


IV

RECITANTE

Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no tempo, sentado entre os doutores,
Disse-lhe então Maria:


MARIA

Filho, por que fizeste assim para conosco!
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.


RECITANTE

Ao que Jesus responde:


JESUS (menino de doze anos)

Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?


RECITANTE

E Maria:


MARIA

Achei aquele a quem minh´alma adora.
Recobreio-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador


CORO

Santo! Santo! Santo!


V

RECITANTE

A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de veses resplandecentes falaram:


OS DOIS VARÕES

Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aquí, já ressucitou.
Lembrai-vos de que vos disse em Galiléia:
“Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
“E seja crucificado,
“E ao terceiro dia ressucite.”


CORO

Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!


A Anunciação

Seis meses passados sobre
A angélica anunciação
Do nascimento de João,
Santo filho de Isabel,
Baixou o arcanjo Gabriel
À Galiléia e na casa
Do carpinteiro José
Entrou e diante da Virgem
Desposada com o varão
– Maria ela se chamava –
Curvou-se em genuflexão.
Dizendo com voz suave
Mais que a aura da manhã: “Ave
Marai cheia de graça!
Nosso senhor é contigo,
Tu bendita entre as mulheres.”
E ela, vendo-o assim, turbou-se
Muito de suas palavras.
Mas o anjo, tranquilizando-a,
Falou: “Maria, não temas:
Deus escolheu-te, a mais pura
Entre todas as mulheres,
Para um filho conceberes
No teu ventre e, dado à luz,
O chamarás de Jesus,
O santo Deus fá-lo-á grande,
Dar-lhe-á o trono de Davi,
Seu reino não terá fim.”
E disse Maria ao anjo:
“Como pode ser assim,
Se não conheço varão?”
E, respondendo, o anjo disse-lhe:
“Descerá sobre ti o Espírito
Santo e a virtude do Altíssimo
Te cobrirá com sua sombra;
Pelo que também o Santo
Que de ti há de nascer,
Filho de Deus terá nome,
Com ser filho de mulher,
Pois tua prima Isabel
Não concebeu na velhice,
Sendo estéril? A Deus nada
É impossível.” O anjo disse
E afastou-se de Maria.
Como no extremo horizonte
A primeira, a desmaiaad
Celagem da madrugada,
Duas rosas transluziram
Nas faces da Virgem pura:
Já era Jesus no seu sangue,
Antes de, infinito Espírito
Mudado em corpo finito,
Se fixar em forma humana
Na matriz santificada.


O Cruxifixo

É um crucifixo de marfim
Ligeiramente amarelado,
Pátina do tempo escoado.
Sempre o vi patinado assim.

Mãe, irmã, pai meus estreitando
Tiveram-no ao chegar o fim.
Hoje, em meu quarto colocado,
Ei-lo velando sobre mim.

E quando se cumprir aquele
Instante, que tardando vai,
De eu deixar esta vida, quero

Morrer agarrado com ele.
Talvez me salve. Como – espero –
Minha mãe, minha irmã, meu pai.

Teresópolis, março de 1966


Poemas traduzidos por MANUEL BANDEIRA


A Cristo crucificado
De autor espanhol não identificado

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara
E a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.


Nossa Senhora da Ternura

K. H. De Josselin de Jong

Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.

Dissipa a sua niote, ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.

Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.

Guarda-o da dor, dá-lhe alegria,
Para que, junto a ti, sorria.

Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para a visão de teu semblante.

Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.

E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.

Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, virgem pura.


Poemas de Natal

Rafael de la Fuente

I

Teus olhos
Juntam as mãos
Com as madonas
De Leonardo

Os bosques do ocaso,
As frondes amoradas
De um Renascimento sombrio.

O rebanho do mar
Bale para a gruta
Do céu cheio de anjos.

Deus encarna-se
Num menino que busca os brinquedos
De tuas mãos.

Teus lábios
Dão o calor que negam
A vaca e o burro.

E na penumbra
Tua cabeleira afofa as suas palhas
Para o Deus Menino.




