terça-feira, janeiro 11, 2005

Num mundo perfeito, no parachoque do caminhão...

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Blaise Pascal


Parte VI


Os Filósofos

339
Concebo, de forma clara, um homem sem mãos, pés, cabeça (somente a experiência nos diz que a cabeça é mais necessária que os pés). Contudo, não posso conceber o homem sem pensamento; deste modo, seria ou uma pedra ou uma fera.

346
O pensamento faz a grandeza do homem.

347
O homem é apenas um galho, o mais fraco da natureza; mas é um galho pensante. Não é mister que o universo inteiro se confabule para esmagá-lo: um gás, uma gota d´água, é o bastante para matá-lo. Contudo, mesmo que o universo o esmague, o homem seria ainda mais nobre que aquilo que o mata, pois ele sabe que morre, consistindo nisso a vantagem que tem sobre o universo; o universo, por sua vez, ignora tal fato.
Logo, toda nossa dignidade consiste no fato de pensar. É justamente daí que devemos nos avaliar e não à partir do espaço e do tempo, os quais não saberiamos preencher. Esforçemo-nos pois a bem pensar: eis o princípio da moral.

348 Galho pensante
Não é no espaço que devo buscar minha dignidade, mas na displina do meu pensamento. Eu não a terei mais ordenada ao possuir terras: pelo espaço, o universo me contém e me engole como se a um ponto; pelo pensamento, eu o contenho.

352
A medida da virtude de um homem se não deve medir pelos seus esforços, mas pelo seu ordinário.

355
A eloquência contínua entedia.

358
O homem não é anjo nem fera; o mal é querer fazer-se anjo, fazendo-se assim fera.

367
O poder das moscas: elas ganham batalhas, impedem nossa alma de agir, comem nosso corpo.

369
A memória é necessiaria a todas as operações da razão.

372
Escrevendo meus pensamentos, ele me escapa algumas vezes; isso, contudo, me faz lembrar de minha fraqueza, a qual esqueço a toda hora; tal me instrui tanto quanto o pensamento esquecido, pois assim tendo a tomar conhecimento do meu nada.

375
Passei grande parte da minha vida crendo que existia justiça, e nisso me não enganava; realmente há, na medida daquilo que Deus nos revelou. Contudo não a considerava assim, e nisso me enganava; eu cria que nossa justiça era essencialmente justa e que tinha de conhecê-la e julgá-la. Mas tantas vezes achei-me fauto de um reto julgamento que finalmente começei a desconfiar de mim e depois dos outros. Eu ví que todas as terras e todos os homens eram cambiantes, e cheguei a conclusão que nossa natureza consiste apenas numa contínua mutação.

378
É deixar de ser humano sair do justo meio. A grandeza d´alma humana consiste em saber se manter aí.

380
Todas as boas máximas estão neste mundo; o que falta é aplicá-las.

381
Se alguém tem a cabeça embaraçada, penteia-a.

382
Quando tudo se agita de forma igual, nada parece se agitar. Quando todos são carregados pela torrente, parece que ninguém o foi. Aquele que pára adverte da movimentação dos demais, tal como um ponto fixo

383
Os que são desregrados dizem aos que são ordenados que estes se distanciam da natureza, aqueles crendo seguí-la; estes semelham-se aos que, dentro de uma embarcação, crêem que os que estão no porto se movem. A linguagem é semelhante para ambos os lados. Só é preciso um ponto fixo para julgá-la. O porto julga os que estão na embarcação; mas onde acharemos um porto em moral?

385
Pirronismo: de início, tudo é verdadeiro e tudo é falso. A verdade essencial não é assim: ela é toda pura e verdadeira. Esta mistura a desonra e nega.
Nada é pura verdade; desta feita, nada é verdadeiro, no ponto de vista da pura verdade.
Diremos que é verdade que o homicida é mal; sim, pois conhecemos bem o mal e o falso. Quem dirá o que é bom? A castidade? já o não digo, pois o mundo terminaria. O casamento? não: a continência vale mais. O não matar? Não, senão as desordens seriam horríveis, e os malvados matariam todos os bons. Matar? Não, pois isso destrói a natureza. Só possuimos a verdade e o bem parcialmente, mesclados com o mal e o falso.

