segunda-feira, agosto 14, 2017

Pe. Castellani - Breve introdução aos Evangelhos



Os quatro Evangelhos Canônicos (de Mateus, Marcos, Lucas e João) são os únicos documentos fidedignos que temos sobre os feitos e ditos de Cristo. Como aqui verá o paciente leitor, eles SÃO fidedignos.


I. Composição

O conteúdo dos Evangelhos constitui a Catequese Apostólica, i. e., esse conteúdo permaneceu durante algum tempo na memória dos recitadores (os nabis e meturgemanes hebreus) antes de ser fixado por escrito. A memória desses recitadores é um prodígio, e a fidelidade lhes constitui um dever profissional, uma vez que nos chamados meios de estilo oral – onde não vige a escritura e o livro não existe ou é raro – constituem a imprensa viva e os depositários do Tesouro – espiritual e moral – da raça. Cristo foi um deles.

Estes recitatores hebreus (os rabis, os nabis e os meturgemanes) não são um fenômeno especial; existiram em todos os povos na segunda etapa da vida da língua: rapsodos gregos, brâmanes hindus, poetas árabes, guslares russos, ritmadores tuaregues, menestréis da Idade Média... até nossos payadores. Sua memória não é de modo algum um fenômeno inexplicável. É o que afirma Fr. S. Krauss, psicólogo alemão investigador das faculdades mnemônicas dos guslares, por exemplo:

Os guslares são os recitadores nômades – iletrados mas decerto não ignorantes – entre os eslavos meridionais... A opinião popular atribui a esses indivíduos uma memória a primeira vista surpreendente: fala-se dalguns que sabem 30.000, 40.000 ou ainda mais de 100.000 “esquemas rítmicos”. Agora bem, por mais surpreendente que seja, o povo diz a verdade. O fenômeno é explicável: os recitativos dos guslares – parecidos com os recitativos de Homero, dos profetas hebreus, das epístolas de Baruque, de São Pedro e São Paulo, dos delicados paralelismos chineses – são uma justaposição de clichês relativamente limitados. O desenvolvimento de cada clichê é automático, de acordo com leis fixas...

Um bom guslar é o que joga com os clichês como com um maço de cartas de baralho, ordenando-os de diversas formas segundo lhe dê na cabeça. Cada guslar ademais tem seu estilo pessoal. Um desses recitadores, que ajudaram Krauss, chamado Milovan, cuja memória era apenas “ordinária”, podia recitar 40.000 esquemas rítmicos em seqüência. Instrutiva também é a seguinte constatação: em 18 de março de 1885, Fr. S. Krauss mandou recitar na presença de Milovan um recitativo de 458 esquemas rítmicos, que Milovan repetiu palavra por palavra em 4 de outubro do mesmo ano, sete meses e meio depois; nove meses mais tarde, Krauss mandou-o recitar outra vez: as variantes foram insignificantes[1].


II. Datas.
Essa catequese apostólica e rítmico-mnemotécnica se fixou por escrito entre os anos 7 e 63 depois da morte de Jesus. A data da escrita de cada um desses Evangelhos foi larga e tenazmente investigada e discutida durante os últimos séculos, sob o estímulo da crítica racionalista, que propendia a fixar a data o mais distante possível [da época de Cristo].

Atualmente a data está fixada com bastante acurácia[2], a saber – segundo a sentença de Cornely –:

Evangelho de Mateus: cerca do ano 50;
Evangelho de Marcos: cerca do ano 55;
Evangelho de Lucas: cerca do ano 60;
Evangelho de João: cerca dos anos 95-100.

Vejamos por exemplo a composição do Segundo Evangelho, segundo o testemunho de Papías – séc. I – e São Clemente de Alexandria – séc. II –:

Marcos, que era o meturgeman de Pedro, escreveu palavra por palavra tudo o que retivera de cor; não obstante, não pôs na ordem em que aconteceram os ditos e feitos de Cristo, porque não ouvira o Senhor nem o havia seguido; só mais tarde ele seguiria Pedro, que ensinava os recitativos do Senhor segundo a necessidade mas sem ordem certa, de sorte que Marcos não cometeu nenhum erro ao escrever a catequese de Pedro conforme a aprendera de memória: sua única preocupação era não omitir nada nem alterar o menor detalhe [dos esquemas rítmicos]...

Quando Pedro predicou em público a Palavra em Roma e recitou a Boa Nova sob a inspiração do Espírito, muitos dos ouvintes suplicaram a Marcos – que já o acompanhava há muito tempo [como meturgeman] e sabia de memória os recitativos – que pusesse por escrito o que ele [por ofício] repetia. Logo, Marcos escreveu o Evangelho e o entregou a quem o pedia. Pedro, sabendo disso, não se opôs à obra de seu intérprete, embora também não a estimulasse[3].

Por sua vez Lucas fixou a catequese de São Paulo, mas completando-a com acréscimos doutros recitadores – para o quê viajou para a Palestina – e esforçando-se em seguir a cronologia, à qual os primeiros Evangelhos não prestam muita atenção, pois Mateus recitou para convencer os judeus e Pedro para ensinar os romanos, de modo que na catequese dos dois a ordem lógica predomina sobre a ordem cronológica.

Já Mateus e João foram discípulos desde o começo, e portanto só tiveram o trabalho de escrever o que haviam cuidosamente aprendido por ofício e missão, e de repeti-lo sempre, como fonógrafos vivos, em suas respectivas ecclesias.

Assim a Providência usou um instrumento adequado para nos conservar a Palavra de Deus. Cristo sabia escrever mas não escreveu nenhum livro – ditoso era ele, que não tinha editores! A breve e encantadora Carta de Nosso Senhor Jesus Cristo ao Rei de Odessa, Abgaro V, é um apócrifo dos primeiros tempos, que Eusébio traduziu do siríaco para o grego e espalhou que tinha sido encontrada nos arquivos públicos de Edessa. É provável que existisse uma resposta oral de Cristo ao rei Abgaro, contemporâneo seu, cujo conteúdo passou a essa carta apócrifa, conforme os testemunhos antigos e a leitura do Evangelho, no passo acerca dos “gentios que rogavam a Cristo para que fossem vê-los”; à época ele declinara da petição, prometendo enviar-lhes os discípulos, pois “fui enviado apenas para as ovelhas que pertencem à casa de Israel”.

Cícero tinha três escravos taquígrafos que o seguiam a todas as partes tomando nota de tudo quanto dizia; já Cristo lançou os recitativos ao vento, ao menos em aparência; em realidade os depositou em receptáculos vivos, mais fiéis que um taquígrafo. Várias obras escritas de Cícero se perderam; já a Palavra permaneceu.

A pregação do Evangelho foi e segue sendo oral em essência. Os protestantes, que enclausuraram a fé num livro sagrado, são pessoas de estilo escrito e erram por limitação. Ao dar a todo o mundo licença de improvisar a própria religião a partir da leitura dum livro – difícil e intrincadíssimo – de modo que para ser religioso é preciso ser “alfabetizado”, o protestantismo em vez de popularizar a religião – não há nada mais popular que o ensino oral – plebeizou-a: a rebelião de Lutero está no começo do que hoje chamam de “a rebelião das massas”. Lutero foi “o homem mais plebeu do mundo – disse Kirkegor com amargura; ao tirar o papa da cátedra, instalou nela a opinião pública”. Pode parecer exagero, mas existe uma ligação direta – embora invisível – entre o doutor Martinho Lutero, conhecedor do hebraico, do grego e do latim e forrado de textos paulinos, e German Ziclis, por exemplo: mistura de barbárie e bazófia. Os German Ziclis sempre existiram no mundo, mas não totalmente livres, leves e soltos como agora.

Não dissemos isso para que não se leia o Evangelho; ao contrário, aqui se lê muito pouco. Dissemos para deixar claro que a religião de Cristo não foi fundada sobre um livro – como de fato nenhuma outra religião – mas sobre a pregação e a ação dum soberano nabi, que por sorte se fixou por escrito com toda a fidelidade, no entanto sem nunca deixar de ser o que foi. De fato as principais igrejas protestantes retornaram à pregação oral como principal meio de cultivo religioso.


III. Os Apócrifos

Ao lado dos quatro Evangelhos Canônicos, chegaram-nos uma boa quantidade (uns 62 segundo Fabrício e o Pseudo-Gelásio) de evangelhos apócritos – sem contar com os que se perderam – de redação posterior e anônima, e muitas vezes confusa. Apócrifo aqui significa simplesmente que não estão no Cânon dos livros sagrados: a Igreja não os reconheceu como parte da revelação cristã.

Os mais importantes são o Evangelho segundo os Hebreus, o Evangelho segundo Felipe, o Evangelho dos Doze Apóstolos, o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Nicodemos, o Evangelho do Pseudo-Mateus, o Evangelho Arábico da Infância de Jesus, a História de José o Carpinteiro, os vários Trânsitos de Maria, a Morte de Pilatos, a Vingança do Salvador [?], e a Correspondência [apócrifa] de Cristo com o Rei Abgaro. Também existem vários Atos dos Apóstolos, Epístolas dos Apóstolos e Apocalipses apócrifos. O grande crítico Constantino Tischendorff publicou em 1853 em Leipzig uma abundante coleção grega desses interessantes documentos.

Alguns desses “evangelhos” são obras de heresiarcas, que pretendiam intercalar ou defender erros; o extenso Evangelho de Valentino, por exemplo – sécs. II-III –, não tem nada em comum com os nossos Evangelhos, afora o nome, a forma externa e as personagens (Cristo, os Apóstolos, Maria): não contém relatos mas uma série de discursos que expõem uma heresia gnóstica muitíssimo extravagante, e especulações abstrato-simbólicas, análogas às dos “teósofos” atuais: Wilder, Head, Mme. Blavatzski... Para dar uma idéia dele basta transcrever uns versículos do começo:

Jesus ascende aos céus e depois descende para doutrinar os discípulos.
1. Quando ressuscitou dentre os mortos, Jesus passou onze anos falando com os discípulos.
2. E lhes ensinava sobre os lugares, não somente do primeiro mistério, que está dentro dos véus e do primeiro preceito, que constitui o mistério dos primeiros preceitos e até dos lugares do vinte e quatro, mas também das coisas que estão mais além, no segundo lugar do segundo mistério, que está antes de todos os mistérios.
3. E disse aos discípulos: Vim do primeiro mistério, que é o último mistério, que é o vinte e quatro.
4. Mas os discípulos não o compreendiam, porque ninguém havia penetrado no primeiro mistério, que é o ápice do universo.
5. E pensavam que era o fim dos fins, porque Jesus lhes falava desse mistério que diz respeito ao primeiro preceito, e dos cinco moldes, e da grande luz, e dos cinco assistentes e de todo o tesouro da luz.
6. Jesus não falara aos discípulos de toda a emanação dos próbolos do tesouro da luz, nem tampouco de seus salvadores, segundo sua ordem e modo de existência. Não lhes falara do lugar dos três “amém”, que estão espalhados no espaço.
7. E não lhes dissera de que lugar brotam as cinco árvores, nem os sete “amém”, que são as sete vozes... e os cinco círculos... e os três tríplices poderes... e os vinte e quatro indivisíveis... e os eons, que são também os próbolos do grande invisível... e os arcontes, e os anjos, e os arcanjos, e os decanos, e os satélites e todas as moradas das esferas, etc.

E prossegue assim indefinidamente por uma selva escura de mitologias extravagantes e incoerentes enfileiradas num vago esquema de filosofia neoplatônica, que deixam a impressão de que o egípcio Valentino foi tão-só um delirante atacado de mitomania religiosa. Mas o crítico (?) Edmundo González Blanco considera esse evangelho (?) superior aos evangelhos canônicos, diz que o gnosticismo foi o fundo primitivo da religião (!) e o que chamamos de Igreja – “que só existiu a partir do séc VII” – foi no começo uma confusa aglomeração de seitas gnósticas... O papel aceita tudo, e a imprensa é indiferente às baboseiras[4].

Nem todos os apócrifos são disparatados ou maus, embora nenhum ostente a majestade, a dignidade e a vívida realidade dos canônicos. Os Santos Padres se valeram dalguns deles, e vários pormenores plausíveis, que a tradição popular cristã conserva, deles provêm, como os nomes de Joaquim e Ana, a Apresentação da Virgem ao Templo, o Trânsito de Maria Santíssima, as legendas sobre seus desposórios com os detalhes novelescos que Rafael imortalizou, a história de Verônica, etc. Quiçá algumas das sentenças de Cristo recolhidas ali são autênticas. Emile Jacquier[5], depois de examiná-las, considera que existem dezessete espúrias, uma duvidosa e seis históricas.

