terça-feira, julho 27, 2004

Do desejo


Eu vi Satanás cair como um raio
René Girard

Durante muito tempo, René Girard ensinou literatura francesa na universidade de Stanford. Seus livros são estudados e traduzidos em todo o mundo: entre os mais célebres estão Mensonge romantique e vérité romanesque [Mentira romântica e verdade romanesca] (Grasset, 1961) La violence et le sacré [A violência e o sagrado] (Grasset, 1972), Des choses cachées depuis la fondation du monde [Das coisas escondidas desde o começo do mundo] (Grasset, 1978), Le bouc émissaire [O bode expiatório] (Grasset, 1982).

Capítulo 1
É preciso que se dê o escândalo

Um exame atento revela que na Bíblia e nos Evangelhos existe uma concepção original e desconhecida do desejo e seus conflitos. Para entender a sua antiguidade, podemos remontar à narração da Queda, no Gênese, ou à segunda metade do Decálogo, totalmente consagrada à proibição da violência contra o próximo. Os mandamentos cinco, seis, oito e nove são tão simples quanto breves. Eles proíbem as violências mais graves, em ordem de gravidade:

Não matarás
Não cometerás adultério
Não roubarás
Não levantarás falso testemunho contra teu próximo


O décimo e último mandamento reúne aqueles que o precedem, em sua extensão e objeto: em vez de proibir uma ação, proíbe um desejo:

Não cobiçarás a casa de teu próximo. Não cobiçaras a mulher de teu próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu asno, nem nada do que lhe pertence (Ex 20, 17)

Sem pretender enganar ninguém, as traduções modernas dão uma falsa pista aos leitores. O verbo “cobiçar” sugere de que se trata dum desejo fora do comum, um desejo perverso peculiar aos pecadores obstinados. Porém o termo hebreu traduzido por “cobiçar” significa apenas “desejar”. Ele designa o desejo de Eva pelo fruto proibido, o desejo do pecado original. A idéia de que o Decálogo consagraria seu mandamento supremo, o mais extenso de todos, à proibição dum desejo marginal, peculiar a uma minoria, não é verossímil. O décimo mandamento versa sobre o desejo de todos os homens, do desejo tout court.
Já que o Decálogo freqüentemente proíbe o desejo, não merece ele a reprovação quase unânime que o mundo moderno dirige às proibições religiosas? O décimo mandamento não sucumbiria a este prurido gratuito de proibir, a esta raiva irracional à liberdade que os pensadores modernos condenam nos religiosos em geral, e na tradição judáico-cristã em particular? Antes de condenarem as proibições como “inutilmente repressivas”, antes de repetirem extasiados a fórmula que se tornou famosa nos ”acontecimentos de maio de 68”: “é proibido proibir”, convém se perguntarem a respeito das implicações do desejo definido no décimo mandamento, o desejo pelos bens do próximo. Se este desejo é o mais comum, que aconteceria se, ao invés de ser proibido, fosse tolerado ou até encorajado? A guerra seria perpetua em todos os grupos humanos, em todos os subgrupos, em todas as famílias. A porta estaria aberta para o famoso pesadelo de Thomas Hobbes, a luta de todos contra todos.
Por pensar que as proibições culturais são inúteis, tal como repetem irrefletidamente os demagogos da “modernidade”, torna-se necessário aderir ao individualismo o mais arraigado, o que pressupõe a autonomia total dos indivíduos, quer dizer, a autonomia de seus desejos. Em outras palavras, é preciso pensar que os homens são naturalmente inclinados a não desejar os bens do próximo. Basta observar duas crianças ou dois adultos que se disputem qualquer bobagem para compreender que este postulado é falso. É justamente o postulado oposto, que o décimo mandamento do Decálogo subentende, o único realista.
Se os indivíduos são naturalmente inclinados a desejar o que seus próximos possuem, ou simplesmente desejam, há, em meio aos grupos humanos, uma tendência fortíssima para rivalidades. Se não fosse contrariada, esta tendência ameaçaria permanentemente a harmonia e até a sobrevivência de todas as comunidades.
Os desejos rivais são tanto mais terríveis quanto possuem a tendência de se reforçarem reciprocamente. É o princípio de escalada e de supremacia que governa este tipo de conflito. Aqui temos um problema tão banal, tão bem conhecido de nós, tão contrario à idéia que fazemos de nós mesmos, por conseguinte, tão humilhante, que preferimos descartá-lo de nossa consciência, comportando-nos como se ele não existisse, todavia sabendo que ele existe. Esta indiferença frente ao real é um luxo que as pequenas sociedades arcaicas não podiam se dar. O legislador que proíbe o desejo dos bens do próximo se esforça para resolver o problema número um de toda comunidade humana: a violência interna.

