sexta-feira, agosto 06, 2004

Intempestividades Nietzscheanas



Nietzsche Contra Si Mesmo (do livro "Nietzsche")
Gustave Thibon

Na segunda parte desta obra, nós confrontaremos Nietzsche no terreno dos primeiros princípios da razão e da filosofia objetiva. Por enquanto, nós nos contentaremos em aplicar em seu próprio caso os critérios psicológicos que ele usou tão impiedosamente em relação aos outros. A primeira condição dum duelo leal é que haja lugar para armas equivalentes. Ora aquele que passa sua vida a proclamar que “a falsidade dum julgamento não constitui uma prova contra este julgamento” e que todo sistema filosófico, longe de ser a expressão duma verdade independente do homem, provém essencialmente do temperamento de seu autor e que este sistema não saberia traduzir outra coisa que uma simples “idiossincrasia” pessoal, seria bem mal visto ao se deplorar em ser julgado, por sua vez, segundo esses mesmos critérios. Porque tudo o que o homem concebe, crê ou adora não é mais que a projeção ideal de sua necessidade individual, pois se toda a metafísica e toda religião se explica e se refuta pela psicologia do filósofo e do crente, não nos resta mais nada senão procurar na alma de Nietzsche a origem e a refutação da metafísica e da religião nietzcheana.

“Nosso ideal, eis a nossa lacuna”, escreveu. O adágio é esclarecedor. Ele não é, porém, verdadeiro senão em parte. Nosso ideal é aquilo de que mais necessitamos, mas de outra maneira, é aquilo que mais se nos assemelha. Digamos que seja nossa sede; suportar a sede é já participar, dum certo modo, da natureza da água: uma pedra é mais ressequida que uma garganta sedenta, e, todavia, ela não tem sede. Nosso ideal é o atributo de Deus esculpido negativamente em nosso ser: é um vazio, mas um vazio que aspira ser preenchido. Nada poderia ser esculpido, mesmo um vazio, num ser absolutamente plano. Assim, o homem essencialmente vil e medíocre, aquele para quem a nobreza e pureza mais fazem falta, não é jamais atormentado pelo desejo destas coisas; ele é por sua vez tão seco e tão estéril quanto uma pedra; o mais desprezível dos homens é o que não mais sabe desprezar-se. Pascal já sabia que não procuramos por Deus senão à condição de traze-lO no eu em germe e em apelo...

A vida do homem é um combate, diz-nos as Escrituras. Mas ela nos ensina também “que em todas as coisas é necessário procurar o repouso”. E o Cristo nos apóia ao mesmo tempo na guerra e na paz. Que dizer, senão que Deus nos promete a paz apóos a vitória? E qual vitória? A vitória sobre si mesmo. Esse combate cristão, que consiste em lutar contra todas as formas de idolatria interior, contra tudo o que possuímos de impuro e desordenado a fim de alcançar o repouso na unidade, e que é o reflexo da perfeição divina no homem, Nietzsche condu-lo com uma energia e continuidade digna dos ascetas mais dedicados. “No que se refere aos tormentos e às renuncias, minha vida pode se comparar àquela de não importa qual asceta de não importa qual época”. Mas neste combate onde Deus mesmo está em jogo, ele abdica ter Deus por aliado. A espada afiada da verdade, da qual fala São Paulo, e que atinge um homem na junção da alma com o espírito, ele pretende manipula-la apenas em si mesmo e contra si – e seu espírito e sua alma não podem mais se emendarem. Seu gesto é o mesmo do suicida: o homem trespassa seu coração com sua própria mão, mas esta mão que empunha a espada paralisa-se, logo que o golpe penetra, ao mesmo tempo em que o coração cessa de bater. Eis aqui que o destino prometéico de todos aqueles que querem se tornar deuses através de suas próprias forças: tais seres, marcados pelo duplo apelo da perfeição e da ruína, elevam-se sem tréguas às supremas altitudes humanas e encontram sua perdição nesta ascensão solitária; faltos de terem podido elevar-se pela oração até o céu donde partem os raios, eles sucumbem, tomados pelo orgulho e pela fadiga, no cume do monte donde o raio atinge com mais violência. Muito acima da queda! grita Zaratrusta. Sim, mas ainda baixo demais para Deus, sempre homem, sempre demasiado humano, separado de si mesmo, não pelo ósculo dum Deus que o liberta, mas pelo raio dum Deus que fulmina. Mas este raio que destrói os Titãs, este Abutre que fustiga sem parar o fígado imortal de Prometeu não são os símbolos vivos deste trágico desdobramento pelo qual o “solitário sem Deus” tortura-se e devora-se? Não há nada que parece mais com o mito do Titã acorrentado próximo a seu abutre sobre o mais alto cimo do orgulho humano, mas sempre infinitamente distante do céu que se abre apenas à oração dos humildes, que esta definição nietzschiana de espírito conhecida como “a vida que ultrapassa a vida?”.

