quinta-feira, setembro 23, 2004

Da analogia


Santo Tomás de Aquino, o Doutor Comum

Fernando Pessoa dizia, no poema número IV do Primeiro Fausto: "Ah, tudo é símbolo e analogia"; contudo, errou, como o prova o texto abaixo.

Da analogia em Santo Tomás de Aquino
por S. Veygoux

A noção de analogia possui um papel importante na teologia católica, particularmente na teologia de Santo Tomás de Aquino, um de seus ilustres representantes. Santo Tomás é o doutor comum da Igreja ; seu gênio poderoso soube em diversas ocasiões encontrar a formulação adequada de uma proposição.
Quando se considera uma questão teológica por ele estudada é importante conhecer seu pensamento de forma exata. Se Santo Tomás não nos deu um tratado da analogia, se não a pôde estudar em si, ele a levou em consideração em diversas ocasiões.
Devemos considerar que os comentadores de Santo Tomás, tanto os clássicos como os neotomistas, freqüentemente falam de uma idéia da analogia que, em Santo Tomás, não lhe corresponde à letra. Certamente conservar esta letra não é um fim em si, mas, devido sua grande autoridade – autoridade que foi por diversas vezes, de forma clara, confirmada pelo Magistério da Igreja – convém não abandona-la, a não ser que isto seja exigência da verdade. Porém, não é certo que Santo Tomás se tenha enganado a respeito da analogia. Se um comentador, tão grande quanto o seja, abandona a letra de Santo Tomás sem produzir razão suficiente para isso, convém não segui-lo.Se contradiz a letra de Santo Tomás sem produzir razões suficientes, devemos pois guardar a letra. Ora acontece que numerosos comentadores, tais como Caetano, não somente abandonaram a letra de Santo Tomás a respeito da analogia, mas contradisseram-na. Logo, se o pensamento de Santo Tomás sobre a analogia é verdadeiro, é preciso comentá-lo dentro dos limites de sua letra, pois ela é o único meio de conhecer seu pensamento.
Santo Tomás sempre pensou a ordem das realidades que considerava: Sapientis est ordinare. Pertence ao sábio pensar a ordem [das coisas]. A analogia é a ordem que existe entre os diferentes sentidos de uma mesma palavra, quando estas não são equívocas. Um texto do De Potentia Dei apresenta um bom exemplo de analogia: « Licet secundum rem paternitas et filiatio per prius sit in Deo quam in nobis, secundum illud Apostoli ad ephs. III, 15 : « Ex quo, scilicet Deo Patre, omnis paternitas in caelo et in terra nominatur » ; tamen secundum nominis impositionem haec nomina translata sunt ab humanis ad divina ». Podemos observar que a analogia é essencialmente um fato do nome, não da coisa que este designa. O nome paternitas é dito per priu da paternidade humana e per posterius da paternidade de Deus Pai; é a partir daí que se realiza a ratio analogiae. Não se deve confundir o que diz respeito ao nome e ao que diz respeito à coisa. Se é pela paternidade divina que se dá o princípio de toda paternidade, é, antes de tudo, pelo nome paternidade que o homem designa a paternidade humana, antes mesmo daquela de Deus. Uma semelhança ou relação é vista, ou considerada, entre uma primeira realidade designada pelo nome, e uma outra realidade, à qual daremos o mesmo nome, a partir desta semelhança ou relação. Para que se não confunda o que importa ao nome com o que importa à coisa, basta somente reconhecer a condição necessária por parte da coisa para que, por parte do nome, a analogia se opere. Formalmente, não é esta a semelhança que constitui a analogia. A semelhança dá-se entre duas coisas, enquanto a analogia dá-se entre dois nomes. Ir além na consideração desta semelhança é abandonar o domínio da analogia enquanto tal. A semelhança a uma determinada espécie não é a condição da analogia, segundo Santo Tomás. Ela pode ser real, fundada na causalidade, ou ainda imaginada, como na metáfora; isto é indiferente para a analogia enquanto tal. Um texto do Comentário ao Da Trindade, de Boécio distingue bem o que há em comum per praedicationem, ou seja, segundo a analogia, e o que há em comum per causalitatem: « Sicut autem uniuscuiusque determinati generis sunt quaedam communia principia quae se extendunt ad omnia principia illius generis, ita etiam et omnia entia, secundum quod in ente communicant, habent quaedam principia quae sunt principia omnium entium. Quae quidem principia possunt dici communia dupliciter secundum Avicennam in sua Sufficientia: uno modo per praedicationem, sicut cum dico: forma est commune ad omnes formas, quia de qualibet praedicatur; alio modo per causalitatem, sicut dicimus solem unum numero esse principium ad omnia generabilia. Omnium autem entium sunt principia communia non solum secundum primum modum, quod appellat Philosophus in XI Metaphysicae omnia entia habere eadem principia secundum analogiam, sed etiam secundum modum secundum » A analogia diz respeito à inteligência prática que impõe o nome às coisas, tão-logo a semelhança apareça na coisa (vista ou imaginada). Distinguir as diferentes formas de semelhança não é distinguir as diferentes formas de analogia.
