sexta-feira, setembro 10, 2004

Notícia a respeito da Monadologia

(Histórico e Análise)

por
Émile Boutroux


A Monadologia é o resumo do conjunto da filosofia de Leibniz. Compô-la Leibniz em francês, em 1714, durante sua última estada em Viena, com o príncipe Eugênio de Sabóia, eminente pela alta cultura científica e pelas qualidades políticas. Este encerrou a obra em uma caixa, como a um tesouro de valor inestimável, concordando apesar disso de mostrá-la a pessoas desejosas em vê-la. “Ele guarda vossa obra, escrevia o conde de Bonneval a Leibniz, amigo do príncipe, como os padres de Nápoles guardam o sangue de São Januário. Ele me fez beijá-la, depois fechou-a na caixa[1].”

A Monadologia não foi publicada em vida de Leibniz. Kœhler a traduziu para o alemão e Hanche, de Leipzig, a traduziu para o latim. A tradução apareceu nos Acta eruditorum de 1721, com o título de Principia philosophiæ seu theses in gratiam principis Eugenii conscriptæ [2]. Figura na edição Dutens. O original francês foi publicado pela primeira vez em 1840 por Erdmann, em sua edição das œuvres philosophiques.

Esta obra, como indica o título latino, é uma série de teses resumindo os principais pontos da filosofia de Leibniz. Não serve como introdução ao estudo da filosofia de Leibniz. Ao contrário, pressupõe um leitor já versado nela; ele ensina para tal leitor o ponto em que é necessário se presumir para ver o conjunto sob sua verdadeira luz , em sua harmonia.

Fazer o resumo deste resumo é, evidentemente, um empreendimento ilegítimo: desta feita limitar-nos-emos indicar a estrutura e as grandes divisões da obra, expondo a disposição sistemática que emula mais ou menos a divisão da obra em teses numeradas.

O mundo é diversificado e harmônico. Para vê-lo tal como é, é necessário discernir-lhe os detalhes e captar-lhe a unidade. Para obter esta dupla consciência, faz-se mister conseguir pôr-se do ponto de vista supremo, o ponto de vista mais próximo possível do de Deus. A Monadologia determina este ponto de vista, dando-nos um rascunho do mundo tal como aparece ao observador que ali se encontra.

Podemos distinguir aí três partes: 1º as Mônadas ou elementos das coisas (do § 1 até § 36), 2º Deus (do § 37 até § 48), 3º o mundo concebido em sua causa, a qual é Deus (do § 49 até § 90).

Antes de tudo, a marcha é ascendente, indo das criaturas a Deus, e depois descendente, indo de Deus às criaturas. Ainda podemos dizer que a filosofia de Leibniz é regressiva, depois progressiva.



I. MÔNADAS. – As mônadas podem ser consideradas: 1°quanto sua natureza (§§ 1-17) 2° quanto a seus graus de perfeição (§§ 18-36).

1. A natureza. A natureza das mônadas pode ser determinada, antes de tudo, a partir do ponto de vista externo, depois pelo ponto de vista interno.

Do ponto de vista externo a mônada é simples, inextensa, sem figura, indivisível, incapaz de começar ou de terminar naturalmente, incapaz de ser modificada em seu interior por qualquer outra criatura. (§§ 1-7).
Do ponto de vista interno, a mônada está dotada de percepção ou representação da multiplicidade na unidade, e de apetição ou tendência de passar de percepções menos distintas a percepções mais distintas. Ela é tal como um autômato incorporal (§§ 8-17).


2. Os graus de perfeição. As mônadas comportam graus de perfeição, determinado pelo caráter mais ou menos distinto de suas percepções. As principais são as seguintes:

1° A mônada ou enteléquia pura e simples, possuindo de forma geral percepção e apetite, sem memória. Esta é a vida das plantas (§§ 18-24).

2° A mônada dotada de memória, ou alma, tal como que existe nos animais. Estes seres são capazes de consecuções empíricas que imitam a razão, mas não podem elevar-se a esta (§§ 25-28).

3° A mônada dotada de razão ou conhecimento das verdades eternas, e, por isso, dotada de apercepção ou consciência. Uma tal mônada chama-se espírito, sendo-nos dada ao homem (§§ 29-30). Nossos raciocínios ou operações da razão estão fundadas nos dois grandes princípios, o da contradição e o da razão suficiente, as quais aplicam-se concorrentemente os dois tipos de verdade em que se ligam todas as verdades possíveis, a saber, as verdades de razão e as verdades de fato (§§ 31-36).


II. DEUS. – A doutrina relativa a Deus pode se dividir em duas partes: 1º a existência §§ 37-45, e 2º a natureza §§ 46-48.

1. A existência. Ela se demonstra partindo da teoria dos dois princípios de razão e dos dois tipos de verdade. Esta demonstração é dupla: a posteriori e a priori.

