segunda-feira, janeiro 31, 2005

Émile Boutroux - A contigência das leis naturais - II

PRIMEIRO CAPÍTULO

DA NECESSIDADE

Por qual sinal reconhecemos que uma coisa é necessária, qual o critério da necessidade?
Se tentamos definir o conceito de uma necessidade absoluta, somos levados a eliminar aí toda relação que subordine a existência de uma coisa a uma outra coisa, como condição preliminar. Logo, a necessidade absoluta exclui qualquer multiplicade sintética, qualquer possibilidade de coisas ou leis. Ora, não há como investigá-la caso ela se dê no dado mundo, o qual é essencialmente multiplicidade de coisas, que dependem mais ou menos umas das outras.
Em verdade, o problema que abordamos é este: por qual sinal reconhecemos a necessidade relativa, i. e., a existência de uma relação necesária entre duas coisas?
O silogismo é o tipo mais perfeito de encadeamento necessário, onde se exibe uma proposição particular resultando de uma proposição geral que a contém, e que afirmava aquela implicitamente no momento mesmo em que se afirmava esta. O silogismo nada mais é que a demonstração de uma relação analítica que existe entre o gênero e a espécie, o todo e a parte. Desta feita, aí onde há relação analítica, há o necessário encadeamento. Contudo, este encadeamento, em si, é puramente formal. Se a proposição geral é contingente, a proposição particular que se lhe deduz é, como de tal se espera, igual e necessariamente contingente. Não podemos chegar, por meio de um silogismo, à demonstração de uma necessidade real, senão a condição de anexar em todas as conclusões uma necessidade que, em si, lhe seja superior. Mas esta operação é compatível com as condições da análise?
Pelo ponto de vista analítico, a única preposição inteiramente necessária em si é a que tem por fórmula A = A. Toda preposição na qual o atributo difere do sujeito, como acontece quando de duas proposições uma resulte da decomposição da outra, deixa subsistir uma relação sintética em contrapartida à relação analítica. O silogismo pode transformar proposições sinteticamente analíticas à proposições puramente analíticas?
Uma diferença se manifesta à comparação das proposições com as quais o silogismo opera e com as suas conclusões. Nesta aqui, os termos estão ligados pelo sinal =; naquelas, pela cópula é. Esta diferença é essencial?
A cópula é, que empregamos em proposições ordinárias, tem relação com o sinal =. Ela significa, quanto à extensão dos termos (a qual sob o ponto de vista do raciocínio), que o sujeito só exprime uma parte do atributo, parte cuja grandeza relativa não indicamos. A proposição “Todos os homens são mortais” significa que a espécie “homem” é parte do gênero “mortal”, deixando indeterminada a relação entre número de homens e número de mortais. Se conhecêssemos esta relação, poderíamos dizer: “Todos os homens = 1/x mortais”. O progresso da ciência, acrescentemos, consiste em determinar o mais exata e completamente possível as espécies contidas nos gêneros, de maneira que, em uma ciência acabada, o sinal = poderia ser sempre substituido pela cópula é. A fórmula de tal ciência seria A = B + C + D + ...; B = a + b + c ... etc. Substituindo B, C, D etc, pelo seu valor, teríamos, de forma definitiva: A = a + b + c + ... Ora, esta é uma fórmula puramente analítica?
Sem dúvida, a relação entre A e suas partes é analítica, mas a relação recíproca entre as partes e o todo é sintética. A multiplicidade não contém a razão da unidade. Ela não é válida como alegação de que, ao se substituir a + b + c + ... pelos seus valores, obtenhamos A = A, porque a ciência consiste precisamente em considerar A como um todo decomponível, e divisível em partes[1].
Contudo, poderíamos conceber de outro modo distinto a forma analítica ideal a qual tende toda ciência. A interposição de um meio termo M entre dois termos dados S e P tem por efeito partir em dois o intervalo que resulta de sua diferença de extensão. Igualmente, interporemos meios termos entre S e M, entre M e P, e assim continuamente até que os vazios estejam inteiramente preenchidos[2]. Na seqüência deste trabalho, juntaremos a essência suprema A, e tudo isso será vinculado por um laço de continuidade.