Textos diversos tratam da analogia na obra de Santo Tomás que, a primeira vista, não possui a unidade a que aspiram. É o que é dito na Summa Theologiae I, q.13, a.5; Summa Theologiae I, q.16, a.6; Summa contra Gentiles I, 34, parece não corresponder ao que é dito no De Veritate q.2, a.11. De fato, na Summa Theologiae I, q.13, a.5 está dito: « Dicendum est igitur quod huiusmodi nomina dicuntur de Deo et creaturis secundum analogiam, idest proportionem » ; Summa Theologiae I, q.16, a.6 : « Sed quando aliquid dicitur analogice de multis, illud invenitur secundum propriam rationem in uno eorum tantum, a quo alia denominantur »; Summa contra Gentiles I, 34 : « Analogice: hoc est, secundum ordinem vel respectum ad aliquod unum. Quod quidem dupliciter contingit: uno modo, secundum quod multa habent respectum ad aliquid unum: sicut secundum respectum ad unam sanitatem animal dicitur sanum ut eius subiectum, medicina ut eius effectivum, cibus ut conservativum, urina ut signum. Alio modo, secundum quod duorum attenditur ordo vel respectus, non ad aliquid alterum, sed ad unum ipsorum ». Contudo, no De Veritate q.2, a.11 pode-se ler: « secundum analogiam, quod nihil est aliud dictu quam secundum proportionem »; em seguida, se diz : « Quia ergo in his quae primo modo analogice dicuntur, oportet esse aliquam determinatam habitudinem inter ea quibus est aliquid per analogiam commune, impossibile est aliquid per hunc modum analogiae dici de Deo et creatura ». O tipo de analogia que aqui se trata do primeiro dos dois tipos que Santo Tomás distingue neste artigo do De Veritate, a analogia de relação: « Prima ergo convenientia est proportionis ». O segundo tipo de analogia definido no De Veritade q.2 é a analogia de proporção (analogia proportionalitatis); Santo Tomás define-a assim: « convenientia etiam quandoque attenditur duorum ad invicem (mot illisible) quae non sit proportio, sed magis similitudo duarum ad invicem proportionum, sicut senarius convenit cum quaternario ex hoc quod sicut senarius est duplum tenarii, ita quaternarius binarii ». Este último tipo é apresentado como o único possível quando do uso de uma mesma palavra para designar Deus e a criatura. A analogia de relação (analogia proportionis) para designar Deus e a criatura é dita impossível no De Veritade q.2, a.11, enquanto na Summa Theologiae I, q.13, a.5, Santo Tomás fundamenta a analogia na existência de uma relação, em uma proposição que é universal (« secundum analogiam, id est proportionem »). Caetano, no seu De nominum analogia, considerou que o que fora dito sobre a analogia no De Veritade q.2, a.11. era, dentro da obra de Santo Tomás, uma doutrina mais universal a respeito da analogia. Logo, ele foi obrigado a restringir o alcance das definições dadas em ambas as Sumas, até mesmo contradizê-las, negando que a analogia de relação fosse uma analogia verdadeira, afirmando que a única analogia verdadeira era a de proporção, na medida em que é fundamentada sobre a denominação intrínseca de cada analogado. Caetano, com efeito, contradiz o que está afirmado na Summa Theologiae I, q.13; a.5, Summa Theologiae I, q.16, a.6 e Summa contra Gentiles I, 34. É indiferente à analogia que a denominação seja intrínseca ou extrínseca; no Veritate q.2, a.11 Santo Tomás nega apenas que a analogia de relação possa ser utilizada por um nome que seria comum a Deus e a uma criatura; de forma alguma diz que a analogia de relação não é verdadeira analogia.
Realmente, a diferença entre os textos das duas sumas ao que tange à analogia e o De Veritade q.2, a.11 é que o sentido da palavra proportio não é o mesmo. Nos textos de ambas as sumas, proportio significa uma relação que não determina realmente os dois termos da relação; neste sentido pode se ter uma relação entre a criatura e Deus, não sendo Deus determinado pela relação que existe entre Ele e a criatura; no De Veritate q.2, a.11, proportio significa uma relação que, de fato, determina ambos os termos de uma relação, que não pode existir, de maneira alguma, entre Deus e a criatura. Santo Tomás já enunciara, na Summa Theologiae I, q.12, a.1 ad 4um, a existência de dois sentidos distintos da palavra proportio: « proportio dicitur dupliciter. Uno modo, certa habitudo unius quantitatis ad alteram; secundum quod duplum, triplum et aequale sunt species proportionis. Alio modo, quaelibet habitudo unius ad alterum proportio dicitur ». Esta distinção de ambos os sentidos da palavra proportio encontra-se também no Comentário ao Da Trindade, de Boécio. Contrário ao que pensa Caetano, o que se diz sobre a analogia no De Veritate q.2, a.11 é relativo a uma restrição de sentido da palavra proportio, que não pode de modo algum ser tomado pela definição mais universal a respeito da analogia. Encontramos as proposições mais universais nas duas sumas. De forma geral, todos os textos de Santo Tomás a respeito da analogia proíbem fundamentar a analogia tão-somente sobre a semelhança de dois relacionados ou sobre a denominação intrínseca de cada analogado.
