quinta-feira, dezembro 08, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade III

III. O SANTO INDIFERENTE À CONDIÇÃO HUMANA

Revelar-nos a relação entre os dois mundos, i. é, entre o material e o espiritual, é próprio à santidade, ou ainda, mostrar-nos que só há um mundo, mas que esse possui uma face obscura e outra luminosa, e que é de tal ordem que podemos deixar-nos seduzir pela sua aparência – com que não cessamos de passar e morrer –, ou penetrar até à sua essência, que se nutre dessa mesma aparência e dela revela-nos a verdade e a beleza. O santo está na fronteira dos dois mundos. Ele é, em meio ao visível, a testemunha do invisível que trazemos ao nosso cerne e que o visível esconde ou revela, conforme a direção do olhar. Convém pois que o santo viva em meio a nós, que se adstrinja a todas as misérias da existência, que pareça até mesmo oprimido por elas a fim que todas as grandezas da terra nos pareçam indiferentes, indicando de maneira notável que os verdadeiros bens estão além. Desta feita pensamos amiúde que é na contrariedade que a vida lhe impõe, no sofrimento que recebe ou que se inflige a si, nas torturas ou no martírio, que a santidade manifesta melhor sua essência. É no martírio que captamos melhor a pureza da testemunha. Mas há outras formas de testemunho que possuem caráter mais secreto. Nem todos os santos são chamados ao martírio. Mas a imaginação tem necessidade dos grandes exemplos para medir a distância entre a santidade e o triunfo. A santidade é um grande triunfo espiritual, indiferente a qualquer outro, desprezando-o.

Ninguém escolhe a condição que lhe será disposta, nem as exigências que lhe poderão impor. A santidade pode estar no trono, onde reconhecemos quase unanimemente que as dificuldades que encontra são maiores. Ela se esconde sob o hábito do mendigo, onde estamos amiúde mais inclinados a encontrá-la. Ninguém sabe se convém mais esforço para escapar ao demônio do orgulho ou ao da inveja. Em verdade, comprazemo-nos em ver o violento contraste entre a santidade e a condição que lhe é imposta: ela nos parece de modo mais comovente, seja ao píncaro da grandeza humana – esquecida e desprezada –, seja ao último estado da miséria humana – aceita ou amada. Ser naturalmente invisível, tal como o mundo espiritual em que ela nos convida a entrar, é peculiar à santidade. A santidade do mendigo ou do rei não se dá a conhecer sob os traços do mendigo ou do rei. Pois é inseparável duma atitude interior que lhe emprestamos, encontrando em nós um misterioso eco: assim o mendigo e o rei semelham-se ao santo desconhecido com que caminhamos todos os dias, sem que nenhum sinal no-lo faça reconhecer.O santo pode ser um sábio, um teólogo, um fundador de ordens, mas não é por isso que é santo, ainda que a santidade encontre expressão em todas as obras que realiza, como encontraria na maneira de governar ou de estender a mão.

O santo pode ser o homem do povo que parece absorvido das mais simples necessidades, por sua vez solitário e aberto a todos, e cuja vida exterior parece reduzir-se a alguns hábitos de que, por vezes, nos surpreendemos; ou ainda um gesto simples, familar e inesperado, e que contudo resolve, como se tudo só dele dependesse, uma situação que até então parecía-nos inextrincável; ou ainda um sorriso profundo e luminoso que, sem mudar em nada o estado das coisas, modifica entretanto a atmosfera por que as enxergamos. O santo faz, para nós, da vida, um milagre perpétuo, mas que, sem desordenar em nada a ordem natural, revela-se-nos, através dessa mesma ordem, por uma como transparência.

domingo, setembro 18, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade II

II. O SANTO SEMPRE VAI ATÉ AO SEU PRÓPRIO ABSOLUTO

Em cada um dos homens que nos cercam, há um santo em potencial, mas não virá a sê-lo sempre. Nele também há um criminoso ou um demônio em potencial. A angústia em que vivemos – e que a maioria dos modernos pensam que está na própria consciência – exprime a incerteza de saber se um ou outro trinfará algum dia. Os jansenistas sentiram-na. O mais das vezes, pesamos poder nos contentar de uma vida mediocre em que só teríamos tarefas banais a cumprir, interesses temporais a satisfazer. É inerente ao santo ir sempre até ao seu próprio absoluto. Não existe homem cuja vida esteja tão próxima dos movimentos espontâneos da natureza: ele está, por assim dizer, entregue; é de si que tira todo seu ímpeto. Ora, podemos pensar que ele combate essa natureza, mas antes deve-se dizer que impele todos os impulsos ao último grau, até àquele em que eles lhe dão uma satisfação plena, cumulando-o. Obriga-o assim a ultrapassar os limites da natureza de sorte que, por esta feita, a natureza atinja nele o fim para que se inclina. Assim vemos o matemático, na idéia de limite, levar ao infinito uma série de termos e, contudo, superá-los. Da mesma forma, o santo nunca os põe em jogo, mas só nos sugere os sentimentos mais familiares: nenhum homem nos é tão acessível. Ele fará um uso extraordinário desses sentimentos: conseguirá preencher toda sua potência tão-somente ao forçá-los – a fim de se realizarem – a superar o emprego para que os consagramos até então; no momento em que se perfeccionam, parecem que se renunciam ou que se transformam em seu contrário. Assim, reconhecemos no santo todos os impulsos da natureza, e, apesar disso, não os reconhecemos. É um erro pensar que ele só os combate, pois a natureza também vem de Deus. O santo a sobrenaturaliza. Encontra nela sua origem, destino e sentido. Sem dificuldades compreendemos que quem fica preso no interior da natureza não pára de se rebaixar, aviltando todas as forças que a natureza deu a sua disposição. O divino e o demoníaco são compostos dos mesmos elementos. Uma simples inflexão da liberdade basta a transmutar um no outro. É na vida do espírito que a vida da natureza recebe a verdadeira realização. Não ver que a natureza é uma figura é desfigurá-la, é recusar todo valor à imanência, em vez de querer permanecer aí, não divisando que ela vem da transcendência, que ela vai para a transcedência, e é à própria transcedência que dá um acesso – furtivo e precário – que somente a morte pode aperfeiçoar.

terça-feira, setembro 13, 2005

Pró-Vida

quarta-feira, setembro 07, 2005

Louis Lavelle - Da Santidade I

I. OS SANTOS EM MEIO A NÓS

Os santos estão em meio a nós. Mas não logramos sempre reconhecê-los. Não cremos que possam habitar nesta terra. Pensamos que eles deixaram-na. Invocamo-los como se estivessem todos no céu, deles só podendo esperar graças invisíveis e sobrenaturais. Seria muita ousadia querer imitá-los: nosso nome de batismo nos sugere apenas a idéia de uma proteção que eles nos poderiam dar; eles tornaram-se ministros de Deus e os dispensadores de seus dons. Contudo, é sua morte que faz deles santos, ela é que realizou a transfiguração espiritual sem que seriam tão-somente homens como nós. Nesse momento, estão de tal modo purificados que deles só subsiste uma vaga idéia de uma virtude que incarnaram e que despertam em nós, por meio de sua imagem, sem que possamos esperar igualá-los. Para nós, seria derisório pensar que um homem que pudemos ver e tocar, de que observamos as fraquezas, os ridículos e as faltas, que se misturou com nossa vida e cuja fronte não possuia auréola, tenha trilhado à nossa presença o caminho da santidade sem que houvéssemos sabido algo. Todavia, a santidade é invisível na terra como no céu, e muito mais difícil de discernir quando se reveste das aparências que quando temo-la em nosso pensamento como uma imagem ou idéia.
Todavia, o santo não é um puro espírito. Não poderíamos confundi-lo com um anjo. Mesmo a morte não poderia fazer dele anjo. Pois a santidade pertence, antes do mais, a terra. Ela testemunha que a vida que levamos aqui, totalmente mesclada com o corpo, com suas fraquezas, com suas trivialidades, é capaz de receber o reflexo de uma luz sobrenatural, que pode adquirir uma significação que a ultrapassa, que nos ensina não apenas a suportá-la, mas a querê-la e amá-la. Sempre se nos dá que o santo é um ser de exceção, que se apartou da vida comum, que não participa mais de sua miséria e que vive em comunhão só com Deus, não mais conosco. Mas isso não é verdade: por viver em comunhão com Deus, ele é único homem que vive em comunhão conosco, enquanto todos os outros permanecem, até certo ponto, apartados.
Nenhum sinal exterior o distingue do passante, sobre que nosso olhar não se detém. Aparentemente, sua vida parece a vida de todos os homens. Vemo-lo preocupado do dever que lhe foi confiado, de que se não parece desviar nunca. Não recusa nada do que lhe é proposto: tudo o que lhe oferecido é-lhe ocasião. Está pronto a todos e a cada um, de uma maneira tão espontânea e tão natural que só faz acrescentar à sociedade que nós mesmos formamos. Não vemo-lo, como se pensa que deveria ser, renunciando à natureza, ou que os defeitos de caráter se lhe acham vencidos e anulados. Pode ser violento e colérico. Ainda está sujeito às paixões. Não busca, como tantos homens, dissimulá-los. Vê-lo submetido a eles é um como escândalo que nos afasta considerá-lo santo, inclinando-nos a considerarmo-nos superiores.
Podemos dizer, sem dúvidas, que mortifica essas paixões, mas elas são uma condição, um elemento de sua santidade. Já que a santidade é, em si, uma paixão ou, se essa palavra choca, uma paixão convertida. Na paixão, há uma força de cuja santidade necessita para afastar-se do preconceito e do hábito. A paixão sempre cria raízes no corpo – é ela que o eleva e o leva para além dele mesmo. Não há nada mais belo que ver este fogo que se alimenta de materiais impuríssimos, cuja chama produz muita luz, no alto.

domingo, setembro 04, 2005

Os Gozos Deste Mundo

Idéia aterradora de Juana, acerca do texto Per Speculum in Aenigmate. Os gozos deste mundo seriam os tormentos do inferno, vistos ao revés, em um espelho.


Léon Bloy: Le Vieux de la Montagne (1909).
Trecho retirado d'Antologia de Contos Fantásticos, de Bioy Casares. Borges e Ocampo.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal III

Este capítulo foi revisado pelo Alexandre e publicado originalmente no saite Revista Permanência. Eu retirei todas as notas de rodapé, que podem ser lidas no saite da sobrecitada revista.
Luiz de Carvalho


A LINGUA LATINA

Devemos estimar a língua latina... Devemos crer nela, como os primeiros cristãos criam que o Império Romano duraria até o fim do mundo.
Jean BELOT, Jurista parisiense, 1637

Tivemos de reescrever uma breve história de Roma antes de falar sobre a língua de Roma, pois somente os anais extraordinários deste império explicam as múltiplas qualidades de sua linguagem.
* * *
Recordemos antes de tudo que o romano era um camponês, um ser positivo e prático, que mais se seduzia pelas imagens sensíveis do universo que pela abstração das especulações do espírito.
Por conta disso, se destacava o romano ao forjar termos realistas, imagens impressionistas, como objetos no campo num dia de sol. Donde a primeira característica da língua latina: seu realismo, sua solidez.
Vejamos um exemplo dentre milhares possíveis.
Quando os Romanos anexaram a Gália, os administradores do primeiro século a dividiram em duas partes: uma parte ainda bárbara, aonde César vinha finalizar a conquista; e Provence, esta província há vários decênios romana e impregnada de influências mediterrâneas há séculos. Como os administradores e geógrafos latinos exprimiam as diferenças entre civilizações? Em dois termos realistas, surpreendentes. Para a Gália bárbara, escreviam Gallia comata, a Gália cabeluda (e eis diante nós os homens loiros-arruivados nos seus pequenos burgos e florestas); e para Provence, diziam Gallia togata, a Gália togada (surgindo como um raio, as cidades com inúmeras arenas e templos, e os cidadãos vestidos em seus roupões brancos com faixas púrpuras).
Quando a Igreja adotar esta língua, ela encontrará, animada por um longo passado, as palavras rudes e justas dos tratados de agricultura escritos por Varrão e Columela (os romanos deixaram-nos uma série de textos sobre os trabalhos do operário ou do artesão). Ela ali aprenderá a nomear a criação com termos que pareciam ter sido pouco tempo antes escritos pela mão de Deus, ao Primeiro Dia. Olea, por exemplo, que não é huile, termo abstrato e generalizante, mas mais exatamente o produto da oliveira; vinum é o sumo da vinha; empregando palavras tão próximas de sua origem primitiva, a Igreja reencontrará esta qualidade que a Escolástica medieval chamará um dia: adequatio rei et intelelctus, a adaptação exata da idéia a seu objeto.
É também do vocabulário camponês-citadino que a Igreja obterá esta poesia rústica, que resplende nos ofícios das festas das Rogações ou no oficio dos Sábados Santos: esta água (aqua) que não era lançada somente das fontes, mas que Roma soube conduzir sobre os arcos de pedra até aos confins do mundo conhecido; este fogo, que não era somente a fagulha extraída do atrito das rochas, mas a palavra que designa o primeiro lar humano (pois, em latim, focus significa tanto fogo quando local) fornecia à Igreja toda uma definição do universo visível, que punha à mão dos homens aquilo que a Bíblia oriental deixava no mistério cruciante da natureza.

Cælum dedit pluviam, o céu dá a chuva.
Terra dedit fructum suum, a terra fornece seus frutos,
diz o oficio das Rogações.

Quão pacato e familiar é, como um dia de colheita num campo virgiliano. É bem o Deus dos Evangelhos que vem assegurar a humanidade, aterrada outrora pela dura Justiça de Jeová ou das fatalidades cegas do Panteão antigo.
* * *
Esta predileção pelo concreto, pela simplicidade chã, ajudará prodigiosamente os Padres da Igreja, quando eles quiserem se servir do latim para a definição do dogma. O hebraico sobressai-se nos desdobramentos poéticos amados pelo Oriente; era incomparável nas evocações sobrenaturais dos Profetas; o grego fornecia aos homens os termos da clareza e da agudeza, da profundidade e da luz única para os desdobramentos da razão, da discussão das idéias. Mas só o latim oferecia seu gênio de poder e equilíbrio que fazia ressoar as afirmações da fé num domo de basílica ou entre os colonos, celebrando a vitória dos exércitos.

Resurrexit, sicut dixit, diz o anjo às Mulheres Santas, na manhã de Páscoa. Ele ressuscitou, assim como anunciara.

Língua alguma no mundo pôde estabelecer, em TRÊS simples palavras, a afirmação do milagre essencial sobre o qual se baseou todo o cristianismo. (“se o Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé”, dizia São Paulo).
* * *
O realismo das palavras latinas era, além do mais, reforçadas por aquele de sua construção. Sua ordem favorita (sujeito, complemento, verbo), que perturba os estudantes que se aproximam desta língua, testemunha, portanto, mais uma vez, seu gênio concreto. Ela mostra os autores da ação, em seguida os objetos que servirão à ação, antes de definir a ação mesma.

Nos patriam fugimus,
diz a primeira écloga de Virgilio;

Nous, nous fuyons notre patrie,
diz o francês.

César fit faire un pont,
diz o clássico exemplo das nossas gramáticas:

Cæsar pontem fecit.

César está à frente, em sua majestade de líder; depois vem a descrição do objeto ao qual vai se unir o gênio prático do romano; e enfim o movimento da frase se agrupa em torno do verbo, conduz a ele tudo o que continha de paciência e de lentidão, para rebentar bruscamente numa exaltação criativa: fecit (um dos verbos que Roma, cidade da ação, mais amou).

No início do Livro do Gênesis, a Igreja traduz o hebraico com esta simplicidade concisa que só é latina:

Dixit Deus: Fiat lux (Deus disse: que se faça a luz!)
Et facta est lux (e a luz se fez)
Facere: fazer; fieri: ser feito)

Fazer: era a palavra exaltada pelos Romanos, criaturas do Império. Quando a Divindade inclina-se ao caos do mundo para nele fazer uma criação, que língua exprimirá de forma mais exata este ato senão aquela do povo que traçava, do mesmo modo, o limite dos seus campos, a ordem de seus exércitos em batalha e as estradas do império? Do povo que designa o universo pela palavra mundus, exprimindo organização, ordem; ao mesmo tempo em que os Gregos diziam: cosmos, pois os impressionava a beleza, mais que a ordem?
Deus, inclinando-se sobre o mundo, traçou-lhe uma ordem: a língua da ordem tomou sua simplicidade e sua força nesta grandiosa cena.
Podemos multiplicar os exemplos.
Quando o enviado de Nero veio assassinar Agripina, mãe do imperador, o historiador Tácito relembra que esta mulher, temível e genial, resume o horror do crime em uma simples palavra: ela ordena ao executor de feri-la no mesmo ventre que carregara outrora o filho ingrato. Mas com que linguagem, com que expressão revestira a cena trágica a concisão, o realismo brutal do latim:

Ventrem feri, diz o texto.