Os melhores entre os apócrifos são reduções ou antes glosas ingênuas dos canônicos, com a intercalação de pormenores pitorescos, nem sempre dignos e verossímeis. Assim por exemplo o segundo Trânsito de Maria, cuja versão e transcrição se atribui a São Vicente de Beauvais, narra a morte da Santíssima em cinco breves capítulos piedosos e dignos, embora imaginários:

No segundo ano depois da Ascensão, estava um dia a Virgem chorando, e eis que o Anjo de Deus estava diante dela.
E a saudou e disse “Da parte de Deus, que me manda a ti, dou-te uma palma do Paraíso”.
“E a levarás contigo quando, daqui a três dias, entrares no Paraíso”.
E tendo Maria pegado a palma, que resplandecia com grande luz, foi ao Monte das Oliveiras, orou e voltou.
E eis que num domingo, quando João pregava em Éfeso, aconteceu um terremoto.
E uma nuvem levantou João e o conduziu à casa onde a Virgem estava.
Mas ele disse: “Meus companheiros e irmãos ainda não chegaram para fazer as exéquias”.
E eis que subitamente, por mandato de Jesus Cristo, todos os apóstolos foram arrebatados em belas nuvens dos lugares onde pregavam e levados ao lugar onde estava Maria...
E entre eles estava Paulo, que com Barnabé evangelizava os gentios.
E no terceiro dia, na terceira hora, abateu-se sobre todos um grande sono, de modo que só os apóstolos e três virgens ficaram acordados.
E eis que Nosso Senhor veio com grande resplendor e um sem conto de anjos.
E disse Nosso Senhor a Maria: “Vem e entra no tabernáculo da vida eterna”.
E ela se ajoelhou no solo, adorou a Deus e disse: “Bendito seja, Senhor, o nome de tua glória”.
E acabando de falar Nosso Senhor, ela se recostou no leito e entregou o espírito com ação de graças.
E os Apóstolos viram que sua alma era de tal brancura que a língua humana não poderia descrever.
E Nosso Senhor disse aos Apóstolos: “Tomai o corpo, levai-o à direita da cidade, ao Oriente”.
“E ali encontrareis um sepulcro, e a sepultareis, até que eu retorne a vós...”.

Esse poema ingênuo não menciona a Assunção; por sua vez, o Trânsito da Bem-Aventurada Virgem Maria árabe descreve a Assunção em meio a um cenário fantástico, bem como a entrada no Céu, além dalguns milagres subseqüentes, igualmente fantásticos. Trata-se duma espécie de novelinha devota, de não muito bom gosto, apesar de reverente e repleta de textos dos quatro Evangelhos. “O humilde José, filho de Khalil Nunnak, transcreveu esta história”, diz ao final; não sabemos quem foi nem quem fez a história... que é romance.

É possível afirmar que os apócrifos, embora todos se considerem histórias, são a primeira manifestação da novelística em torno de Cristo; exceto os escritos com intenção heretizante, respondem eles à curiosidade dos fiéis em conhecer detalhes que a narração séria e substancial dos autênticos calou. Não é um gênero muito recomendável: “O romance é o gênero híbrido por antonomásia”[6].

O último apócrifo que conhecemos é o livrinho em três tomos, de Heredia: Memórias dum repórter nos tempos de Cristo, glosa desbotada duma concordância evangélica qualquer, cujo objetivo ou proveito não se consegue vislumbrar por nenhum ângulo; talvez sirva para algo.

Selma Langerlöf explorou os detalhes ou os fragmentos poéticos dos apócrifos em Cristus-legenden, começando pelo milagre dos pardais de barro, que está no Evangelho Árabe da Infância, no cap. XXXVI, e que se transmitiu ao folclore cristão. Nesse evangelho árabe não há mais nada de aproveitável: está repleto de milagres grotescos (como o da “Mula transformada em homem”, no cap. XXI), irreverentes e absurdos. Mas a romancista sueca escolheu suas onze legendas com apurado bom gosto e sentido cristão.

Os principais evangelhos apócrifos saíram em espanhol na Colección de Bolsillo, do comunista Bergua, sob a direção de E. González Blanco, traduzidos – bem mal – da coleção francesa de Michel Peeters, se não nos enganamos. Um deles, o Evangelho de Taciano, não passa duma das primeiras tentativas de organizar uma concordância evangélica, mui tosca, com grandes supressões e lacunas, e uma ordem descuidosíssima, de maneira que não é propriamente um apócrifo mas um resumo e harmonia tosca dos evangelhos autênticos.

O editor e o tradutor lhes entestam de trezentas páginas da mais desordenada, indigesta e disparatada “introdução” que conhecemos: “rudis indigestaque molis – Quam dixere Chaos[7]. O sedizente “crítico” derrama nela uma erudição indigesta e inútil, vazada numa verborragia implacável e numa absoluta falta de verdadeiro sentido crítico – em suma, de qualquer ciência; e está recheada com as afirmações mais peregrinas e com o furor demolidor do típico anticlerical galego. Não honra muito a ciência espanhola, ao contrário. Se Franco a suprimiu, como me dizem, velou pela honra nacional[8].


IV. O Cânon
Chama-se cânon o elenco dos livros da Bíblia que a Igreja recebeu e conserva como de revelação divina, ou seja, inspirados. Para conhecer o cânon, basta tão-só abrir qualquer Bíblia católica: 46 livros no Antigo Testamento, e os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, 21 Epístolas Apostólicas e o Apocalipse, no Novo Testamento. Algumas Bíblias católicas acrescentam três apócrifos muito respeitados pelos Santos Padres: a Oração de Manassés, rei de Judá, e o 3º e o 4º Livro de Esdras, que são um livro histórico, e um apocalipse. Algumas Bíblias protestantes suprimem a Epístola do Apóstolo São Tiago.

Dentre os livros do Novo Testamento existem alguns chamados protocanônicos que são aceitos, desde o início e por todos, como inspirados; e os deuterocanônicos – ou posteriores – dos quais algumas Igrejas ao princípio duvidaram, e se incorporaram ao cânon posteriormente. São estes sete:

- Epístola aos Hebreus;
- Epístola de São Tiago;
- II Epístola de Pedro;
- II e III Epístolas de João;
- Epístola de São Judas Tadeu;
- Apocalipse.

Para comprovar o cânon recorre-se ao critério da unanimidade das primeiras Igrejas e do testemunho dos Santos Padres antiqüíssimos, às citações de textos reconhecidos como inspirados, e aos elencos ou listas dalgumas Igrejas que chegaram até nós, embora múltiplas ou fragmentárias, como o famoso Fragmento Muratoriano. O trabalho acerca do cânon – três séculos de pertinaz investigação e discussão – já está encerrado; já não cabem dúvidas acerca do sentimento da Igreja Primitiva em relação aos livros que estão em nossas Bíblias. Lutero repeliu a Epístola de São Tiago, chamando-a “nec divina nec apostolico stylo digna[9] de forma arbitrária e sem prova nenhuma, pois era flagrante que ela contradizia sua teologia da justificação pela fé e não pelas obras, conforme o Apóstolo diz ali ore rotundo: “A fé sem obras é morta”. Do mesmo modo repeliu como não canônicos o Apocalipse, as Epístolas ad Hebraeos e a de São Judas Tadeu. Já outros livros, como os três sinóticos, os Atos dos Apóstolos e algumas epístolas de Paulo, declarou-os “semicanônicos”, o que – significando “meio-inspirados” – é contraditório.

Quanto aos quatro Evangelhos, não resta a menor dúvida de que a Igreja sempre os considerou livros inspirados, citando-os com tal autoridade; os Primeiros Padres já citavam os quatro, chamados Apostólicos, desde o primeiro século: Clemente Romano cita os quatro nos anos 96-98; o escrito chamado Didaquê (Ensinamento), que é ainda anterior, cita três; e assim por diante até o séc. II com Santo Inácio Antioqueno, São Policarpo, Papías, São Justino, o Pastor de Hermas e outros; e também nos escritos dos hereges daquele tempo: Basilíades, Marcião e o nosso conhecido Valentino, que cita os quatro.

Talvez o documento mais importante para se comprovar o cânon seja o Fragmento Muratoriano, um códice latino do séc. VI encontrado na Biblioteca de Milão pelo erudito Ludovico Muratori, que é a transcrição dum documento eclesiástico mais antigo, cujo autor afirma ter vivido durante o Pontificado de Pio I, ou seja, entre os anos de 140-150. O documento está mutilado no começo e no fim, e escrito em latim tosco, provável obra dum gaulês; ele manifesta a crença das Igrejas ocidentais nos livros do Novo Testamento. Todos os livros do Novo Testamento estão enumerados ali – e os Evangelhos com grande distinção – exceto as Epístolas de São Tiago, a 3ª de João, a 1ª e a 2ª de Pedro, e a Ad Hebraeos, os quais poderiam constar no fragmento final do catálogo, que se perdeu. O documento distingue os livros sacros doutros escritos daquele tempo, mui venerados mas não inspirados, como o Pastor de Hermas; e professa que eles provêm do Espírito Santo: “Embora cada um desses livros evangélicos ensine coisas diversas, não são diferentes para a fé dos crentes, uma vez que um mesmo Espírito principal [autor] as proferiu” (lin. 16-20)[10].

Existem apenas três pequenos fragmentos dos Evangelhos que se podem chamar deuterocanônicos, porque faltam nalguns códices antigos e alguns críticos os puseram em dúvida:

1) O fim do Evangelho de Marcos (16, 9-20).
2) A narração do “Suor de Sangue” por Lucas (22).
3) O episódio da “Adúltera Perdoada” em João (7, 53- 8, 11).

Sabemos por Santo Agostinho a razão da omissão desta última perícope nalguns códices latinos: a antiga moral romana era tão severa com o adultério que a leitura do perdão generoso de Cristo à adúltera nalguns auditórios produzia um “choquezinho”, e talvez o que se chama de “escândalo farisaico”, motivo por que alguns sacerdotes a eliminavam, a fim de não “chocar as pessoas”... e de dar trabalho aos críticos futuros. Esse costume ainda não se perdeu, pois ainda hoje em dia vemos que alguns padres retiram partes do Evangelho que se lhes afiguram pouco “populares”; e queira Deus se contentem apenas com isso, e não ponham de escanteio todo o Evangelho e passem a pregar “sociologia”.

Não cabe aqui tratar do excelente conjunto de textos e análises com que se comprova o cânon, pois somente a conclusão nos interessa aqui. Quem queira conhecê-los pode abrir qualquer boa Introdução, das quais as melhores que conhecemos são Clodder, H.J., Unsere Evangelien (B.I, Herder, Friburgo); Zahn, Th., Geschichte des neutestamentlichen Kanons (B. i, Herder, Friburgo); E. Jacquier, Le nouveau Testament dans l’Église Chrétienne (t. I, Paris, 1911); Levesque, Nos Quatre Évangiles (Beauchesne, Paris); Rosadini, Introductio in libros Novi Testamenti (t. I, Univ. Gregoriana, Roma, 1931); Souter, A., The text and Canon of the New Testament (Londres, 1913); Wikenhauser, A., Einleitung in das Neue Testament (1952).

V. Os Evangelhos
O fato de que os quatro Evangelhos estejam e sempre tenham estado no cânon da Igreja significa para um católico, de forma direta, a inerrância desses documentos, e de forma indireta, sua integridade e historicidade, quer dizer, não chegaram até nós corrompidos e pertencem realmente aos autores aos quais se atribuíram. Todas essas notas conjuntas se chamam autenticidade dos Evangelhos.

A autenticidade dos Evangelhos a pressupôs tacitamente a Igreja Primitiva – implicitly, como dizem os ingleses, ou seja, sem nenhuma dúvida – e os séculos cristãos a aceitaram em paz; com o protestantismo começa a contenda em torno dela, que hoje em dia enche os livros de “apologética”. A rápida decomposição da teologia da Reforma – que, apesar do conservadorismo bíblico de Lutero e dos primeiros reformadores, levava em si o fermento revolucionário de per si incoercível – engendrou a crítica racionalista, que a si mesma se chamou de “a alta crítica”; no fundo, era anticristã. A autenticidade dos Evangelhos foi atacada por todos os lados, pontos e métodos, e igualmente defendida no plano científico pelos doutores católicos e protestantes crentes. Atualmente ela pertence mais à História: quem queira conhecê-la, pode encontrá-la em qualquer bom tratado de Introdução ou Propedêutica. Todos os pontos capitais, que a Tradição conservava, foram criticamente vingados um a um, às vezes através de investigações e discussões intrincadíssimas, que aqui não interessam; o acúmulo de hipóteses diversíssimas – talvez todas as possíveis – elaboradas como aríetes contra a antiga crença são agora peças de museu ou alimento de semicultos atrasados, como Lisandro de la Torre, ou de anticlericais furibundos, como o supracitado Gonzáles Blanco. Não obstante, esse trabalho de defesa e controvérsia favoreceu em definitivo o conhecimento dos livros santos e até sua hermenêutica. Talvez sem isso, por exemplo, Jousse não teria descoberto a psicologia do gesto...

