sábado, dezembro 18, 2004

A Morte do Lobo
Alfred de Vigny

-I-

As nuvens cruzavam à lua inflamada
Qual incêndio em que roja a fumarada
As árvores negrejavam ´té o horizonte.
- Marchávamos, sem falar, à floresta umente,
Em densa bruma, às choronas magnificentes,
Quando, sob abetos dos de Landes parentes,
Percebemos os grandes grifos, feitos
Pelos lobos viajantes que seguíamos.
Escutamos, prendendo nosso hálito
Detido o passo – Nem floresta nem planalto
Lançavam ao ar suspiro; ao momento
Um sôfrego cata-vento gritava ao firmamento;
Pois do vento, elevado bem acima das terras,
Dos pés só brotavam as torres solitárias,
E os robles cá em baixo, em rochas pendurados,
Às penhas pareciam sonolentos e curvados.
- Nada estrepitava, quando, a cabeça baixando
Dos caçadores o mais velho, que estava buscando,
Estudou a terra em se nela deitando; de repente -
Ele nunca se enganara no batente –
Declarou baixinho qu´estas marcas recentes
Mostravam o rastro e as garras possantes
De dois grandes lobos e seus pequeninos.
Então todos com facas preparamo-nos
E, escondendo os fuzis em claros brilhando,
Fomos, passo a passo, os galhos afastando.
Três se detiveram, e eu, perquirindo o que viam,
Logo percebi dois olhos que flamejavam,
E, mais à frente, vi quatro formas prófugas
Que dançavam ao luar em meio às brumas,
Como fazem, com alarido, aos nossos olhos,
Quando volta o mestre, os alegres lebreiros.
O feitio era semelhante e o bailado;
Mas os filhos do Lobo brincavam em segredo,
Sabendo que a dois passos, em sono meago,
Deitava-se aos muros o homem, seu inimigo.
O pai estava de pé, e além, numa árvore,
A loba repousava tal àquela de mármore
Que romanos amavam, cujos flancos peludos
Cobriam Rômulo e Remo, semideuses ambos.
Veio o lobo e sentou-se, as patas armadas
Pelas garras curvadas na areia enfiadas.
Julgou-se perdido, de surpresa tomado,
Ocupado os caminhos, o recuo cortado;
Ele então tomou, em sua goela fervente,
Dos cães o mais fero a garganta palpitante
E não descerrou seus férreos dentes
Apesar dos tiros que lhe varavam as carnes
E das acutiladas que, como lanças,
Cruzavam-se imersas em vastas entranhas,
´Té o momento em que o cão estrangulado,
Morto há algum tempo, aos seus pés há rolado.
O lobo deixa-o e nos observa então.
As facas ficaram-lhe no dorso por precaução,
Grudando-se à mata de sangue banhada;
Os fuzis lhe cercaram em sinistra ciranda.
- Ainda nos olhava, depois se estica
Manando o sangue espalhado à boca,
E, sem importar-se de como feneceu,
Fechando os olhos, calado, morreu.

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