Falou-se tudo em duas palavras: a espada do executor e o corpo estendido estoicamente, mas que soube amaldiçoar.
O lugar do verbo na construção latina exprime um dos aspectos essenciais do gênio deste povo criado pela ação; isto é, posto ao fim da frase, aparece nele os seres e as coisas que o precederam; concludente como uma pedra que chega ao fundo; ou então este é um outro aspecto da mesma concepção) uma explosão repentina, como o movimento do Imperador à frente de suas tropas, porque o latim recusa a dar a este elemento essencial do discurso um lugar que não seja o mais visível, o mais marcante.
Quando o verbo é posto no final da frase, além dele só há a queda, o silêncio. Quando se coloca o verbo no começo da mesma frase, consegue-se de ordinário uma majestade exuberante. E quando a Igreja adota para seu uso esta língua de força, ela ganhará por fazer brilhar certas verdades de seus dogmas ou certos aspectos de suas orações, em elipses incisivas.

Fulget crucis mysterium

diz o poema de Fortunato, em honra da Cruz (o mistério da Cruz resplende), mas a tradução revela-se, como de praxe, de uma extrema inépcia para exprimir a admirável imagem:

Fulget: este verbo, pleno de chamas e raios, devido à qualidade única da concisão latina; este verbo posto ao começo de um verso exprime muito mais que sua tradução indica.
Fulget: Fortunato mostra uma luz sobrenatural exterminando todas as sombras.
Fulget: num golpe de espada, ele afirma uma nova fé;
Fulget: o patíbulo do suplicio tornou-se o trono de Deus.

Outro exemplo:

Magnificat anima mea Dominum! exclamou a Virgem, na casa de sua prima Isabel.
Magnificat!A música que a Igreja adaptou a este bramido de vitória amplifica-lhe a extensão:

Ma – gni – i – fi – cat...

Eis a exaltação lançada até a cúpula do céu, estendendo os braços entre dois mundos. O verbo quase que contém o que lhe segue: o privilégio deslumbrante de uma criatura única, o séqüito dos Profetas, todos investidos desde então, da majestade do verbo:

Magnificat!

Outro exemplo: a oração da confissão das faltas, no começo da missa.

Confiteor, diz o latim, então.

E toda confissão dos pecados é definida por estes termos, com uma força devida à língua somente. Saberemos que nos confessamos e o que nós confessamos, mas o gênio latino que não precisa aqui de um pronome, nem de um sujeito acrescido, lança o homem de joelhos, numa só palavra: Confiteor!
Credo diz ainda a igreja antes de desdobrar o resumo dos seus dogmas.
Talvez nós tenhamos aqui um dos exemplos mais claros da insuficiência das traduções em face ao latim. Pela força do verbo colocado no começo do texto, o latim pode resumir vinte afirmações. O francês é obrigado a repetir, a cada uma das proposições: je crois... je crois... je crois.... O Latim, pela faculdade única de seu gênio, por sua força de concisão, não necessitará mais que das desinências de cada palavra, para evitar todo o erro de interpretação, toda a distorção das definições. Com uma brevidade inimitável, diz Credo uma só vez; e, anexados a uma só palavra, todos os mistérios serão evocados, todo o visível e o invisível; as afirmações dos antigos Concílios (Consubstantialem Patri... Filioque procedit) encerradas nas garras de expressões férreas; os pontos de vista históricos (sub Pontio Pilato...) e até a definição desta mesma Igreja, réplica terrestre e celeste do império dos Césares:

Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.

Outro exemplo:

Stabat Mater dolorosa.

Como no Confiteor e no Credo, o sentido e a majestade do hino inteiro experimenta-se desde o primeiro vocábulo. Graças à força do verbo latino, e graças a ela somente, todo o poema põe-se diante nós, e também as imagens das pinturas e das esculturas cristãs de todos os tempos, ofertando à Virgem a visão do martírio, apoiada no braço de São João (“Mulher, eis vosso filho!...”).
Stabat! O verbo latino exprime a ação de se estar de pé; mas exprime, como sempre, em uma só palavra, o que em nosso peito angustia. Podemos tentar emocionarmo-nos com uma tradução quase exata:

Estava de pé a Mãe Dolorosa,

Mas quem não vê a impossibilidade de exprimir o choque deste pranto e desta visão: Stabat?
O latim passou... E eis o cristão lançado de joelhos num relance, diante da Virgem que não se rendeu.
* * *
Língua concreta, língua de ação, o latim era também duma concisão única, onde se encontrava seu gênio guerreiro, sua majestade de comando.
Todo o mundo conhece a famosa frase de César: Veni, vidi, vici (Vim, vi e venci), dístico militar insubstituível, invejado por todos os conquistadores; ou ainda a percepção de Tito — que Tácito nos mostra — ao responder a rainha Berenice, malgrado eles ambos: invitus, invitam dimisit.
Há a frase de Pilatos, nos Evangelhos, quando os judeus vêm reclamar-lhe o ter inscrito sobre a cruz de Cristo, em vez de “Jesus de Nazaré que se pretendia rei dos Judeus”, “Jesus de Nazaré, rei dos Judeus”.
O Governador respondeu: Quod scripsi, scripsi (o que escrevi, escrevi).
E está aqui então toda uma cena imaginária: vemos de um lado abundar esta turba de Orientais mexeriqueiros; e bem diante deles, o homem da espada e da lei, que dá ao drama seu remate.
Quase todos os textos dos Evangelhos da Paixão são intraduzíveis em sua força invocadora. Tomemos o famoso diálogo entre Jesus e Pilatos. Dois mundos estão cara-a-cara. Mas Roma, até então, não tinha conquistado e assimilado todos os povos, todas as civilizações? Donde vem repentinamente este diálogo impossível?

Pilatus dixit... Respondit Jesus...
Pilatus disse... Respondeu Jesus...

De minha parte, poderei ler este diálogo em latim: porque ele é o dialogo imortal do mundo visível e do invisível, uma grande chance de reunir numa mesma língua o que falava o império de toda a terra, diante Daquele que se afirmava o Mestre da terra e do céu.

Ergo, rex es tu? Pois, és tu rei?

Roma forjou esta palavra, rex, e está claro o porquê; neste dia em que começa uma era, tem ela o direito de apresentá-la ao Cristo como o objeto principal do debate. Rex: o império dos homens formou esta palavra, com o sentido de direção, de impulsão e de administração, tudo ao mesmo tempo. (Regere: por causa do gênio conciso da língua latina, significa a um tempo guiar, ter em mãos e governar com justiça) Rex: é este que indica o caminho e que está à frente dos homens para conduzi-los.

Ergo, Rex es tu? (Pois, és tu rei?)
Respondit Jesus: Tu dicis, Rex sum ego (Tu o dizes. Sim, sou rei.)

e a famosa e misteriosa frase:

Regnum meum non est de hoc mundo (Meu reino não é deste mundo).

São todas pequenas palavras em latim: "de", que indica a proveniência, mas com sentido de cair do alto, tal como a chuva (enquanto a palavra "ex" indica simplesmente a origem, mas no mesmo plano), nos faz compreender aqui toda a magnificência da concisão latina. O Cristo quer dizer que ele não recebeu seu poder de nenhum outro da Terra, e o "de" latino basta, com sua significação plena, para permitir a esta frase exprimir o mistério da Encarnação e o papel exato do cristianismo na história dos homens.
Poderíamos multiplicar tais exemplos, porém é necessário nos limitarmos, pois não escrevemos aqui um tratado de pedagogia nem uma gramática: nós procuramos somente algumas imagens, juntamos alguns motivos de admiração, os mais simples e mais impressionantes.
Seria ainda preciso repetir que o latim, língua dos juristas, dos moralizadores, possuía o gênio das sentenças; que era admirável nos epigramas como nas inscrições, que amava os ritmos cadentes do gênero oratório, todas as qualidades que a Igreja utilizará numerosas vezes, forjando as fórmulas que tornarão certas orações um murmúrio majestático:

Per omnia sæcula sæculorum… Per Dominum nostrum Jesum Christum...

ou, ao contrário, em inícios fulgurantes:

Introibo ad altare Dei...
Adjutorium nostrum in nomine Domini...
De profundis clamavi ad te, Domine...
Ite, missa est...
Benedicamus Domino...
Dixit Dominus Domino meo...
In exitu Israël de Aegypto...

Seria preciso relembrar que o latim era não somente a língua do Direito, mas a da história (definida pelos romanos, res gestæ: as coisas acontecidas. Pois os acontecimentos do passado são as lições dos humanos de hoje). Será necessário mostrar, uma vez mais, que a língua de Tito Lívio e de Cícero cobre a Escritura de um surpreendente novo tipo de certeza, de realismo, de verdade. Seria preciso recordar quanto ela convinha aos Atos dos Apóstolos, à primeira história da Igreja, após ter posado sobre os Evangelhos a mão proba do servidor leal...
* * *
Mas seria necessário dizer bem mais.
Se o latim tinha qualidades admiráveis, tinha também defeitos (defeitos estes que nós assinalamos como próprio dos romanos). Seu gosto pelo concreto, seu gênio por vezes muito rústico fazia-lhe pouco apta a tornar-se a língua da filosofia e da teologia. É aqui que se renova, em sua língua, o milagre da assimilação que já distinguimos nos criadores do império.
O latim empresta do grego quase todas as palavras que ele tinha por necessárias para exprimir o domínio do abstrato; (mas é ele mesmo que, para definir o lugar soberano da cultura intelectual na vida, forjou a palavra Humanitas). Cícero e Sêneca estabeleceram uma hierarquia das atividades do romano: as duas mais nobres são a agricultura e o serviço do Estado, porque nestas duas tarefas o homem é mais útil aos outros homens, e é o dignitário mais próximo aos decretos dos deuses. Mas é o estudo das letras, e o ainda mais sublime da filosofia, que o enobrece acima de tudo.
* * *
O latim não era inicialmente uma língua para os poetas, e, contudo, Roma possuiu dois dos maiores poetas do mundo, nas pessoas de Virgílio e de Lucrécio, dignos de suportar toda comparação com seus êmulos gregos. Em Virgílio, mostra-se o poeta-cidadão que cantou a epopéia do império como pessoa; o Profeta que devia saudar Dante e toda a Idade Média cristã, porque parecia predizer o nascimento do Menino de Belém; mais, o canto das campinas selvagens e doces; enfim, o elegíaco voluptuoso e cruel dos amores de Enéias e Dido. Virgílio, melhor que qualquer um, fazia de Roma uma cidade de destino prestigioso, preparado e esperado pelas divindades tutelares. Em seus versos apareciam os exércitos e ordenava-se a procissão de embarcações sobre os mares de exploração e conquista.
Lucrécio parecia enigmático e sombrio como um doutor Fausto da antiguidade. Ele adotara a audácia grega prometéica, que desafia a divindade; jurava que a ciência dos homens chegaria a ultrapassar, um dia, os poderes do céu. E todas estas blasfêmias rudes e enregeladas camuflavam-se de repente numa descrição sutil da luz e dos corpos de dois amantes entregando-se à sombra das florestas...
O latim, graças a Virgílio, Lucrécio, Horácio (e a todos os poetas menores, de Propércio à Catulo) ia conseguindo tornar-se uma língua de poetas, como soube ser, perante a escola grega, uma língua de filosofia.
Não resta nada além de uma imensa tarefa que seria cumprida, na língua latina, pelos Padres da Igreja; para todos aqueles teólogos apologistas que queriam exprimir as verdades da nova fé (que abriam ao homem domínios então jamais explorados). E não é menos verdadeiro que a poesia da Igreja dava ao latim as belezas que ele ignorava.
Por isso não se deve deixar de falar e repetir que o latim é a língua da Igreja, pois ela o recebeu numa época em que ninguém além dela era capaz de enriquecê-lo e enobrecê-lo; pois, durante cerca de dez séculos, ela foi a única a infundir-lhe esta vitalidade, esta presença que o salvou de tornar-se objeto de museu ou múmia no fundo duma tumba.
* * *
O cristianismo traz à língua latina um cortejo incomparável de imagens do Oriente, enfeita a toga romana dum colorido que a Ásia ou a África já tinham experimentado, mas sem jamais lhe pôr o selo do sagrado. Só existem nos textos latinos cristãos inalterados estas palavras provindas da Galiléia e da Judéia, e que conduzem a imaginação: Jerusalém, Belém, Magdala, Sion,... Sabbaoth, Aleluia, Hosana... Só há no latim cristão — que se regozija da carinhosa reputação do Cântico dos Cânticos — o odor dos aromas e todas as suas alegrias, todas suas preciosas estrofes cintilantes no templo de Salomão ou no palácio de Herodes. Não existe senão na poesia latina cristã o cantar dos anjos e dos pastores em conjunto antes do repasto, com uma doçura que derrete o coração:

Adeste fideles, læti triumphantes...

Somente na poesia latina cristã há (sobretudo na poesia medieval) uma paz de alma mais inefável que a paz dos antigos sábios, pondo um bálsamo sobre todas as angustias e dores.
Contam que um rei da Inglaterra, uma noite, aos tempos da barbárie, mandou calar seus guerreiros, ao aproximar-se de um mosteiro, para prestar atenção à maravilhosa melodia do cantochão. Mas a musica não é somente portadora de suavidade, na poesia latina cristã. Mesmo não sendo seguida de melodia, nenhuma atenção humana pode escapar à impressão de paz, proclamada pelas singelas palavras das Completas:

In manus tuas, domine, commendo spiritum meum
(Em tuas mãos, Senhor, abandono minh'alma.)

Não insistiremos aqui sobre a contestável tradução de spiritus meus por “meu espírito”; pois todo latinista sabe que spiritus era o principio vital, animando o corpo do homem, e não a inteligência, que evoca o francês “esprit”. (“espírito”)
A palavra latina commendo, na oração das Completas, exprime, uma vez mais, numa maravilhosa contração, a noção de abandono completo, de total anulação perante a divindade, que as palavras francesas remettre (entregar, confiar) ou laisser (deixar, permitir) evocam imperfeitamente.
No século XIII, na Universidade de Paris, viveu um dos mais resplandecentes gênios da humanidade: Tomás de Aquino, que para seus companheiros e sob o hábito de São Domingos, era simplesmente o irmão Tomás.
Não tentemos explicar o que a língua cristã deve a este filosofo altíssimo, que ia construir em latim a Suma teológica e filosófica de sua religião. Lembremos que Tomás mostrava a aliança possível entre as mais audaciosas conquistas do pensamento grego e o dogma cristão e que iria, ao mesmo tempo, clarificar a mensagem de Aristóteles, desnudando-a de todas as sombras helenísticas, de todas as adições ou deformações judias ou árabes. Lembremos também que ele saberá dar à implacável e sutil discussão escolástica suas definitivas notas de nobreza.
Mas Tomás de Aquino, se não tivesse realizado este trabalho prometéico, só seria conhecido entre os filósofos e os clérigos. Ele aproximou-se de nós através de outros dons. Ele mesmo, na noite de uma de suas rudes jornadas de labor fatigante (devia morrer aos 49 anos, depois de construir um dos monumentos mais abrangentes e mais perfeitos do pensamento), viu sua alma mística se deter e meditou sobre o culto do Santo Sacramento, reforçado após o milagre de Bolsène (milagre de Lanziano), que motivou por todo canto os sentimentos da cristandade. E o poeta Tomás escreveu sua prece; e ela atravessará os séculos:

Adoro te devote, Latens deitas, Quæ sub his figuris, Vere latitas, Tibi se cor meum, Totum subjicit, Quia te contemplans, Totum déficit, ...

Jamais a expressão do dogma, nem a exatidão dos termos filosóficos, revestiram-se deste indumento de poder e adoração, de doçura e êxtase. Com este amor arrebatador, o cristianismo abriu o latim para o céu, como nada antes havia tentado.
Tomas de Aquino é também o autor da Lauda Sion, hino do oficio do Santo-Sacramento. Nele encontramos o mesmo rigor de definições e a mesma fé radiante, a mesma ternura enlevada:

Lauda sion, Salvatorem; Lauda ducem et pastorem, In Hymnis et canticis. Quantum otes, tantum aude, Quia major omni laude, Nec laudare sufficis...
* * *
Mas são nos inumeráveis hinos dedicados à Virgem que o latim cristão devia trazer à linguagem antiga a maior renovação. A antiguidade não deu jamais à mulher um lugar verdadeiramente destacado, senão em alguns poemas de Homero ou nalgumas lendas nórdicas e germânicas. Tudo isto evidentemente foi superado pelo culto cristão da Virgem, criatura a que a nova religião concedeu um singular privilégio de pureza, um papel dominador na história da humanidade. Também os hinos cristãos à Maria são inundados duma alegria e grandeza incomparáveis, duma piedade e súplica tais que o mundo ainda não assimilou.