“Deus abençoe os filhos de Lutero...”, diz Antônio Machado.

A nós nos compete dar aqui, à brevidade, o conhecimento direto das conclusões.


1. Evangelho de Mateus
Mateus ou Levi, filho de Alfeu, era um cobrador de impostos a serviço de Roma (publicano ou fiscal) no Lago de Genesaré. Chamado de supetão por Jesus, que estava passando, seguiu-o e lhe aderiu à escola, sendo mais tarde designado por Ele entre os Doze. Depois da Ascensão pregou seu evangelho na Judéia e arredores, o qual reduziu a escrito antes da separação dos Doze, ou seja, uns 7-17 anos depois da morte do Senhor. Quando deixou a Judéia, para onde foi e onde morreu é coisa sobre que não existe certeza histórica total, restando apenas as legendas. A tradição católica considera-o mártir, celebrando-lhe a festa em 21 de setembro.

O Evangelho de Mateus parece que foi escrito em aramaico ou hebraico vulgar, e em seguida traduzido para o grego por um homem competentíssimo: abunda em aramaísmos, embora a dicção grega esteja correta e até elegante. A versão grega se difundiu com rapidez entre a cristandade nascente, e o original aramaico não chegou a nós... se é que existiu, pois é factível a possibilidade de que o próprio Mateus tenha escrito o texto grego – contra o testemunho algo duvidoso de Eusébio (ele se queixava de Papías) que os outros Padres depois repetem – pois o grego vulgar era então a segunda língua dos palestinos, que era um povo bilingüe, como o são os catalães e os irlandeses de hoje. Mais ainda, críticos eminentes agora defendem que Cristo falou em grego. Pode ver-se na pág. 106 do De Profundis de Oscar Wilde a exposição dessa hipótese: o fino e desditado poeta irlandês se regozijava no cárcere de Reading de que ao ler a cada dia – “depois de limpar a cela e lavar as cobertas” – o Evangelho grego, lia as “ipsissima verba” de Cristo. “Para mim é uma delícia pensar que, ao menos no que concerne à conversação, Cármides pudesse escutar ao Cristo, Sócrates discutir com Ele, e Platão compreendê-lo; que Ele de fato pronunciou ‘egóo eimí o poiméen o kalós’ (“Eu sou o Bom Pastor”); que quando pensou nos lírios do campo ‘que não trabalham nem fiam’, expressou-se exatamente assim: ‘katamáthete ta krina tu argoín’, e que seu grito derradeiro, quando exclamou: ‘Tudo está consumado, minha vida está completa, cheguei à perfeição dela’, foi tão-só esta palavra única e pungente que nos dá São João: ‘telélestai’ e nada mais”.

Como quer que seja, certo é que não existiu um Protoevangelho (urevangelium) de Mateus, nem sequer na forma de “loguia Jristos” (“ditos de Cristo”), como pressupôs a ciência racionalista. Ignorantes das condições do meio oral em que surgiram os Evangelhos, acreditaram fosse necessário estabelecer uma hipotética fonte escrita comum e perdida a fim de explicar as numerosas coincidências literais dos primeiros Evangelhos. A ciência atual acha graça dessa hipótese baseada sobre um falso pressuposto, ou melhor, uma ignorantia elenchi. “Mateus não precisou de nenhuma coleção escrita de ‘Ditos’, ainda menos dum Protoevangelho desconhecido, pois seu próprio evangelho aramaico [ou grego] é em realidade o evangelho primogênito”[11]. Antes das descobertas lingüísticas decisivas de D’Udine, De Saussure, De Foucauld, Jousse e sua escola, entre outros, já o grande teólogo protestante Schleiermacher pressentira que a crítica racionalista estava no falso caminho, e ria-se “dos que imaginam que os evangelistas escrevessem num escritório coberto de notas e livros de referências”, como nós; o que equivale a imaginar São Mateus com uma máquina de escrever.

Mateus dirigiu o evangelho a seus compatriotas, e portanto sua finalidade era convencer de que Cristo de fato foi o Messias que Israel esperava; daí ele insistir tanto sobre o cumprimento das profecias, repetindo a fórmula “para que se cumprisse o que disse o Profeta” ou “conforme disse a Escritura”, citando mais copiosamente que os demais o Antigo Testamento (é possível contar em 28 capítulos 265 citações ou alusões ao Antigo Testamento) e interpretando-o com bastante liberdade e nem sempre literalmente.

A questão de se Marcos ou Lucas conheceram o Evangelho de Mateus, ou se Mateus (ou ao menos seu tradutor) conheceu o de Marcos (como opinava Grotius) tão debatida pelos partidários da interdependência – hoje em dia não faz sentido, a não ser como curiosidade. Provavelmente Marcos não conheceu o Evangelho de Mateus, mas Lucas sim; ao passo que João conheceu os três sinóticos.


2. Evangelho de Marcos
Marcos foi judeu de nação, e com seu primo Barnabé acompanhou a pregação de São Paulo, embora com abandonos repentinos e alguns atritos. Não obstante, no primeiro encarceramento de Paulo em Roma, Marcos estava com ele (Col 4, 10). Depois durante muitos anos acompanha Pedro como meturgeman – repetidor intérprete (1 Pe 5, 13). Após a morte dos apóstolos, fundou a Igreja de Alexandria, no Egito, onde governou como bispo até o martírio. A Igreja lhe celebra a festa em 25 de abril.

Marcos escreveu o Evangelho em Roma; as condições e os motivos da escrita vimo-los nos testemunhos de Papías e Clemente Alexandrino, recolhidos por Eusébio. O exame interno deste Evangelho confirma a notícia das testemunhas: ele é vivo e visual, como duma testemunha presencial; a personalidade de Pedro transparece nele; acusam-se ali as faltas e as debilidades do Príncipe dos Apóstolos, enquanto as honras faltam ou ressoam em surdina; observam-se ainda as explicações dos costumes judaicos, as traduções das palavras aramaicas, a latinização das palavras gregas, as ilustrações topográficas da Palestina... em câmbio os lugares e os costumes romanos dão-se por conhecidos; tudo indica que o documento está direcionado aos cristãos provenientes da gentilidade, em especial aos latinos.

No Evangelho de Marcos existe um episódio curioso, que não se sabe para que serve nem está nos outros evangelistas (“ápax legómenon”, como dizem os críticos), que talvez seja uma espécie de “firma” discreta do autor. Quando levavam Cristo preso pelo Horto das Oliveiras, “seguia-o um jovem, coberto apenas com um pano de linho. E prenderam-no. Mas, lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes despido”. Que quer dizer isso? Os intérpretes fizeram várias interpretações ‘místicas”, como por exemplo aquela que diz:

Mas se esse é o caminho
do que não faz, mas consente,
far-me-ei santo somente
aceitando meu destino:
o do mancebo que, mudo
com um lençol coberto
viu a Cristo que ia ser morto
e o tirou e fugiu desnudo.
Hoje Cristo vai para morrer
e testemunhá-lo, pois,
segue minha vida, depois
do desejo de viver.

Mas ninguém sabe o que literalmente significa esse passo e para que se pôs ali. Alguns intérpretes supõem que esse mancebo era Marcos que, à semelhança dos pintores do Renascimento que punham o próprio rosto no quadro – Velásquez se pintou a si como um cavalariço em a Rendição de Breda –, se comprazeu em estampar essa relação fugaz com o Cristo. Tal episódio tinha contra si o testemunho de Papías, de que Marcos “não conheceu nem seguiu a Cristo”. Contudo, ambas são conciliáveis: Papías se refere provavelmente ao discipulado, e não a um conhecimento fugaz. A mim me agrada essa hipótese, e não existe outra melhor para explicar esse fragmento; sem embargo, não lhes recomendo o que o poeta D’Annunzio fantasia sobre ela no livro Contemplazione della morte.

3. Evangelho de Lucas
Lucas foi um médico grego, de provável nascimento em Antioquia, na Síria, companheiro fiel e impertérrito do apóstolo Paulo em muitos caminhos por mar e terra, a partir da segunda missão de Troas a Macedônia até o martírio do Apóstolo das Gentes. Acompanhou-o em Roma – talvez na Espanha – e esteve com ele, incansável, durante as duas prisões: na segunda prisão “só ele”, atesta o Apóstolo (2 Tim 4, 11): “Só Lucas está comigo”. Acompanhando Paulo esteve ele em Jerusalém nos anos de 42 a 50, onde suplementou a catequese oral de Paulo, pois como meturgeman a sabia de memória; além disso, tinha notícias “recolhidas diligentemente” – como disse ele – sur place e da boca das testemunhas presenciais e dos catequistas ou recitadores: daí seu Evangelho conter muitas novidades (datas e episódios exclusivos, até parábolas) em relação aos dois primeiros. A tradição afirma que conheceu a Mãe de Jesus, e dela recebeu o relato da Anunciação do Anjo e da Infância de Jesus, que só ele nos transmite. Ainda mais, dizem que pintou um retrato da Virgem, que hoje se conserva em Santa Maria sopra Minerva em Roma: por desgraça é um retrato bastante ruim, possivelmente apócrifo, mas dele saíram as diversas descrições do “físico” da Mãe de Deus, que deleitaram os poetas cristãos:

...De estatura de cuerpo fue mediana,
rubio el cabello, de color trigueño
afilada nariz, rostro aguileño
cifrado en él un alma humilde e llana.
los ojos verdes de color oliva.
la ceja negra y arqueada, hermosa,
la vista sana, penetrante y viva,
labios y boca de púrpurea rosa...

disse Rey de Artieda. Ou aquel’outro esplêndido de Lope de Vega:

Poco más que mediana de estatura
como trigo el color, rubios cabellos,
los ojos grandes, y la niña dellos
de verde y rojo com igual dulzura.

Las cejas de color negra y no oscura
aguileña nariz, los labios bellos
tan hermosos que hablaba el cielo en ellos
por ventanales de su rosa pura.

La mano larga para siempre darla
saliendo en los peligros al encuentro
de quien para vivir quiera tomarla...

Esa es María, sin llegar ao centro,
que el alma sólo puede retratarla
pintor que estuvo nueve meses dentro.

A alma de Maria aparece em Lucas somente nalgumas frases cheias de mistério e modéstia. Não é possível retratar Maria, a criatura mais modesta e escondida do Universo, fonte selada do Criador. A devoção cristã diz que, se a formosura de Maria ficasse exposta, os homens a teriam adorado como uma deidade – é o que conta a legenda de São Dionísio o Areopagita.

O Evangelho de Lucas é o de melhor composição, o mais literário e cuidado; no entanto, seu estilo é semelhante aos outros, e conserva o traço – um pouco menos visível – dos esquemas rítmicos que caracterizam o estilo oral. O crítico Johann Perk, S.S., no livro Synope der Vier Evangelien, p. 23, escreve sobre ele estas palavras, que mostram conhecimento das descoberta da escola lingüística francesa:

Alguns investigadores consideram que a “memória” dos palestinos daquele tempo era capaz de conservar fielmente os esquemas originais, mesmo ao longo de dezenas de anos. A prova está nas centenárias transmissões orais dos rabinos e as surpreendentes memorizações dos povos primitivos. A transmissão oral possivelmente conservou com fidelidade e plasmou com exatidão os ditos e os feitos do Mestre, dos quais [os recitadores hebreus] queriam ser tão-só e exclusivamente “testemunhos” e não glosistas ou historiadores.

Lucas se serviu dessa transmissão oral, técnica e fidelíssima, auxiliado nessa tarefa pela sua própria função de meturgeman.

O Evangelho de Lucas, bem como o Ato dos Apóstolos, que também escreveu, estão dedicados a “Teófilo”, que alguns acreditam ser uma pessoa insigne, e outros dizem que é um nome simbólico, que representa a multidão dos cristãos.