Com efeito, este ponto de vista permite a redução de todas as proposições à fórmula A é A. Mas, desta vez, a cópula é não pode ser substituida pelo sinal =. A interposição de um número indefinido de meios termos não pode preencher inteiramente o intervalo que existe entre o particular e o geral. As transições, mesmo que se tornem menos bruscas, não ficam menos descontínuas; destarte, sempre resta uma diferença de extensão entre o sujeito e o predicado[3].
É impossível reconduzir as relações particulares à fórmula A = A, i. e., de remontar, pela análise, à demonstração de uma necessidade radical. A análise, o silogismo, só demonstram a necessidade derivada, i. e., a impossibilidade de que uma coisa seja falada, se outra é admitida como verdadeira.
O vicio da análise, na medida que se quer bastar a si mesma, consiste em possuir como explicação última a proposição idêntica, não podendo reduzir as proposições que se empenha em explicar a tal fórmula. Só vem a ser fecunda se uma proposição idêntica, como um conjunto de elementos heterogêneos, lhe é fornecido como ponto de partida; ela só demonstra a necessidade que se desdobra em uma síntese necessária. Existem tais sínteses?
A experiência - que não fornece conhecimentos universais, seja no espaço ou no tempo, e que só faz conhecer as relações exteriores das coisas – nos pode revelar ligações constantes, mas não necessárias. Antes de tudo, é preciso que uma síntese seja conhecida a priori para que ela seja suceptível de ser necessária. Talvez, é verdade, restaria saber se tal síntese é necessária, no ponto de vista das coisas, como é para nosso espírito. Mas, inicialmente, basta que o seja para nosso espirito, para que não haja ocasião de lhe discutir a realidade objetiva, discussão esta que só se poderia fazer seguindo as leis do espírito. Se por acaso o rumo das coisas não se conformarem exatamente aos princípios colocados a priori pelo espírito, deveríamos concluir que não é o espírito que se engana, mas é a matéria que trai sua participação no não ser, por meio de um resto de rebelião contra a ordem.
Por qual sinal podemos reconhecer que um julgamento é a priori?
Para que um julgamento possa ser dito a priori, é necessário que seus elementos, termos e relações não possam ser derivados da experiência. Para que os termos possam ser considerados como não derivando da experiência, não basta que sejam abstratos. Em suma, a experiência não nos fornece qualquer idéia que não tenha ao mesmo uma face abstrata e outra concreta. Eu não abarco em uma mesma intuição a cor e o odor do mesmo objeto. As abstrações mais sutis podem ser apenas a continuidade da subdivisão lograda pelos sentidos e operada pelo entendimento. Ademais, a própria experiência nos põe no caminho desta continuidade, ao nos fornecer, no mister das coisas, de acordo com a distância, a duração ou a intensidade dos dados, sejam mais ou menos abstratos. Ora, é preciso, para que um termo possa ser considerado como tido a priori, que ele não tenha origem na experiência, quer seja diretamante, pela intuição, que seja indiretamente, pela abstração.
Do mesmo modo, para que uma relação seja considerada a priori, não basta que se estabeleça, junto às intuições, uma sistematização qualquer, como se a experiência não forncesse nada que se assemelhasse a um sistema: isso seria sair das condições de realidade, mais até do que supor uma intuição absolutamente despojada de unidade. As percepções mais imediatas implicam o agrupamento das partes semelhantes e a distinção de objetos dissemelhantes. Uma multiplicade pura e simples é coisa absolutamente inconcebível, pois, se ela não oferece nada consistente ao pensamento, tampouco pode ser dada à experiência. Há portanto, nos próprios objetos percebidos, um certo grau de sistematização; assim, antes de afirmar que uma relação de dependência estabelecida entre dois termos não deriva da experiência, é preciso ter certeza que esta relação é essencialmente distinta daquela que constatamos. Esta relação deve diferir radicalmente das que a experiência nos apresenta ou das que podemos ler em seus dados.
O campo da experiência pode ademais ser claramente definido: são os fatos e suas relações observáveis. Os fatos se distinguem em externos e internos, ou próprios ao ser que é o sujeito deles. Pelos sentidos, podemos conhecer os primeiros; pela consciência empírica ou sentido íntimo, podemos captar os segundos em nós mesmos. As relações observáveis consistem em relações de semelhança e continuidade simultânea ou sucessiva.