A posteriori, um Deus é necessário como razão suficiente do contingente, o qual não tem em si sua explicação última (§§ 37-42).

A priori, 1° um Deus é necessário como fonte das essências ou possibilidades, ou antes, das verdades eternas, na medida em que nelas há uma realidade (§ 43-44) ; 2° Deus existe necessariamente, se Ele é possível, quer dizer, se a definição de Deus não implica contradição (§ 45).

2. A natureza. Enquanto fonte de verdades eternas, Deus não age por sua vontade, como criam os cartesianos, mas pelo seu entendimento. Enquanto fontes de verdades contingentes, ao contrário, Deus age por Sua vontade, a qual se regula segundo uma necessidade moral, não geométrica, pelo princípio da conveniência ou da escolha do melhor (§ 46).

As mônadas criadas nascem pelas contínuas fulgurações da Divindade (§§ 46-47).

Em Deus, o poder, o conhecimento e a vontade correspondem aos três elementos da mônada: o sujeito ou a base, a percepção e a apetição (§ 48).


III. O MUNDO CONCEBIDO EM SUA CAUSA. – A doutrina progressiva do mundo pode ser dividida em três partes: 1º a natureza do mundo em geral, quer dizer, a harmonia universal e o otimismo (§§ 49-60); 2º a constituição e a hierarquia dos seres criados (§§ 61-90).

1. A harmonia universal e o otimismo. Diz-se de uma criatura que ela age, e de outra que ela sofre, porque uma possui percepções distintas e a outra percepções confusas correspondentes, quer dizer, uma possui o que dá razão a priori àquilo que se passa na outra. Esta influência das coisas umas nas outras é, nas substâncias simples, ideal. Ela consiste em uma pré-ordenação divina. Ora, Deus tem, desde a origem, regulado todas as mônadas sem exceção, de modo que cada percepção distinta de uma delas corresponda a percepções confusas nas demais, e reciprocamente, de tal sorte que cada mônada seja representativa de todo o universo, a partir de seu ponto de vista (§§ 49-52).

Há uma infinidade de universos possíveis, mas só pode existir um. A escolha de Deus foi determinada – a partir do princípio do melhor – pela comparação das perfeições que continham, desde toda a eternidade, antes do fiat divino, os diversos possíveis. Deus escolheu infalivelmente o melhor mundo possível. A excelência deste mundo consiste na maior variedade possível, com a maior ordem (§§ 56-60).

2. A hierarquia dos seres. Podemos distinguir nela: 1º os elementos dos seres criados, em geral; 2º os principais graus destes seres.

1° Os elementos necessários a todo ser criado são: um corpo composto e uma mônada central ou enteléquia.

Os compostos são análogos aos simples: eles imitam a influência recíproca ideal das mônadas por meio da influência mecânica, de tal sorte que toda mudança sobrevinda em um corpo é acompanhada de uma mudança contrária equivalente em todos os outros corpos. O corpo inteiro se ressente de tudo que se faz no universo. E representando-se mais amiúde o corpo que lhe afetou particularmente, a enteléquia ou alma representa todo o universo. Assim, não há alma sem corpo na natureza (§§ 61-62).

2° Considerados a partir do ponto de vista de seu grau de perfeição, os seres criados formam como que três mundos superpostos: o mundo dos vivos, o mundo dos animais e o mundo dos espíritos.

Os simples vivos já possuem corpos orgânicos, ou seja, corpos em que, levando a divisão ao infinito, encontraremos sempre a variedade e a conveniência. Tudo está cheio de vivos, não há nada de morto na natureza.

Nos animais, o nascimento e a morte são apenas descobrimento e encobrimento. A união da alma e do corpo consiste em que cada um deles siga leis que lhes são próprias, e quando se encontram, em virtude da harmonia preestabelecia por Deus entre o reino das causas eficientes e o reino das causas finais. Este é o sistema da harmonia preestabelecida, conseqüência natural dos princípios da mecânica, rijamente determinados (§§ 63-81).

Enfim, acima dos animais há os espíritos, espelhos não apenas do universo, mas de Deus mesmo, capazes de estabelecer com Ele um tipo de sociedade. A assembléia de todos os espíritos forma a cidade de Deus, ou seja, um mundo moral onde o bem e o mal recebem sua justa recompensa e punição, onde os bons amam a Deus com puro amor verdadeiro, que consiste em gozar da felicidade Daquele que amamos. Este mundo moral ou reino de graça está em harmonia com o mundo natural ou reino da natureza, Deus arquiteto em tudo contentando Deus legislador, de tal sorte que as coisas conduzem à graça por intermédio das vias da natureza (§§ 84-90).
[1] V. Guhrauer, G. W. Fr. v Leibnitz, t. II, p. 286.
[2] V. Kuno Fischer, Gesch. d. n. Phil., vol. II, p. 298, 2e édit.

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