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Ao ler o décimo mandamento, temos a impressão de assistir seu processo intelectual de elaboração. Para impedir os homens de se baterem, o legislador busca, antes de tudo, proibir-lhes todos os objetos aos quais não param de disputar, decidindo dar uma lista destes. Entretanto, ele logo percebe que tais objetos são muito numerosos, que não pode enumerá-los todos. Daí, interrompe-se no meio do caminho, renuncia enfatizar todos os objetos cambiantes e dirige-se àqueles, ou antes, àquele que sempre está presente, o próximo, o vizinho, o ser do qual claramente desejamos tudo o que lhe pertence.
Se os objetos que desejamos pertencem sempre ao próximo, é este, evidentemente, que os torna desejáveis. Por conseguinte, segundo a formulação da proibição, o próximo deve se desapegar dos objetos e, efetivamente, se lhes desapega, dentro da última parte da frase que proíbe não apenas os objetos enumerados um a um, mas todo aquele que pertence ao próximo.
O que o décimo mandamento tenta, sem defini-lo explicitamente, é uma “revolução copernicana” na inteligência do desejo. Acreditamos que o desejo é objetivo ou subjetivo mas, em realidade, repousa num outro que valoriza os objetos, num terceiro, num próximo. Para conservar a paz entre os homens, é necessário definir a proibição em função desta terrível constatação: o próximo é o modelo de nossos desejos. Isto é o que eu chamo de desejo mimético.

