sábado, março 05, 2005

O gigante China devora os seus filhos

Interessantíssima entrevista com um dos maiores conhecedores da China contemporânea, o missionário P. Cervellera....

Há um padre que, tem no seu gabinete de trabalho um busto de Buda e a escultura em barro cozido dum soldado guerreiro de Xi'an, ao lado dos ícones de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, e prega continuamente que não devemos oferecer a outra face da cara à China. Não faz isto por maldade. Segue simplesmente o conselho de um bispo chinês obrigado a viver nas catacumbas: "Os políticos de Pequim são arrogantes. Se queres ser respeitado, deves tratá-los "a pontapé", tal como eles costumam fazer contigo. Acariciá-los equivaleria a mostrar-se débil para com eles: desprezar-te-ão".
O Padre Bernardo Cervellera não é um Padre qualquer, mas um sinólogo. Um padre que percorreu o País do Dragão de lés a lés. Um padre que conseguiu ensinar, ocultando a sua verdadeira identidade, durante um ano, na Universidade de Pequim, até que foi descoberto e expulso. Um padre que tem a sua residência em Hong Kong, desde 1997 e que até poderia votar na China, embora conserve o passaporte italiano. Não se pode imaginar que alegria foi, para ele, ver nas últimas semanas o Presidente da República italiano, Carlo Azeglio Ciampi a oferecer a outra face aos chineses que o tratavam "a pontapé" e que o constrangiam, com chantagens económicas, a prometer solenemente que a Itália se baterá para que a União Europeia revogue o embargo que tinha sido imposto desde 1989 sobre a venda de armas à China como reacção contra a sangrenta repressão ocorrida na praça de Tian'anmen.
"O chefe de Estado foi à China, humilhando-se, a fim de conseguir dar um novo brilho à delegação económica italiana, ansiosa por recuperar o tempo perdido relativamente à possibilidade das empresas poderem trabalhar naquele país e de importarem produtos. E o que é que conseguiu obter em troca? Somente migalhas, em comparação com os negócios de ouro feitos por Chirac - o qual juntamente com o Presidente da China, Hu Jintao, assinou nada mais nada menos do que cerca de vinte acordos comerciais, nos quais se incluem projectos de mais de 1,45 biliões de euros no sector dos transportes e da energia hidroeléctrica - e em comparação com Schröder, que conseguiu vender, de uma só vez, 23 Airbus à companhia Air China, pelo valor de 1,3 biliões de dólares. Em vez disso, os italianos trazem para casa luz verde para efectuar exportações de chouriço e mortadela... É incrível".
Sendo o sexto de oito filhos de um operário de Grottaglie ("para me baptizarem, os meus pais escolheram o nome do santo do dia em que eu tinha nascido, pois a fantasia deles já tinha esgotado todos nomes"), o padre Cervellera deixou a província de Taranto aos 11 anos, para acompanhar, juntamente com a família, o pai que tinha encontrado trabalho em Sesto S. Giovanni. "Nunca pensei tornar-me padre. Era agnóstico. Em Milão, estudei química no Instituto Molinari e depois filosofia na Universidade Católica. Foi D. Luigi Giussani, o fundador do movimento Comunhão e Libertação, que me fez reencontrar a fé. Uma descoberta tão poderosa, tão totalizante que disse a mim mesmo: a um ideal destes, estou pronto a consagrar toda a minha vida! Antes do sacerdócio, senti primeiro a vocação para o celibato. Curioso, não?".
Ordenado padre em 1978, o Padre Cervellera é fiel também a uma outra ordem, um pouco menos sagrada: a dos jornalistas. Em Roma, dirige a Asianews, a agência de notícias do PIME (Instituto Pontifício para as Missões Estrangeiras) que, com a sua enorme rede de correspondentes em todos os cantos do Médio e Extremo Oriente (de Jerusalém a Bangkok, de Bagdad a Tóquio, de Bombaim a Seul, de Islamabad a Manila), tem sido a mais actualizada do mundo em dar notícias em primeira mão sobre a catástrofe do tsunami.
O reverendo director está a habituado a falar claro. Quando guiava a Fides em 1999, a agência de imprensa que depende directamente do dicastério missionário da Santa Sé, lembrou-se de pedir publicamente ao Presidente chinês Jiang Zemin o que é que tinha sido feito do Bispo de Baoding e do seu auxiliar, totalmente desaparecidos três anos antes. "As ideias expostas pela Fides são opiniões pessoais do Padre Cervellera e ele assume toda a responsabilidade pelo que diz", disse aos jornalistas Joaquim Navarro Valls, o porta-voz do Papa, preocupado em não prejudicar as já precárias relações entre o regime comunista e o Vaticano. A história acabou com o muito pouco diplomático Padre Cervellera a ser demitido do cargo...
Mas o Padre Cervellera não ficou inactivo; ainda não tinha passado muito tempo - o tempo suficiente para publicar alguns livros, entre os quais citamos "Deus está do lado da mulher" (escrito em inglês), "Líbano, a futura paz" e "Missão China" - e já se encontrava à frente da direcção da agência de notícias Asianews, fundada em 1987 por um outro padre lendário que deu a volta ao mundo, Pe. Piero Gheddo. A agência é muito consultada pelas sedes diplomáticas, universidades e redacções. Este sacerdote abriu-a a todos, lançando o site www.asianews.it em três línguas: italiano, inglês e chinês.