Ave, Regina cælorum, Ave, Domina angelorum, Salve radix, Salve porta...
Ave maris Stella Dei Mater alma Atque semper virgo Felix cæli porta...

Regina cæli, lætare, alleluia! Quia quem meruisti portare, alleluia! Resurrexit sicut dixt, alleluia! Ora pro nobis Deum, alleluia! ...

Salve, Mater misericordiæ, Mater Dei et mater Veniæ, Mater spei et mater gratiæ, Mater plena sanctæ lætitiæ, O Maria!

Os versos cruzam-se e enrolam-se como os caracóis de incenso, os risos de alegria mesclam-se às lágrimas de dor contrita, a humanidade em êxtase contempla a ascensão de sua raça, o perdão concedido à Eva de outrora, em sua magnífica inocência:

Salve, Regina, Mater misericordiæ, Vita dulcedo et spes nostra, salve; Ad te clamamus, exsules filli Evæ, Ad te suspiramus, gementes et flentes, In hac lacrymarum Valle,

Eia ergo advocata nostra, Illos tuos misericordes óculos Ad nos converte.
Et Jesum benedictum Fructus ventri tui, Nobis post hoc exsilium, ostende. O clemens, o pia, o dulcis, Virgo Maria.
* * *
Mas a poesia latina cristã sem duvida se superou na poesia que a Idade Média termina por legar ao cético tempo moderno, como um de seus mais belos testemunhos. Queremos falar do Dies iræ. No tempo em que vivemos, devemos recordar isto que, há apenas alguns meses, não foi necessário afirmar (e com o que concordavam todos os homens sensíveis à beleza, independente da religião a que pertençam): possuímos aqui um dos mais belos poemas lançados às mãos de homens. A cristandade ameaçada lembra-se de suas esperanças e terrores, suas certezas e suas imaginações sacras.
O poema começa como um dobre, numa simplicidade plena de mistério:

Dies iræ, dies illa

Mas logo se apresentam as fulgurantes imagens da Bíblia: o universo que se dissolve em cinza e pó, os astros vacilando nos céus agitados.
Então, em duas palavras, o gênio latino deposita aqui a rubrica das crenças da Antiguidade e da Bíblia:

Teste David cum Sybilla

Nesta prodigiosa abreviação (como nós admiramo-la, na língua latina) encontram-se presentes a antiguidade pagã e os profetas messiânicos:

“Ao testemunho de David e da Sibila...”.

Nas estrofes de impressionante profundidade, as desinências latinas possuem um irromper de trompete, a emoção alçada em sua tensão máxima...

Tuba mirum spargens sonum

Que imagem e que poder sintético! Como tentar, não importa em qual língua, exprimir, em quatro palavras, tantos objetos e tanto movimento, tamanho drama e poesia austera?

Tuba mirum spargens sonum, Per sepulchra regionum, Coget omnes ante thronum;
Mors stupebit ei natura, Cum resurget creatura, Judicanti responsura.

quando repentinamente, depois das ameaças do Antigo Testamento, aproxima-se a doçura do Evangelho e de sua misericórdia:

“Tu que perdoaste à Maria Madalena e atendeu ao bom Ladrão...” Qui Mariam absolvisti.

Sempre esta construção latina, tão bela, tão singela: Qui — Mariam — absolvisti.
Diante do verbo, estão paradas as duas personagens, como numa manhã de Páscoa, quando eles descobrem-se num jardim: o Deus da ressurreição e a mulher de cabelos embaraçados, carregando seus vasos de perfume, prostrando-se subjugada.
O resto do poema é oração e súplica, mas a paz de uma alma redimida estende-se através da lenta sucessão das palavras:

Salva me, fons pietatis
...
Recordade, Jesu pie
quod sum causa tuæ viæ
Ne me perdas illa die.

Quœrens me sedisti lassus
Redenisti crucem passus
Tantus labor non sit cassus.


A Igreja cristã resumiu, neste hino, a contribuição da poesia e o progresso do pensamento, o engrandecimento sentimental e a nova busca do invisível, o selo do amor e a inefável pacificação, que seu dogma traz à Roma antiga.
Deus e César acham-se sempre recordados, sob o signo da Cruz


II


A propagação do latim é um dos mais importantes fatos da história.
Dom CABROL

Como se realizava, no império de Roma, o prodigioso espraiamento da língua latina? Parece que se realizava juntamente com o exército romano. O exército era, para este agrupamento de povos díspares do Oriente e Ocidente, não somente um instrumento de defesa, mas também de coesão.
Ainda que fosse Roma liberal quanto à expressão, aos costumes, as religiões de seus súditos, o latim era língua obrigatória do exército: todas as ordens eram dadas em latim, o legionário tinha que compreende-las e seus auxiliares bárbaros igualmente. Ora, o serviço militar podia durar até vinte anos.
Nas inumeráveis guarnições do império, sobre o Reno ou o Eufrates, na África como na ilha da Bretanha, o soldado romano oferecia ao nativo, não apenas a proteção sob a espada, mas o dom de seu idioma. Sob o céu cinzento do Reno, nos montes de Castela, a bela linguagem da majestade inscrevia-se sobre pedras desconhecidas, em fórmulas breves cuja força agredia como a acutilada dum punhal.
Portanto, é evidente que esta propagação universal do latim, por assim dizer, a jato, era ao mesmo tempo uma causa de corrupção. Mas fora preservado pela influência dos oficiais romanos, pertencendo quase todos à nobreza, e que traziam periodicamente de Roma, para suas longínquas guarnições, os ecos do bem-falar, a perfeição do saber dos escritos literários ou filosóficos. Os administradores e os juizes do império contribuíam para esta salvaguarda.
Mas, sobretudo, a partir do século I, Roma cobre seu império de escolas (particularmente no Ocidente, especialmente na Gália. Podemos dizer que jamais o ensino será tão difundido na França, como fora durante os três séculos do apogeu do império: o ensino alcançando todas as classes da população).

* * *

César e Augusto nunca desejaram impor o latim a nenhum povo: tinham a língua de Roma na mais alta conta que ela então jamais teve, antes da chegada do cristianismo; eles contavam com as qualidades intrínsecas do latim, sua nobreza e seu poder, para triunfar.
Suas esperanças não foram abnubiladas. As populações possuíam gosto em falar latim. “Em todo o império, escreverá o historiador belga Franz Cumont, as gentes que recebiam alguma instrução reconheciam-se neste gosto e respondiam por bela linguagem: eram letrados, eram Romanos, quando sabiam compreender e sentir seus esforços pela elegância, suas sutilezas de expressão, seus giros engenhosos que obedeciam às arengas dos retores. O prazer arrepiante que sentiam ao serem escutados aumentava este sentimento que indicava, ao admirarem-lhes, que pertenciam ao mundo civilizado”.
Faz-se necessário entender que, para Gália lutar contra o poder dos Druidas (cujo ensinamento era fortemente impregnado por influências mediterrâneas e helenísticas), Roma trazia um ensinamento no qual o gênio grego estava assimilado, ordenado, pelo gênio romano. (A Igreja resgatará esta tradição nas suas escolas). No século II, em certas partes do império, falamos um latim mais puro que na própria Roma...
A partir do século III, a diferença torna-se cada vez maior, mais marcante, entre a língua culta de Roma e sua fala popular. A língua culta defender-se-á, velará sua perfeição, sua pureza. Os cultos e os professores devem lutar contra a barbárie... Ora, os gramáticos e retores romanos sabem o grego quase tanto quanto o latim. Os Padres da Igreja os imitarão por longo tempo. (Recordemos sempre que não havia, desde o dia da conquista da Grécia, ruptura, em Roma, entre o helenismo, em sua perfeição clássica, e o gênio romano; as duas perfeições estavam fundidas para então originar o humanismo). Os Padres da Igreja, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Hilário, buscarão sempre o alento de seus pensamentos nesta via. Para a reza ou o catecismo, falam algumas vezes em língua vulgar; para seus escritos, utilizam a língua culta. Para o culto também.
Quando as invasões bárbaras se deflagram sobre o Ocidente, os gramáticos e retores de Roma emigram em grande número para a Irlanda; e pelo fato da ilha da Bretanha conservar uma tradição intelectual tão pura quanto lhe é permitida, nos tempos de Carlos Magno, ela virá a comunicar ao Ocidente a cultura greco-romana, momentaneamente obscurecida e corrompida.

terça-feira, agosto 09, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal II

Capitulo Dois
ROMA EM FACE ÀS CIVILIZAÇÕES DE SEU IMPÉRIO:
A GRÉCIA E OS BÁRBAROS


...Não cesso de recordar-me que tens diante os olhos uma terra a que nós demos as leis, não pela força como a derrotados, mas porque nos pediram.
PLINIO O MOÇO
(a um de seus amigos ao partir para a Grécia)

Oitocentos anos de alegria e sabedoria política cimentaram nosso edifício: isso não será posto a baixo, sem carregar, em sua ruína, aquele mesmo que lhe quis arruinar.
O romano CERIALIS aos gauleses
(século I)

Ao fim do século X de sua história o pequeno burgo italiano, onde Rômulo e Remo alimentaram-se de forma selvagem do leite da Loba, tornou-se a senhora do mundo. Entre mares de névoa e de sol, espraiou seu gênio rústico e soube ser a protetora das cidades. Por sua vez, enchia as várias cidades de glória e riqueza: dava-lhes a proteção de suas legiões, a solidez de seu governo e de seu Direito. Assim, não reconhecia apenas os burgos ou os campos de pilhagem: instalava então as repartições e construía o fórum. (Sou romano: animal que constrói as cidades e os Estados... não destruidor errante como hordas e sobrevivente dos vestígios de ruína que criou... ”).

* * *

Campanha vitoriosa contra Cartago; é primeira vez que dominam estes portais de tráfego e vida sensual, que os Fenícios semearam por todo o Mediterrâneo. “Aníbal, e mais tarde Cleópatra, inspiraram nos romanos um rancor particular, escreveu um dos mais perspicazes historiadores romanos, um temor estranho, o temor de qualquer coisa que o Ocidente desconhecia”.

Para os guerreiros rurais que os romanos eram ao século III a.C., Cartago era a cidade do comércio e do ouro,; Cartago era a cidade dos cultos de terror e de mistério, onde os ídolos abriam a bocas nas crateras em chamas, tal como Moloch, ao qual lançavam como alimento crianças vivas. Havia no nome desta cidade, e atrás dele, toda a África das terras ignotas, dos terrificantes desertos, da animalidade e da magia ligada a terra (melhor, aos poderes que pulsavam sob a terra)... Os romanos, como Cipião o Africano, sentiam a vertigem de uma tal conquista com orgulho; mas os velhos senadores viam-na sobretudo como ameaça de futuros contágios...

Mormente a expansão de Roma orienta-se à África do Norte, esta torna-se tão próxima e semelhante àquela, aparentemente, com seus pequenos burgos de muros vermelhos sobre aos quais cresciam as palmeiras. (O cristianismo romano cumprirá a mesma rota: sua primeira colônia, herança dos bispos, será a da África do Norte).

* * *

Mas Roma encaminha-se rápido ao que devia ser a sua mais importante conquista: a Grécia. Sabemos hoje que este acontecimento inicia-se antes do que nos indica a data mesma das vitórias militares de Roma na Acádia; começara pela chegada à Roma dos intelectuais gregos, vendidos como escravos nas prisões de Taranto, em 272 a.C., vindos para enriquecer o início da literatura latina, tornando-se, deste modo, os mestres-escolas por excelência dos pequenos aristocratas romanos.

Não obstante, nada supera a força do aforismo de Horácio a respeito dos gregos derrotados em 46 a.C., dominando finalmente sua acrimônia vencedora.

“Græcia capta, gerum victorem cepit”.

Apesar de tudo escrito e mesmo esmiuçado há séculos a propósito destes acontecimentos, não devemos temer atermo-nos especialmente a um ponto capital, para destacar um fato que há muito esquecemos. Roma tão bem compreendeu a importância da civilização grega, tão bem provou o que ela apresentava por meio das descobertas dos etruscos ou das cidades da Itália do sul; tão bem reconheceu o que ofereciam, não tal ou qual contribuição nacional, mas o mais alto esforço filosófico da humanidade, com uma linguagem precisa em seu ânimo de pensamento (não falo de influência artística, porque me parece que Roma era pouco sensível a ela; ao menos não a admirava mais do que a do Egito ou a do Oriente); Roma iniciou, a partir deste momento, uma busca intelectual guiada por Atenas, e já não podemos separar daí em diante as duas civilizações no que elas têm de mais precioso.

Queria insistir doravante neste ponto: durante séculos e séculos, é através de Roma que o mundo descobrirá a Grécia (a Grécia clássica), pois conquistara de uma vez por todas o que Atenas descobrira de melhor. Gonzaga de Reynold pôde escrever que “Roma dissociou os helenismos dos Helenos”; e ainda, já que a Grécia contaminar-se-ia cada vez mais em civilizações do Oriente desde as conquistas de Alexandre, foi para Roma que a [filosofia] clássica de Aristóteles, de Péricles e de Fídias migrou: o que Atenas tinha de mais sublime passou a Roma, recebendo o selo definitivo da universalidade; é por esta maravilhosa junção que Roma formulará o termo HUMANITAS. Não é apenas um fenômeno que interesse às duas nações, mas um momento supremo do mundo civilizado. A Igreja Ocidental, desde cedo, agarrará, para estabelecer-se sobre a terra, este presente imperecível; a Igreja do Ocidente carregará o que a humanidade descobrira antes de Cristo, em uma síntese greco-romana.

Paremos por aqui, por dois motivos: primeiramente, devido à importância do fenômeno que se esboça, mas também porque, a partir de agora temos uma chave que permite explicitar muitos aspectos da Idade Média, da Renascença ou da época contemporânea. Quase todos os erros ou vícios cometidos a respeito de Roma ou da Grécia vêm daqueles que esqueceram o fato histórico que acabamos de descrever: a absorção do gênio helênico por Roma e sua fusão; em certas épocas, desejávamos ressuscitar o gênio grego ou gênio romano em um de seus aspectos particularistas, em vez de querer encontrar neles o que significava a civilização tout court, um dos raros momentos de realização perfeita na história dos homens. (Apontamos, pois, por exemplo, a ressurreição medieval do Direito Romano na Universidade de Bolonha e de Pádua e a renascença do helenismo científico – tornado bizantino – nas cidades italianas do século XV.)

Roma conquistou a Grécia entre os séculos III e II a.C., almentando-se rapidamente das descobertas de seus filósofos, cientistas, literatos e artistas. É esta escola que despertará de forma definitiva o gênio romano, pela qual o período clássico romano florescerá. É esta mensagem, tornada própria e calcada em seu gênio que Roma levará um dia por todo o Ocidente, antes de deixá-la nas mãos da Igreja.

* * *

Mas a Grécia, durante esse tempo, orientalizou-se cada vez mais. Guiada por Alexandre, lançou-se ao Egito, inclinando-se ante o culto do sol e da arte do silencio e imobilismo, e ante a Pérsia (Alexandre sonhava em unir-se a Pérsia, para melhor dominar os outros povos, considerados simplesmente como bárbaros); na Índia, entrincheirou-se no ocultismo vegetal e em contrários mais e mais distantes, onde o sorriso de Apolo posava sobre os lábios enigmáticos de Buda. Eis, portanto, onde está a nova Grécia, até aos últimos séculos da Idade Média; eis a nova Grécia, sua fama e seus perigos.

Hoje em dia, sabemos, graças ao progresso da erudição, sobre que base apoiavam-se as descobertas científicas e riquezas deste gigantesco império mediterrâneo: descobrira o petróleo, o ferro, o bronze, triunfava em suas industrias químicas e na arte da tinturaria, da cerâmica, da vidraria. Superava-se ao compor os perfumes que ataviavam os reinos e cortesãos, e os ungüentos que acalmavam a fatiga e a dor. Fabricava o papiro do Egito com arte admirável, dominava a construção naval e a forja de armas. (Foi em um navio da época helenística que foi esculpida a “Vitória da Samotrácia”, hoje no Museu do Louvre). Religavam por canais os rios e os mares, conheciam sistemas de aquecimento de casas e banhos públicos.

