sábado, janeiro 22, 2005

Émile Boutroux - A contingência das leis naturais - I


Émille Boutroux, o autor de

Trad.: Luiz de Carvalho - Accipite, Domine meo, liber qui servo suo datur.

INTRODUÇÃO

Originalmente, o homem, entregue às suas sensações de prazer ou sofrimento, não fixava-se ao mundo exterior; ignorava-lhe mesmo a existência. Contudo, com o tempo, distingue entre as sensações dois elementos, dos quais um é o sentimento de si, relativamente simples e uniforme, e o outro a representação dos objetos estranhos, mais complexo e cambiante. Destarte desperta-se nele a necessidade de sair de si e de considerar as coisas que o envolviam em si mesmas, a necessidade de conhecer. Não se pergunta em que ponto de vista deve se postar para ver as coisas tais como lhe aparecem, mas sim tais como são em realidade. Do mesmo ponto em que se encontra, seus olhos, abrindo-se a isto, descobriram uma perspectiva admirável, horizontes infinitos. Tal perspectiva se estabeleceu como um lugar de observação; trata de conhecer o mundo tal qual lhe aparece deste ponto de vista. É a primeira fase da ciência, onde o espírito repousa sobre os sentidos, o desejo de constituir o conhecimento universal. De fato, os sentidos lhe fornecem uma primeira concepção do mundo. Segundo seus dados, o mundo é um conjunto de fatos, de uma variedade indefinida. O homem pode observá-los, analisá-los, descrevê-los com crescente exatidão. A ciência é a descrição mesma. Quanto a uma ordem fixa entre os fatos, não há dúvidas: os sentidos não dizem nada a este respeito. É o acaso, ou o destino, ou um conjunto de vontades caprichosas que presidem o universo.

Durante certo tempo, o homem se contenta com esta concepção. Não era ela bastante fecunda? Todavia, ao observar os fatos, o espírito lhes notava relações constantes. Via que a natureza compunha-se de fenômenos que se chamavam uns aos outros, e não de coisas isoladas. Constatava que a contigüidade dos fenômenos, a partir dos sentidos, não era indicio seguro de uma correlação efetiva. Ele gostaria de poder arrumar os fenômenos, não na ordem em que lhe aparecem, mas em uma em que dependessem efetivamente uns dos outros. Além disso, a ciência puramente descritiva lhe parecia insuficiente, mesmo inexata, porque falseava para si as relações entre as coisas. Ele gostaria de lhe acrescentar o conhecimento explicativo. Este conhecimento os sentidos não podem procurar. Pois, para adquiri-los, é necessário tomar notas das ligações observadas, e compará-las entre si, de maneira a discernir as ligações constantes e gerais. Então, uma vez estabelecidos tais esquemas, seria preciso inserir neles as ligações particulares que nos propomos explicar. Ora, os sentidos só apreendem as ligações imediatamente dadas pelas próprias coisas. Contudo, o entendimento interfere e oferece ao espírito um ponto de vista mais elevado, de onde as coisas são percebidas precisamente naquilo que têm de geral. Daí o espírito encarrega o entendimento de interpretar, classificar e explicar os dados dos sentidos.

O entendimento assim posto acima dos sentidos pretende, antes de tudo, superá-los e construir, por si só, a ciência do mundo. Bastar-lhe-á, parece, tomar como ponto de partida as idéias que aparecem como evidentes, e de desenvolvê-las segundo suas próprias leis. Até que ponto consegue operar esta construção sem nada acrescentar aos sentidos? É difícil dizer. Seja como for, ele logra uma ciência em que todas as partes estão, é verdade, rigorosamente ligadas entre si e que, por isso, é perfeitamente una; mas que, por outro lado, apresenta face às coisas reais uma divergência que os progressos da dedução deixam mais e mais manifestas. Ora, a ordem das idéias só tem valor porque explica a ordem dos fenômenos.

Diante da impossibilidade de constituir a ciência sozinho, o entendimento consente em dar uma parte aos sentidos. Trabalharão em acordo para conhecer o mundo. Enquanto um observa os fatos, o outro erige as leis. Seguindo este método, o espírito tende a uma concepção do mundo maior que as precedentes. O mundo é uma variedade indefinida de fatos, e entre estes fatos existem laços necessários e imutáveis. A variedade e a unidade, a contingência e a necessidade, a mudança e a imutabilidade são os dois pólos das coisas. A lei dá razão aos fenômenos; os fenômenos realizam a lei. Por sua vez, esta concepção do mundo é sintética e harmoniosa, pois admite os contrários sem restrição, e ainda por cima os conciliam. Ademais, permite, assim que lhe mostre a experiência, explicar e prever os fenômenos com mais acurácia. Impressionado por tais vantagens, o espírito nelas se compraz, tudo julgando por este meio.

Porém hoje, tal concepção é definitiva? A ciência que pode criar o entendimento operando sobre os dados dos sentidos é susceptível de coincidir completamente com o objeto a se conhecer?

Primeiramente, esta redução absoluta do múltiplo ao um, do cambiante ao imutável, a que se propõe o entendimento, definitivamente não é a fusão dos contraditórios? E, se o absoluto é inteligível, esta fusão é legítima? Ainda, basta que o entendimento faça preito aos sentidos para que o espírito coloque-se em um ponto de vista verdadeiramente central? Em realidade, esta concessão só interessa à pesquisa das leis da natureza. Ela não implica uma mudança na concepção do mundo. No momento em que o entendimento impõe à ciência sua categoria de ligação necessária, não importa, pelo menos teoricamente, que os sentidos estejam ou não associados à obra do conhecimento. É verdade que uma inteligência perfeita esvaziaria toda ciência, ou ao menos o conhecimento de um só fato, considerado na totalidade de seus elementos. O mundo permanece um todo perfeitamente uno, um sistema cujas partes necessariamente chamam-se umas às outras.

Ora, esta categoria de ligação necessária, inerente ao entendimento, encontra-se nas coisas em si? As causas se confundem com as leis, como supõe, definitivamente, a doutrina que define a lei como uma relação imutável?

Esta questão interessa à metafísica e às ciências positivas. A doutrina que põe no entendimento o ponto de vista supremo do conhecimento tem por efeito relegar toda espontaneidade particular ao mundo das ilusões, ver na finalidade apenas uma reprodução interna da ordem necessária das causas eficientes e deixar o sentimento do livre arbítrio ignorante da causa de nossas ações, deixando subsistir apenas uma causa verossímil, a qual produz e governa tudo através de um ato único e imutável. Ademais, esta doutrina não dá suficiente conta da necessidade absoluta da observação e da experimentação nas ciências positivas; ela introduz o fatalismo, mais ou menos disfarçado, não somente no estudo de todos os fenômenos físicos sem distinção, mas ainda na psicologia, na história e nas ciências sociais.

Para saber se existem causas realmente distintas das leis, é preciso buscar até que ponto as leis que regem junto aos fenômenos participam da necessidade. Se a contingência não é, definitivamente, mais que uma ilusão creditada à ignorância mais ou menos completa das condições determinantes, a causa é apenas o antecedente enunciado na lei ou bem a própria lei, naquilo que tem de geral; aí a autonomia do entendimento é legitima. Porém, se se descobrisse que o dado mundo manifesta um certo grau de contingência verdadeiramente irredutível, haveria espaço para se pensar que as leis da natureza não bastam em si mesmas, tendo sua razão nas causas que as determinam, de maneira que o ponto de vista do entendimento não seria o ponto de vista definitivo do conhecimento das coisas.

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