Depois que muitos disseram
sobre as coisas que se passaram entre nós
dar relato ordenado –
como já nos deram a nós
os que desde o princípio as viveram
e se converteram em Servidores do Verbo –
me pareceu caber a mim também,
inteirando-me [dos fatos] com ordem e cuidado,
oh poderoso Teófilo,
pô-las por escrito e em ordem
para que tenhas fundamento seguro
do Verbo em que foste catequizado.

Assim reza o texto grego do começo do Evangelho de Lucas.

4. Evangelho de João
O quarto Evangelho é o livro mais egrégio que já saiu de mãos de homem.
A Igreja sempre afirmou que seu autor é o mesmo que escreveu o Apocalipse, o apóstolo João, que é chamado neste Evangelho de o “Discípulo Amado”. No começo do Apocalipse está escrito, à laia de título:

Revelação de Jesus Cristo
que lhe deu Deus Poderoso
para manifestar aos servos seus
o que deve acontecer em breve
e por intermédio do Anjo
comunicou a seu servo João,
que testemunhou o Verbo de Deus,
e o testemunho de Jesus Cristo:
coisas que ele mesmo viu.

Ao final do quarto Evangelho (21, 24), está escrito como firma ou autenticação:

Este é o Discípulo
Que dá testemunho disto
e que escreveu tudo isto
e sabemos que é verdade
o testemunho dele...

O penúltimo versículo crêem hoje em dia os críticos foi escrito pelos Presbíteros (ou Anciãos) da Igreja de Éfeso, como uma espécie de autenticação ou recomendação do livro às demais Igrejas.

O atropelo da crítica racionalista, ou “hipercrítica”, a este livro foi o maior de todos. O que já não disseram sobre ele e seu autor! Que o Apocalipse é um apócrifo, que o autor não é o autor do Evangelho, que o autor do Evangelho foram os anciãos de Éfeso, que foi um ancião desconhecido chamado João, que não teve autor e foi um produto “coletivo”, que é um livro teológico e “místico”, não histórico – escrito com o fim de inculcar a idéia “nova” de que o Messias Cristo era Deus; em suma, um livro “místico”, uma invenção, sublime decerto, mas irreal.

A crítica católica teve de pacientemente brigar com todas essas hipóteses, no fundo fantásticas, embora realizada às vezes com grande virtuosidade de erudição de formiga. Quem queira conhecer a briga vai encontrá-la na Introdução de P.M.J. Lagrange, O.P., no douto Comentário ao Evangelho segundo São João[12] ou noutro dos livros técnicos que traz na bibliografia. A erudição aliada ao preconceito é uma arma perigosa; um historiador erudito e preconceituoso pode obrigar a “história” a dizer o que ele quer – isso sabemos de sobra.

Fácil nos seria resumir essa intrincada controvérsia, mas aqui não convém. Um argentino que queira repelir o Evangelho, por uma necessidade de qualquer ordem, basta dizer: “São coisas de padres”, sem empreender a tarefa alemã de aprender latim, grego e hebraico e ler os livros antigos – ademais não existem muitos deles aqui – para neles encontrar os indícios e os vestígios que lhe permitam com alguma decência negar a autenticidade de João “de forma científica”; e afirmar depois, por exemplo, que o quarto Evangelho é obra dum impostor de seita gnóstica, que se disfarçou com o nome do apóstolo, sumulando-o, para enfiar nela sua “doutrina gnóstica” de matuto, como afirmava Loisy, seguindo Heitmueller – e outras fantasias do estilo.

Mas, para os homens de ciência galeses ou germanos, tudo isso já é história antiga. O grande esforço da impiedade para destruir o Evangelho certamente foi um fator real de confusão e obscuridade, contribuindo para a grande apostasia; mas hoje em dia só cai no engodo quem quiser.

Certo é que o quarto Evangelho foi recebido desde o início em todas as Igrejas como da lavra do apóstolo João, endossado com a autoridade apostólica e o testemunho de todos os contemporâneos. Não existe possibilidade de erro ou engano nalgo tão capital para os cristãos coevos. A “autenticidade” do Evangelho de João está, pois, in possessione, como dizem os juristas; por isso, são os que se opõem a ela – no séc. XIX! – que tem o dever de provar, contudo eles não provam suas negações de maneira nenhuma. Isto bastaria mas, para rematar a questão, o exame interno do escrito confirma a atribuição ao filho mais novo de Zebedeu; ademais, o testemunho unânime dos Santos Padres do séc. II e até o dos hereges daquele tempo, como os valentinianos Ptolomeu e Heracleão, além de Basilíades e Marcião, constituem uma evidência esmagadora.

Quem começasse a dizer que o livro De Bello Gallico não é de César, seria motivo do riso do mundo inteiro; por seu lado, existe um peso testemunhal muito maior a comprovar que o Evangelho de São João é do apóstolo João. Mas, como disse Pascal, se o teorema de Pitágoras impusesse aos homens alguma obrigação grave ou peso, há muitíssimo tempo já teria sido “refutado”.

João, o Discípulo Amado, galileu, foi filho do pescador Zebedeu e de Salomé, uma das santas mulheres que seguiu a Cristo até a morte – e além. Como Pedro e André, e muitos outros, seguiu primeiro João Batista, que lhe apontou a Cristo, e depois foi eleito como um dos Doze; foi testemunha ocular e ainda ator de todos os grandes episódios messiânicos. Com Pedro e seu irmão Tiago forma o grupo de comando dos apóstolos: presenciaram os três a Transfiguração, a ressurreição da filha de Jairo e a Agonia do Horto. Na Última Ceia reclina a cabeça sobre o ombro do Mestre e por sugestão de Pedro pergunta a Ele quem é o traidor; de ao pé da cruz recebe a encomenda de cuidar da Mãe Deípara. Depois de Pentecostes permanece vários anos em Jerusalém e trabalha com Tiago e Pedro na organização e difusão da primeira Igreja. Depois se estabelece em Éfeso como bispo e primeiro Patriarca – como diríamos hoje – da Ásia Menor, cujas sete Igrejas sufragâneas menciona no Apocalipse; ali forma uma escola de doutores da fé, donde sai o ancião Papías, bispo de Hierápolis, Policarpo de Esmirna e talvez o mártir Santo Inácio Antioqueno – três padres apostólicos da maior importância. No ano 14 do império de Domiciano, João é desterrado para a ilha de Patmos e, como se acredita, condenado às minas – uma tremenda condenação naquele tempo, pior que a morte, porque para os condenados o labor das minas se realizava em condições tão atrozes que levava amiúde os desaventurados ao embrutecimento, à demência e ao suicídio. A rebelião das legiões, que matou o imperador Domiciano e alçou em seu lugar o “general” Nerva, o salvou desse inferno; o Senado Romano declarou nulos todos os decretos firmados pelo “tirano deposto”. De volta à Éfeso, João difundiu seu Evangelho, escrito não se sabe em que data, mas provavelmente após os oitenta anos de idade. Morreu no começo do reinado de Trajano, com uns 100 anos de idade; a Igreja lhe comemora a morte em 27 de dezembro.

É verdade que os 879 versículos deste livrinho por sua vez simples e sublime – dividido mais tarde em 21 capítulos – constituem um evangelho espiritual, e não místico segundo o sentido de Loisy e Renan, que para eles significa inventado ou mítico. Sua finalidade é proclamar explicitamente, e com maior clareza do que os sinóticos, que Cristo foi ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ou seja, o abismo mais insondável que o intelecto humano já enfrentou, mas isso não isenta totalmente de que se trate duma narrativa estritamente histórica – e história de fonte direta, quer dizer, a crônica dum testemunho ocular.

O que era desde o princípio, o que temos ouvido,
[o que temos visto com os nossos olhos;
O que com as nossas mãos tocamos do Verbo da Vida –
Porque a vida se manifestou, e vimos, e testemunhamos,
E anunciamos a vós a vida eterna –
Que estava no Pai, e que se nos manifestou;
O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos
Para que tenhais comunhão conosco
E que a nossa comunhão seja com o Pai
E com seu Filho Jesus o Cristo;
Escrevemo-vos estas coisas para que vos alegreis
E vossa alegria seja completa.”

exclama o apóstolo na Primeira Epístola, que era provável acompanhasse o Evangelho, repetindo os conceitos do princípio e do final do próprio Evangelho.

De mais a mais João firmou propósito de complementar os três sinóticos, motivo por que seu Evangelho contém mais material novo, e é – como diria o literatismo atual – o mais “original”. Exceto na narrativa da Paixão, João não repete quase nada do que está nos três Evangelhos anteriores. Seu relato tem a vida, a viveza e o colorido dum testemunho ocular, além duma profunda e recatada ternura. Os grandes diálogos dramáticos da vida de Cristo se encontram em João tratados com a fineza dum dramaturgo; os grandes episódios da Promessa da Eucaristia seguida do primeiro cisma, as bodas de Caná e o primeiro milagre, a vida pública do Batista, a cura e o processo do cego de nascença, a ressurreição de Lázaro, a amizade do Cristo com os três irmãos de Betânia, o Sermão de Despedida e a Oração Sacerdotal da Ceia, a personalidade do traidor, o perdão da adúltera, o diálogo com a samaritana e as duas grandes contendas com os letrados – incluindo a autoafirmação de Cristo acerca de sua natureza divina – são como haustos de vento fresco no mundo, cuja excelência narrativa, sem a menor afetação de arte literária, a mão do homem não é capaz de sobrepujar.

João é o evangelista do coração de Cristo: ele o ouviu bater. O interior das pessoas e seu caráter está muito mais aprofundado em João que nos sinóticos, o que pode solucionar muitas perguntas problemáticas. São uma ou três madalenas, por exemplo? Os intérpretes racionalistas, com prurido de originalidade e mania de negar a tradição, inventaram que são quatro mulheres diferentes – ou três; daria no mesmo dizer duas ou cinco se quisessem: a “Adúltera” que Jesus salvou da lapidação, a “Pecadora” que ungiu seus pés na casa de Simão o Leproso e que o Salvador defendeu e louvou, e a “Maria” irmã de Marta e Lázaro que, em casa, sentada a seus pés “escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”; além da “Madalena” que presenciou ao lado da Mãe a Crucificação e foi agraciada com a primeira aparição. Cansados de discutir com argumentos livrescos, exegetas resolveram comodamente declará-la uma questão insolúvel.

Mas quem leia com um pouco de intuição psicológica o Evangelho de São João tem a impressão clara de que se trata da mesma mulher: seus gestos são iguais entre si, que é a impressão que a Igreja teve durante anos. Existe um refinado drama velado com discrição por trás desses episódios soltos, e sua linha psicológica é visível. Cristo se deu ao luxo de salvar uma mulher, que é a façanha por antonomásia do cavaleiro; mas não apenas lhe salvou a vida, como São Jorge ou Sir Galaardo, mas a restabeleceu na honra e a devolveu perdoada e honrada a casa, com uma honra nova que só Ele poderia dar. Na cavaleria ocidental os dois feitos essenciais do cavaleiro são combater até a morte pela justiça e salvar uma mulher:

“salvaguardar as mulheres
e não renhir sem motivo”.

diz Calderón – como nas fitas de caubóis, atual reflexo pueril duma grande tradição perdida. Cristo fez os dois, e sendo Ele o mais alto que existe, sua “dama” teve de ser o mais baixo que existe, porque só Deus levanta o mais baixo até a maior altura, que é Ele mesmo.

Cristo exerceu a mais alta cavalaria. Os românticos do século passado e os deliqüescentes do nosso têm uma devoção mórbida pela Madalena, não precisamente pela penitente – que o Tintoretto pintou com toda a gama de seus amarelos na hórrida cova de solitária –, mas pela outra, pela mulher perdida, pela traviata ou dama das camélias, de que fizeram um tema literário bastante estúpido. Até o nosso Lugones se sujou com o tema – que às vezes chega ao blasfemo – numa de suas filosofículas. Porém todos esses flibusteiros, ou filo-embusteiros, da Madalena não sabem muito: de cavalaria pouco, e do amor de Cristo absolutamente nada. “Cristo se apaixonou por uma mulher!” – dizem muitos, contentes – “Que humano!”. Sim. Cristo se apaixonou perdidamente pela humanidade perdida, e a viu como simbolizada numa pobre mulher, sobre a qual verteu regiamente todas as riquezas[13].