Grandes cidades como Alexandria ou Babilônia, com suas casas brancas sob um céu de opressora claridade; palácios onde se erigem esculturas de tormentos (Laocoonte) ou de volúpia complexas e inquietantes, como certos Apolos ou Vênus recolhidas nos museus; populacho em algazarra ou então tragado pelo sono (após o meio dia, as cidades mediterrâneas sentem a óleo quente e suor, antes da brisa do mar conduzir o olor dos loureiros e jasmins); que importa se o conquistador semidivino cria impor-lhes eternamente a ordem do Partenon? O que mais interessa, para além de suas paixões e prazeres, é a busca insaciável e duvidosa do Oriente, a vertigem dos conhecimentos recusando todos os limites, a confusão de um saber que muito a custo libera-se de um torpor vegetal (ou das volúpias tentadoras da carne), para captar as definições do verdadeiro. O que conta assim, nas cidades do Oriente, é a adesão das massas, não a convicção da aristocracia da vida e do pensamento, dos quais Atenas fizera os seus educados, seus cidadãos...

É por isso que os Ocidentais correrão mais perigo (quer sejam laicos ou da Igreja), ao buscar a Grécia e seu gênio, NOS PRÓPRIOS LIMITES GEOGRÁFICOS DA GRÉCIA OU DO IMPERIO DE ALEXANDRE.

O imperador Constantino fracassará, quando creu fundar uma nova Roma em Bizâncio, sobre a efígie da terra e do mar onde a antiga Grécia juntava-se estreitamente ao Oriente. Constantinopla, a cidade de Constantino, exaltará tão-somente o Oriente.

Juliano o Apóstata, apesar de sua piedade com Atenas, só conseguirá redescobrir um neoplatonismo judaizante para lutar contra o cristianismo vitorioso do “Galileu”.

E a história da Idade Média nos mostrará outros fracassos...

Sim, é bom para Roma, e é bom só para Roma, que hoje a Grécia antiga sobreviva e sobrevive. A língua latina já trazia consigo uma nobreza, naquele instante em que Igreja a escolhia para elevar sua prece ao céu. Depois, torna-se não somente a língua dos vários povos: traz consigo o selo da razão de Palas Atenas.
Quando Santo Agostinho, romano da África, ou quando os Padres da Igreja medieval, queriam levar ao mundo bárbaro as recordações da civilização antiga, serviram-se da linguagem de Roma, como antes Cícero ou Lucrécio, para invocar as grandes mensagens gregas: a idéia de que a educação vale tanto quanto o sangue, por aristocratizar um ser humano; a idéia de que a cidade não deve dominar toda nossa alma, mas fornecer-nos a melhor condição para o desabrochamento da pessoa humana; a idéia de que a divindade merece somente a nossa genuflexão (e não os poderes civis); a idéia de que devemos reproduzir em nós a harmonia superior esperada pelo Autor da criação, sobretudo no sentido crítico, na claridade de espírito, no gosto da definição e do julgamento justos, onde estavam as mais belas contribuições gregas e que, na língua de Roma, deram origem ao rigor dos dogmas, encerrados nas formulas lapidares; confusão dos heréticos, triunfo da fé.

O pensamento grego, enfim, no auge de sua busca intelectual, descobrira o Logos (principio absoluto da unidade e da perfeição), mas o apóstolo João identificava este Logos com o Filho de Deus, encarnado cá embaixo segundo as profecias dos Profetas. E na língua de Roma, esta fusão tornava-se a apoteose do Verbo (há pouco, era ainda este o texto duplamente sublime que recitávamos, o ultimo evangelho da missa, na Igreja Católica Romana...).

Através da Roma cristã, as mais altas conquistas da Grécia e de Roma antigas achavam-se entrelaçadas; e do Oriente só restava um mistério inundado de luz. In principio erat Verbum, Verbum erat apud Deum...

* * *

Mas retornemos ao império grego, ou melhor, helenístico, do século III antes de Jesus Cristo.

Naqueles domínios imensos, sempre achamos fusão de idéias gregas com as escolas orientais. Bem antes do nascimento de Cristo, já havia existido uma impregnação de judaísmo no helenismo: ela servirá de prefácio ao reencontro de gregos e cristãos.
É muito perigoso falar da igreja grega original, sem fazer esclarecer todos os aspectos da história. Muitos cristãos enganaram-se (e também os homens da Renascença e da Reforma do século XVI que acreditarão destruir Roma clamando a vitória da cultura helena: a primeira língua da Igreja foi a língua grega, e assim durante três séculos!).

Isto, contudo, é certo: tratava-se apenas de uma língua de um império oriental. Durante Alexandre, quando se estabelecia a primeira grande escola de filosofia do cristianismo, o grego rapidamente se associará às escolas judias e gnósticas, e sabemos quanto um dos mais célebres padres da Igreja grega, Clemente de Alexandria, aconselhava a se valerem destas com prudência. Da mesma forma, o genial Orígenes, o egípcio de dois mil manuscritos consagrados à apologia do cristianismo, em face às investidas dos últimos filósofos pagãos, mantinha-se, por várias vezes, no limite de um controvertido neoplatonismo, deixando imensa lacuna para as interpretações individuais da Escritura. Como os maiores doutores da Igreja desconfiaram dele!

* * *

A língua desta Igreja grega primitiva é propriamente oriental. Bossuet demonstrava-o perfeitamente ao Delfim, filho de Luis XIV, ao explicar como os Livros do Antigo e do Novo Testamento chegaram até nós. Abria, por assim dizer, sob as vistas, o velho Pentateuco em que o hebreu já se misturava com a língua de Babilônia e que São Jerônimo conhecerá antes de compor a tradução latina. Mas, sobretudo, o santo destacava que os primeiros tradutores cristãos, que chamamos abusivamente de gregos, começaram seu trabalho de transcrição dos Santos Livros no Egito alexandrino, contaminado, àquela época, pelas diversas correntes do pensamento oriental.

“Serviam-se eles, diz o bispo de Meaux, de um grego mesclado de hebraísmos, que chamamos língua helenística” (e na qual a Bíblia Septante e todo o Novo Testamento foram escritos antes que São Jerônimo desse a ela sua magnífica forma latina).

A Igreja primitiva, chamada geralmente igreja grega, não existe[1]. Havia uma igreja da época helenística, então disseminada por todo Oriente.

Vir acusar o latim, que a Igreja adotará mais tarde, de ter deformado uma pretensa pureza primitiva melhor conservada em grego, é ignorar a verdade histórica. Roma possuía méritos maiores que a Grécia de Alexandre para se julgar a senhora do mundo no momento do nascimento do cristianismo. Ela possuía a vantagem incontestável, neste momento, de uma linguagem mais rigorosa, mais estruturada e próxima do gênio grego em seu aspecto clássico e universal, do que o helenismo orientalizado poderia ter.

Dizemos que depois da Ascensão de Cristo, a grande data do nascimento da Igreja é a famosa discussão entre Pedro e Paulo, a propósito da oportunidade de reservar a Boa Nova somente aos Judeus ou de pregá-la para todos os povos da terra. Acertado este ponto, o cristianismo vem ao encontro de Roma e somente ela, pois Roma era a dona do mundo conhecido.

Não vemos porque os cristãos deveriam sentir-se separados de suas origens, ao proclamarem-se romanos.

Mas vemos ao contrário quais são os riscos que encontram quando querem intitular-se unicamente como “gregos” (cada vez que assim o desejavam, ou voltavam-se para Israel – assinalaremos como, durante o século XVI – ou para um sincretismo oriental – para com os árabes, no século XIII).

Donde retomarmos nossa fórmula: a partir do século I, é para Roma e somente para ela que deve obrigatoriamente passar a busca do verdadeiro helenismo clássico. Só há uma civilização ocidental e esta civilização é a greco-romana[2].

Um outro exemplo acachapante apresenta-se quando consideramos, vários séculos mais tarde, a atividade intelectual florescente no Oriente Médio, graças ao revigoramento do poder romano em sua terra – grosso modo, do século IV até ao VIII.

É certo, por exemplo, que à difusão da religião cristã na Mesopotâmia e na Síria segue-se um florescimento dos monastérios e escolas (como a de Edessa), onde ensinavam Aristóteles, Hipócrates e Galeno. Quando fecharam a escola de Edessa, os professores mudaram-se para a Pérsia; e é com estes doutores cristãos que as escolas persas e sírias, que conheciam tão bem Aristóteles como Ptolomeu, Euclides e Arquimedes, que os árabes de Mafamede – os califas eram curiosos e refinados – viriam instruir-se como civilização. Quando um dia o mundo árabe expuser um esplendor comparável ao do mundo helenístico de outrora, será por intermédio dos monastérios e das escolas do Oriente Médio.

Percebamos, contudo, que Roma e sua ordem permitiam este novo desabrochar.

Percebamos assim que esses monastérios não podiam sempre se guardar dos erros orientais que afloravam no helenismo. Será necessário o gênio romano de um Santo Tomás de Aquino para reconstruir a síntese da religião cristã, liberando o pensamento de Aristóteles da ganga que as escolas do mundo sírio, árabe e judeu ali depositaram.

* * *

De qualquer modo, a Roma de César e de Augusto não foi salva das tentações orientais por suas tradições superiores. Ela foi salva pela conquista da Gália.

Os melhores historiadores sustentam que a Gália equilibrou as conquistas de Roma, e restaurou-lhe, diante das tentações orientais e seu abismo, sua estabilidade e fundações Ocidentais, oferecendo-lhe um território excepcionalmente rico e fértil à sua porta[3]; levando a ela uma população agrícola, guerreira, mas igualmente apaixonada pelas escolas de retórica e Direito; anexando a ela um território onde puderam multiplicar-se os caminhos, favoráveis às trocas do comércio ou de idéias; dando-lhe soldados cujo ímpeto rapidamente aceitara a disciplina das legiões; a Gália fixou novamente Roma no Ocidente; mais exatamente, recordou-lhe de seu papel de centro do Oriente e do Ocidente.

Roma, além disso, encontrou na Gália um povo cujos defeitos e qualidades imitavam os seus: “Os gauleses, diz Catão o Antigo, buscam sobretudo a arte da guerra e a dos belos discursos”. E César, antes de vencer, acrescenta: “é uma raça de um extremo denodo e muito apta a seguir e reproduzir tudo o que é-lhes ensinado por qualquer um”.

Apesar de a Gália, por um encadeamento lógico de circunstancias, ter sido rapidamente assimilada, obrigou Roma a assegurar suas conquistas européias. A dificuldade de submeter as tribos da Gália belga conduzirá César até a Bretanha (futura Inglaterra); a necessidade de proteger sua nova província contra as incursões da Germânia levará a invasão à região do Reno. A Espanha, ocupada desde há muito (por causa dos misteres africanos na luta contra Cartago), achará, na conquista da Gália, um reforço à romanização.

A Grécia fixou o destino intelectual de Roma, mas a Gália fixa seu destino político. Roma não será apenas a sucessora do império greco-oriental de Alexandria, mas o reino do Oriente e do Ocidente.

* * *

Assim, quando o imperador Constantino dá ao cristianismo o direito à cidade em seu império – e já bem antes a Igreja adotara a língua de Roma –, este verdadeiramente recebe os dons de um império universal. Se os gregos sonhavam com uma autoridade para todos os homens e forjaram a palavra Ecumenismo, é Roma que realizará este sonho, servindo-se de uma palavra grega latinizada: Católico.

O poeta Charles Péguy, naquelas estrofes admiráveis de seu poema Eva, evocou o prestigioso império, no momento em que este encontrava-se abraçado com todas as civilizações:

Les Romains préposés à la garde du monde
Etaient Assis em rond devant les triple portes,
Et l´univers était une immense rotonde
Sous le gouvernement de deux mille cohortes.

Et ces peuples crevés, ces acres mercenaires,
Se payaient d´or, d´argent, de crime et d´ordure,
Mais ces peuple sevrés, les grand legionnaires,
Se payaient d´avoir fait une magistrature.

Et ces peuple brûlés, et tous es marchants d´hommes,
Se payaient d´avoir fait um monde mercenaire,
Mais les peuple civils et les hommes de Rome
Se payaient d´avoir fait um monde centenaire.

A maioria dos Padres da Igreja, e toda a Idade Média, verão neste império um sucesso único, o prefácio providencial da rápida expansão do cristianismo. Um deles escrevia ao fim do século II d.C.: “Deus, desejando que as nações estivessem dispostas a receber a doutrina do Cristo, em sua Providencia os submeteu ao imperador único do romanos... uma multiplicidade de impérios seria um obstáculo à difusão da doutrina de Jesus em todo o universo.”

Roma não é mais, de fato, desde esta época, uma cidade italiana, nem mesmo uma cidade mediterrânea; o que apreendeu da Grécia, do Oriente, da África, reúne agora com o que lhes murmurou os celtas e os germânicos.

Roma cria em centenas de deuses, mas os celtas criam em um deus único (entendemos, por este simples fato, o sucesso tão rápido da pregação de São Paulo aos Gálatas da Ásia Menor). Os germânicos possuíam o culto dos heróis, o sentido do sofrimento e do sacrifício que faltavam aos greco-romanos; por isso admitiram um mistério como o da Redenção, que tinha feito o areópago de Atenas sorrir e indignar-se.

* * *

Mas os romanos e os celtas tinham em comum uma devoção: a que se dirigia a um clero sapiente e poderoso.

E eis que, entre os gauleses, no momento em que o assalto dos bárbaros e a decadência total do mundo pagão antigo fazem ruir aparentemente o Império, acha-se já designada a força, a administração e os homens que vão ter nas mãos, durante séculos, o Ocidente.

Roma implantou uma administração de uma solidez singular. Quando a sociedade dissolve-se, o clero, que a devoção céltica aos druidas já aureolavam de prestígio, só terá de adaptar a estrutura de ordem romana, para restabeler os sustentáculos da civilização. Francos, burgundos, visigodos, ostrogodos e hunos puderam alastrar-se sobre o Ocidente. Os bispos cristãos, percebendo que não podiam pregar uma religião à extinção de toda uma sociedade, compreendem rapidamente o que acontecia com o império. Da África de Santo Agostinho à Renânia; da Bretanha encerrada em sua ilha à Gália de Santo Hilário de Poitiers, agüentaram e sustentaram em suas próprias mãos os muros tombadiços de Roma, já que aí acharam o único baluarte que lhes permitia não desaparecer. Suas dioceses continuavam inabaláveis, como as da administração de outrora. “Sou romano, notará um dia um grande escritor Ocidental, pois Roma, a Roma dos padres e dos Papas, deu a solidez eterna dos sentimentos, da língua, do culto, à obra política dos administradores e dos juizes romanos”.

Renan – de inteligência luminosa, quando se não deixava dominar pelos erros do século – soube analisar mui justamente o estado de espírito dos grandes bispos dos primeiros séculos: “Basicamente, disse, a Igreja experimentava uma necessidade do braço secular. À medida que ela se organizava, sentia a necessidade católica da unidade; compreendia a impossibilidade de triunfar das dissidências, sem a ajuda da força”. Aconteceu, é claro, criado este estado de coisas, abusos e excessos,; mas nisso cabe uma observação justa e mui romana: o reconhecimento da necessidade de ordem em toda a sociedade humana”[4].

* * *

E o que os bispos realizam, o orbe dos monges os imita: os ermitões e os penitentes à moda estritamente oriental não se instalarão por muito tempo, no Ocidente.

Eis que no momento em que se fechava, no séc. VI, a Universidade de Atenas, encerrava-se também o último templo pagão da Itália, dedicado ao deus grego Apolo. Este templo erigia-se sobre Monte Cassino.

Um jovem monge de gênio, de nome Bento, dedicou-o a São Martinho, anexando-o ao convento que viria a fundar logo após.

Toda a história da Europa pode parar e silenciar por aqui um instante: se quiséssemos suprimir o passado, seria preciso aniquilar os únicos refúgios da civilização, durante vários séculos, de nossos anais. O monge Bento estabelece uma regra de vida para seus companheiros, e não apenas adapta os ditames do cenobitismo oriental, mas batiza o gênio de Roma em sua ordem, enquanto ciência equilibrada do homem, logo conseguindo uma das mais belas fusões da mensagem evangélica com a paz das cidades terrestres.

Isso vai permitir que o nome beneditino qualifique, até o fim do século XVI, à exceção de breves eclipses, o refugio do pensamento e do labor, o culto das artes e da devoção às letras; fará que estes monastérios tornem-se, não apenas o leira dos homens da Igreja, mas dos conselheiros dos reis, imperadores e promotores das Cruzadas; permitirá que seus estabelecimentos impeçam os bárbaros, batizados, mas sempre ferozes, de esquecer a mensagem greco-romana. Além do mais, a oração Oriental adota, para ascender a Deus, a concisão e o equilíbrio que o Oriente não possuía mais.