389
O Eclesiastes mostra que o homem sem Deus está na ignorância de tudo, em uma tristeza inevitável. Ser triste é querer e não poder. Ora, ele quer ser feliz, e seguro dalgumas verdades; todavia não pode saber nem desejar não saber.

391
O pirronismo é útil à religião.

392 Contra o pirronismo
É uma coisa estranha que não podemos definir estas coisas sem obscurecê-las. Suponhamos que todos as concebam da mesma maneira; mas supômo-lo gratuitamente, pois lhe não temos prova alguma.

396
Duas coisas instruem o homem de toda sua natureza: o instinto e a experiência.

404
A maior baixaza do homem é a busca da glória, mas ela é ao mesmo tempo a maior marca de sua excelência; toda posse que tenha sobre a terra, toda saúde e comodidade que possua, lhe não deixa satisfeito, se ele não está na estima dos homens. Crê tão excelente a razão do homem que toda vantagem que possua nesta terra, caso ele não seja avantajosamente considerado pela razão humana, não o satisfaz. Este é o mais belo sítio do mundo, e nada pode repelir tal pensamento; é a qualidade mais resistente do coração humano.
Os que mais desprezam os homens, comparando-os às feras, querem ser admirados e cridos por eles, contradizendo-se em seu próprio sentir: sua natureza, que é mais forte que tudo, convence-os mais fortemente da grandeza do homem do que a razão os convence da baixeza.

412
Guerra intestina no homem entre a razão e as paixões.
Se apenas tivesse a razão sem paixões... Se apenas tivesse as paixões sem razão... Mas tendo uma e outra, a guerra é inevitável, só conseguindo a paz com uma às custas de fazer guerra com a outra: assim está sempre cindido, contrário a si mesmo.

413
Esta guerra interior da razão contra as paixões fez que aqueles que desejaram ter paz fossem dividos em duas seitas. Uns quiseram renunciar as paixões, e tornar-se deuses; outros quiseram renunciar a razão e tornar-se bestas feras. (Des Barreaux)
Todavia, não o puderam uns e outros; a razão sempre está presente, acusando a baixeza e a injustiça das paixões, perturbando o repouso daqueles que se abandoraram a estas; as paixões permanecem vivas naqueles que lhe querem renunciar.
418
É por demais perigoso fazer um homem ver o quanto é semelhante aos animais, sem lhe mostrar sua grandeza. É ainda mais perigoso fazê-lo ver a sua grandeza sem a sua baixeza. Contudo, o mais perigoso de tudo é deixá-lo ignorar um e outro. Mas lhe é bem salutar exibir-lhe ambos.

420
Se se levanta, se rebaixa;
Se se rebaixa, se levanta;
E se contradis sem parar, até que compreenda que é um monstro incompreensível.

421
Eu critico igualmente os que tomam partido de louvar os homens, os que tomam partido de lhes rebaixar e dos que fazem isso apenas pela diversão; só aprovo aqueles que buscam em meio a gemidos.

422
É uma coisa boa estar abandonado e fatigado devido à inútil busca pelo verdadeiro bem, a fim de estender os braços ao libertador.

423
Eu gostaria de levar o homem a desejar encontrar a verdade, a estar alerta às e desapegado das paixões, para seguí-la onde possa encontrá-la, sabendo quanto seu conhecimento é obscurecido por suas paixões; eu bem gostaria que ele odiasse a concupiscência que o controla, a fim de que ela não o cegasse mais quando for fazer suas escolhas, e de que não o detivesse quando tivesse escolhido.

424
Todas estas contradições, as quais pareciam distanciar-me cada vez mais do conhecimento da religião, é justamente o que mais rapidamente conduziu-me à verdadeira.

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