II

González Carballo

Cristo, o Cristo menino,
Pisa, com o pé desnudo,
A rosa proibida.
Pisa o áspero cravo.
Para Jesus menino
Nardo é o espinho agudo.

Alvas vermelhas, céus
De algum entardecer
Teu destino anunciaram
Sangrento, Emanuel.

Em lágrimas o advertiam
A Virgem e josé.

Tu nada mais olhavas:
O pássaro caindo,
A nuvem fatigada,
A estrela de Israel.


III

Victor Londoño

Desceu sobre os homens a doce paz das alturas,
E num estábulo, berço de pobreza e dor,
Após toda um noite de maternas torturas
Jesus caiu na terra, débil como uma flor.

A música das coisas alegrou as obscuras
Abóbadas do presepe e num hino de amor
Adoraram o menino as humildes criaturas:
Um burro com seu bafo, com sua flauta um pastor.

Depois os adivinhos de comarcas remotas
Ofertaram-lhe mirra, e em suas línguas ignotas
Ao pequeño chamaram Príncipe de Salém.

E enquanto no Levante, com revérberos vagos,
Suavemente brilhava a estrela dos Reis Magos,
Os cordeiros olhavam para Jerusalém.



DA COSTA E SILVA

Consolatrix Afflictorum

- Bendita esta visão, que ainda descerra
Os olhos para o mundo e abre os ouvidos
Ao coração dos triestes oprimidos
Que vivem degradados pela terra!

Diz a alma humana, que em tormentos erra,
Quando a vitória trazes aos vencidos,
Presos à dor, numa infindável guerra,
Neste Vale de Lágrimas perdidos...

- Ave Maria! – exclama o mundo inteiro,
Que no teu manto vai buscar guarida,
Pelo sangue divino do Cordeiro.

- Bentida sejas, Mãe dos Desgraçados,
Que és no eclipse tristíssimo da Vida
A única luz dos olhos apagados!


O sinal da Cruz

Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranqüilo merecer a morte.
Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.
A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.
E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço

Santa Teresa

Graças à minha fé, vejo com o pensamento
Que as imagens da vida ao vivo reproduz,
No silêncio e na paz de um vestuto convento,
Um vulto de mulher sob um halo de luz...

É uma virgem que, alheia à vontade e à lisonja,
Ocultando a beleza à sombra do capuz,
Num voto de renúncia, um dia se fez monja,
A alma elevando ao céu, que em êxtase a seduz.

Bela e jovem, fugindo ao doce amor humano,
Que na febre do instinto a vida reproduz,
Vive só para Deus, num sonho ardente e insano,
O inquieto coração abraçado com a cruz.

A divina paixão que, isolando-a do mundo,
O seu místico ser à pefeição conduz,
O espírito lhe faz tão límpido e profundo
Como o céu, na ilusão do mistério e da luz.

Pura, humilde e feliz, entre versos e flores,
Hoje é Santa Teresa, a crença nô-lo induz,
Porque ao triste prazer de mãe de pecadores,
Preferiu, pela fé, ser noiva de Jesus.


SONETOS RELIGIOSOS
Fonte: Site Sonetário Brasileiro

SÃO JOÃO DA CRUZ
Alfonso de Guimaraes Filho


Da noite a solidão sonora invade
a alma, e a alma sozinha, companheira
do silêncio noturno, é a primeira
a penetrar a doce escuridade.

Deixem-na ir até onde a calada,
silenciosa música se espraia;
o vento é manso, a noite é sossegada,
o fulgor das estrelas já desmaia.

Deixem-na ir, sem ser notada, a casa
quieta, o repouso do infinito em tudo
que a cerca e docemente é que a domina.

Deixem-na ir, pequena, humilde brasa
acesa contra a treva e contra o mundo
céu de que desce a estranha paz divina.



REGINA MARTYRUM
Auta de Souza

Lírio do Céu, sagrada criatura,
Mãe das crianças e dos pecadores,
Alma divina como a luz e as flores
Das virgens castas a mais casta e pura;

Do Azul imenso, dessa imensa altura
Para onde voam nossas grandes dores,
Desce os teus olhos cheios de fulgores
Sobre os meus olhos cheios de amargura!