* * *

Ao mesmo tempo, na outra extremidade do Mediterrâneo, surgirá Bizâncio, com seus filósofos sutis e perigosos, com seus médicos e engenheiros, com o esplendor dourado de seus palácios e basílicas; Bizâncio, refinada mas pérfida, iniciatriz das ciência do bem e do mal; o Ocidente, sempre arruinado e destroçado por guerras, em longos eclipses bárbaros, não perderá, graças a seus bispos e monges, nem o Evangelho do Cristo, nem a recordação da tutela greco-romana.

E quando um dia este Ocidente tiver com toda força e gênio para cobrir seu solo de catedrais e inventar a cavalaria, reformar o conceito de realeza e reformular a justiça, descobriremos que sua Igreja não se deixara perder a lição de Roma, cimento único das sociedades.

[1] Não devemos esquecer que os Evangelistas eram Israelitas que, segundo a palavra de um historiador “pensavam em aramaico e redigiam em grego”, quer dizer em uma outra língua. (Podemos ver inúmeros matizes, de quanto o gênio semítico influenciou o grego).
[2] Monsenhor Battifol publicou extensos volumes para nos lembrar o que a primitiva Igreja oriental nos trouxe de ensinamento, do culto, da liturgia.
Da mesma forma Monsenhor Duchesne, em sua Histoire ancienne de l´Eglise, evoca todos os testemunhos, profecias, homilias desta Igreja (que seria um dia, dirigida pelo Direito cristão do Oriente e do Ocidente). Ora, ele indicava que todas estas obras, de língua grega sem dúvida, não tinham nada de grego em pensamento nem em forma de expressão. É ora uma mensagem hebraica pura, ora um apanhado de livros orientais. E os primeiros grandes apologistas que traduzirão a sobrecitada mensagem, e assim para os homens do Oriente e Ocidente, serão os Padres da Igreja dos séculos III e IV, quer dizer, homens que habitam o Império de Roma, eles e seus pais, desde há vários séculos.
[3] Há muito tempo conhecemos o papel de Lyon no que tange aos caminhos de Roma, e de como esta cidade deveria tornar-se a capital dos gauleses – torna-se o centro da prelazia da Gália cristã.
[4] A responsabilidade que tentamos imputar, em nossa época de primário, “à era constantina”, demonstra somente a ignorância histórica de nossos contemporâneos e da puerilidade daqueles que não sabem distinguir o simples abuso dos princípios. Enquanto a Igreja estiver sobre a terra, haverá sempre uma era constantina: chame-se Constantino o cavaleiro feudal ou Clóvis, o imperador do Sacro-Império ou o rei da França Toda-Cristã.

quinta-feira, julho 28, 2005

Marie-Madeleine Martin - O Latim Imortal

Apresento-vos uma de minhas primeiras traduções; embora pobre em estilo e um tanto claudicante, as idéias estão todas aí, para vosso proveito. Peço-vos comunicar-me todos os erros que porventura encontreis neste capítulo (o primeiro de muitos, espero) que ora se vos dá.

À memória de

CHANOINE RENE POIGNET
(1885-1962)
doutor em teologia,
doutor em filosofia,
doutor em Direito Canônico;

e de ROBERT LEJEUNE (+ 1940)
doutor em Letras,
antigo aluno da Escola de Atenas, grande humanista, e meu mestre de latim,

que fazem parte, ambos, das “figuras votivas” de minha infância e adolescência, à casa de meu pai.



A língua latina tem a natureza das
coisas que só devem perecer
à ruína do mundo

Jean BELOY
Jurista Parisiense (1637)


Prólogo

Há vários anos, a cristandade está perturbada devido a um acontecimento inesperado: aproveitando a ocasião de algumas reformas aconselhadas pelo Concilio Vaticano II, uma grande parte do clero católico instaura subitamente liturgias em línguas nacionais e mesmo dialetais, num universo ainda ferido pelos estilhaços das guerras. As numerosas publicações de então expuseram que o próprio texto redigido pelas autoridades conciliares não exigia esta verdadeira revolução e que o latim permanecia a língua da Igreja Católica Romana.[1]
Queremos abordar neste livro um outro fenômeno, mais especial e menos limitado. Queremos estudar o processo do abandono geral do latim nas sociedades ocidentais, há três séculos. Pois, em nossa opinião, a experimento de um clero de “vanguarda” não é uma manobra que concerne somente à Igreja, ou aos seus problemas pastorais. Este experimento diz respeito ao mundo inteiro: ele apenas continua ou arremata uma ação cujas origens é muito importante conhecer objetivamente.
Em todos os períodos de crise e revolução, vemos, infelizmente, confrontarem-se dois partidos igualmente inimigos das convenções: os progressistas radicais, que desejam a destruição e o desarraigamento sem limites; e os tradicionalistas, que respondem por uma veneração ao passado, excluindo toda discussão e nuance. Nenhum diálogo é possível entre esses dois campos, pois o movimento e progresso de um provoca o recrudescimento imediato e cada vez mais intenso do outro.
Ora, a primeira tentativa de uma discussão objetiva consiste em conhecer bem o debate. E nós sustentamos que no seu desenrolar, este escapa de todas as formas do terreno puramente religioso. Interessa à História, a História do mundo, pois a glória menos inconteste de Roma é a de ter sido berço da civilização universal. Roma não foi uma nação (da qual, há muito tempo, nada resta): ela inventou um Império; reina sobre o Ocidente e Oriente. Descobre o meio de fazer viver reunidos os povos e as diversas civilizações, transmitindo assim um ensinamento imortal para ordem de toda cidade humana.
A atual reviravolta, cujo palco é a Igreja, toma uma caráter diverso do de um debate que só interessa a cristãos quando damos a palavra aos detratores e aos defensores do latim, nos últimos três séculos.
Pois a sociedade laica tem suas responsabilidades no que acontece hoje: e as têm bem grandes. O assalto de um certo clero contra o latim dá prosseguimento a um abandono cujo palco é a sociedade civil ocidental há quase três séculos. E este assalto não teria uma tal amplidão e rapidez, sem as previsíveis renúncias...
Não pomos em causa, de forma alguma, o dogma da Igreja, mas o simples problema do recrutamento do clero e de sua formação. Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, afirma que os homens, no exercício das virtudes, são ajudados pela forma da sociedade a qual pertencem... e que pouquíssimos homens, ao contrário, sabem resistir à pressão exercida sobre si pela moral comum e pelas instituições...
Observamos, felizmente, que, a respeito do problema do latim, não são somente os católicos que se alinham na defesa de seus redutos, mas todos os civilizados cônscios de que ainda pertencem ao universo.
Ao final deste século, um grande humanista escreveu: “A questão é saber se, em lugar da mistura moderna de povos, de raças, de civilizações, confundindo-se e interpenetrando-se por todas as partes, a civilização latina deve possuir uma obra distinta, cultivar suas características fundamentais e, como diz o filósofo, preservar em seu ser”.[2]
Por sua vez, em 1910, o grande escritor italiano Guglielmo Ferrero, comemorando a fundação da Cidade, constatava: “A história de Roma começa pela ordem. Ela não começa pelo caos, como a história bíblica do universo. Inicia pela paz interior, pela disciplina política, pelo equilíbrio bem assente nas fortunas, mas ainda modestas e quase todas baseadas na terra... Roma deu a todos a criação de diferentes modelos, para resolver os problemas políticos mais difíceis... A história de Roma é universal e tão-somente ela, pois não se pode reconstruir impérios mortos...”.
Escrevemos nosso livro, sempre tendo sob os olhos o destino impressionante desta cidade, que soube servir de modelo a todas as outras, antes que o martírio dos dois Apóstolos e que o estabelecimento do século da Igreja a “lançassem na Eternidade”.

Primeiro Capítulo
OS DEZ PRIMEIROS SÉCULOS DO DESTINO DE ROMA


Há uma hierarquia entre os povos. Nenhum deles possui igual valor nem pesam o mesmo peso numa civilização; não se civilizaram ao mesmo tempo, nem seguiram o mesmo ritmo.
Gonzague de REYNOLD


Os romanos deram ao mundo sem que nenhum outro povo lhes tenha dado.
R. H. BARROW
(The Romans)


Acima de tudo, o romano começava por venerar a terra. Não apenas os pedaços do universo visível, a cor dos dias e das noites e o perfume de cada estação, mas mas também o que interessa à vida cotidiana do agricultor, do homem do campo. O sol que estiolava as espigas, o granizo que desolava as hortas suplicantes no outono, o solo endurecido sob as geleiras de dezembro, seguido da retomada da vida em seus vários influxos ao primeiro mormaço da primavera; o verão transbordando nas colméias das abelhas; o agonizante esgrouvinhar das ferramentas do trabalhador ou do jardineiro, a lamúria do gado à densa atmosfera dos estábulos. Enfim, as tardes onde os pastores da Itália repousavam tocando o flautim, à sombra delgaçada das oliveiras ou dos pinos sobre as pradarias, até a aparição da primeira estrela na abóbada noturna.
Estas são as primitivas lições, espetáculos eternos que darão à língua de Roma seu sabor singular de realismo e simplicidade e que instruirá todo romano a respeito de sua influência, assinalando o destino do homem cá em baixo. (Para além disso, um temor reverencial que a Roma mais antiga manifestava frente à divindade). O romano não esquecerá jamais hábitos assim tão caros e familiares, quando vierem a ser o norte do mundo. No apogeu do poder da cidade, Virgilio, antes de chamá-la “mãe dos homens”, não esqueceu de chamá-la “mãe da colheita”; Horácio o Cético sente-se mais feliz quando está em sua propriedade rural no campo, diante da mesa fornida das frutas da parreira e da oliveira. Só entre os romanos veremos os soldados e os generais – antes das expedições que iam até aos confins da terra, ou mesmo em triunfo no Capitólio – recordar o exemplo do gigante Anteu, ao curvarem-se sobre a terra, sua nutriz. É assim que nos grandes domínios campestres os príncipes da literatura, um Cícero, um Plínio o Moço, cobertos com suas togas meneantes, amaram contar a seus libertos[3] os últimos boatos de Roma, adjudicadas numa língua soberana, além dos segredos da arte e da filosofia.

* * *

Concomitantemente a terra, o romano agarrava-se à sua espada de guerreiro, pois devia, desde o começo, acumular as funções de trabalhador e soldado, de arar a terra embainhando a espada ao lado.
[O romano] era chefe de um pequeno burgo cobiçado por seus vizinhos (burgo este que Rômulo, no ano de 737 a.C., tinha, segundo Ferrero, “lançado na eternidade”); e, tão logo se pusera a capturar aldeias e cidades, o romano, antes da eliminação das mulheres sabinas, absorvia-lhes parte da arte militar, além do modo de construir dos Etruscos (junto com muitos de seus costumes pios, observados na intimidade ou erigidos solenemente sobre as tumbas); conquistado mares e desertos, estendia seu império sem conhecer obstáculo.
Eis as cidades do Mediterrâneo fervilhantes de pessoas, destilando os vícios mais vis ou tentados pelos místicos mais extravagantes; eis a Espanha de lanças encrespadas ou estendendo suas planícies até a África de Cartago; eis a Gália que tornar-se-á a jóia do Império. Mas, sobretudo, eis a Grécia de Esparta e Atenas, o lugar onde os homens conquistaram a sabedoria e mais especificamente a Beleza; e eis esta outra Grécia das conquistas de Alexandre, que vai coalhar os delírios de Roma com os mistérios do Egito, além dos silenciosos abismos do pensamento hindu, que vai atrair Roma de forma irresistível à vertigem do Oriente...
Eis as brumas do norte, os mares mesclados ao céu azul, a futura Inglaterra, os futuros Países Baixos e este caminho do Reno que se tornará uma das mais belas conquistas (às portas das florestas germânicas assediadas por Armínio), o caminho do Reno onde se erigirá um dia Treves, a segunda cidade do império, a qual viria a ser Roma; o caminho do Reno onde reinará, bem mais tarde, em Aix-la-Chapelle, este imperador franco que reivindicará Roma...
Em sua prodigiosa conquista, Roma sempre fora guiada unicamente por seus motivos realistas, só possuindo metas mensuráveis, deixando-se levar apenas pela lógica das circunstancias, por meio de um exame lúcido das falhas. O que quer que seja dito, jamais concebeu (exceto nos tempos de César, de Antonio e Cleópatra) planos grandiosos de edificação, pois sabiam que os deuses puniam o excesso, sem perdão.
O romano não deixava de venerar sua qualidade de proprietário rural e soldado como a razão de seu destino supremo, caminho inicial que o levaria finalmente até aos limites do poder. Isso correspondia a seu senso de realidade e sua submissão constante em face às ordens dos deuses.
Não é sem razão que, para eles, Marte, deus da Agricultura, tornou-se rapidamente o deus da guerra; pois a guerra, por Roma e somente por ela, era um dever incorporado nas necessidades da cidade, um prelúdio a esta ordem superior que devia um dia, de uma ponta a outra do mundo conhecido, chamar-se PAX ROMANA.
Roma não esquecia sua origem primitiva de pequeno burgo agrícola e guerreiro, exercendo, ao mesmo tempo e em vários lugares, a arte da produtividade do solo e do acometimento dos povos, esteados pelas espadas. É sobre estes dois pivôs que repousará o que Plínio o Velho chamará, um dia: “a imensa majestade da paz romana”.

* * *
Mas Roma sabia também que, em suas raízes, tinham nascido virtudes individuais mais preciosas que a mera solidez realista ou política: a devoção dos lugares de reunião doméstica, a deferência em face ao Pater familias, o respeito à mulher, mãe e rainha do lar, todas estas virtudes que Catão o Antigo recordará, nos dias mais dramáticos da luta contra Cartago, clamando a seus concidadãos para vê-las como um baluarte tão importante para Roma quanto a força política e guerreira; moral esta que santo Agostinho benquistará como sendo o começo de um tipo de estoicismo cristão e querido pela Providência para ser o alicerce da Roma batizada; hábitos estes que Cícero definirá beatamente nas palavras “costumes de nossos ancestrais”, mores majorum; tudo aquilo que o irônico Horácio evocará, com inesperada gravidade, ao descrever a vida de seu pai (tal como um Nativo da Bretanha descobrindo, em meio ao século XVIII francês da frivolidade e do erotismo, a recordação da severa e nobre vida de um pagão do Antigo Regime).
E além das virtudes do campônio, as do soldado: coragem e o senso do sacrifício, fidelidade à fé jurada, gosto pela honra e pela justiça. Se Roma um dia saberá, melhor que todas as nações, constituir-se a fundadora de um Direito Universal, é por causa do dom primordial de derivar, dos fatos concretos, os princípios gerais que se estabilizarão em fórmulas curtas e majestosas: “imperatoria brevitas”.
Campônios e soldados, os romanos serão assim, por muito tempo, homens rudes, de uma coragem inquebrantável, venerando secretamente várias palavras que descrevem melhor que outras suas predileções: gravitas, severitas, constantia, firmitas, e enfim, uma das mais plenas de sentido: virtus, que quer dizer a fé na força do corpo e da nobreza da alma; dito de outro modo, a realização perfeita da palavra vir designando o homem tout court.
Naturalmente, esta rudeza acompanhará por sua vez a crueldade, e é na língua de Roma que a maldição gaulesa toma seu sentido mais incisivo: Væ Victis, morte aos derrotados! (Mas, verdadeiramente, Roma é a nação da antiguidade que menos merece ser acusada de incompreensão para com os vencidos). Queremos tão-somente dizer que a história da fundação de um império não é uma matança nem um idílio, e que os maiores admiradores de Roma conhecem evidentemente seus massacres de reféns e as vendas de escravos nos mercados públicos. Não exigiremos da antiguidade um respeito total à pessoa humana que somente o cristianismo possuirá. Mas ainda havemos de contemplar as virtudes do romano das primeiras eras.

* * *

Nossos romanos serão sempre homens de ação mais que de pensamento (“Os melhores dentre nós, dirá Salústio, sempre preferiram a ação à palavra”), o que lhes limitaria sobremaneira, isso se sua curiosidade universal e sua tolerância às épocas de conquistas, se sua humildade e o sentimento bem presente de sua inferioridade em certas áreas não lhes tivessem feito o povo escolhido para receber dos deuses as mais altas incumbências: o esforço de perfeição do pensamento grego, a revelação transcendente do cristianismo.
Tudo aquilo que faltava de aptidão à obra de Roma, demais chegada às coisas daqui debaixo, ela teve o gênio de aceitar dos outros, de receber com reconhecimento e assimilar.