Um julgamento sintético é subjetivamente necessário, se ele é dado a priori; se não, para que seja, no ponto de vista das coisas, um sinal de necessidade, é preciso, por outro lado, que confirme uma relação necessária entre os termos que aproxima. Um [termo] maior que enunciasse uma relação contingente transmitiria esta caracterista a todos os seus conseqüentes. Ora, as relações objetivas que podem existir entre dois termos são em número de quatro: relações de causa e efeito, de meio e fim, de substância e atributo e de todo e parte, que podem se reduzir em causalidade e finalidade recíprocas. De forma definitiva, sobram apenas as relações de causalidade e de finalidade.
Não podemos dizer de qualquer fim que ele vá necessariamente se realizar. Nenhum acontecimento é, por si, todo seu possível. Ao contrário, há uma infinidade de outros possiveis além dos que consideramos. As chances de realização deste acontecimento estão ligadas às chances de realização do outro, tal como o um está em relação ao infinito; desta feita, a realização de um dado fim qualquer, caso se respeitasse a uniformidade da sucessão dos fenômenos, é, em si, infimamente pouco provável, bem longe de ser necessário. Ademais, mesmo que um fim seja dado como devendo ser realizado, os meios a se empregar a este mister não são de modo igual determináveis. Qualquer fim pode ser igualmente realizado por diferentes meios, assim como toda meta pode igualmente ser alcançada por diferentes caminhos. É verdade que os meios não serão igualmente simples ou bons. Mas a despeito destas diferenças o fim, como tal, não é visado; se o temos em conta, tal se dá porque erigimos o meio como fim secundário. A realização do fim pelos meios supõe um agente capaz de conhecer, de preferir e de cumprir. Em si, tal realização não é necessária.
De modo símil, a produção de um efeito pela causa, se a palavra causa é tomada dentro do sentido estrito de força produtiva. A causa propriamente dita só se considera de tal natureza se ela concebe um efeito. Demais, age somente em virtude de sua natureza, não se atrelando ao valor estético ou moral do resultado. Não existe razão para admitir um grau qualquer de contingência na relação pura e simples de causa e efeito. Esta relação é o tipo perfeito, mas único, da necessidade primordial.
Assim, a necessidade só pertence às sínteses causais a priori, tanto objetiva quanto subjetiva: somente elas podem conceber as conseqüências analíticas inteiramente necessárias.
Resumindo, o critério da necessidade de uma relação é a possibilidade de remontá-la analiticamente a uma síntese objetiva e subjetivamente necessária. O princípio da ligação necessária das coisas, a pedra magnética cuja virtude se transmite a todos os anelos, só pode ser a síntese causal a priori[4].
Se agora se concluísse que fora impossível estabeler a legitimidade de tamanhas sínteses como princípios constitutivos ou reguladores do conhecimento das coisas dadas, toda necessidade tornar-se-ia ilusória? Seguramente, não seria mais questão de uma necessidade essencial, que reinasse em um mundo dado, porque, mesmo que algumas sínteses implicadas na experiência fossem necessárias em si, o espírito, no caso de que se trata, estaria fora de condições de se certificar delas. Todavia, a combinação da experiência e da análise poderia manifestar um certo tipo de necessidade, a única, a bem dizer, que as ciências positivas perseguiriam. Com efeito, concebemos que as sínteses particulares empiricamente dadas pudessem ser remontadas à sínteses mais gerais ainda, e assim até que lograsse um número mais ou menos restrito de sínteses irredutíveis, praticamente. O ideal seria tudo remontar à uma só síntese, lei suprema onde estariam contidas, como casos particulares, todas as leis do universo. Sem dúvida, tais fórmulas gerais, fundadas definitivamente na experiência, conservariam sua característica, que é fazer conhecer o que é, não o que não pode ser. Nada poderia provar que fossem necessarias em si. Mas elas estabeleceriam entre todo os fatos particulares, como tais, uma relação necessária. A menor mudança de detalhe implicaria na desordem do universo. Ora, podemos admitir a possibilidade de uma necessidade de fato ao lado da necessidade de direito. Esta existe porque a síntese que desenvolve a análise é dada a priori pelo espírito e une um efeito a uma causa. Porque esta síntese, sem ser conhecida a priori, está implicada em um conjunto de fatos conhecidos, e é constantemente confirmada pela experiência; ela manifesta, se não a necessidade do todo, ao menos a necessidae de cada parte, supondo que as outras [sínteses] sejam realizadas.