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O desejo mimético não é sempre conflituoso, mas se dá quase sempre desta forma, por razões que o décimo mandamento deixa evidentes. O objeto que eu desejo, assim como meu próximo, este pretende conservá-lo, reservá-lo para seu uso próprio, não deixando se lhe arrancar sem combate. Meu desejo será contrariado, mas, em vez de se conformar e se dirigir a outro objeto, de nove a cada dez vezes ele vai resistir e persistir, incorporando mais que nunca o desejo de seu modelo.
A oposição exaspera o desejo, sobretudo a que vem daquele ou daquela que inspira este desejo. Se ela não se dá no inicio, dar-se-á logo, pois a imitação do desejo próximo engendra a rivalidade, e, por sua vez, a rivalidade engendra a imitação.
O surgimento dum rival parece confirmar o fundamento do desejo, o imenso valor do objeto desejado. A imitação se reforça na hostilidade; entretanto, os rivais fazem de tudo o que podem para esconder do outro e para esconder de si mesmos a causa deste reforço.
A recíproca é verdadeira. Imitando seu desejo, dou a meu rival a impressão de que há boas razões de eu desejar o que ele deseja, de eu possuir o que ele possui; logo, a intensidade de seu desejo redobra.
Como regra geral, a posse tranqüila enfraquece o desejo. Sendo rival do meu modelo, eu lhe recobro, de alguma forma, o desejo que ele tem por mim. Eu forneço um modelo para o meu próprio modelo, e o espetáculo de meu desejo reforça o dele no exato momento em que, opondo-se a mim, ele reforça o meu. Por exemplo, o homem de quem desejei a esposa poderia, com o tempo, parar de desejá-la. Seu desejo, que havia morrido, em contato com o meu, que está vivo, recobra a vida...
A natureza mimética do desejo revela o mau funcionamento habitual das relações humanas. Nossas ciências sociais deveriam se dar conta dum tal fenômeno, o qual seria necessário classificar como normal; contudo, elas se obstinam em ver na discórdia qualquer coisa de acidental e de tão imprevisível, conseqüentemente, que é impossível abarcá-la nos estudos culturais. Não somente somos cegos em relação às rivalidades miméticas de nosso mundo mas cada vez que celebramos o poder de nossos desejos, glorificamo-los. Felicitamo-nos de ter em nós mesmos um desejo que possui “a extensão das coisas infinitas”, porém não vemos o que dissimula este infinito, que é a idolatria do próximo, a qual está forçosamente associada à idolatria de nós mesmos, ambas realizando um péssimo casamento.
Os conflitos inextrincáveis que resultam de nossa dupla idolatria são a fonte principal da violência humana. Somos muito mais devotados em possuir uma adoração pelo próximo que se transforma em ódio, com o qual buscamos desesperadamente nos adorar, do que em nos considerarmos “mais individualistas”. É para acabar com isso de uma vez por todas que o Levítico contém o famoso mandamento: “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo”, quer dizer, tu não o amarás nem mais nem menos que a ti mesmo.
A rivalidade dos desejos tende não tão-somente a se exasperar, mas a se difundir em derredor, transmitindo-se a terceiros tão ávidos desta falsa infinidade quanto nós mesmos.
A rivalidade mimética é a fonte principal da violência entre os homens. Ela não é acidental, contudo não é fruto dum “instinto de agressão” ou duma “pulsão agressiva”.
As rivalidades miméticas podem se tornar tão intensas que os rivais ofendem-se reciprocamente, destituem-se as posses, corrompem-se as respectivas esposas e, finalmente, não recuam mais sequer diante da morte.
O leitor perceberá que eu acabei de mencionar novamente, desta vez na ordem inversa do Decálogo, as quatro maiores violências proibidas pelos quatro mandamentos que precedem o décimo, os quais já citei no começo do capítulo.
Se o Decálogo consagra seu último mandamento à proibição do desejo dos bens do próximo, é por reconhecer lucidamente neste desejo o responsável pelas violências interditas nos quatro mandamentos que o precedem. Se pararmos de desejar os bens do próximo, não nos tornaríamos jamais culpados nem de morte, nem de adultério, nem de roubo, nem de falso testemunho. Se o décimo mandamento fosse respeitado, tornar-se-iam supérfluos os quatro mandamentos que o precedem.
Ao invés de iniciar pela causa e seguir as conseqüências, tal como faria uma exposição filosófica, o Decálogo segue a ordem inversa. Antes de tudo, ele propõe o mais urgente: para se eliminar a violência, proíbe-se as ações violentas. Em seguida, volta-se para a causa e revela o desejo inspirado pelo próximo. É justamente isso o que ele proíbe, mas só pode fazê-lo na medida em que os objetos desejados são legalmente possuídos por um dos dois rivais. Ele não pode desencorajar todas as rivalidades do desejo.