* * *

Dentre virtudes primitivas e principais do romano, figurava a veneração à cidade, pois ela protegia e reunia em si o destino das famílias; mas também porque nela está o centro do culto aos deuses. Entre os homens da antiguidade, os primeiros romanos são sem dúvida os que tinham mais clara a noção da presença dos deuses ao lado dos homens (e eles os encontravam nos mais simples objetos, e os invocavam a todo o momento); donde a pluralidade de seus ritos e seu respeito, mais tarde, para com as religiões dos povos que conquistavam.
O romano teme os deuses, não como os celtas, que recusavam-se à dar-lhes uma figura visível e os envolviam constantemente de mistério; nem como os germânicos, que se faziam uma representação heróica e guerreira; nem como os gregos, que inclinavam-se com terror sob a fatalidade absurda do Altíssimo sobre os homens, mostrando-se, mais das vezes, cega; mas com uma fé invencível na proteção das bem-aventuranças celestes, que assinalavam para a cidade de Roma uma jubilante missão.
Daí originou-se nos romanos esta fé em seu destino, este impulso que parece cruzar toda sua história, esta esperança quase sem limites que os sustinham nas adversidades (quando Hanibal ultrapassou os Alpes ou quando os gauleses estavam às portas de Roma); esperança que não os abandonará quando se tornarem, sem surpresa, os senhores do mundo. Acusaram-lhes de ter deificado Roma qual um ídolo pagão: mas eles deificavam Roma como centro de um culto que lhes ultrapassava infinitamente! (é quando são invadidos pelos costumes orientais que os romanos prestarão um culto quase divino à sua cidade e ao Imperador, caindo em uma idolatria do Estado contra a qual os primeiros cristãos lutarão até ao martírio).
À origem, o romano não pensava que a cidade era sagrada, sobretudo por causa dos deuses que conhecia sobre o altar. Os reis e os magistrados eram, antes de todos, os sacerdotes do culto; nenhuma grande expedição lançava-se sem se ter consultado os auspícios, a fim de conhecer a vontade do céu.
Assim, solidamente fixados sobre a terra, mas cheios de humildade frente aos poderes invisíveis; segurando firme a espada de combate, mas declamando os adágios da justiça e do direito; desconfiando das sanções da imaginação, enredada nas ousadias desmedidas do pensamento, o romano avança metodicamente para a conquista do mundo. Julga os demais Estados mal edificados e destituídos de vigor e achava nesta constatação uma das mais belas justificativas das vitórias sem igual de Roma. Compreendia rápida e profundamente a missão especial, o gênio próprio de seu povo; seu genius (pois havia um genius, protetor e inspirador, para cada Estado como para cada família, tal como os gregos conceberam). O genius de Roma era justamente saber instalar o esqueleto das cidades, sua ordem, seu equilíbrio, sua organização. É notável que, campônio ou soldado, o romano não pensava que vinha para aprender, sobretudo do mundo da agricultura ou da arte da guerra: sabia que outros povos – os gauleses, por exemplo, ou os germânicos – poderiam rivalizar com eles em suas práticas, ou ao menos na aptidão destas. Seu gênio próprio, romano, era levar aquilo que Santo Agostinho definirá um dia: “a paz, a tranqüilidade da ordem”, fazendo os homens viver reunidos, junto aos demais povos, regendo-os sem massacrá-los, respeitando desde logo seus costumes, suas leis, fazendo-os penetrar pouco a pouco no cerne de uma cidade cujos limites coincidem com os do mundo conhecido; fazendo de todos os vencidos cidadãos felizes por sentirem-se romanos.
E neste novo ajuntamento de tradições particularistas e de costumes universais, Roma não abandona a solitária e frágil memória dos homens, como os celtas; nem as tradições familiares e de tribos, como os germânicos. Grava em pedra e em bronze; ou então codificam-nas nos monumentos do Direito.
O sentimento que os romanos tinham de sua missão universal (Tu, regere império populus, romane, memento) poderia ser um orgulho pueril, mesmo insuportável, se não viesse acompanhado de uma submissão à divindade, de uma consciência tal para cumprir um caminho que os Todo-Poderosos tinham traçado – não comportariam uma tal curiosidade em face às idéias e aos cultos de outrem, uma tolerância ao que diferia de si mesmo, à condição de não atingir nem a moral tradicional, nem a independência e a salvação da pátria. (As perseguições aos primeiros cristãos remetiam a dois fatos: as calúnias espalhadas sobre o que acontecia nas catacumbas, que faziam os romanos acreditar que o novo culto era ocasião de orgias, o cristianismo ameaçando a moral dos antigos; a recusa cristã de adorar a imagem do imperador, que parecia ser um fator desagregador para cidade e para o exército).
Consciente de sua força e da utilidade política da força, o romano tinha uma profunda compaixão das fraquezas do homem, não somente diante da divindade, mas dos caprichos da glória e do implacável curso do tempo. Mas sua fé na missão de Roma incita-lhe continuamente a “trabalhar para a eternidade”. Mais que todos os povos da terra, ele dá anseio à duração quando constrói ou fala; quando traça os caminhos ou ajunta as pedras; quando cinzela uma sentença ou modela uma oração. Forja, petrifica as coisas e as idéias, até que as semeia, direta e objetivamente, na terra como no céu. (Nós percebemos logo que deste modo domina seu Credo in unum Deum antes que seu Veni, vidi, vici).
Por isso a súplica de Roma a seus deuses (da duração de sua influência até ao fim dos tempos) foi finalmente atendida. Todos os grandes espíritos entenderam esta mensagem, que achamos tanto na obra política de Carlos Magno como na redação da Regra de São Bento, na arquitetura da Suma de Tomás de Aquino ou no desenrolar de um sermão de Bossuet. Ninguém, durante os séculos, quis intervir de forma durável na ordem terrestre, sem evocar o exemplo de Roma e suas lições. Este povo aparentemente era voltado em demasia para a vida material, mas sua severa moral preservava a liberdade de várias civilizações mediterrâneas; este povo, que não perdeu jamais, diante de toda a novidade solícita, liga-se solidamente ao que lhe remete ao passado. (“Roma mantém-se graças a seus antigos costumes e aos homens de outrora” falava Ênio no século II antes de J.C.); este povo, que tinha a habilidade e a força de reunir as nações do universo, onde Alexandre e os gregos ruíram, apesar de seu gênio; este povo do Ocidente, mais curioso que todos do Oriente (hoje sabemos que Adriano enviava missões comerciais até a China); este povo que inventava, ajudado pelos gregos, o termo Bárbaro para os que não eram da Itália nem da Grécia, mas que tornava-se o anfitrião e o educador de todos os bárbaros; este povo que realmente possuía a base terrestre sobre a qual viria, um dia, pousar uma religião que se queria universal.
Para nós, homens atuais, que podemos reconhecer a história dos séculos, e que sabemos que a Igreja Católica devia adotar em sua forma humana, para sua missão terrestre, a lição de Roma, não podemos rever sem comoção as orações dos cidadãos a seus deuses, nem deixar de admirar sua fé na certeza de um dia serem redimidos. Eles creram na eternidade de Roma e sua esperança não foi em vão (mas a realização de seu sonho não foi a que esperaram). É um dos mais emocionantes espetáculos da história.
Eis como exprimia-se Horácio no apogeu do século de Augusto. “Cantemos um hino aos deuses que são propícios às sete colinas. Ó Sol... que tu não possas jamais contemplar coisa alguma maior e mais admirável que esta cidade de Roma”.
Esta cidade de Roma torna-se todo o universo civilizado:
“O poder do império romano, afirma Plínio o Velho, deu a todos os homens a possessão do mundo. A vida humana beneficiou-se da troca de riquezas e tem convidado a dividir as benfeitorias da paz”.
...”Graças a vós, romanos, disse Ælius Aristides, no século II século antes de Jesus Cristo, o mundo tornou-se a pátria comum de todos os homens... Cada um de vossos empreendimentos confirmava a palavra de Homero que declarava que a terra pertencia a todos... Lançastes embarcações sobre os rios, rasgaram os caminhos nas encostas das montanhas, povoaram lugares desolados e... fizeram reinar por toda parte a ordem e a lei”.

* * *


Contudo, a mais bela oração é a que parece prever outra Roma sucedendo à antiga: “Ó deuses, celebra Velleius Paterculus, que levaram aos píncaros da glória este vasto império romano... guardem, conservem, protejam esta ordem, e quando sua tarefa chegar ao termo... ainda, à última hora, suscitem os homens dignos de sucedê-lo... e de sustentar os pés do império do mundo”.
Como seria cumprida tal oração?
À extremidade da Via Ápia, procedendo de suas colônias do sul, onde outrora o alfabeto grego ensinara toda a península, caminha no ano 60 um vagabundo aos olhos carnais. Chamava-se Saul o Judeu, mas desde o seu arrebatamento sobre o caminho de Damas, chamou-se Paulo. Perante a cidade do poder, da riqueza e da glória, ele persiste em sua crença. Este pequeno homem ardente cuja alma parece carregar o fogo que o mundo jamais conheceu, vem pregar um culto inimaginável: a Cruz, vil instrumento de suplício dos escravos e símbolo de indizível tortura; a Cruz torna-se o trono de seu Deus desconhecido que a antiguidade pressentia; a Cruz, murmura Paulo, “escândalo para os Judeus e loucura para os gentios”. (O apóstolo leva nos ouvidos as marcas do risos dos membros do Areópago de Atenas, ofendidos, por sua vez, em sua estética e em seu culto da razão).
Paulo descansa um instante, à hora do crepúsculo. Na cidade vislumbra ao longe: o mundo antigo glorifica seu mais completo êxito, o mundo antigo carrega sobre a sola de seus pés o mais grosseiro dos vícios e das devassidões, do orgulho e da ciência.
Mas Paulo sabia também que, diante dele, surgia a cidade da hierarquia e da força organizada, a cidade que adornará um dia a Igreja, sua vestimenta de solidez, sua armadura terrestre. Adivinha que a língua desta cidade será digna, um dia, de revestir de realeza o aguilhão dos escravos, e que este prosseguirá, como outrora os estandartes de Roma, em meio à genuflexão das massas:

Vexilla Regis prodeunt...
O Cruz ave, spes unica!

Contudo, o coração de Paulo, neste dia, não se achou dividido entre o culto do Evangelho e o amor singelo por sua pátria humana; assim o pequeno judeu de Tarso, colônia romana, pode murmurar: “Sou cidadão romano”.

* * *

Mais alguns anos, e Roma receberá seu duplo batismo. Tanto que, sobre a colina do Vaticano, erigir-se-á a cruz de Pedro, a fim de que o poder futuro da Igreja ancore-se neste abismo de humilhações, à entrada da cidade; Paulo bradará para ser imolado segundo o modo habitual aos cidadãos de Roma. E porque o universo devia aprender a partir de agora quanto a caridade ultrapassa a justiça (sem portanto esquecê-la), o homem que falava da caridade, em uma ênfase singular, se ajoelhará sob a espada de Roma e a batizará com seu sangue.
Notas
[1] Cf em particular: Christine Mohrmann, Liturgucal Latin, its origin and character, Washinton 1957; Franz Cumont, Pourquoi le latin fut la seule langue liturgique de l´Ocident, Bruxelles, 1904, e Le Latin, langue de l´Eglise, por Bernadette Lécureux, Paris, 1964.
[2] Pierre Lasserre, Cinquante ans de pensée française, Paris, 1921.
[3] Escravos que possuíam algumas regalias, como a de se exprimir livremente. (N. do T.)

sexta-feira, julho 15, 2005

Félix Ravaisson - Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Este é um filho meu que não vingou. Como me falta tempo a mim para traduzir, resolvi exibir-lhes o cadáver em português do que foi a tese de doutorado de Félix Ravaisson, um dos freqüentadores do blog Traduções Gratuitas. Queira Deus que um dia possa verter este e outros mais livros; mas, antes de tudo, faça-se a vontade d'Ele, e não a minha.

Luiz de Carvalho
P.S.: esse texto não foi revisado; perdoem-me, d'antemão, todos os galicismos e incorreções coesivas que, de relance, pude notar.

Ensaio sobre a Metafísica de Aristóteles

Livro Primeiro
Da história da Metafísica de Aristóteles


Capítulo I
Da história das obras de Aristóteles em geral, até à época de Apelicão de Téos e Andrônico de Rodes.


Antes de empreender o estudo da Metafísica de Aristóteles, iremos tratar de questões históricas que nos deterão por algum tempo.
De todas as dúvidas suscitadas a respeito do grande poema da antiguidade, suscitamo-las paralelamente sobre o maior monumento, talvez, da filosofia antiga; a Metafísica teve a mesma sorte da Ilíada. A Metafísica tem por autor Aristóteles, ou será mesmo inteiramente dele? Não será apenas uma coletânea de diferentes tratados reunidos, ao acaso ou ordenadamente, sob um título comum? É realmente um só e mesmo livro, autêntico em todas as suas partes, mas que circunstâncias diversas - Aristóteles ainda vivo ou póstumo - vieram a alterar o plano original, o qual podemos restabelecer numa ordem mais conforme ao desejo do autor? Os críticos puseram-se todos esses problemas, ainda não completamente resolvidos: devemos, por nossa vez, procurar a solução.
A questão da autenticidade e da ordem da Metafísica esta ligada a da história, mui obscura ainda, das obras de Aristóteles. É por essa historia que começaremos. Nós a dividiremos, na medida do possível, entre a historia da Metafísica em particular desde a época de sua composição, daquela onde encontramo-la conhecida e divulgada universalmente no mundo filosófico.
Este trabalho seria mais fácil, sem dúvida, se tivéssemos a obra de Hermipo de Esmirna, Peri Aristhotelous, da qual Diógenes Laércio fez uso; os livros de Apelicão e de Andrônico de Rodes; os comentários de Eudoro, de Evarmosto, de Aspásio; e o de Simplício, tão rico quanto seus demais escritos – preciosas resenhas históricas –; finalmente, o tratado especial que compusera Adrasto de Afrodisia a respeito da ordem dos livros de Aristóteles (Peri tes taxios ton Aristhotelous suggrammaton). Todos se perderam; estamos reduzidos a um pequeno número de testemunhos diretos que precisamos fertilizar para [empreender] uma comparação e discussão profundas; junte-se mais uma multidão de indicações mais ou menos indiretas, cujo cruzamento pode fornecer algumas luzes.
Este é o tema que provocava as mais vivas e longas controvérsias nos tempos modernos. Elas se iniciaram com a Renascença, em meio aos combates do platonismo e do peripatetismo: a crítica nascia da paixão. Francisco Pico de la Mirândola propunha a derrubada da autoridade de Aristóteles: suscitava dúvidas sobre a autenticidade de todos os seus escritos . A discussão animava-se, sem qualquer progresso, entre Nizzoli e Majoragio . O primeiro a reunir os principais textos e que buscou determinar as regras da crítica foi Pratrizzi, o sábio porém parcial autor das Discussiones Peripateticae . Um século e meio mais tarde apareceu na França uma dissertação anônima onde finalmente chegamos ao nó da questão: ela questionava, através duma engenhosa argumentação, o relato, admitido há muito sem contestação, de Estrabão e de Plutarco, sobre o destino dos manuscritos de Aristóteles. Este livro, esquecido desde então, indicado atualmente por Stahr, que o conheceu através duma análise , era obra do beneditino D. Liron. – A crítica alemã, agora e sempre, soube logo se valer deste avanço. Schneider destrói para sempre a tradição vulgar das Epimetra, em sua edição da História dos animais; Brandis e depois Kopp ampliaram o escopo da aplicação desta questão, generalizando o que somente se aplicava a uma das obras de Aristóteles. Enfim, Stahr recentemente tratou a fundo tudo o que concerne à história de Aristóteles e de seus escritos, com tanta sagacidade quanto erudição. – Tais são os principais trabalhos donde baseamo-nos para pesquisas ulteriores.