[1] Este trecho aponta um dos erros fundamentais do projeto comtiano das ciências positivas: o abastardamento das ciências da noção de unidade do real e daquela intuição inicial na qual se funda o hábito das ciências, na inteligência humana. (N. do S. D.)
[2] Traduzindo: em uma hipotética Ciência do Homem, ao se fazer a análise dela, pega-se uma proposição tal como “todo homem é mortal” que é universal, mais outra, qual seja, “Sócrates é homem”, particular, e chega-se à conclusão “Sócrates é mortal”. Contudo, há-de se perceber que a extensão do termo “homem” não foi totalmente preenchida, sendo “mortal” e “Sócrates” elementos que alguma coisa dizem daqueloutra, mas não tudo. Daí, podermos acrescentar outros termos que pudessem completar o sentido cabal do termo “homem” – identificar nele todas as espécies – através de nova análise, não só a partir dos termos originais, mas de termos que ainda não tinham aparecido, v. g.: “todo homem é mortal” – “todo homem é corpo” e “todo corpo é mortal”; ainda “todo homem é mortal” – “todo homem é matéria”, “toda matéria é corpo”, “todo corpo é figura”, “toda figura é mortal” etc... , podendo tais desenvolvimentos dar-se em ramos cardeais, laterais, colaterais, co-colaterais (eis explicação dos diferentes ramos científicos, e, porque não, de todo saber que investiga causalidades eficientes). O “A” seria o termo-razão de todas as conexões idealmente possívels entre tais fenômenos, qualitativa (tipos de termos a serem escolhidos) e quantitativamente (todos os termos que fazem parte do termo-razão A) falando. (N. do S. D.)
[3] Em uma proposição universal afirmativa, o sujeito é universal (quantificador Todo), mas o predicado particular (pois só diz um aspecto deste sujeito); em uma particular afirmativa o predicado é universal, já que se refere à extensão toda do que se lhe antecede, mas o que se lhe antecede? um sujeito particular, limitado pelo seu quantificador, e. g.: “algum livro é grande”; neste caso, “grande” possui extensão maior que “algum livro”; “algum” é o quantificador que limita o termo “livro”. (N. do S. D.)
[4] A existência da relação natural é dada por nexos causais necessários, i. e., que se tais relações se não dessem daquela forma, a própria coisa-coleção não existiria; contudo, só se poderia provar cabalmente a necessidade de tais relações através de, primeiro, uma análise, uma decomposição dos dados, tal qual se faz na ciência e, em seguida, com a síntese a partir destes dados. Mas esta síntese já se não mostra necessária, os dados não coadunam naquela simplicidade harmônica exibida pela natureza mesma, e contemplada pelo observador; mais ainda, na mesma ocasião da separação dos dados para a análise, lidamos com campos tão díspares do conhecimento, com áreas tão bastardas uma das outras que toda explicação que se quer total desfalece e não medra. Afinal, o que aconteceu? A ordem é dada pela mente, um mero dado subjetivo – enfim, um mundo kantiano? Mas se assim fosse, como os sentidos, ininteligentes, sempre captariam, de forma constante, como experiência intersubjetiva, esta relação, esta proporção? Se puramente objetiva, não seria objeto de reflexão filosófica; ela não se entregaria ao sujeito observador, o que é absurdo, pois a própria definição “objetiva” traz em si, implicita, a subjetividade de quem assim a classificou e entende. Logo, conclui-se que a natureza tem em seu seio uma ordem sintética, i. e., de coisas que estariam teóricamente acordes apenas per accidens – como numa coleção ordenada, daí sintéticas – enoveladas por um laço necessário, que deve se dar, e não poderia deixar de ser, já que o fato existe e é; senão, simplesmente, as relações existentes não existiriam. Daí faz-se forçoso ver que a ordem foi dada antes da existência dos seres individuais; o universo suporta em seu bojo o logos ou verbum, através do qual dá à luz às relações acidentais metafisicamente necessárias. (N. do. S. D.)


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