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Se examinarmos as proibições das sociedades arcaicas à luz do décimo mandamento, constatamos que, sem serem tão lúcidas quanto este último, elas também se esforçavam em proibir o desejo mimético e as rivalidades. As proibições aparentemente mais arbitrárias não são fruto duma “neurose” qualquer, nem do ressentimento de velhos rabugentos, sequiosos em impedir os jovens de se divertirem. De acordo com aquele princípio, não havia capricho nem mesquinhez nas proibições, repousando estas numa intuição análoga àquela do Decálogo, porém sujeita a todos os tipos de confusões.
Muitas das leis arcaicas, notadamente em África, condenam à morte todos os gêmeos que nascem na comunidade, ou um só gêmeo de cada par. Sem dúvida, esta regra é absurda, não provando “a verdade do relativismo cultural”. As culturas que não toleram os gêmeos confundem a semelhança natural, de ordem biológica, com os efeitos “indiferenciadores” das rivalidades miméticas.
Quanto mais as rivalidades se exasperam, mais os papeis de modelo, de obstáculo e de imitador tornam-se intercambiáveis dentro da oposição mimética. Em suma, na medida em que o antagonismo se empeçonha, os antagonistas paradoxalmente mais se assemelham. Eles se opõem tanto mais implacavelmente quanto seu opositor apaga as diferenças reais que, até a pouco, os separavam. A inveja, o ciúme e o ódio uniformizam os que se opõem, porém as paixões, no nosso mundo, recusam se pensar em função de semelhanças e de identidades, as quais não cessam de engendrar. Elas só dão ouvidos à tola celebração das diferenças, que castiga mais que nunca nossas sociedades, não pelo fato das diferenças reais engrandecerem, mas por elas estarem desaparecendo.