Dizemos isso como exemplo, a fim de caracterizar o quarto Evangelho. Concluamos com o resumo breve e preciso de São Jerônimo: “O apóstolo João, a quem Jesus muito amou – filho de Zebedeu, irmão do apóstolo Tiago, que Herodes mandou decapitar depois da morte do Senhor –, foi o último de todos a escrever, a pedido dos bispos da Ásia Menor, seu Evangelho; contra Kerinto e outros heresiarcas, em particular contra os ebionitas [heresia de forte caráter judaizante], que asseveravam que Cristo não existira antes de Maria. Por isso se sentiu forçado a provar a origem divina de Jesus de Nazaré”[14].

VI. A Questão Sinótica
Chama-se Questão Sinótica o problema que as coincidências e as divergências dos três Evangelhos acarretou para a crítica protestante; por um lado, têm eles uma multidão de frases, giros e episódios que parecem literalmente copiados; por outro, têm diferenças que chegam a ser quase contradições, como por exemplo o cego de Jericó em Marcos e Lucas, que em Mateus são dois cegos; e o milagre da cura “ao sair de Jericó” segundo Mateus e Marcos, e “ao aproximar-se de Jericó” segundo Lucas.

Este fenômeno literário chamou a atenção desde o primeiro momento: o pagão Celso, na obra contra os cristãos (Alethé Logos ou Sermão Veraz contra os Cristãos) usou-o para enfrequacer a confiança nos Evangelhos, e apodar os evangelistas de romancistas; Santo Agostinho escreveu uma obrinha para responder esta dificuldade, chamada De Consensu Evangeliorum. Mas para os antigos nunca passou duma dificuldade – que resolviam de forma mais ou menos aproximada – e jamais se converteu num problema.

Mas a crítica protestante, já de toda racionalisa e anticristã, ressuscitou Celso, e a dificuldade se tornou um problema, começando a encher os apontamentos e os manuais, até se constituir num emaranhado inextrincável. Pois bem, a psicologia lingüística atual cortou esse enredo dum só golpe: era um falso problema, uma pergunta mal feita. O que não impede que atualmente, 30 anos após a solução irrefragável, os apontamentos e os manuais sigam copiando uns dos outros “a questão sinótica”; as duas modernas Bíblias castelhanas que temos (Bover e Nácar-Colunga) ainda falam absurdamente “do paralelismo do ‘verso’” [?] hebraico, do problema insolúvel da métrica [?], da poesia [?] hebraica, das fontes escritas e perdidas do primeiro Evangelho, da dependência de Marcos para com Mateus”, etc. Tudo isso são antigualhas e penhor de ignorância. Ainda não se inteiraram. Os sábios não são curiosos.

Santo Agostinho caiu na explicação da interdependência dos Evangelhos, porque não tinha remédio: ele ignorava as leis do estilo oral e os considerava alfim livros escritos, como os de seu tempo e os seus próprios. Isto era inevitável. Assim disse ele:

... e embora cada um dos evangelistas pareça seguir a ordem narrativa própria, não obstante se observa que nenhum deles escreveu na ignorância do precedente, nem omitiu as coisas que não sabia e se encontrava noutro; mas assim como cada um recebeu a inspiração de Deus, assim também se apoiou na obra dos demais. Deste modo, Marcos parece seguir Mateus como admirador e recopilador; somente com João não há coincidências; coincide muito pouco com Lucas, mas com Mateus muitíssimo; e tem muitíssimas consonâncias, com Mateus e os demais, de frases ao pé da letra[15].

Não se poderia expôr a questão sinótica de forma mais clara, nem dar a solução mais simples... e falsa: a chamada “interdependência”.

Esta não é uma questão acadêmica, nem de mera curiosidade, nem sequer de importância subordinada – e sim capital porque, se bem vista, a questão sinótica no fundo busca a origem e o modo de composição dos livros santos, e de tal origem depende diretamente a já denominada autenticidade, ou seja, a veracidade, a integridade e a historicidade deles, i. e., o próprio fundamento da religião cristã. Mas para a fé dos séculos cristãos a hipótese – que como tal a oferece Santo Agostinho – da interdependência era o bastante para dirimir a dificuldade; de acordo com a conhecida regra lógica de que “quando uma posição está estabelecida por sua capacidade probante, nenhuma dificuldade por insolúvel que seja nos deve fazer abandoná-la”, ou como diziam os antigos, “clara non sunt mutanda propter obscura”.

Mas essa resposta – que alfim é uma aproximação da verdade – não resistiu ao ataque muito mais erudito da crítica moderna, pela mera razão de que a interdependência explica sim as coincidências mas não explica (antes torna absurdas) as distâncias entre os três documentos. Se os sinóticos copiaram uns aos outros, como permitiram em seus textos tamanhas discrepâncias, uma das quais parece resvalar na contradição? A placa pendurada na cruz (Mt 27, 37; Mc 15, 26; Lc 23, 38), o Pai-Nosso (Mt 6, 9; Lc 11, 2), a hora da crucifixão, os cegos de Jericó, os dois demônios gerasenos, as circunstâncias da tríplice negação de Pedro – todas têm diferenças de pormenor. E, acima de tudo, as palavras da instituição da Eucaristia! (Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19), em que parece dever-se-ia esperar a coincidência total e literal, têm uma diferença que, conquanto pequena, não é menos surpreendente, porque se trata das palavras sacrossantas da Consagração do pão e do vinho!

O ataque moderno contra os sinóticos produziu enorme confusão e múltiplas teorias, que se iam complicando com o avançar da discussão; é possível reduzi-las a cinco cabeças, a saber:

1. Sistema da tradição oral;
2. Sistema da interdependência;
3. Sistema dos documentos.

Este terceiro sistema se dividia por sua vez em:

1. Sistema de um documento primevo perdido;
2. Sistema de muitos documentos;
3. Sistema de dois documentos.

O sistema das “duas fontes”, propugnado pela “alta crítica” alemã (Ewald, seu inventor em 1850, Jülicher, Wellhausen, Von Harnack, Loisy, Goguel, Weiss e uma legião doutros), e para o qual confluem alguns grandes exegetas católicos (Batiffol, Lagrange), foi proibido em 1912 pela Comissão Bíblica de Roma. E não sem motivo, porque com efeito é o mais frouxo de todos[16].

Quando uma hipótese se complica mais a medida que mais se discute e descobrem fatos, é sinal de problema mal ajustado, ou seja, problema falso: esta é outra regra lógica infalível. O falso ajustamento foi rastreado por uma falange de investigadores de psicologia lingüística da escola francesa, encabeçados por Basset em 1880 (La poésie arabe antéislamique) e pelo judeu Dermesteter (Chants populaires des Afghans, em 1888), e descoberto de forma repentina por Marcel Jousse cerca de 1920. Eles estavam simplesmente discutindo sobre livros que não eram livros escritos mas transcrição de recitativos; ignoravam de todo as leis da recitação nos ambientes de estilo oral: um falso pressuposto e uma ignorantia elenchi.

A cinderela de todas as hipóteses – a da tradição oral, proposta por J. Carlos Giéseler em 1818 – era a verdadeira; mas antes era facilmente destruída pelos adversários, porque em sua ignorantia elenchi todos concebiam a recitação dum texto como nós a conhecemos em nossos meios de estilo escrito. Deste modo, sim senhor, a transmissão fiel da catequese apostólica se torna claramente inconcebível, mas a hipótese de Giéseler era uma intuição genial de algo-que-deve-ser-assim-apesar-de-por-ora-não-o-compreendermos; e é um grande mérito de Godet (1888), Wescott (1888), Thompson (1895) e de inúmeros críticos católicos: Haneberg (1856), Bisping (1864), Schegg (1870), Le Camus (1887), Fillión (1889), Cornely (1886), Knabenbauer (1870), Landrieux (1897), Buzy (1912), Dhorme (1910), Tobac (1919), receberem essa cinderela, que um dia seria a rainha. Como é certo que a verdade é inverossímil! Le Camus em 1890 com o livro Notre voyage aux pays bibliques já havia percebido a solução em linhas gerais, embora em forma de intuição e working-hypotheses, que Jousse receberia e provaria rigorosamente.

Entretanto a falange regimentada dos exegetas de profissão e de autores copiadores de “Introduções” e “Manuais” tinha encontrado um refúgio inconsistente e quase pueril para essa maçaroca, o qual chamaram de “sistema misto”: combinaram todas as hipóteses em uma, afirmando com faccia tosta que os Evangelhos procediam ao mesmo tempo da tradição oral, da interdependência e do uso de documentos. Se alguém imaginasse concretamente um livro composto dessa maneira, saia-lhe um monstro, uma quimera. “Humano capiti cervicem pictor equinam...”. A vontade de contentar a todos pode ser muito bom em política, mas é fatal em ciência. Aparentemente “eclético”, o sistema misto é risível: ao coletar em seu favor todos os argumentos em prol dos diversos sistemas – inconciliáveis entre si – o que coleta são todas as suas dificuldades; seus autores parecem o “Juiz Complacente” de Manzoni, que após ouvir o primeiro dos litigantes, exclamou: “Você tem razão”; mas depois falou o outro, e o juiz exclamou: “Você tem razão”; ao que um seu filho pequenino, que estava presente, observou: “Papai, é impossível que os dois tenham razão ao mesmo tempo...”. Disse então o Juiz Complacente: “Sabes que tu também tens razão?”.

Dá-me um pouco de pena maltratar esse “sistema”, que me ensinaram na Gregoriana e docilmente aprendi, porque “a ciência [ainda] não me tinha chamado à ordem”, como diz Kirkegor.

Quem a ciência não chama à ordem, quem não atenta no fundamento dos diversos problemas... – escreve o grande dinamarquês – logrará às vezes certa engenhosidade, “engrupir-se-á a si” pensando que entendeu tudo, emendará as contradições numa síntese oca. Mas essa usura depois se vingará, como todo bem mal adquirido, que tanto na ciência quanto na lei civil não é lícito se transforme nunca em propriedade legítima[17].

Muitíssimos há “que a ciência ainda não chamou à ordem”; alguns deles, de grande fama, me deixam pasmados: imaginemos um físico moderno que ainda não se tivesse inteirado das “Equações de Lorentz”, por exemplo. Isso demonstra a incomunicabilidade e a incoerência do estado atual da Teologia: por isso nos vemos obrigados a fazer esta exposição “to expose them”, como se diz em inglês. Jousse publicou sua pequena porém não inacessível memória em 1925, explicou-a no Instituto Bíblico de Roma em 1927, cansou-se de dar conferências sobre ela na École d’Anthropologie de Paris – onde a escutamos em 1932 –, as revistas vulgarizaram seus conceitos, os jornais anunciaram a descoberta e... Ricciotti, Nácar-Colunga, Bover, Murillo, Luis María Jiméne Font, o Pe. Leal e outro punhado de “técnicos” em Escritura ainda não se inteiraram dessa “notícia” capital para a ciência bíblica.

A doutrina da psicologia do gesto de Jousse – que não foi confeccionada adrede para resolver a falsa Questão Sinótica, mas como investigação científica pura dum âmbito muito mais geral – de passagem corta o nó górdio desse pseudoproblema dum só golpe, o que foi uma conseqüência óbvia de seu trabalho, como verá o amável leitor – ou seja, o linotipista e a datilógrafa, que talvez sejam meus únicos amáveis leitores – no capítulo seguinte.

 

VII. Aplicação da Nova Psicologia Lingüística à Crítica Bíblica

Hoje em dia a exegese compartilha da baderna do mundo atual, talvez ainda mais que as outras ciências culturais. Hegel introduziu o engodo no domínio das “Geistes-Wissenchaften”.

Atualmente as questões mais graves da exegese estão aos cuidados de homens de método científico bastante duvidoso, e às vezes de forma tão temerária que é reconfortante escutar uma ciência verdadeiramente experimental falar sobre o assunto.

A ciência experimental psicolingüística e etnográfica está claramente ao lado da Tradição, e da tradição católica mais antiga, pura e acendrada, de tal modo que se poderia parodiar a conhecida frase de Francis Bacon, dizendo: “Muita ciência experimental perto da Tradição, pouca ciência experimental longe da Tradição”.

Nos dias atuais existem exegetas que se consideram defensores integérrimos da Tradição e da Fé, às quais em realidade desacreditam e comprometem com suas baboseiras...