Quem é que consulta o vosso site, na Internet?
"60% são leitores de língua inglesa, 30% italianos e 10%, chineses. Só que as autoridades de Pequim, de vez em quando, ocultam o site, sobretudo quando afrontamos temas delicados".

De que tipo?
"Basta, por exemplo, que apareçam três palavras - perseguições, Tian'anmen, Taiwan - e a censura intervém de imediato. Para podermos compreender "quão grande" é a democracia que existe na China, quando eu estava lá e digitava a palavra "democracy" no motor de pesquisa de internet "Google", aparecia a visualização dos resultados da pesquisa, mas o processo de abertura das páginas web referentes a estes estava vedado. De qualquer modo, os chineses são grandes especialistas a ultrapassar os obstáculos e a aceder, mesmo assim, aos nossos servidores, que se encontram nos Estados Unidos".

E sendo a China um País assim tão pouco democrático, como é que o senhor conseguiu ter um lugar na Universidade de Pequim em 1995?
"Com alguns truques. Não disse, obviamente, que era um padre. O ensino é vedado aos sacerdotes. O contrato com a Faculdade de história deveria ter durado na realidade três anos".

Mas em que disciplina?
"História da civilização ocidental. Um dia, a comissária política da Universidade convocou-me e disse-me: "Não precisamos de si", e rasgou o meu contrato. A polícia deu-me 48 horas para deixar Pequim, de outro modo, teria sido expulso. Refugiei-me em Hong Kong, que na altura era ainda uma colónia britânica".

Como é a China actual?
"Está farta do comunismo, de "servir o povo" e de todas aquelas mentiras. As pessoas perceberam que o marxismo só prestou serviço aos chefes do partido, permitindo que eles enriquecessem com o dinheiro das massas. Não obstante isto, os gânglios vitais do sistema - o Partido Comunista Chinês (PCC) e o ateísmo - resistem. O Cristianismo e os valores ocidentais são vistos como "poluição espiritual", contaminação, e o Papa como fumo deitado para os olhos".

Mas não dizem que este novo líder, Hu Jintao, é reformista?
"Reformista? Ele afirma que a democracia não foi feita para a China. Tal como os seus antecessores, propunha o centralismo democrático, isto é, a supremacia do partido. O governo comunista não permite nem sequer a nomeação dos bispos; estes devem andar de mãos dadas antes de mais nada com o PCC. Nos últimos vinte anos, procurou criar até uma Igreja nacional, fazendo com que fossem nomeados somente prelados escolhidos pelas associações patrióticas em vez de aceitar aqueles que eram ordenados pelo Papa. Mas agora, 85% do episcopado pediu perdão a Roma, voltou a estar em comunhão com o Santo Padre".
A China está realmente próxima de nós tal como profetizava o filme de Bellocchio, em 1967?
"Muitíssimo. É o mercado mais importante do mundo, é ela que comanda as leis da concorrência ao nível planetário. Mas é uma superpotência frágil, que não tem petróleo e que depende do estrangeiro por causa da energia. Os bancos apoiam-se em empréstimos do Estado. E o desenvolvimento baseia-se na exploração pavorosa do homem. Os pedreiros que constróem os grandiosos monumentos da moderna Shanghai, como o Jinmao, a torre do Comércio dourado (que, com os seus 421 metros, é o edifício mais alto da China e o terceiro ao nível mundial, depois das torres Petronas de Kuala Lumpur e a Sears Tower de Chicago), não recebem o salário da parte das empresas em que estão empregados. O paraíso dos trabalhadores tornou-se um inferno. A inquietação social é elevadíssima. A separação enorme entre ricos e pobres provocará uma revolução cem vezes mais violenta do que a que aquela que foi organizada por Mao".