Para conhecer o sentido do combate de Nietzsche, é-nos necessário estabelecer qual foi a lacuna, a zona de depressão interior donde seu ideal saiu como um vento de tempestade. Que ele prezou acima de tudo? A alegria, a força, a saúde que lhe faltava. E o que ele detestou além de todos os limites? O sofrimento, a fraqueza, a doença da qual era pródigo. Basta confrontar sua visão do mundo e do destino com as confidencias que ele fazia a seu respeito para saber até que ponto seu combate era interior.

O sofrimento? Ele difamou bastante a conjuração dos sofredores contra os felizes! Mas aquele que escreveu que “a preponderância do sentimento de pena sobre o sentimento de prazer dá-nos a exata medida da decadência” confessa numa de suas cartas: “para mim, o excedente de sofrimento foi enorme em todas as épocas de minha vida”.

A fraqueza? Mas quem foi mais fraco que este apóstolo da força, onde uma intempérie, uma visita intempestiva, uma contrariedade mínima rompia por diversos dias o frágil equilíbrio interno e que uma desilusão sentimental – a “traição de Srta. Salomé” – precipita ao limite do desespero e do suicídio? E seu culto do corpo “hirto da cabeça aos pés” e da vida dionisíaca não era outra coisa senão a reação de um intelectual enfraquecido, ávido de beber do manancial que não mais corria em si – qualquer coisa semelhante à admiração impotente de Hamlet frente ao espectro de seu pai, o dominador e conquistador? Ele canta a plenitude e a embriaguez dos sentidos com este ardor nostálgico próprio de todos os exilados que se voltam ao paraíso perdido. E confessa – com lucidez tanto quanto boa fé – que se ele repele tão decididamente o idealismo, é precisamente porque ele tem em si um ideal melhor, tanto que a carne e o sangue para tal lhe faltam? “Talvez nós, homens modernos, não sejamos tão saudáveis para ter necessidade do idealismo de Platão. E não cremos nos sentidos porque –”. A frase encerra-se maliciosamente de modo suspensivo. Completemo-la nós mesmos: porque os sentidos não nos permitem a guerra! – Platão compensava, talvez, sua exuberância carnal pela contemplação da Idéia nua: o anêmico Nietzsche sonha com o sangue vermelho e fresco. E outros logo o superarão neste caminho, não mais, oras! com a pureza do poeta, mas com a baixeza e a avidez do vampiro...