As pacientes e rigorosas buscas do Pe. Marcel Jousse procedem por um método objetivo e cuidadoso com os fatos – com todos os fatos. Essas buscas, ao mesmo tempo que deram razão aos desapreciados partidários do sistema da tradição oral, conseguiram os sufrágios dos mais prudentes especialistas modernos, inclusive dum exegeta tão independente e pouco submisso quanto Alfred Loisy. Um dos mais sábios membros da Comissão Bíblica de Roma dedicava há pouco um de seus estudos “ao Rev. Pe. Jousse, que por uma nova via confirma as verdades antigas”.

Esta nova via, de todo inesperada depois de tantíssimas elucubrações, parece o ovo de Colombo: é a aplicação das leis do estilo oral – cientificamente desentranhadas – dos textos bíblicos reinseridos com escrúpulo em seu meio original, e não segundo os nossos hábitos atuais e experiências de estilo escrito, hábitos que engendraram inúmeros problemas falsos, erros e negações vãs.

Uma multidão de fatos convergentes provam que os livros do Antigo e Novo Testamento são puro exemplo de estilo oral.

Para estudá-los, pois, força é reinseri-los e embebê-los em sua própria atmosfera, e não nos ácidos dos métodos da hipercrítica gráfica. Os três sinóticos não são syn-ópticos mas syn-acústicos: os olhos não tem nada que ver com eles; quem os criou foi a boca e os ouvidos – adrede treinados, diga-se.

A primeira investigação psicofisiológica será pois a dos esquemas rítmicos típicos nos quais todos os recitadores de Israel moldaram e verteram suas composições populares hebraicas.

Depois é mister estabelecer o elenco dos paralelismos-clichê (Jacó-Israel, homem-mulher, céus-terra, ánima-espírito, carne-ánima, vida-morte, sábio-néscio, etc.) que não somente desencadeiam os movimentos binários e ternários por uma espécie de automatismo quase previsível, mas que atuam na composição de acordo com uma lógica profunda, embora não seja nossa lógica greco-latina.

Enfim, convém rastrear cuidosamente os dispositivos didáticos que regem essas composições curiosas: palavras mnemotecnicamente repetidas (palavras-eixo), esquemas rítmicos variados (estrofes), esquemas complementares (recitativos Ó), entrelaçamento entre as estrofes, clichês comuns e palavras próprias... ou seja, “ápax legómena”.

Por efeito do retorno repetido, alguns paralelismos-clichê servem para distinguir os diversos gêneros que usam os recitadores: gênero teológico, gênero histórico, gênero filosófico, gênero poético...

Esses gêneros literários, é natural, não coincidem exatamente com os nossos – mais desenvolvidos e diferenciados – mas se recobrem e interferem bastante: é preciso considerá-los tal como são. Desde logo, não se pode confundir – a exemplo do costume dalguns semidoutos – o estilo oral com nossa poesia e sua rima, seus pés contados e suas regras rígidas e às vezes artificiais[18].

A finalidade dos poemas orais hebreus, se assim se quiser chamá-los, não é a produção de efeitos estéticos ou um estado de magia – “de la musique avant toute chose” seria para eles um disparate, quanto mais a definição de Dante: “una funzione retorica di più posta in musica”. A finalidade era muito mais elementar e necessária: uma composição meticulosamente ordenada, para facilitar a apreensão de memória, e guardada impecavelmente de geração em geração, para conservar os documentos vitais da raça: religião, leis, história...

Os grandes livros da humanidade – desde o Vedanta ao Poema del Mío Cid – não são livros escritos, mas postos por escrito às vezes muito depois de sua criação, quiçá a título de testemunho, a fim de verificar a fidelidade dos diversos recitadores; assim Pisístrato mandou escrever as rapsódias orais de Homero, quando se notou que na Grécia elas começavam a se corromper, i. e., a diferenciar-se entre si, por obra dos rapsodos, ou recitadores.

O estilo oral não é uma coisa pré-histórica ou arqueológica, mas está na natureza da linguagem, conservando-se em muitas partes do mundo e ressuscitando quando e onde menos se espera em áreas de estilo escrito[19].

Claudel fez uma inovação revolucionária em poesia moderna – também Walt Whitman e outros – ao usar um versículo rítmico,  rimado ou não, a semelhança da Bíblia; mas é uma imitação refinada e de segunda mão do estilo oral; Péguy está mais próximo à natura – ele inspirou o versículo de Claudel. Sem conhecer os precedentes lingüísticos, instintivamente, Péguy encontrou a frase proposicional que substituía o verso, na língua dos campesinos lutecienses, patrícios seus. A coincidência com a expressão dos povos primitivos (i. e., com a poesia em estado puro e nascente) acha-se não apenas no versículo livre e multissilábico, calcado sobre o ritmo da respiração e da emoção, que lemos em Le porche du mystère de la Deuxiéme Vertu, mas principalmente nas monótomas e potentes série de quartetos alexandrinos de Eve; suas repetições metódicas, a semelhança de ondas n’água ou sulcos de arado na terra, transcrevem o velho uso da palavra-eixo:

Il allait hériter des naufrages de Rome,
Du monde divisé dans des morcellements
Il allait hériter des naufrages de l’homme
Des coeurs subdivisés par amoncellements.

Il allait hériter des partages de Rome
D’un Empire brisé par des morcellements
Il allait hériter des partages de l’homme
D’un royaume épuisé par des ruisellements...

Il allait hériter des lourds legionnaires...
Il allait hériter des maigres mercenaires...
Il allait hériter des peuples débonnaires...
Il allait hériter des peuples centenaires...

Il allait hériter...
Il allait hériter..., etc., etc.

E assim pacientemente ao longo de quatro páginas pesadas e potentes. Péguy não sabia de nada dos trabalhos do Pe. Jousse nem das recitações orientais; limitou-se a basear suas meditações internas segundo o modo de pensamento – e de expressão – dos camponeses franceses da região de Chartres, a cuja raça pertencia.

Daqui se vê como Rubén Dario, a quem consideram “modernista” e “grande inovador da métrica” não foi nem moderno nem inovador: foi tão-só romântico, o último e o maior deles, decerto. Se de fato fosse “modernista”, usaria o metro de Walt Whitman.

“É com a voz da Bíblia e o verso de Walt Whitman, que chegaria até ti, Caçador”.

Sim, mas ele não o fez.

Quando Israel retornou do cativeiro babilônico falando o dialeto aramaico, os recitados tradicionais já não eram compreendidos no hebraico original.

Daí começa o mister dos meturgemanes ou tradutores-intérpretes da Sinagoga. Eles traduzem, ou melhor, decalcam um esquema rítmico hebraico noutro esquema rítmico análogo em aramaico ou língua vulgar.

Essas traduções orais ou targums de início não foram escritas, por escrúpulo religioso: transmitiram-se oral e muito fielmente de geração em geração[20].

São esquemas rítmicos calcados sobre a Bíblia, familiares desde a infância aos palestinos, que vão servir de thesaurum ou material comum aos recitadores judeus do tempo de Cristo. Daí a necessidade de conhecer os clichês bíblicos hebraicos a fim de bem compreender as composições orais aramaicas a que pertencem nossos quatro Evangelhos, assim como grande parte das Epístolas e o Apocalipse.

Quando as comunidades judaicas começaram a pulular em ambiente onde o grego era a língua corrente – verificou-se um segundo decalque. Ali também houve a necessidade de se fabricar alguns targums orais em grego, aprendidos de cor e depois fixados por escrito.

Assim se produziu naturalmente um fenômeno de interferência. Os clichês aramaicos que os meturgemanes aprendiam de memória se interpõem às vezes ao clichê hebraico; disso resulta quando em vez em decalques gregos absolutamente estranhos e ademais incompreensíveis, se não se acude ao clichê estranho que está detrás das palavras gregas demasiado literais, ou seja, ao dispositivo lingüístico interferente. A “obscuridade” da Escritura não é, em geral, obscuridade do original mas da tradução. Para dar um exemplo: “Tí ennoí kai soi, guinai?”, diz o Evangelho de São João nas bodas de Caná. Em grego esse clichê significa literalmente: “Mulher, e a mim e a ti quê?”. Parece uma resposta algo grosseira, ou ao menos brusca, de Cristo a sua Mãe. O tradutor protestante da Bíblia inglesa de 1524, o famoso e desditado William Tyndale, que alimentava um furor violento contra o culto da Santíssima Virgem, pegou essa resposta ao quente e a traduziu em termos desabridos: “Mulher, não tenho nada contigo”; temos o testemunho do choque que produziu essa frase, quando começaram a ler nas paróquias rurais inglesas – no tempo de Henrique VIII e por artimanha do pérfido arcebispo Cranmer – o evangelho do segundo domingo da Epifânia em língua vulgar. O povo simples não admitia que Cristo falasse assim com a própria Mãe, como não admitiria Erasmo ou até mesmo Homero em pessoa; o povo simples tinha razão instintivamente, contra os pedantes que “sabiam grego”.

O modismo aramaico original, que está por trás das palavras gregas, segundo hoje dizem os peritos, não tem necessariamente um sentido de reprovação ou repulsa, mas se costuma usar de forma sorridente e humorística, como se disséssemos em português: “Mãe, não arrumemos encrenca agora, a minha hora ainda não chegou”. Mas a Mãe entendeu o sorriso e não as palavras, ao modo das mulheres, e sem falar uma palavra a mais, fez com que Cristo adiantasse sua hora. Desde então até agora, com respeito a sua Mãe, Cristo sempre esteve com o relógio adiantado.

Multiplicar-se-iam os exemplos. O Novo Testamento não está composto de palavras mas de clichês ou frases feitas. Em realidade toda língua se compõe de frases. Quando alguém me diz, por exemplo: “Veja, senhor, o armazém do Joaquim não fica neste quarteirão; dobre a esquina e desça a rua das Pedras”, acredito que percebo uma fileira de palavras – mas de fato não é assim – porque já as li e estou acostumado – e farto – de ler e escrever. Mas se ponha diante dum forasteiro... que não esteja familiarizado com a língua; ele nos dará o testemunho de que ouviu o seguinte:

Vejasenhoroarmazémdojoaquim
Nãoficanestequarteirão
Dobreaesquinae
Desçaaruadaspedras.

E muito melhor que um estrangeiro, seria expô-lo a um dos delicados aparatos fonéticos e gravadores, inventados pelo Pe. Rousselot.

Pois bem, muito mais ainda e de forma mais perfeita, a língua dos meios de estilo oral se compõe de frases; e essas em geral são pré-fabricadas com grande perfeição e manejadas por todos com grande uniformidade, como os campesinos de Castela ou da Toscana manejam seus refrães.

“As pessoas que se habituaram a considerar a palavra solta como uma unidade psicolingüística real [quer dizer, todos nós] – escreve L. Leroy – ficam totalmente desorientadas quando se lhes ensina que existem linguagens, como a dos chineses por exemplo, em que não existem palavras propriamente ditas...”[21].

Agora é mui fácil compreender o que aconteceu com as várias espécies de targums – pois os targums rabínicos e talmúdicos de antes de Cristo sofreram o mesmo processo dos Evangelhos – nas mãos de dois ou três meturgemanes diferentes. Os clichês, digamos, aramaicos não são sempre traduzíveis de forma idêntica em grego, e em latim menos... Sabe-se que as diversas línguas não recobrem umas às outras com exatidão e que toda língua possui palavras privativas suas que não tem equivalente exato noutras, sendo possível traduzi-las em várias palavras ou apenas com uma paráfrase, como por exemplo a palavra matter em inglês. E vice-versa: frases inteiras há que podem se verter com uma só palavra doutra língua, como mise-en-page: paginação, por exemplo[22]. Daí dois ou três meturgemanes podem verter em grego de dois ou três modos diversos um mesmo clichê aramaico, donde “simplesmente” se origina o famoso “mistério” da Questão Sinótica; “a assombrosa coincidência e a mais assombrosa dissidência” que assombrou tanto Santo Agostinho e a tantas gentes mais: se não se leram entre si, é impossível que coincidam tanto; e se se leram entre si, que discrepem tanto Mateus, Marcos e Lucas. Não se leram mutuamente, mas ouviram os três o mesmo recitador[23], memorizaram-no e depois decalcaram em grego o que retiveram fielmente de memória. O Pe. Jousse fez o experimento de tomar dois textos sacros em grego, paralelos e diferentes, e os transpôs novamente ao aramaico: os sinônimos desaparecem e as divergências se dissipam na convergência duma única expressão aramaica...

Nesse meio de puro estilo oral aramaico nasce, desenvolve-se e ensina um rabi de Nazaré – Jesus, o Messias.