E quem são os ricos?
"Não são, certamente, aqueles que, para enriquecerem, tiveram de suar muito. São os filhos "dos papás". São chamados de xiao zi, os príncipezinhos. Vão estudar para os Estados Unidos, herdam os cargos ocupados pelos pais durante a revolução cultural, tirando daí o lucro das rendas para si próprios, têm o monopólio do comércio com o estrangeiro, eludem os impostos aduaneiros. Apoderaram-se das empresas estatais vendidas aos privados por causa da liberalização, explorando leis criadas ad hoc pelos seus familiares para roubar fraudulentamente os direitos adquiridos entretanto por parte dos trabalhadores".

A corrupção está assim tão difundida?
O professor Hu Angang, investigador da Academia de Ciências Sociais, calcula que, entre roubos, dinheiro utilizado corruptamente, e fraudes, são tirados anualmente ao País qualquer coisa como 150 biliões de euros, o equivalente a 14% do produto interno bruto. Com o dinheiro tudo se compra: licenciaturas, passaportes, mulheres. O suborno é a regra universal. Quando eu vivia lá, os funcionários estatais contentavam-se com uma mala de pele da Gucci; agora, já exigem um Mercedes. O camarada presidente todos os anos lança a campanha de anti-corrupção, mas os meus amigos de Pequim riem-se, dizendo: "Como é que uma pessoa consegue é capaz de cortar as pernas a si próprio?". É o partido que é corrupto".

Bastam os impostos alfandegários para controlar a concorrência chinesa?
"Não".

Então, o que é que o senhor propõe?
"Eu queria que o respeito da China pelos direitos internacionais? Se ela não os aplica, acho que se deviam boicotar os seus negócios. Entre estes direitos, incluo a liberdade religiosa, porque desta provêm depois as outras liberdades: de pensamento, de imprensa, de associação".

O que é que irá acontecer com a China? Tornar-se-á ela, em 2020, a primeira potência económica do planeta, como afirma a Banca mundial, ou entrará em colapso?
"Penso que cairá em ruínas. Para permanecer de pé, este gigante de barro, está a tentar reforçar a vigilância militar. Será que o facto de terem sido instituídos núcleos anti-motim em todas as cidades, não lhe diz nada, quando, para manter a ordem pública, bastaria o exército de libertação, a polícia e a guarda civil? Mas o Ocidente, que vê na China a fábrica do mundo, em vez de ajudar este povo a libertar-se, só pensa em explorá-lo ainda mais".

O que é que o senhor diz dos empreendedores, que deslocam a produção do próprio País para a China?
"Digo-lhes que deviam investir só perante cláusulas éticas bem precisas sobre os salários, segurança, sobre as cantinas, e até sobre os alojamentos, porque, hoje em dia, os operários chineses vêem-se obrigados a dormir ao lado das máquinas, entre um turno e outro. Tomai bem atenção, capitalistas: não podeis ter o lucro como o único objectivo. Tornai-vos amigos da população e não "deis graxa" aos corruptos de Pequim. Os governos passam, a população permanece".

O rendimento per capita dos chineses duplicou em apenas 10 anos. O Japão empregou 43 anos para conseguir o mesmo resultado, os Estados Unidos 47, a Grã-Bretanha 58. Como é que explica isto?
"Com a escravidão. A China conta 120 milhões de pessoas que enriqueceram, 900 milhões de miseráveis e 300 milhões de pessoas, às quais é proibido fazer três coisas ao mesmo tempo - comer, vestir e habitar - podem escolher apenas uma delas. O operário chinês trabalha 15 horas por dia, tem apenas um dia de descanso por mês e o seu pagamento à hora é de 0,125 euros. Uns bons 13,3 milhões dos trabalhadores são crianças entre os 10 e os 14 anos de idade. Os sindicatos livres não existem. Em 2001, os acidentes de trabalho mortais foram 800.000. Muito frequentemente, os infortúnios nem sequer são contabilizados. Por lei, denunciam-se somente os acidentes em que se perderam mais de 10 vítimas".

Pavoroso.
"Metade da população não consegue ter pelo menos uma vez na vida uma consulta médica e, não é, certamente, porque goze de boa saúde. 60-80% dos chineses morrem porque não podem ter acesso a assistência médica ".

Quando não são sujeitos à pena de morte por lei.
"O governo comunista detém o record mundial do número de execuções capitais: oficialmente, foram 6.500 no ano passado; na realidade, foram mais de 10.000. Segundo a Human Rights Watch, as prisões tornaram-se celas frigoríficas de órgãos para transplantes".

Mas não lhes disparam uma bala na nuca? A extracção dos órgãos para transplante só se pode efectuar com o coração batente.
"Agora já não. As execuções fazem-se com uma injecção. E as câmaras da morte estão montadas em camiões que podem assim chegar mais rapidamente aos hospitais necessitados das "peças de troca"".

Quais são os crimes para os quais se prevê a aplicação da pena capital?
"São 68, incluindo a fraude fiscal e a exploração da prostituição. Os tribunais têm poder absoluto mas, na realidade, dependem dos secretários locais do partido".

Como é que estes secretários locais do partido são eleitos?
"Não são eleitos: são nomeados pelo governo central. É um sistema feudal, feito por suseranos, vassalos e súbditos de vassalos, em que se pode ser executado por um coisinha de nada: nos dias passados, Liu Xiaolan, uma mulher que tinha vindo do campo até Guangzhou, foi morta a pontapé por sete empregados de um grande armazém, por ordem do chefe de serviço deles: tinha roubado 20 yuan de leite em pó. O equivalente a 2 euros em troca de uma vida".

Teria feito melhor se tivesse ficado na sua aldeia.
"As perspectivas de sobrevivência dos camponeses não são, certamente, melhores. Têm de pagar impostos pelos animais que possuem, pelos animais que matam, pelos partos das porcas, pelos ribeiros, pelas estradas, pela educação. Chen Jingcang, um agricultor de 51 anos, que estava a pastar uma vaca em Shaanxi, num campo de aveia de propriedade sua, foi multado com uma taxa por um misterioso "Ofício para embelezamento da cidade" pelo facto de "não ter respeitado a beleza da paisagem verde": 200 yuan. Como só conseguiu arranjar 50, na tarde do dia seguinte, 10 empregados mataram-no à bastonada".

Esquece a lei imposta sobre a procriação.
"O filho único é estabelecido por lei. Se se tem um segundo filho, paga-se um imposto bem pesado. A selecção dos bebés é praticada através do aborto ou sufocação no berço: a Organização Mundial de Saúde calcula que, desde 1980 até hoje, terão desaparecido 50 milhões de meninas por meio deste processo. Isto é de tal modo verdade que a proporção hoje é de 120 homens por cada 100 mulheres, e mais ainda 140 homens por cada 100 mulheres em Guangxi, em comparação com uma média mundial de 106 homens por cada 100 mulheres e uma média europeia de 95 homens por cada 100 mulheres".

Mas haverá, certamente, qualquer coisa de positivo?
"O povo. Os chineses, de início, parecem frios, desconfiados, mas quando compreendem quem tu és, abrem-te o próprio coração e a própria casa. Depois, os naturais de Pequim são aristocratas, cordiais, elegantes. Gente deste tipo não merece uma liderança assim".

Quantos católicos existem na China?
"Quinze milhões, muito unidos entre eles".