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A revolução que o décimo mandamento anuncia e prepara espalhou-se pelos Evangelhos. Se Jesus nunca fala em termos de proibição, mas sempre em modelo e imitação, isso se dá porque ele vai até as últimas conseqüências da lição do décimo mandamento. Não é por narcisismo que Ele nos recomenda imitá-Lo, mas para que nós nos afastemos das rivalidades miméticas. Exatamente em que se deve basear a imitação de Jesus Cristo? Não pode ser na sua maneira de ser ou em seus hábitos pessoais: Ele nunca fez questão disto nos Evangelhos. Jesus não propõe uma regra de vida ascética, no sentido dado por Tomás de Kempis na célebre Imitação de Jesus Cristo, por mais admirável que seja essa obra. Jesus convida-nos a imitar seu próprio desejo, o élan que Ele mesmo conduz a um objetivo determinado: assemelhar-se o mais possível com Deus-Pai. O convite de imitar o desejo de Jesus pode parecer paradoxal pois Jesus não pretende ter desejo próprio, de desejar “bem a si”. Contrariamente do que nós mesmos pretendemos, ele não pretende “ser ele mesmo”, nem se vangloria de “apenas obedecer a seu próprio desejo”. Sua meta é tornar-se a imagem perfeita de Deus. Logo, consagra todas as Suas forças para imitar o Pai. Convidando-nos a imitar o Pai, ele nos convida a imitar sua própria imitação.
Longe de ser paradoxal, tal convite é mais razoável que aquele de nossos gurus modernos. Estes nos convidam a fazer o contrário do que eles mesmos fazem, ou, pelo menos, pretendem fazer. Cada um deles pede aos discípulos imitarem o grande homem que não imita ninguém. Bem ao contrário, Jesus nos convida a fazer o que Ele faz, a se tornar como Ele um imitador de Deus-Pai.
Por que Jesus oferece o Pai e Ele mesmo como os melhores modelos para todos os homens? Porque nem o Pai nem o Filho desejam ávida e egoisticamente. Deus “faz o sol brilhar sobre os maus e os bons”. Ele dá aos homens sem computar, sem discriminar quaisquer diferenças entre eles. Ele deixa as ervas daninhas brotar junto às boas até ao tempo da colheita. Se imitamos o desinteresse divino, jamais a armadilha das rivalidades miméticas cairá sobre nós. Jesus nos disse: “Pedis e ser-vos-á dado...”.
Quando Jesus declara que, longe de abolir a Lei, Ele a cumpre, estabelece uma conseqüência lógica de seu ensinamento. O objetivo da Lei é a paz entre os homens. Diferente dos pensadores modernos, Ele bem sabe que, para impedir os conflitos, é preciso começar pelas proibições.
Todavia, as proibições têm o inconveniente de não cumprirem o papel de maneira satisfatória. Seu caráter marcadamente negativo, como bem viu São Paulo, desperta em nós, forçosamente, a tendência mimética para a transgressão. A melhor maneira de prevenir a violência não consiste em proibir os objetos nem o desejo de rivalidade, como faz o segundo mandamento, mas dar aos homens o modelo que, ao invés de os inserir nas rivalidades miméticas, protege-os dela.
Freqüentemente cremos imitar o Deus verdadeiro, porém, em verdade, só imitamos falsos modelos de autonomia e invulnerabilidade. Longe de nos tornar autônomos e invulneráveis, devotamo-nos às rivalidades inexpiáveis. O que, a nossos olhos, diviniza este modelo, é o seu triunfo dentro das rivalidades miméticas, cuja violência dissimula a insignificante.
Longe de surgir num universo isento de imitação, o mandamento de imitar Jesus dirige-se aos seres infectados de mimetismo. Os não-cristãos imaginam que, para se converterem, ser-lhes-á necessário abandonar a autonomia que todos os homens possuem naturalmente, uma autonomia a qual Jesus queria lhes privar. Em realidade, quando imitamos Jesus, descobrimo-nos imitadores desde sempre. Nossa aspiração à autonomia nos humilhava diante seres que, mesmo que não fossem piores que nós, não deixam de ser maus modelos naquilo que podemos imitá-los, sempre caindo com eles na armadilha das rivalidades inextricáveis.
A autonomia que cremos estar sempre a ponto de conquistar, imitando nossos modelos de poder e prestígio, é apenas um reflexo das ilusões projetadas pela nossa admiração por eles, tanto menos consciente de seu mimetismo quanto mais mimética ela é. Quanto mais somos “orgulhosos” e “egoístas”, mais nos submetemos aos modelos que nos esmagam.
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Mesmo sendo o mimetismo do desejo humano o grande responsável pelas violências que nos destrói, não podemos concluir que o desejo mimético é mau. Se nossos desejos não fossem miméticos, eles nunca fixar-se-iam em objetos predeterminados, mas seriam uma forma particular de instinto. Os homens não poderiam mais mudar de desejo, tal qual vacas num curral. Sem desejo mimético, não haveria nem liberdade nem humanidade. O desejo mimético é intrinsecamente bom.
O homem é esta criatura que perdeu parte de seu instinto animal para aceder àquilo que chamamos desejo. Uma vez saciadas as necessidades naturais, os homens desejam intensamente, mas não sabem exatamente o que, pois nenhum instinto os guia. Não possuem desejo próprio. O próprio do desejo é não ser próprio. Para desejar verdadeiramente, devemos recorrer aos homens que nos rodeiam, devemos emprestar-lhes nossos desejos.
Este empréstimo faz-se freqüentemente sem que o recebedor nem o cedente se apercebam disto. Não emprestamos apenas o desejo àqueles que tomamos por modelo, mas uma série de comportamentos, de atitudes, de saberes, de prejulgamentos, de preferências etc., e entre outros o desejo, o empréstimo de mais graves conseqüências, que passa desapercebido.
A única cultura verdadeiramente nossa não é aquela onde nascemos, mas aquela cujos modelos imitamos na idade onde nosso poder de assimilação mimética é maior. Se o desejo não fosse mimético, se as crianças não escolhessem por modelos, forçosamente, os seres humanos que os cercam, a humanidade não teria linguagem nem cultura. Se o desejo não fosse mimético, não estaríamos abertos nem ao humano nem ao divino. É neste domínio, necessariamente, que nossa incerteza é maior e nossa necessidade de modelos a mais intensa.
O desejo mimético nos faz escapar da animalidade. Em nós, ele é responsável tanto pelo melhor como pelo pior, tanto pelo que nos leva abaixo da animalidade quanto pelo que nos eleva acima dela. Nossas discordâncias intermináveis são o preço de nossa liberdade.