Falando para pessoas araméias, de estilo oral, explica sua instrução divina em improvisações didáticas, segundo o uso dos demais rabis instrutores de seu tempo – e também dos de antes e depois desse tempo, decerto; como estas por exemplo:



Improvisação didática do Rabi Elisha Ben Abuyah

Recitativo 1
1. Todo aquele que aprende de menino
A que coisa se assemelha?
À pluma com tinta que escreve
Sobre um pergaminho novo...

Recitativo 2
2. Todo aquele que aprende de velho
A que coisa se assemelha?
À pluma com tinta que escreve
Sobre pergaminho raspado...




Improvisação didática do Rabi Josef Bar Juda

Recitativo 1
1. Aquele que aprende dos jovens
a que coisa se assemelha?
2. A um homem que come uvas verdes
e bebe o vinho no lagar.

Recitativo 2
1. Aquele que aprende dos velhos
a que coisa se assemelha?
2. A um homem que come uvas maduras
e bebe o vinho com soalheiro.


Improvisação didática do Rabi Jesus, o Messias.

Recitativo 1
1. Não acumuleis para vós
Tesouros na terra
2. Onde a ferrugem e a traça os consomem
Onde os ladrões cavam e roubam.

Recitativo 2
1. Mas acumuleis para vós
Tesouros nos céus
Onde a ferrugem e a traça não os consomem
Onde os ladrões não cavam nem roubam...
......

Recitativo 1
1. Quem ouve esta palavra e a pratica
é semelhante a um homem sensato
que edificou a sua casa sobre pedra.
2. E vede que a chuva caiu,
As torrentes se desataram...
3. E sopraram os ventos
E investiram contra a casa...
4. E a casa não foi derrubada
Porque estava fundada sobre pedra.

Recitativo 2
1. Quem ouve esta palavra e não a pratica
É semelhante a um homem néscio
Que edificou a sua casa sobre areia
2. E vede que a chuva caiu,
As torrentes se desataram...
3. E sopraram o ventos
E investiram contra a casa...
4. E a casa foi derrubada
E sua ruína foi tremenda.

Esses são recitativos simples, que os evangelistas conservaram em sua pura forma aramaica. Qualquer pessoa observa que são fáceis de memorizar: a única mudança são umas poucas palavras, e as que não mudam são clichês ou estereótipos que os ouvintes conheciam d’antemão e usavam continuamente na conversação, à laia de refrãos ou frases feitas.

Esses são recitados simples, dizíamos, conservados quase literalmente pelo meturgeman, talvez um pouco abreviados. Noutros o decalque grego modificou ou resumiu um pouco os recitados, mas um entendido pode reconduzi-los facilmente às leis de sua forma original. Cristo devia ser um mestre nessas composições orais, uma vez que as pessoas exclamavam ao ouvi-lo: “Verdadeiramente, nunca ninguém falou como este homem”.

Depois da Ascensão, os apóstolos provavelmente em comum – no Cenáculo – inseriram os discursos (gregos ou aramaicos) de Cristo num contexto histórico que se compunha também dos clichês tradicionais: isso constituiu o que se chama desde há muito (os Santos Padres conservaram o nome) a “Catequese Apostólica”. Depois, na predicação oral na Palestina, entregavam aos fiéis um ou vários – segundo a necessidade – desses recitados históricos ou doutrinais. São João se dedicou sobretudo aos discursos mais espirituais do Mestre; os outros apóstolos transmitiram de preferência os discursos do gênero parábola e do gênero apocalíptico ou moral, de acordo com os ouvintes e sua idiossincrasia.

Quando da doutrinação dos povos de língua grega, traduziram-se do grego as costumeiras fórmulas aramaicas; o próprio Cristo não as traduzira, já que pregava num ambiente palestino bilingüe. O que se traduzia não era um papel escrito, mas a palavra escutada e retida. Os apóstolos (Pedro, Mateus, João, Paulo) recitavam em aramaico; seus meturgemanes ou repetidores-tradutores (João, Marcos, Tito, Lucas, Barnabé) escutavam e decalcavam, oralmente, em grego vulgar. Um meturgeman não necessita traduzir a-medida-que, como nossos tradutores: pode esperar o fim do recitado, que se imprime em sua memória e seus músculos laringo-bucais maravilhosamente treinados.

Agora bem: algumas palavras aramaicas de som idêntico (homônimos) ou quase idênticas – por causa da degradação fonética das guturais e das sibilantes, estudada por Jousse – eram vertidas para o grego já num sentido já noutro, segundo o entendimento dos intérpretes.

Em primeiro lugar, temos algumas variantes que afetam o sentido dos recitados, e que se transmitiram aos Evangelhos.

Em segundo lugar, supondo que o intérprete não duvida do sentido exato da palavra que vai decalcar, é possível que suas traduções, por mais fiéis que queiram ser, não sejam idênticas, mas apenas sinônimas: sabe-se que toda língua possui certo número de sinônimos, que a perícia ou o gosto do falante excogita. As expressões gregas excogitadas pelos intérpretes pertenciam a esse dicionário vivo e comum, composto pelas versões gregas do Antigo Testamento, dentre as quais a Septuaginta era a mais usada; esse dicionário era bastante rico para prover inúmeros clichês sinônimos. Os dois intérpretes apostólicos, Marcos e Lucas, porque travavam relações mútuas e vinham de ambientes idênticos, tinham o mesmo modo de decalcar oralmente e compartilhavam clichês em comum; outros, como Mateus, ou quiçá seu intérprete, empregavam fórmulas diferentes mas equivalentes, que são também tradicionais.

Daí temos a coincidência literal dos Evangelhos, e a outra forma de divergência, que tange não ao sentido mas às expressões.

Esses fatos, expostos aqui em ordem cronológica, não foram encontrados nessa ordem pelos pesquisadores, mas em sentido inverso. A tradução (ou transposição) para o aramaico das perícopes paralelas do Evangelho, obra de especialistas, revelou que elas se fundiam numa só; desaparecidas as divergências aparentes, dissipava-se o “mistério” da Questão Sinótica. Esse foi o ponto de partida para uma enfiada de estudos sobre a psicologia do estilo oral, e a psicologia da expressão humana em geral, que chegaram até a análise da mais íntima das linguagens e de seus elementos constitutivos, suas leis naturais e etapas de evolução no mundo. Estabeleceram-se assim os cimentos dum novo e importante ramo da psicologia.

Durante algum tempo, os erros continuam sua jornada: os erros têm sete vidas, vaso ruim não quebra. Ainda chegam até nós, por exemplo, observações sobre o “estilo abrupto e deslocado” das epístolas de São Paulo, ou sobre sua “incoerência” ou “obscuridade”. Mas se se retranspõe para o aramaico o grego de São Paulo, ficamos na presença duma palavra magnificamente harmonizada e ordenada, segundo as leis características do estilo oral aramaico. Aldous Huxley considera os recitativos dos profetas hebreus (e os salmos de Davi) escritos “bárbaros e brutais”; mas se postos no contexto lingüístico são decerto mais finos e equilibrados que as poesias inglesas que ele (por desgraça) escreveu. Poderia trazer aqui toda uma antologia de disparates vertidos sobre a “literatura” ou a “poesia” antiga, por autores que sequer suspeitam que não existe “literatura” ou “poesia” no sentido que eles entendem, mas outra coisa da qual nada sabem. O sábio Noeldeke, por exemplo, repreende e condena severamente a Mafoma e seu Corão, cuja única culpa é a de não saber regras poéticas e literárias que lhe são muito posteriores, e que lhe querem impingir a posteriori: “A maior parte do Corão é decididamente prosaica – disse o sábio anglo-sueco – e em várias ocasiões ostenta um estilo afetado e melindroso. Naturalmente em temas tão variados, não podemos esperar que cada parte seja de igual modo brilhante e poética... Um decreto sobre o direito de herança, ou um ponto sobre ritual, deve por força se expressar em prosa [?], para que não se torne incompreensível. Ninguém se queixará de que as leis civis do Êxodo ou o ritual sacrificial do Levítico careçam do fogo de Isaías ou da ternura do Deuteronômio [?]: mas a falta de Mafoma consiste numa submissão servil e obstinada a uma forma semipoética[24] que no começo adotara para agradar o seu [mal] gosto pessoal e de seus ouvintes. Por exemplo, emprega a rima[25] ao tratar dos temas mais prosaicos, produzindo dessa maneira o efeito desagradável[26] dum desacordo entre o fundo e a forma [!!!]”[27]. Ouviu o galo cantar, mas não sabe onde; fala do Corão como um cego fala das cores.

Os mesmos malentendidos garrafais estão presentes também no Pe. Cladder, ao falar da Epístola de São Judas Tadeu; em Reville, ao tratar das de São Paulo; em Loisy, ao examinar o Apocalipse... Nos “prolegômenos” dum texto crítico ao Novo Testamento que um célebre autor publicou na Espanha lemos: “In poeticis Veteris Testamenti citatis, ubi commodum est, rhytmica [sic] dispositio adhibita est. Similis conformatio visa est opportuna in rhythmicis quidusbam Quarti Evangelii, Paulinarum Epistolarum, Apocalypseos pericopis exhibendis...”. Pelo visto, o autor acredita que a Bíblia foi composta parte em verso e parte em prosa. Examinando no texto as partes transcritas em “rhytmica dispositio”, vê-se que para ele todo o Velho Testamento está em verso, e o Novo Testamento quase todo em prosa... Sancta simplicitas!

Seguindo Pitágoras, admitiu-se durante 2000 anos que o movimento circular era o mais perfeito, e portano os astros deviam realizar um movimento em círculo. Desgraçadamente os astros não pareciam preocuparem-se muito com a regra do mais perfeito; por isso, a fim de submetê-los a ela os astrônomos antigos tiveram que lhes infligir as duas “primeiras pressuposições simples” – como disse Ptolomeu – dos epiciclos e das excêntricas, que começaram a se complicar tanto que já não era possível levá-la adiante, até que veio Copérnico e eliminou o falso pressuposto: os astros não seguiam o movimento “mais perfeito” de Pitágoras.

O descobrimento e o estudo das leis do estilo escrito têm nesta matéria o efeito de Copérnico. Assim como os epiciclos e as excêntricas são para nós apenas antigualhas curiosas, assim a Questão Sinótica com suas intrincadas hipóteses – “problema arduum et salebrosum”, como acredito o chama Rosadini – a questão da versificação hebraica, e as máquinas de guerra dos racionalistas contra a autenticidade dos Livros Santos – tudo deve ir parar no museu junto com o Flogisto, a Pedra Filosofal e os Espíritos Animais...

Uma vez que é possível comprovar a composição oral aramaica e a partir dela, graças à memorização invariável que é própria ao estilo oral, pode-se remontar a seus autores – a autenticidade dos Evangelhos, que os séculos cristãos desfrutavam em paz, ficou cientificamente corroborada. Alguns sempre a negarão, sem dúvida, mas essa negação já não poderá invocar para nada o nome da “Ciência”.

Estamos mais seguros de que o conteúdo dos Evangelhos procede de Cristo e chegou fielmente a nós, do que se Cristo lhes escrevesse à máquina, mandasse-os imprimir e lhes corrigisse as provas. O Messias os depositou numa multidão de imprensas viventes, que com zelo se controlavam umas às outras; esse povo de recitadores constitui uma massa esmagadora de testemunhas, uma falange de inspetores[28] e corretores, e um controle de segurança inexistente para qualquer autor que nos dias de hoje imprima livros. Eu tenho certeza absoluta de que as cinco Grandes Odes de Paul Claudel não as escreveu André Gide nem George Suarés; porém tenho ainda mais certeza de que o Evangelho de São João não o escreveu um gnóstico obscuro do séc. II que se disfarçou com o nome do apóstolo, como fantasiou Loisy.

Assim quis a Providência nos conservar o livro mais precioso que já andou nas mãos dos homens[29].


VIII. O Texto
O homem comum que abre um Novo Testamento comum não pode imaginar a montanha de trabalho que há por trás desse texto, seja bem ou mal impresso, que custa pouco dinheiro, quando não o dão de graça.

É um livro que já tem perto de 2000 anos de história e de vida, e vida é movimento.

Como sabemos que este texto que leio está em conformidade com o que escrevera o autor, que não está modificado ou corrompido?

A essa pergunta responde a crítica textual, que é uma ciência delicadíssima, ou melhor, é uma tekné ou arte complicadíssima, que hoje em dia está no fastígio do refinamento – e até do bizantinismo. Em matéria de complicação, a arte de fazer mosaicos é um brinquedo de criança ao lado desta, que faz mosaicos de palavras, variantes e textos.