Na dor sem termo pela negra estrada
Vou caminhando, a sós, desatinada,
- Ai! pobre cega sem amparo ou guia! -

Sê tu a mão que me conduza ao porto.
Ó doce mãe da luz e do conforto,
Ilumina o terror desta agonia!



MARIA
Berilo Neves

Essa, que às leis universais se exime,
E dos erros de Adão não se ressente;
Que os pecados afasta, e afasta o crime,
E transforma em sorriso a dor ardente;

Essa, que o Bem resume, a Luz exprime,
E alegra o coração de toda a gente,
É a Virgem, Mãe de Deus, mulher sublime,
Que a Divina Justiça faz clemente.

Linda flor, divinal, mimosa e pura,
Obra-prima da Graça e da Beleza,
Maravilha da Arte e da Natura;

Palpitante sacrário, pequenino
Templo feito de carne e de pureza,
Onde andou a sorrir um Deus Menino...



A MONTANHA DE CRISTO
Carlos Maúl

Tu que trouxeste a voz consoladora
Do perdão, e de séculos distantes
Traças ao mundo a rota redentora
Que leva o amor a todos os quadrantes;

Tu que possuis as forças dominantes
Da bondade e da luz inspiradora,
És a fonte da Fé confortadora
Da intrépida vontade dos gigantes...

Descem de ti eflúvios de virtude,
Fulguração de sol que as almas banha
Na frescura da tua juventude...

O homem na terra os passos acompanha,
Altitude a fulgir noutra altitude,
Montanha culminando outra montanha...



Clóvis Monteiro

Fé! Prenda concedida às almas puras!
Sem ti, luz fecundante, que era do homem,
Sujeito, nesta vida, às amarguras,
Que a própria seiva espiritual consomem?

Sopro do céu! Nas regiões escuras
Da terra não há forças que te domem.
Salvas do lodo as pobres criaturas,
Que as más idéias ante ti se somem.

Mas, ai! do pecador que te não sente!
Quem há, porém, que, mísero, se esquive
De ti, obra de um Deus justo e clemente?

Todo bem, todo bem por ti ocorre...
- Alegria suprema de quem vive!
- Derradeiro consolo de quem morre!



LÁGRIMA!...
Ernâni Rosas

Ó lágrima nitente de Maria
Estrela d'alva a cintilar tremente,
És a divina lágrima d'um crente
Na fervorosa prece da agonia.

Rolas de olhos trêmula e fremente
Celestial, misteriosa e fria,
Caias talvez na pétala sombria
Dum olímpico lírio alvinitente.

É tão divina, mística e singela...
Parece feita de luar ou neve
Ou do estilhaço duma branca estrela,

Na flor silvestre de celeste alvura
A pequenina lágrima tão breve
Se congelara para sempre pura!...



PEQUEI, SENHOR
Gregório de Matos

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.



GLÓRIA!
Hermes Fontes

Glória é a expressão de Deus, sobre a miséria humana.
É o Céu, arqueado, em loa aos milagres da Terra.
Glória é ressurreição, sobrevivência... Emana
do alto: que só a Altura as alturas descerra.

Árvore, ó cruz verdeal do píncaro da serra!
Ó cruz das catedrais de que o torreão se ufana!
glória é a repatriação da alma que se desterra
no Sonho, para o Sonho... O sonho é a glória... Hosana!

Ser alma é professar na Dor. - Calvário ou Pindo,
dor pela Fé ou pelo Ideal - a glória é o pouso,
culminância a que, Deus e Poeta, vão subindo:

Que o só heroísmo - o só, verdadeiro e glorioso -
é o de sofrer cantando, é o de morrer sorrindo
para não perturbar o bem do alheio gozo...



SONETO DA PRECE
José Albano

Bom Jesus, amador das almas puras,
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.

A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino.

E, terminando este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, Pastor Divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!