Comecemos por reproduzir integralmente os relatos que provocaram a controvérsia. Eis o de Estrabão :

Em Scépsis nasceram Corisco e seu filho Nélio; discípulo de Aristóteles e Teofrasto, Nélio herdou a biblioteca de Teofrasto, da qual a de Aristóteles fazia parte; Aristóteles (o primeiro, que eu saiba, que colecionara livros , e ensinava aos reis do Egito a organizar uma biblioteca) deixara ao morrer sua biblioteca e sua escola a Teofrasto. Teofrasto então deixa os livros a Nélio. Esse, levando-os a Scépsis, transmitiu-os aos seus herdeiros, gentes ignorantes, que os deixaram fechados e amontoados em desordem. Quando vieram a saber com qual ardor arremetiam os Atales, a quem sua cidade rendia tributo, na busca de livros para a biblioteca de Pérgamo, eles esconderam os seus sob a terra, numa caverna, onde foram corroídos pela umidade e pelos vermes. Muito tempo depois, seus descendentes venderam, por um alto preço, a Apelicão de Téos os livros de Aristóteles e os de Teofrasto. Ora, esse Apelicão era mais bibliófilo que filósofo (philóbiblos malloi he philósophos). Desejando restituir o que estava deteriorado, ele transcreveu os livros, preenchendo-lhes precariamente as lacunas, e os publicou cheios de erros. Assim, os antigos peripatéticos, os sucessores de Teofrasto, não possuíam tais livros, com algumas poucas exceções, e, ainda que [alguns desses livros fossem] exotéricos para a maioria, [os tais filósofos] não conseguiam filosofar seriamente, limitando-se às amplificações sobre um tema dado . Aqueles que vieram em seguida, quando os livros lhes apareceram, foram melhores na filosofia e no aristotelismo, porém forçados a falar freqüentemente por conjeturas, devido à multidão de erros. Roma recolheu vários desses volumes: logo após a morte de Apelicão, Sila levou a biblioteca ao conquistar Atenas, transportando-a para Roma. Lá, ela passa para as mãos do gramático Tirânio , que gostava muito de Aristóteles e ganhara um bibliotecário; os livreiros serviam-se freqüentemente de cópias defeituosas que não catalogavam, e que chegavam diariamente junto com os outros livros que punham a venda, seja em Roma, seja em Alexandria.

Passemos agora ao relato de Plutarco :

Sila trouxe para si a biblioteca de Apelicão de Téos, onde se encontrou a maioria dos livros de Aristóteles e de Teofrasto, ainda pouco conhecidos pelo público. Dizem que quando a transportaram para Roma, o gramático Tirânio lhe arrebatou a maior parte; Andrônico de Rodes adquiriu suas cópias, as quais publicou, organizando os índices que até hoje circulam. Os antigos peripatéticos pareciam ser homens doutos e letrados, mas conheceram apenas, senão imperfeitamente, um pequeno número de livros de Aristóteles e de Teofrasto , pois a herança de Nélio de Scépsis, a quem Teofrasto deixara os livros, caiu em mãos de gentes negligentes e ignorantes.

Antes de ir além, examinemos a relação entre os dois relatos. O segundo é evidentemente uma abreviação do primeiro; porém encontramos nele diferenças consideráveis. Não mencionemos o silêncio de Estrabão sobre Andrônico: podemos explicar, juntamente com Schneider, considerando a última frase como mutilada; falamos duma diferença geral no modo em que ambos os autores expuseram os mesmos fatos. Plutarco exprime-se com uma reserva cheia de dúvidas; não chama para si a responsabilidade da tradição: não é mais que um alguém disse, légitai; não nega que a maioria dos livros de Aristóteles jamais vieram ao conhecimento dos sucessores de Teofrasto: contenta-se em dizer que eles eram pouco conhecidos do público (oute tote saphos gnorizomena tois pollois); não acusa os antigos peripatéticos de estarem limitados às declamações frívolas, e finalmente, passa rapidamente pela história de Nélio e seus herdeiros, como para desobrigar-se de insistir em algo tão pouco verossímil. Ao contrario, as palavras de Estrabão estão repletas duma exageração que, em vários trechos, parece um tanto passional . Ora, sabemos que ele recebera lições de Tirânio , e que estudara filosofia peripatetica com Boécio de Sidon, quer dizer, com um aluno, e talvez mesmo na própria escola de Andrônico de Rodes . Não é evidente que ele busca diminuir o mérito do trabalho de seus mestres, exagerando a ignorância daqueles que possuíram antes destes os principais escritos dos fundadores do Liceu? Talvez a fonte esteja realmente desinteressada pela questão, e somente por isso, merece mais crédito.
[...] Andrônico de Rodes escrevera [um livro] sobre Aristóteles e suas obras. Plutarco mostrou conhecer este livro ao referir-se às cartas de Aristóteles e de Alexandre, cartas estas que Aulio Gálico declara tirar ex libro Andronici philosophi . Seria possível que Estrabão e Plutarco se baseassem numa fonte comum, um tanto suspeita, mas que o primeiro dispunha-se a confiar [...]?
Agora, iremos ver uma tradição totalmente diferente. O compendiador Ateneu diz, no final do Banquete dos sofistas :

“... Nélio herda os livros de Aristóteles (e de Teofrasto): Ptolomeu Filadelfo os comprou todos, e os transportou com os que vinham de Atenas e de Rodes para Alexandria”.

Esta tradição parece ser a primeira abordagem a contradizer aquela de que falamos acima. Contudo a contradição não diz respeito à história de toda a biblioteca de Teofrasto, pois Estrabão e Plutarco nada nos dizem, senão que ela passou às mãos de Nélio; na seqüência de seu relato, falam apenas dos manuscritos de Aristóteles e de seu sucessor; foram tais manuscritos que Apelicão comprou e que foram trazidos por Sila.
Se supormos com Vossius que Nélio vendeu a Ptolomeu sua biblioteca exceto os manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, ambas as tradições poderiam concordar. Mas esta conjetura contradiz Ateneu num ponto mui importante, porque, segundo este, os livros que Nélio herdara foram vendidos à biblioteca alexandrina; como os escritos de Aristóteles e Teofrasto, quer dizer, a parte mais importante da coleção, aquela a qual Ptolomeu dava mais valor, não estavam inclusas na transação antes das demais? Só resta esta segunda hipótese : Nélio vendera cópias a Ptolomeu e transmitira aos seus descendentes os manuscritos originais. O relato de Ateneu concorda com a parte histórica daquele de Estrabão. Quanto ao que Estrabão acrescenta sobre o pouco conhecimento que tinham os peripatéticos das principais obras de seus mestres, nada mais é que uma conclusão, que a crítica pode discutir e combater. É o que de fato fez e, parece-nos, com sucesso.
Vejamos a frase de Estrabão sobre a qual se dá, em realidade, toda a discussão: Sunebe de tois ok ton Peripaton, tois men palai tois meta Theophraston, holos ouk ekousi ta bíblia, plen oligon, kai malisa ton exotérikon; Estrabão não nos diz em que sentido empresta a expressão exotéricas; mas está claro, e isso nos basta, que ele a entende como as obras menos importantes, seja pelo fundamento, seja pelo método. Destaquemos ainda que Estrabão alerta implicitamente que os livros exotéricos não eram os únicos conhecidos antes de Apelicão: “Entre o pequeno número daqueles que as possuíam, a maioria, disse, estavam exotéricas”. Plutarco serviu-se de termos mais vagos, e não estabeleceu nenhuma distinção deste gênero.
Ora, temos provas mais ou menos diretas de que em Alexandria era conhecida uma grande parte das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Segundo o próprio Estrabão: “Aristóteles ensina os reis do Egito a organizar uma biblioteca”. Isto não quer dizer que dava instruções diretas a este jaez; o primeiro Ptolomeu não pôde começar formar sua biblioteca de Brucheion ??? senão após a batalha de Ipsus (301 a. C.), a qual se deu 21 anos após a morte de Aristóteles (322) . Isto significa que ele instruía os reis do Egito através de seu exemplo; por conseguinte, sua biblioteca não lhes era desconhecida.
Segundo vários autores antigos, foi Demétrio de Falera que, sob os dois primeiros Ptolomeus, estava a frente da biblioteca de Alexandria . Era amigo de Lagus, a quem generosamente acolhera ; era também amigo de Teofrasto, e foi este que aconselhara ao rei do Egito convidar este filósofo à sua corte . Como não obteria de seu amigo cópias destes livros, sobretudo os de Aristóteles, para a coleção que estava encarregado de formar?
Filadelfo tinha, para enriquecer sua biblioteca, mais ardor que seu pai, buscando por todos lugares, dizem-nos, as obras de Aristóteles, pagando por elas altos preços . Ele recebera a lições de Estratão de Lampsaco , o sucessor imediato de Teofrasto na direção do Liceu, e que certamente conhecia a fundo os escritos de seus predecessores. Ptolomeu devia receber tais escritos diretamente dele, ou entrar através de seu intermédio em contato com Nélio. Mais ainda, segundo o comentador David , este Ptolomeu Filadelfo comporá uma biografa de Aristóteles onde fornece um catálogo de suas obras. Este as contava, acrescenta, em vários milhares. Este número absurdo encontrará uma explicação, e tornar-se-á uma prova a mais para a tese que sustentamos. Amônio, Simplicio, João Felipônio, David, Galeno , avisam-nos que a prodigalidade de Filadelfo encorajou as falsificações; que de todos os lugares traziam-lhe supostos livros sob o nome de Aristóteles, e que por tal encontra-se na Grande biblioteca dois livros das Categorias e até quarenta dos Analíticos. Ptolomeu tinha, sem dúvida, registrado tudo o que se acumulava em Alexandria, talvez mesmo tudo o que possuíam em Pérgamo, e tudo o que os demais catálogos pudessem enumerar.
Ora, destes fatos tiram-se duas conseqüências importantes. A primeira é que tínhamos em Alexandria várias das principais obras de Aristóteles: ninguém pode negar que as Categorias e os Analíticos estejam entre esses números; a segunda é de que a biblioteca de Nélio não era considerada como a única fonte donde podia-se tirar as obras de Aristóteles: a esta hipótese, qualquer tentativa de falsificação seria inútil. Desta feita, nada afiança-nos de que não tinham semelhante opinião. João Felipônio parece afirmar o contrário, de que foi em bibliotecas diversas que recolheram os quarenta livros dos Analíticos que foram levados a Alexandria . Vemo-lo também pelo Cânon dos gramáticos alexandrinos , que sucessivamente os adicionavam, na medida que adquiriam novos documentos, à lista de escritos de Aristóteles.
Por outro lado, os principais discípulos de Aristóteles, dos quais Eudêmio e Fânias, escrevem “por vontade de seu mestre”, diz Amônio, a respeito dos temas que tratara, e mesmo os títulos que escolhera, sobre as Categorias, os Analíticos e o Da Interpretação . Eudêmio também escrevera sobre a Física e sabemos positivamente que ele possuía a Phisike Acroasis, pois Teofrasto, numa carta que Simplicio nos conserva um fragmento, envia-lhe uma retificação duma passagem do livro quinto, a qual lhe pedira . Falaremos ainda mais das tradições relativas à Metafísica. – Estratão “o corifeu da escola peripatética ”, Dicearco, que Cícero põe ao lado de Aristóteles e de Teofrasto , não foram versados na leitura do escritos de seus mestres? O acadêmico Xenócrates, que escrevera vários livros com títulos similares aos de Aristóteles, cujas doutrinas refutava; o megárico Eubúlido que intitula um seu dialogo: Aristhoteles; Hermaquio, o sucessor de Epicuro, que fez um livro contra Aristóteles: Pros Aristhotelen ; os estóicos que seguiram-no e combateram-no tão freqüentemente em sua lógica , e que lhe pegaram emprestada uma parte de sua física e de sua moral ; todos estes filósofos de diferentes seitas e épocas poderiam ignorar as suas mais importantes obras?
Ao demais, só podemos indicar aqui os principais pontos que Schneider, Brandis, Kopp e Stahr estabeleceram através de numerosas pesquisas e engenhosas induções. Contetemo-nos de enunciar sumariamente os resultados: os livros de Aristóteles sobre Lógica que havemos citado, seus principais tratados sobre a ciência da natureza, como a física, a História dos animais, a Moral, vários de seus escritos sobre Política, seus livros de Retórica, foram conhecidos, comparados e refutados antes da época de Apelicão de Téos.


Capítulo II
Dos trabalhos de Apelicão e de Andrônico sobre as obras de Aristóteles