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Se a rivalidade mimética cumpre um papel essencial nos Evangelhos, como explicar, vocês perguntarão, que Jesus não nos previna contra ela? Em realidade Ele nos previne, mas nós não o sabemos. Quando Ele diz algo que se opõe a nossas ilusões, não o compreendemos.
As palavras que designam a rivalidade mimética e suas conseqüências são o substantivo skandalon e o verbo skandalizein. Jesus consagra ao escândalo, nos Evangelhos sinóticos, um ensino tão marcante pela sua extensão quanto pela sua intensidade.
Como termo hebreu que Ele traduz, “escândalo” não quer dizer um destes obstáculos ordinários que facilmente evitamos depois que lhe somos atingidos uma primeira vez, mas um obstáculo paradoxal que é quase impossível evitar: quanto mais nos repulsa o escândalo, mais ele nos atrai de fato. O escandalizado põe tanto mais ardor para se lhe incutir quanto mais incutido dele estava precedentemente.
Para compreender o estranho fenômeno, basta reconhecer nele aquilo que eu acabei de descrever: o comportamento dos rivais miméticos que, proibindo-se mutuamente o objeto que cobiçam, reforçam cada vez mais seu duplo desejo. Tomando sistematicamente o contrapé um do outro para escapar da inexorável rivalidade, eles vêm sempre a se chocar com o então fascinante obstáculo que cada um é para o outro.
Os escândalos e o falso infinito da rivalidade mimética são a mesma coisa. Eles secretam quantidades crescentes de inveja, de ciúme, de ressentimento, de raiva, de todas as toxinas que são nocivas não tão-somente aos antagonistas iniciais, mas para todos aqueles que se deixam fascinar pela intensidade dos desejos de rivalidade. Na escalada dos escândalos, cada represália lhe atrai uma nova, mais violenta que a precedente. Se nada vem a detê-la, a espiral desemboca necessariamente nas vinganças em cadeia, fusão perfeita de violência e de mimetismo.
A palavra grega skandalizein vem dum verbo que significa “mancar”. Com que se parece um coxo? Com um indivíduo que perseguiria, tal qual sua sombra, um obstáculo invisível no qual não pára de tropeçar.
“Infeliz daquele por quem se dá o escândalo!” Jesus reserva sua advertência mais solene aos adultos que conduzem as crianças à prisão infernal do escândalo. Quanto mais a imitação é inocente e confiante, mais facilmente ela se escandaliza, mais culpável torna-se de abusar dela.
Os escândalos são tão terríveis que, para nos guardar contra eles, Jesus recorre a um estilo hiperbólico inabitual para si: “Se tua mão te escandaliza, corta-a...; se teu olho de escandaliza, arranque-o.” (Mt, 18, 8-9).
Os freudianos dão da palavra escândalo uma interpretação puramente sintomática. Seu prejulgamento hostil lhes impede rhecer nesta idéia a definição autentica do que chamam “compulsão de repetição”. Para tornar a Bíblia psicologicamente correta, os tradutores atuais, mais intimidados por Freud que pelo Espírito Santo, esforçam-se por eliminar todos os termos censurados pelo dogmatismo contemporâneo. Por exemplo, substituem por eufemismos inócuos a admirável “pedra de tropeço” de nossas Bíblias antigas, a única tradução que captura a dimensão repetitiva e “aditiva” dos escândalos.
Jesus não se surpreenderia de ver seu ensinamento distorcido. Ele não tinha qualquer ilusão sobre o modo de como sua mensagem seria recebida. À glória que vem de Deus, invisível neste mundo, a maioria prefere a glória que vem dos homens, aquela que multiplica os escândalos em sua passagem. Ela consiste em triunfar em meio às rivalidades miméticas freqüentemente organizadas pelos poderes deste mundo: militares, políticos, econômicos, esportivos, sexuais, artísticos, intelectuais... até religiosos.
A frase: “É preciso que se dê o escândalo” não tem nada que ver com a antiga fatalidade nem com o “determinismo científico”. Tomados individualmente, os homens não são obrigatoriamente inclinados às rivalidades miméticas mas, em razão do grande número de indivíduos que elas abarcam, as comunidades não lhe podem escapar. Desde que se deu o primeiro escândalo, este engendrou outros, e o resultado disto são as crises miméticas que não param de se difundir e agravar.

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