A doença? Aqui, mais que nunca, Nietzsche desdenha da morte a partir de sua própria imagem e se bate diante dum espelho que se quebra sob seus golpes. Como ela permanece abstrata e desencarnada, ainda que impetuosa (como se sente que ela origina-se do cérebro e não das entranhas – ein Hirngespinst, diria Klages), esta apologia forçada da saúde e do vigor animais! Que morbidez incurável, que idealismo impotente alvorece deste deslumbramento pueril diante dum Éden selado da vida difusa em sua bem-aventurada inconsciência! E esta raiva brutal contra a fraqueza - que aparece delimitada por uma fraqueza mal curada e sempre periclitante, esta fraqueza impura, envenenada de orgulho, que recusa admitir-se e pretende igualar-se a Deus em espírito, mesmo em verdade! - Nietzsche foi um eterno doente: a doença nele era tão profunda que ela corroeu sua alma após seu corpo. Ora o espírito dum doente pode reagir de duas maneiras para encontrar um sentido à sua dolorosa existência. Se ele possui uma alma fraca e se sente absolutamente incurável, idealiza a doença e deprecia a saúde: é a raposa da fábula que declara mui verdes as uvas que estão altas demais, é o padre asceta, tal como Nietzsche descreveu e gravou a ferro e fogo, que faz do sofrimento o valor humano supremo e o único meio de salvação. Mas, se ele tem uma alma nobre e que guarda ainda a esperança e a vontade de curar-se, ele reage no sentido inverso: ele idealiza a saúde e repele violentamente a doença, - é a raposa obstinada a trepar e que vê nas uvas maduras não sei que alimento divino – e é Nietzsche mesmo quem, como um fiel cujo fervor tecesse uma nevoa imaginária em torno da visão do amado ausente e distante, contempla a saúde obstinadamente desejada através de uma luz apoteótica. Ele expõe-se à grande luz da necessidade vital que o força a pensar assim. “É minha vontade de saúde, de vida que origina minha filosofia... Os anos onde minha vida era a mais abjeta foram aqueles onde deixei de ser pessimista: o instinto de minha própria cura interditava-me uma filosofia da pobreza e do desânimo”. Mas esta idolatria da saúde testemunha o mesmo irrealismo que a idolatria do sofrimento: quer os despreze como ao agraço[1] ou quer suspire por eles como se por uma ambrosia eterna, as razões não são palatáveis, elas são somente sonhos ou interpretações; é a sua imagem, e não sua substancia, que ele rebaixa ou glorifica. – Tudo isto não faz sentido algum para um homem sadio. É uma banalidade constatar que pessoas sadias não se preocupam com sua saúde: eles começam a aprecia-la na hora em que a perdem: si sua bona norint! É preciso ser um dispéptico como Voltaire para oferecer cem anos de glória em troca de uma boa digestão... E o que é mais revelador de uma saúde mal conquistada e sempre vulnerável, do que este terror pelo contágio, esta vontade de isolar a todo custo os saudáveis dos doentes, toda esta atmosfera de quarentena que respiramos na obra de Nietzsche? “Que as doenças não infectem os saudáveis – tal deveria ser sobre a terra o ponto de vista supremo – e para cumpri-lo seria necessário antes de tudo que os saudáveis fossem separados dos malsãos, que eles sejam mesmos protegidos da visão dos doentes, que não se confundam com eles... Para que eles possam fazer o que devem fazer, não podem desperdiçar sua liberdade de agir em remédios, em paliativos, em “salvadores” de doenças. E para tal, deixem entrar o ar puro! Evitem sobretudo a vizinhança dos asilos de alienados e dos hospitais da civilização! tenham boa companhia! Ou fiquem na solidão, se preciso for! Mas fujam em todos os casos das emanações nocivas da corrupção interna e da secreta aflição da doença...”. Sem dúvida Nietzsche tem razão numa certa medida de nos prevenir contra esta “piedade perigosa” e “este demônio do bem” que, sob as cores da caridade, expõe-nos a contrair as taras das doenças da alma sem possuir nenhum remédio para seus males. Mas uma tal susceptibilidade ao contágio não é um indicador infalível duma cura incompleta e dum equilíbrio artificial, sem apoios na substância do homem, e penosamente conduzida ao limite pela vontade? A piedade não é perigosa para o ser verdadeiramente forte: bem ao contrário, ela completa-o e aprofunda-o. Clovis – um belo tipo de “besta loura”, segundo Nietzsche – não foi mais autenticamente homem no dia em que ele chora a Paixão de Cristo do que no dia onde ele mata o soldado que quebrara o vaso de Soisson? A ternura, a compaixão não se transforma em tibieza e em doença senão nos fracos. E o Deus de piedade do Evangelho, que veio pelos doentes e não pelos saudáveis, não se torna por isso menos Todo-Poderoso: ele inclina-se sobre os enfermos, mas longe de contrair-lhes o mal, os cura...

Assim, na sua luta contra o sofrimento, a fraqueza e a doença que estão em si, Nietzsche tomba sob o golpe da acusação que desfere contra seu pior inimigo, o padre ascético: como Nietzsche, ele erige em ideal universal sua própria fórmula de combate, sua receita de vitória sobre si mesmo. Depois de ter escarnecido tanto todos os ideais e todas as religiões que não são para ele mais que vãs ilusões de uma natureza débil e ultrajada, nos oferece por sua vez, não a força e a saúde em sua realidade espontânea e inconsciente, mas um ideal, uma religião da força e da saúde! Deus nos exime – já o fizemos mui freqüentemente com uma facilidade impressionante – de procurar na loucura de Nietzsche um argumento contra sua doutrina: não somos daqueles que zombam ao pé da montanha onde Prometeu acorrentado expia seu sublime sacrilégio. Mas sua insistência em afastar seus discípulos da vizinhança dos loucos e dos hospícios permanece terrivelmente sintomático. Sucede-se aqui sobre o vivente a atroz profundidade do desdobramento nietzscheano, e nada é mais emocionante que esta coragem heróica com a qual ele trincha e joga às bestas a parte doente e sangrenta de si mesmo - esta parte que depois exigirá sua vingança e cobrirá a alma com sua sombra. Este duelo solitário onde ele sucumbe despojado de aliados – eu não tenho nem Deus nem amigos, suspirava – força à admiração e à piedade, mas seria absurdo atribuir-lhe um alcance universal e objetivo. Nietszche não é um mensageiro da verdade eterna: não testemunha senão ele mesmo. É muito em relação ao homem que somos. Não é nada em relação ao Deus que adoramos.

(...)

[1] Uva não matura, ou mosto desta mesma uva, bastante ácido e desagradável ao paladar. [N. do. T.]

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