Como é que eles vivem?
"Nas grandes cidades conseguem fazer-se passar despercebidos. Vão à Missa às 6 da manhã e depois, vão para a fábrica. As perseguições mais duras dão-se nos campos, onde são facilmente identificados. Recentemente, tomei posse de um documento do Instituto de Propaganda que ordena o reforço do ensino do ateísmo como religião de Estado. É proibido falar de fé aos rapazes antes dos 18 anos. No que respeita ao catecismo, até àquela idade, só os pais é que se podem encarregar dele. Nos seminários, é imposta a obrigação de inserir o marxismo entre as disciplinas ensinadas. Isto, não obstante se registarem todos os anos 150.000 conversões adultas. Os bispos são 117, dos quais cerca de 70 são reconhecidos pelo governo. Três desapareceram nas prisões e destes, há anos que não se sabe nada, outros dez vivem sob prisão domiciliária. As perseguições atingem todas as religiões. Só na província de Zhejiang, num ano, o governo abateu com as buldózers mais de 450 templos, entre igrejas católicas, protestantes, tempos budistas e tauistas".

Como é que é possível que o Presidente da República italiana não tenha sentido o dever de levantar a voz contra os direitos humanos pisados?
É significativo aquilo que Sergio Romano escreveu no diário Corriere della Sera em resposta a um leitor: "O que é que teria acontecido se Ciampi tivesse repreendido os seus interlocutores pela perseguição movida contra os dissidentes do regime chinês ou pela exploração do trabalho infantil?" Teria perdido algum bom negócio, em favor dos nossos concorrentes".

Realpolitik.
"Antes de se dobrar totalmente perante o governo chinês, suspendendo o embargo imposto sobre a venda de armas a Pequim, o chefe de Estado até se foi prostrar perante o templo de Confúcio. Mas livrou-se bem de visitar o templo de Lama, que dista apenas 100 metros. Espantou-me. E dizer que se proclama católico e amigo do Papa. Era Domingo: mesmo em forma privada, sem espalhafato, poderia ter entrado numa Igreja Católica".

Atenção. Já lhe aconteceu perder a direcção de uma agência...
"Mas estou contente. Agora, todas as vezes que prendem um Bispo chinês, a sala de imprensa vaticana e Navarro Valls lançam um apelo a pedir a sua libertação".

Visitar o templo de Confúcio foi um acto político?
"Não é por acaso que o governo financia as escolas de confucionismo, uma doutrina moral que exalta o valor da obediência para com as autoridades constituídas e o respeito pelo papel que é dado cumprir a cada um na sociedade".

Como é que é possível que este País tenha passado da Longa Marcha de Mao, do livro vermelho, da revolução cultural, ao pedido oficial para celebrar o concurso Miss Universo 2005 na China?
"Como é que o maoísmo se conseguiu impor? Apresentando-se como a religião de um semi-deus: Mao, que fazia o que lhe dava na real gana, deixava crescer as couves para o povo, enquanto ele - em privado - vivia como um imperador. Era um deus tauista, ao qual se rezava, mas também um deus budista, que pregava o seu discurso de abnegação para com o povo, a sobriedade, a frugalidade monástica. Assim, conseguiu que o marxismo pegasse. Quando os chineses compreenderam que o indevidamente chamado "O grande Salto em Frente" só tinha provocado milhões de mortos, a confiança nos poderes taumaturgos do imperador caiu. O resto veio como reacção e passa ainda hoje através da redescoberta da individualidade reprimida durante tanto tempo. Basta apenas pensar nas curas estéticas: as novas gerações vão ao cirurgião para alargar os seus olhos rasgados e remodelar o nariz, de modo a conseguir que ele fique pontiagudo, à francesa. A procura do religioso torna-se um desejo de absoluto para esta humanidade".

Mas como é que explica o facto de, segundo uma sondagem da BBC inglesa, os chineses serem os mais optimistas do planeta e os italianos os mais pessimistas?
"Os chineses no tauismo, vêem nas coisas que vão mal um incentivo para as endireitarem. Além disso, são um povo jovem que está novamente a começar a acreditar em Deus, depois de mais de meio século de comunismo. Os italianos, ao contrário, estão a tornar-se ateus e materialistas, arrancaram as raízes da sua esperança, amedrontam-se até perante a ideia de ter um filho. Para nós, o lucro e a carreira já não são sequer os objectivos da vida, mas apenas passatempos tristes enquanto se espera que chegue o nada".

[tradução realizada por pensabem.net]
Stefano Lorenzetto, in Il Giornale, 6 de Fevereiro de 2005


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