JESUS
Junquilho Lourival

Senhor, ao teu desejo elevo a taça
Transbordante de fel do meu tormento!
Tua vontade sobre mim se faça
E seja o teu amor meu pensamento!

Que a minha fé, Jesus, não se desfaça,
Das perversões ante o deslumbramento!
Por mim passe a maldade como passa
O grão de poeira no fragor do vento!

Mártir da Cruz, ó símbolo da Mágoa!
Dá-me a cumprir sereno a minha pena
- Chagado o corpo e os olhos rasos d'água.

E faze que esta boca humilde e boa
Nunca maldiga ao que disser - Condena!
Mas beije os pés ao que disser - Perdoa!



JESUS AO COLO DE MADALENA
Luís Delfino

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!...
Sobem já, pela cruz acima, escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas.

Ouve-se o choro em torno. - As mãos primeiro,
Inertes, caem no ar dependuradas;
A fronte oscila; arqueia o tronco inteiro
Nos braços das mulheres desgrenhadas.

Soltam-se os pés. - Aumenta o pranto e a queixa.
Só Madalena ao oiro da madeixa
Limpa-lhe a face, que de manso inclina.

E no meio da lágrima mais linda,
Com o dedo erguendo a pálpebra divina,
Busca ver se Ele a vê... beijando-o ainda!...



AFETOS JACULATÓRIOS
Manuel Botelho de Oliveira

Quem pudera Senhor sempre atender-vos!
quem pudera Senhor sempre agradar-vos!
quem pudera Senhor sempre buscar-vos!
quem pudera Senhor sempre querer-vos!

Quem me dera meu Deus nunca ofender-vos!
quem me dera meu Deus nunca agravar-vos!
quem me dera meu Deus nunca deixar-vos!
quem me dera meu Deus nunca perder-vos!

Oh quem pudera nunca resistir-vos
da terra desprezando a doce guerra
pera em meu peito sempre possuir-vos:

Mas ai! que tal miséria em mim se encerra
que se largá-la quero por seguir-vos,
a terra pega em mim, por ser da terra.



VIRGEM DE NAZARÉ
Osvaldo Orico

De pés descalços e a alma reverente,
Sigo-te, como outrora te seguia,
Santa do coração de minha gente,
Padroeira da graça e da alegria.

Na procissão que passa, humildemente,
Como há vinte e três anos o fazia,
Trago-te a minha dádiva de crente
Nesta salva de luz e poesia.

Sou a grande onda humana que se espalha
Do teto nobre ao tapiri de palha,
Sou essa força anônima e divina,

Que subindo, espontânea como a vaga,
A hesitação dos tímidos apaga
E a virtude dos crentes ilumina.



A AVE-MARIA
Raimundo Correia

Ave-Maria! Enquanto nas campinas
As "boas-noites" abrem, misteriosas
Bocas exalam no ar frases divinas,
Como suave emanação as rosas...

Ó noivas do infortúnio lacrimosas,
Crianças loiras, mórbidas meninas,
Órfãs de lar e beijos, que, piedosas,
Ergueis ao céu as magras mãos franzinas!

Quando rezais, às horas do sol posto,
A ave-maria assim, no azul parece
Sorri-se a Virgem-Mãe aos desvalidos;

Nossa Senhora inclina um pouco o rosto
Para escutar melhor tão meiga prece,
Hino tão doce e grato aos seus ouvidos.


AO LUAR
Rodrigues de Abreu

Os santos óleos, do alto, o luar derrama...
Eu, pecador, ao claro luar ungido,
Sonho: e sonhando rezo comovido
E arrebatado na divina chama.

Deus piedoso, consolo do oprimido,
Se compadece, à voz que ardente clama,
Porque meu coração, impura lama,
É um brado intenso para os céus erguido!

E o divino perdão desce da altura:
Grandes lírios alvíssimos florescem
Sob a lua, floresce a formosura...

E nessa florescência, imaculados
Raios longos do luar piedoso descem,
Choram comigo sobre os meus pecados.