A que se resumem as publicações que Estrabão e Plutarco atribuem a Andrônico?
Notemos antes de tudo que Cícero não nomeia sequer uma vez um ou outro, que não faz a menor alusão à pretendida descoberta das obras de Aristóteles e de Teofrasto. Todavia fala em várias ocasiões destes dois filósofos e do mérito de seus sucessores; diz até nalguma parte que os peripatéticos distanciaram-se a tal ponto da doutrina primeva do Liceu (degenerant) “que pareciam se terem gerados” . Não era o momento de apontar a razão, se a enxergara, junto com Estrabão, da impossibilidade de saber sobre fontes primeiras do peripatetismo? Não podemos esquecer que Cícero tinha ligações com Tirânio, que dava lições ao filho daquele e pôs em ordem sua biblioteca , e que recebera lições do estóico Diódoto, irmão de Boécio, discípulo de Andrônico e condiscípulo de Estrabão . Se, contudo, os trabalhos de Apelicão e Andrônico não mereceram dele qualquer menção, não é prova de que não lhes emprestava grande importância?
Tentemos agora determinar duma maneira direta em que consistem tais trabalhos.
Temos dito que os diferentes relatos, senão opostos, dos historiadores reconciliam-se denodadamente à hipótese em que a biblioteca de Alexandria não adquirira senão cópias dos manuscritos de Aristóteles e de Teofrasto, tanto que Nélio transmitira os originais aos seus descendentes. Ora, Ateneu nos adverte que Apelicão tinha pelos autógrafos uma tal paixão, que ele violou o templo da Mãe dos Deuses a Atenas, a fim de perscrutar as antigas peças que ali estavam depositadas, para procurar sobretudo obras de Aristóteles e documentos de filosofia peripatética em geral . Estas anedotas tornam verossímil a suposição de que os manuscritos que ele comprou em Scépsis eram ou os autógrafos de Aristóteles e de Teofrasto, ou pelo menos cópias de grande antiguidade: o que não é verossímil é que todas as obras de Aristóteles e Teofrasto estavam ali; é crível, pelo contrário, que ali havia somente uma pequena parte. De fato, segundo o relato de Estrabão, Apelicão transcrevia todos os manuscritos que comprava; um imenso empreendimento, se se adquirira todos ou quase todos os escritos de Aristóteles e de Teofrasto, aqueles que conhecemos e aqueles que a antiguidade conhecia e não mais possuímos. Além disso, acrescenta, como a umidade e os vermes destruíram algumas passagens, Apelicão preencheu todas estas lacunas. Aqui torna-se impossível admitir que seu trabalho haja abrangido um jaez desta magnetude . Em segundo lugar, qualquer temerário que queira supor tal crítica, da qual Aristócles de Messena fazia muito caso, não pode crer que ele haja empreendido tamanho trabalho de restituição sem ter sob as vistas outros manuscritos que viessem em socorro dos seus.
Porém, fala Estrabão, a edição fornecida por Apelicão era de tal modo falha que o leitor, para entender o texto, estava na maioria das vezes reduzido à conjeturas (ta polla heoichota legein). Em Roma, a negligência dos copistas aumenta consideravelmente o número de falhas. De ambas asserções, tira-se duas conseqüências.
Primeiro, não é exato dizer, como sempre repetem sem provar, que Andrônico dera uma edição verdadeira de Aristóteles . Bem longe de querer fixar ao tempo de Tirânio e Andrônico a época da restituição do texto alterado por Apelicão, Estrabão diz que “Roma colabora muito às falhas”. Por outro lado, o texto de Aristóteles não estava, ao tempo de Alexandre de Afrodisia, em tão mau estado como no-lo representa Estrabão. É no intervalo que vai de Andrônico a Alexandre que esse texto foi corrigido; ora, não poderia sê-lo senão com o auxilio de novos manuscritos, ainda díspares, ao que parece, dos quais aqueles que colecionara Apelicão .
Reunamos os testemunhos que nos vieram a respeito da natureza e do valor dos trabalhos de Andrônico de Rodes.
Plutarco diz somente que dará publicidade às cópias que obteve de Tirânio, e que compôs tabelas e índices . Porfírio, que dividiu em Enéiadas os tratados de Plotino, declara imitar “Apolodoro, que divide em dez seções as comedias de Epicarmo, e Andrônico o peripatético, que classifica por ordem de assunto os livros de Aristóteles e de Teofrasto, reunindo num volume tratados parciais sobre o mesmo assunto” . Deste modo, Andrônico de Rodes espalhou os escritos de ambos filósofos nas Pragmateias; ele os reuniu em pequenos tratados avulsos; confeccionou um catálogo completo. Finalmente, consigna os resultados de seu trabalho numa obra em vários livros, onde trata por alto da vida de Aristóteles e de Teofrasto, da ordem e da autenticidade de seus escritos. [Este trabalho] foi o resultado de diversos testemunhos, aos quais nos reportaremos para tirar algumas conclusões.
“Encontramos na obra de Andrônico, segundo Amônio, o testamento de Aristóteles ; e segundo Áulio Gálico, as famosas cartas de Alexandre a Aristóteles e de Aristóteles a Alexandre ”. 2° Segundo o autor árabe da Biblioteca dos filósofos, o quinto livro continha as cartas de Aristóteles, além do índice de seis escritos . 3° Uma glosa que se encontra nos manuscritos do final da Metafísica de Teofrasto, avisa-nos que Andrônico fizera paralelamente uma lista das obras deste filósofo . 4° Na organização das Pragmateias pôs a Lógica a frente de todas as outras [obras] . Na própria Lógica, colocou as Categorias logo antes dos Tópicos . 6° Enfim, noutro arranjo das Pragmateias em geral e das partes pelas quais a compôs, ele busca determinar a ordem e a constituição de cada obra em particular. Conclui-se de diversa passagens de Simplício de que foi Andrônico que reuniu definitivamente os três últimos livros da Física aos cinco primeiros. 7° Ele noticiam o fato dos dois livros das Categorias na biblioteca de Alexandria: é a Andrônico que David o Armênio declara publicá-los . 8° Andrônico considerava como apócrifos o apêndice das Categorias (hypotheoria) , e o tratado Da Interpretação . 9° Escrevera os comentários sobre a Física e as Categorias , e um livro sobre a Divisão que Plotino tinha em consideração .
É provável que Andrônico de Rodes servia-se para a composição da parte biográfica e bibliográfica de seu livro, dos escritos dos alexandrinos Hermipo e Ptolomeu: encontramos nestes dois autores o testamento e a lista dos escritos de Aristóteles . Ele também devia empregar uma fonte mui recente, o livro de Apelicão, estimado por Aristócles, como já dissemos.
Mas parece que nem esses autores nem seus investigadores forneceram-no o critério da autenticidade das obras de Aristóteles. Não se baseava, para rejeitar o tratado Da Interpretação, em provas exteriores, históricas, mas num argumento retirado de dentro da própria obra, sobre a pretensa inexatidão duma citação do tratado Da Alma; Alexandre de Afrodisia refuta-o vitoriosamente . Porfírio paralelamente defendia contra ele o apêndice das Categorias . Todavia se Andrônico ou Apelicão poderiam consultar os manuscritos tirados da biblioteca de Aristóteles e de seus discípulos imediatos, fora uma escolha mui grave para quem lhes silenciou, mais ainda, se este manuscritos eram únicos; nenhum comentador jamais os citou. Estamos no direito de concluir deste silêncio que, a respeito das grandes obras das quais nos restam comentários preclaros e extensos, nenhuma delas foi descoberta e publicada pela primeira vez por Apelicão ou Andrônico. Assim, quando Boécio fala deste : “quem cum exactum diligentemque Aristotelis librorum et judicem et repertorem judicarit antiquitas, etc.”, não é exagero quando lhe alcunha o epíteto de repertor. Se Andrônico encontrara a Metafísica, a Física, os Analíticos, os Tópicos, a Meteorologia, os tratados dos Sofismas, o Da Alma, o Do Céu, e o Da Geração e Da Corrupção, certamente Alexandre de Afrodisia, Simplício, Amônio, Filopão não nos deixariam na ignorância. Talvez pesquisas ulteriores revelassem quais fossem os opúsculos ou fragmentos que ele pôde descobrir nas bibliotecas dos grandes de Roma; mas até o presente não temos qualquer indício deste fato.
Quando à ordem a qual dispõe os livros de Aristóteles, seu traço ainda subsiste: seu discípulo Boecio de Sidon pensou que Pragmateia Physique devia ser posta antes da Pragmateia Logique ; a opinião de andrônico prevaleceu. Será verdade, como supõe Brandis , que a ordem e as divisões que adotara Andrônico sejam as mesmas que serviram de base a nossa mais antigas edições? Stahr crê achar a prova desta conjetura numa noticia encontrada por Bekker a respeito dalguns manuscritos da Retórica, e que atesta a existência de duas divisões diferentes: uma (em quatro livros) usada pelos gregos, outra (em três) pelos latinos ; ora, esta é a divisão feita em todas as edições.
A denominação de latino pode aplicar-se a Andrônico? Não, pois Andrônico é um escritor grego. Suponhamos que os latinos adotaram esta divisão, e que os gregos seguiram outra? Cremos poder dar a prova em contrário: as mais antigas edições partem em dois livros o tratado Dos Sofismas, e segundo uma nota que encontramos na margem de uma tradução latina, e que certamente fora retirada dalgum manuscrito, esta divisão era aquela dos latinos , tanto que Alexandre de Afrodisia não faz da obra inteira um só livro. Do mesmo modo os comentaristas gregos contam na Metafísica apenas treze livros; os latinos contam catorze ; o 1°dos gregos é para eles o 2°, e assim por diante. Enfim, o tratado Da Interpretação está dividido em dois livros em vários manuscritos e nas edições de 1496, 1544, 1551, 1578, etc., como admitida por Boécio , que divide igualmente em duas partes o livro Dos Sofismas , é verossímil que ainda trata-se da divisão latina. Agora, não há uma grande probabilidade de que a divisão latina não seja aquela de Andrônico de Rodes? Fundamentamo-nos numa prova negativa da qual já servimo-nos e que possui, ainda, a força dum argumento positivo: se os comentadores gregos não se puseram em oposição com Andrônico sobre a divisão das obras de Aristóteles, não se imiscuiriam de expressar e discutir sua opinião, como o vimos fazer sobre as questões de ordem de autenticidade. Ainda destaquemos en passant que os comentadores gregos parecem concordar de forma geral com Adrasto, o autor de Peri tes taxeos ton Aristotelous suggrammaton, e este, na medida que o sabemos, não desgostava da maneira de ver de Andrônico . Assim, parece que é preciso adotar uma opinião oposta àquela de Stahr: a divisão grega era geralmente conforme àquela de Andrônico. Faltará determinar a origem da divisão latina; inclinamo-nos a pensar que é preciso vinculá-la a uma época mais recente, àquela dos tradutores e dos comentadores latinos de Aristóteles, entre os séculos 4 e 6, de Vitorino à Boécio . Poderíamos ter tentado crer que pela palavra Latinos, não deveríamos entender senão escolásticos, e que as noticias transcritas por Bekker são originas em copistas modernos. Porém a divisão em questão é anterior à Idade Média, porque ela se encontra em Boécio e é seguida pelos árabes e pelos dois mais antigos comentaristas escolásticos de Aristóteles, Alberto O Grande e Santo Tomás. Além disso, Alberto o Grande discute em mais de uma ocasião a interpretação de certos philosophi latini que ele opõe aos gregos, e que designa como posteriores a Temistio . Ao demais, não temos nossa conjuntura mais que uma conjuntura; é necessário obter novos ensinamentos sobre esta escola latina que a história quase esqueceu, de cuja será mui interessante reencontrar as marcas.
Se nos volvemos à hipótese de Brandis, achamos que precisa dalgumas modificações. É verdade que a ordem estabelecida ou conformada por Andrônico de Rodes parece ser a mesma, de forma geral, que a das nossas edições, no sentido de que este é geralmente idêntico com aquele dos comentadores gregos, que por seu lado seguem Andrônico; aquela dos Latinos não difere senão em pontos pouco relevantes. Mas quando existem disparidades, as antigas edições estão concordes às edições dos Latinos.


Capítulo III
Da história da Metafísica de Aristóteles

Agora podemos passar da história dos escritos de Aristóteles em geral para a historia da Metafísica, e da discussão dos problemas relativos à autenticidade e à ordem desta obra, em seu conjunto como em suas partes.
Em qual época a Metafísica foi conhecida pela primeira vez? Tal resultaria das cartas de Aristóteles e Alexandre das quais tivemos ocasião de falar, onde o primeiro, por espontânea vontade, deu à publicidade uma parte de suas obras, as quais a antiguidade designara o nome de acroamáticos. Ora, Plutarco pretende que por esta expressão entendamos a Metafísica . Antes de decidirmos qualquer coisa, citemos ambas as cartas:

De Alexandre a Aristóteles: Não fizeste bem a ti ter publicado teus escritos acroamáticos. Em que nos distinguiríamos dos outros, se a doutrina na qual fomos elevados tornar-se comum a todos? Eu apreciaria mais sobrepujar os demais pelo conhecimento das coisas mais altas que pelo poder. – Aristóteles a Alexandre: Escreveste-me a respeito dos tratados acroamáticos, pensando que seria necessário tê-los secretos; pois saiba que eles estão e não estão publicados: só são inteligíveis para os que me escutaram.

Se bem que esta correspondência fosse noticiada por Andrônico, e que os três autores que transmitiram-na após ele não lhe põem dúvida à autenticidade, contudo o caráter do pensamento e do estilo basta para ter forte suspeita – poderia mui bem ter sido fabricada, como a carta que forma a introdução da Retórica de Alexandre, por este creditar em face aos reis de Pérgamo e do Egito qualquer obra de Aristóteles, verdadeira ou suposta, que quisessem vender-lhes. Porém sempre permanecerá o fato de que o autor desta hipótese considerara como verossímil a publicação, por Aristóteles, de seus tratados acroamáticos, e que Andrônico, Plutarco, Áulio Gálico e Simplício pensaram a mesma coisa . Desta feita, mesmo que tais cartas sejam autenticas ou não, o que nos importa saber é se à Metafísica que fazem alusão. Nós logo notamos que se trata da questão dos livros acroamáticos em geral (tos akroamatikous e não simplesmente akroamatikous, sem artigo), o que parece dever estender-se a todos os livros deste gênero que foram escritos por Aristóteles até à época desta correspondência. Se, ao observarmos melhor, não é preciso entender akroamatikous em seu sentido mais restrito, mas em só aplicá-lo à ciência mais excelsa e mais difícil; é o que dá a entender estes termos de Alexandre: peri ta arista, e a resposta de Aristóteles. Poderia ser sobre a Metafísica e a Peri Philosophias, quem têm por objeto a Filosofia Primeira, ou somente a uma destas duas obras.
Iremos ver outros testemunhos que só podem tratar da Metafísica .
Lemos no comentário, ainda inédito, de Asclépio de Trales sobre a Metafisica:

A presente obra não possui a unidade dos demais escritos de Aristóteles, pois falta ordem e encadeamento. Ele deixa a desejar em relação à continuidade do discurso; encontramos nela passagens emprestadas de tratados que versam outros assuntos; freqüentemente a mesma coisa é dita e redita muitas vezes. Alegamos com razão, para justificar o autor, que após ter escrito este livro ele o enviou a Eudêmio de Rodes, seu discípulo, e que este não creu que ele lhe propôs publicá-lo, no estado em que estava, uma tão relevante obra; todavia Eudêmio veio a morrer, e o livro sofreu várias correções. Aqueles que vieram em seguida, não ousando corrigir seu mestre, puseram, para preencher as lacunas, trechos de outras obras, e a reorganizaram melhor que puderam .

Assim, o livro de Aristóteles não apareceu senão depois da morte de Eudêmio, que aceitara a revisão. Asclépio acrescenta que muitos atribuíram o primeiro livro da Metafísica a Pásicles, filho de Boécio, irmão de Eudêmio, e também discípulo de Aristóteles . Encontramos este trecho de seu relato reproduzido em João Felipônio, com algumas diferenças, é verdade: aqui, em vez do primeiro livro, A, é o segundo, a; em vez de Pásicles, Pasícrates; ao invés de Boécio, Boneus ; porém as diferenças de nome próprio não têm importância, pois só conhecemos o comentário de Felipônio através duma péssima tradução latina; o texto original provavelmente trás Pásicles e Boécio. Ora os comentários de Asclépio e de Felipônio possuem relevância histórica; estes são, propositadamente, as redações das lições de amônio, que tinha reunido curiosas observações sobre a historia da obra de Aristóteles. Enfim, se o relato de Asclépio deixa qualquer dúvida, poderíamos nos apoiar numa passagem de Alexandre de Afrodisia que lhe dá uma indicação indireta, informando-nos que Eudêmio revisou e corrigiu o texto da Metafísica . Brandis já conjeturara que o relato de Asclépio era tirado do de Alexandre. Poderia dizer que foi retirado de qualquer parte deste precioso comentário hoje perdido, do qual possuímos apenas os cinco primeiros livros .
Finalmente, toda esta tradição é somente verossímil. Eudêmio era o mais fiel discípulo de Aristóteles, aquele que reproduzia o mais exatamente suas doutrinas . Era natural que fosse para ele que Aristóteles confiasse a revisão de sua obra, como lhe confiou provavelmente a redação ou a revisão de uma de suas Morais, que ainda trás o nome de Eudêmio .
Assim, a primeira parte do relato de Asclépio pode ser considerada como totalmente autentica. Pra ela estabelece a autentividade da Metafísica de Aristóteles em geral. Ao mesmo tempo prova que a principal obra de Aristóteles não foi ignorada por seus discípulos, destruindo a exagerada refutação de Estrabão.
Quanto à segunda parte, reina um suspense e uma incerteza consideráveis. Asclépio não determina nem a causa nem a natureza do sinistro que sofreu o manuscrito da Metafísica, nem a época em que trataram de concertá-la. É evidente que ele não tem nenhuma autoridade sobre a qual apoiar-se com confiança. Poderemos ser tentados a crer que ele contenta-se em dar alguma curta citação do relato de Estrabão; ms tal suposição não se conciliaria com a precedente. Se a Metafísica foi enviada a Eudêmio por Aristóteles, ela não passou ao poder de Nélio pela herança de Teofrasto, e ficar escondida até a época de Sila. É mui verossímil que os metaginetiros de Asclépio devem ser referidos à uma época anterior a Apelicão; também é bastante verossímil, de fato, que Eudêmio comunica a obra do mestre aos seus condiscípulos, e que estes trabalharam com ele e após, para preencher as lacunas. Viemos a dizer que o livro foi atribuído a Pásicles: era uma tradição entre os Árabes que uma parte do primeiro livro foi reunida por Teofrasto ; enfim, Teofrasto escrevia uma Metafísica da qual veio-nos à mão um dos fragmentos . Se os peripatéticos não se dedicaram a contínuos trabalhos de interpretação sobre a Metafísica de Aristóteles tanto como sobre a Física e a Lógica, não é preciso espantar-se. Por um lado, a Metafísica nunca foi completada; por outro, o Liceu tendia a cada dia distanciar-se cada vez mais das altas especulações. Eis porque, desde o tempo de Eudêmio e de Teofrasto até o século de Augusto, não encontramos mais uma só menção, direta ou indireta, à Metafísica.
Não é preciso concluir nada do silêncio de Cícero, pois, na sua época, o livro era totalmente inédito. Não fala sequer das Categorias e dos Analíticos. Nesta época, o próprio nos comprova, os filósofos mal conheciam Aristóteles , porém Platão e os Socráticos eram acessíveis a todos . Os Tópicos ainda pareciam obscuros , estes mesmos que Simplício diz, com razão, serem das obras de Aristóteles mais fáceis de se compreender . Cícero queria, além do mais, tão-somente aplicar à filosofia a pratica da vida pública e privada, e não recorria aos livros que não se recomendassem pelo mérito literário, pela facilidade e pela elegância da exposição . Mesmo que tivesse em suas mãos a Metafisica, estaria pouco disposto a lhe sondar as obscuras profundidades; limita-se a uma rápida leitura e a uma intelecção superficial do Peri Philosophuas .
Quanto a Apelicão e Andrônico de Rodes, nada nos garante que não tenham feito um trabalho especial sobre a Metafísica. Logo após andrônico, chegam os comentadores. Foi Eudoro, seu discípulo, que se dedica à critica do texto; em seguida Evarmostos, que não conhecemos senão pela menção que lhe faz Alexandre de Afrodisia ; enfim, um filosofo célebre da época de Augusto, Nicolau de Damas, que parecia ter composto um livro intitulado: Theoria ton Aristhotelous mata ta physika ; é aqui que encontramos pela primeira vez este singular título de meta ta physika, que a obra de Aristotels ainda conserva.
Este fato fornece a prova daquilo que tanto repetimos desde Patrizzi, que o título da Metafísica é de Andrônico de Rodes? É verdade que o título que Aristóteles destinava ao seu livro era aquele de Filosofia Primeira; deixando-a incompleta, só pode pôr-lhe esta simples inscrição: O que vem depois da física; para ele, de fato, a ciência do ser absoluto é o fim e o coroamento da ciência da natureza. Ou, se não queremos admitir com Amônio que este título seja mesmo de Aristóteles , será entre os discípulos imediatos que devemos procurar o autor. O título de Metafísica encontra-se no cabeçalho dum fragmento sobre a filosofia primeira, de Teofrasto, citado por Nicolau de Damas; ora, desta feita, é impossível atribui-lo a Andrônico, pois ele não conhece esta obra. Acrescentemos que a denominação de meta ta physica apresenta em sua simplicidade um caráter antiquado: um comentador grego do tempo de Augusto certamente escolheria um outro título.
Entraremos agora na questão, obscura e complexa, da autenticidade da Metafísica.