Muitos tomistas seguiram Caetano, de sorte que as definições das sumas a respeito da analogia não foram consideradas em sua justa apreensão, quer dizer, em sua universalidade, e as distinções particulares do De Veritade q.2, a.11, foram falsamente interpretadas e tidas de forma inapropriada por definições universais, Assim, Antoine Goudin pôde escrever em sua Quarta pars philosophiae ou Metaphysica : « Analoga attributionis sunt, quorum unum participat rationem communem cum habitudine ad aliud principalius ». Ele define a analogia de proporção (analogia proportionalitatis) nestes termos: « Analoga proportionalitatis sunt, quae se habent ad rationem communem cum quaedam proportione ». vemos que Goudin segue Caetano, desejando ignorar o alcance universal daquilo dito de forma clara na Summe Theologiae I, q.16, a.6 : « Sed quando aliquid dicitur analogice de multis, illud invenitur secundum propriam rationem in uno eorum tantum, a quo alia denominantur ». O que Santo Tomás diz a respeito de toda a analogia, Goudin di-lo do que chama analogia de atribuição. João de Santo Tomás também escreveu no seu Cursus philosophicus thomisticus, na trilha de Caetano: « In analogis attributionis seu proportionis ex multis conditionibus illa est praecipua, quod in principali analogato inveniatur forma intrinsece, in aliis vero extrinsece et per denominationem ». Ora João de Santo Tomás bem vira que esta doutrina da analogia não era a de Santo Tomás; com efeito, enuncia claramente o pensamento do Aquinate: « Fundamentum vero alterius partis est primo ex D. Thomas, qui generaliter docet in omnibus analogis neccesse esse, quod omnia dicantur per respectum ad unum, et quod illud unum ponatur in definitione omnium, ut patet I.p, q.13, a.6 et q.16, a.6 ». Mas é em uma objeção à sua tese que João de Santo Tomás enuncia de forma límpida o pensamento de Santo Tomás; a tese de João é a mesma de Caetano. João de Santo Tomás possuía forte determinação em ser fiel à letra de Santo Tomás; por esta razão, ele tenta imputar a tese de Caetano ao mesmo Santo Tomás: « Ita sumitur ex D. Thomas, qui utrumque docet. Nam in istis analogis attributionis debeat tantum invenire intrinsece in uno et denominative in aliis, constat ex I p. q.16, a.6 et 4, Metaph. Lect. 1 et 11, Metaph. Lect.3, ubi ponit formam debere inveniri in uno analogatorum tantum secundum propriam rationem, a quo alia denominantur ». Em nenhum dos textos citados por João de Santo Tomás, o doutor angélico trata do que Caetano chama analogia attribuitionis; fala a respeito da analogia enquanto analogia, da forma a mais universal. João de Santo Tomás acabava por restringir de forma explicita, nos textos de Santo Tomás, a extensão das definições que são evidentemente universais: « Ad primum ex autoritate S. Thomae respondetur, quod in illa universali loquitur S. Thomas non de omnibus analogis absolute, sed restrictive de analogis attributionis tantum, quia in illo loco I p., q.13 agit de analogia magis dialectice quam metaphysice, scilicet ut tenet se ex parte nominum, non ex parte rerum. Sicut autem in analogiam metaphysice considerata attenditur inaequalitas in rerum, ita in analogia dialectice considerata attenditur inaequalitas in modo significandi et nominandi ». As definições universais do texto capital da Summa Theologiae I, q.16, a.6, também estão presentes como proposições particulares: « In loco autem ex q.16 non loquitur universaliter de omnibus analogis et sic non cogit ». A conseqüência deste erro de Caetano e daqueles que o seguiram foi deslocar indevidamente a analogia da lógica para a metafísica. Esta confusão foi possível porque a analogia exige uma semelhança entre os analogados; mas esta condição requisitada na realidade pela qual opera a analogia não é determinada, em sua definição, da parte das coisas, mas pela parte da inteligência prática que regula a imposição dos nomes. A palavra proportio é em si analógica. A analogia dever ser considerada naquilo que ela é, ou seja, compreendendo de modo essencial o uso dos nomes. Um texto de Santo Tomás constata esta fato corrente do uso analógico dos nomes: « consuetum est quod nomina a sui prima impositione detorqueantur ad alia significanda ; sicut nomen medicinae impositum est primo ad significandum remedium quod praestatur infirmo ad sanandum, deinde tractum est ad significandum artem qua hoc fit ». É pelo uso dos nomes que se diz que uma coisa é per prius e outra, que possui uma semelhança ou relação qualquer com a primeira, per posterius; de forma alguma, trata-se de denominação intrínseca.

Nenhum comentário: