segunda-feira, janeiro 10, 2005

Pascal

43

Nunca prestamos atenção ao tempo presente. Antecipamos o futuro como se este fosse lento demais, apressando-lhe o curso, ou lembramo-nos do passado, detendo-o como se ligeiro demais; somos tão imprudentes que vagamos em tempos que não são nossos, deixando de pensar naquele único que nos pertence; somos tão fátuos que só buscamos aqueles que mais não são, evadindo-se sem reflexão daquele que subsiste. Normalmente, o presente nos fere. Escondemo-lo de nossa vista pois nos aflige, e se agradável for, lamentamos vê-lo fugir. Cuidamos mantê-lo para o futuro, planejando dispor coisas que não estão em nosso poder, para um tempo que não temos certeza se chegará.
Que cada um examine seus pensamentos. Encontraremos todos ocupados com o passado ou o futuro. Quase não pensamos no presente, e quando nele pensamos é para pô-lo a serviço do futuro. O presente nunca é nossa finalidade. Desta forma, nunca vivemos, contudo, esperamos viver; dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.


50

Inconstância.
As coisas possuem qualidades diversas e a alma diversas inclinações, pois nada que se ofereça à alma é simples, e a alma nunca se oferece a nada com simplicidade. Daí vem que choramos e rimos da mesma coisa.


54

[...]
Tirania.
A tirania é o querer ter por um modo o que só podemos ter por outro. Prestamos diferentes deveres aos diferentes méritos: dever de amor à afeição, dever de temor à força, dever de crença à ciência.
Devemos prestar tais deveres – seria injusto recusá-los e injusto exigir-lhes outros.
Assim, estes discursos são falsos e tirânicos: “Eu sou belo, logo devem temer-me; eu sou forte, logo devem amar-me; eu sou...”. É ainda falso e tirânico dizer: “Ele não é forte, logo não o estimarei. Ele não é habilidoso, logo não o temerei”.

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