Os originais dos Evangelhos se perderam há muitíssimo tempo; entre eles e as cópias mais antigas que possuímos, em média há um lapso de 250 a 300 anos[30]. Muito maior é o lapso entre as tragédias de Sófocles e seu códice mais antigo – uns 1400 anos. Mas a dificuldade com os Evangelhos é maior, porque de Sófocles só possuímos uma centena de cópias, bastante semelhantes entre si; dos Evangelhos, uma infinidade, e bastante discordantes.

Existem cerca de 4105 manuscritos gregos, maiúsculos, minúsculos e fragmentários (papiros, velinos, pergaminhos, palimpsestos) esparramados pelas grandes bibliotecas do mundo; destes, uns 167 estão completos e contêm todo o Novo Testamento. No que respeita à versão latina, que hoje em dia chamam de Vulgata, existem uns 30.000 manuscritos, segundo o cálculo máximo de Dom de Bruyne, número que outros críticos reduzem à metade ou menos. Existe algo como um milhar de manuscritos doutras versões antiqüíssimas, veterolatinas, siríacas, coptas, armênias, etiópicas, árabes, eslavas e góticas. Existem inumeráveis citações mais ou menos literais dos Evangelhos nos antigos escritores eclesiásticos. Agora bem, nenhuma dessas cópias coincide exatamente com outra: não há dois manuscritos iguais. Calculam-se as variantes em torno de 250.000.

Esse é o problema da crítica textual dos Evangelhos, e esse é o material imenso que há de manejar numa espécie de xadrez cada vez mais complicado, para lograr sua finalidade que é, simplesmente falando, reconstruir à força de paciência e inteligência o texto original.

Agora vou atrever-me a dizer uma coisa ousada: nunca o conseguirão. Como resultado da incursão que – durante meus estudos – empreendi nos livros intrincadíssimos dos grandes críticos atuais, fiquei com essa clara impressão, que só fez crescer com os anos.

Os três maiores sistemas da crítica textual atual, pois há muitos – o de Wescott-Hort, o de Burgon-Miller e o de Von Soden, que são complicadíssimos e se erigem um ante o outro –, não conseguem destruir-se mutuamente por mais argumentações que arrolem; portanto, limitam-se a se considerar entre si como prováveis. Parece impossível ir para além desses sistemas em volume de material recolhido, engenhosidade conjetural e lógica argumentativa.

“As opiniões dos críticos são mais divergentes que nunca: o campo da investigação permanece aberto, e o problema não está sanado”, conclui o abade E. Jacquier ao final do VI tomo de seu mui completo e sólido epítome do Novo Testamento que está diante de nós[31], editado em Paris (Gabalda, 1911).

Isso pode desalentar e até desesperar algum desprevenido: “Portanto, não temos nem teremos nunca um texto puro dos Evangelhos, em que se funda a pregação e a fé cristã!”. Não, console-se: o texto que possuímos é substancialmente puro: nenhuma coisa fundamental da fé, nenhum ponto de dogmática existe que não esteja apoiado em textos absolutamente seguros, indiscutidos e indiscutíveis, e às vezes repetidos em vários lugares diferentes. É o resultado, de per si enorme, de muitos séculos de trabalho científico encarniçado e do suor de inumeráveis sábios: Wescott e Hort, por exemplo, a fim de estabelecer seu texto crítico – o melhor que existe atualmente –, trabalharam 25 anos baseados no trabalho de todos seus predecessores a partir do séc. IV, em que começa a crítica textual com São Jerônimo e Orígenes.

De modo que quem hoje em dia possua o Nestle grego – com que eu trabalho – ou o texto latino da Vulgata Clementina, publicada por Fillion ou Hetzenauer, por exemplo, pode ficar tranqüilo de que tem, no que há de fundamental, o texto que escreveu Mateus, Marcos, Lucas e João. As variantes sobre as quais os críticos se curvam não são divergências de fundo mas de forma: de estilo, de gramática e de sinônimos, bem como de interpolações, supressões e mutações pequenas e não essenciais.

Para dar um exemplo singelo, retirado do começo desses trabalhos de purificação, vejamos as correções críticas que São Jerônimo fez da versão ítala do manuscrito Brixiano, que serviu de base para sua grande revisão, da qual provém – depois de muitíssimas vicissitudes, avanços e retrocessos – nossa atual Vulgata Latina, aprovada pelo Concílio de Trento.

Abrindo ao azar, Mateus, cap. VII:

Vulgata
1. metietur
2. trabem in oculo tuo
3. trabes
4. mittatis
5. forte
6. disrumpant
7. invenit

Brixiano
1. remetietur
2. in oculo tuo trabem
3. trabis
4. miseritis
5. quando
6. dirumpant
7. inveniet, etc.

A correção 1 é um verbo mais simples; 2, uma inversão eufônica; 3, um erro de ortografia; 4, um tempo de  verbo mais direto; 5, um sinônimo; 6, um erro de ortografia; 7, tempo verbal mais direto. E assim em diante: todas são apenas correções de boa latinidade. Nesta página que está diante de mim só há uma variante que muda o sentido, ao final:

ea assimilabitur

eam similabo eum

Para decidir-se pelas variantes de sentido, Jerônimo se amparava dos manuscritos gregos e de sua grande inteligência e experiência de Escritura.

Como foi possível a produção de tantas variantes? A Vulgata Clementina, publicada em 1592 por Clemente VIII, tem mais de 3000 variantes em relação à Biblia Sixtina, publicada por Sixto V em 1590, na qual trabalharam quatro papas. Ora, quem corrompeu os textos?

Imagine o leitor um livro copiado à mão num rolo de papiro de 9 metros ou num códice de pergaminho ou velino: o escravo copista ficava com o exemplar sobre os pés e a cópia sobre os joelhos – como mostra uma antigo afresco romano –; baixava a vista ao exemplar e escrevia à lufa-lufa; ademais, nas casas ricas, havia vários escravos copistas ou taquigrafai, para os quais um “ditante” (anagnoóstees) lia em voz alta, e um “corretor” (diorthoóthees) corrigia em seguida as cópias.

Mas este era o pior de todos; os corretores daquele tempo tomavam grandes liberdades, a exemplo dos que agora chamamos linotipistas instruídos: são eles os principais autores das variantes, que podem ser culpáveis ou não-intencionadas.

As variantes culpáveis não são problema; são as que os heresiarcas – como Basilíades, Valentino e Marcião – introduziram com intenção herética, que os Santos Padres denunciaram tantas vezes[32]. Não são problema, porque a vigilância da Igreja e as contínuas denúncias dos Santos Padres[33] não as deixavam demorar-se no texto, de que eram em seguida expurgadas: nem uma só delas chegou a nossos textos atuais. Sabemos que existiram graças aos escritos dos Santos Padres.

As variações não-intencionais foram as que deram tanto trabalho. Elas surgiam de dois modos:

1. O copista omitia os sinais de pontuação, os acentos, os espíritos ou as barras – era algo muito comum nos manuscritos. A dificuldade existente sobre a hora da crucificação, v. gr., provavelmente provém da simples omissão da barra do digama (F), letra grega que significa seis, enquanto que a letra gama (Г) significa “três”. Hoje lemos em Marcos 15, 25, que crucificaram Jesus “à hora terceira”, ao passo que em João 19, 14 se diz que Pilatos mostrou Jesus aos judeus “à hora sexta”, o que não combina. A melhor solução dessa dificuldade deu-a São Jerônimo e muito simples: os dois Evangelhos tinham um digama (hora sexta); a segunda barra dum digama estava ou foi borrada; o copista não a viu ou a omitiu por distração. Com efeito, a tradição da Igreja reza que Cristo foi crucificado depois das 12, e morreu perto das 15 horas.

2. Erros de distração em casos gramaticais, ou então omissão de palavas; palavras escritas juntas, o que é comum nos manuscritos originados dum ditado, que o copista escrevia tal qual o ouvia – ver pág. 26 –; palavras salteadas ou substituídas por outra totalmente diferente, na qual estava pensando o copista distraído.

3. O copista omitia uma palavra que não entendia[34]; como a palavra déutero próotoo, suprimida no Códice Sinaítico, no Códice Vaticano, no Códice L e em vários minúsculos.

4. O copista introduz palavras explicativas (interpolação, o que é mais grave).

5. O copista omite ou acrescenta pronomes, põe palavras usuais no lugar dos arcaísmos, emprega uma palavra sinônima que lhe pareça melhor...

6. O copista muda um texto que não entende por outro que lhe parece mais claro, ou uma palavra que lhe parece obscena por outra mais descente – como é o caso da palavra zamah do Cântico dos Cânticos, que tanto trabalho deu ao Frei Luís de León.

7. O copista assimila inconscientemente dois clichês orais equivalentes. Já vimos como e porquê esse fenômeno acontece.

O resultado de todas as variantes foi já no séc. IV o desespero de Santo Agostinho ante as inúmeras variações dos manuscritos latinos (“codicum infinita varietas”) que pululavam em grande quantidade em todo o Império, da África – onde surgiu a primeira versão latina – até a Bretanha; o papa São Dâmaso encarregou São Jerônimo, que vivia na Palestina, duma nova tradução e correta do grego.

Diz-se comumente que São Jerônimo “traduziu a Bíblia inteira do hebraico e do grego para o latim”. É um erro. Em primeiro lugar São Jerônimo contrapôs a São Dâmaso: “Se temos de confiar nos exemplares latinos, diga-me quais, pois os textos são tantos quantos os códices; devemos valer-nos do texto grego... mas então há de se fazer um trabalho crítico prévio, pois os manuscritos também estão cheios de variantes...”[35]. Acabou que começou o trabalho rezingando, como era de costume – neste caso, com muita razão.

São Jerônimo temia com razão a revolta da “opinião pública”, se produzisse um texto diferente daquele que os fiéis se acostumaram a ouvir em suas “igrejas”, e sabiam de memória – como de fato aconteceu[36].

Traduziu do hebraico muitos livros do Antigo Testamento e revisou outros; não encostou no Livro dos Salmos. Do Novo Testamento só fez uma “revisão” cuidadosa ou correção, e uma completa nos Evangelhos de Mateus e Marcos e na primeira parte de Lucas. Na segunda parte de Lucas e no Evangelho de São João, Jerônimo se limitou a corrigir o estilo, conservando o texto do Brixiano, que considerava limpo. Não obstante, recebeu as críticas mais álacres de pessoas, a quem chamou de “cachorros ladradores” (“canes ululantes”). Na carta XXVII, Ad Marcellam, Jerônimo chama os críticos de “burricos com dois pés”, e lhes aplica o provérbio romano: “Não toques a lira ao burro”, insultando-os com afabilidade. No Prefácio ao Livro de Jó se queixa dos críticos, dizendo que “se corrijo, chamam-me de falsário; se não corrijo, sou um semeador de erros”. Ele também repreende com acerba aspereza Santo Agostinho que, intimidado com o burburinho, exortava-o a abandonar a tradução do Antigo Testamento. Esses santos antigos não eram muito santarrões[37]. Apesar da aprovação papal, em todos os lugares resistiram à Vulgata de São Jerônimo – chamada assim depois do Concílio de Trento –, recebida sem muito entusiasmo; os romanos no séc. IV ainda preferiam a “ítala” a ela. Mas São Patrício o Irlandês já a citava no séc. V; na Espanha Santo Isidoro de Sevilha a impôs no séc. VII. Contudo, Estrabão no séc. IX diz que ela ainda não era universal na Igreja Romana ocidental.

Enfim propagada em toda a Europa, já durante a Idade Média começa um processo de corrupção textual em razão dos copistas “dorminhocos”, como disse o Dálmata, de modo que nas Escolas, ao lado da Bíblia, escreviam-se suplementos chamados “Corretoria”, às vezes livros inteiros, com as correções. Assim, pois, prosseguem os dois fenômenos paralelos, as variantes e o trabalho crítico textual.

A Universidade de Paris quis adotar um texto seguro, mas errou na eleição; o grande físico e especialista nas Escrituras Rogério Bacon assegura em 1268 que o Textus Parisinus estava “horrivelmente corrupto”. Primeiros os dominicanos e depois os franciscanos intentaram purificá-lo, com mau método e má sorte: retrocederam a pureza textual para aquém de São Jerônimo, adotando variantes viciosas e interpolações que o santo já expurgara. Assim, quando em 1456 apareceu a primeira Bíblia impressa – a de Gutemberg e Peter Scheffler, ou bem Johann Fust – a hoje chamada Bíblia de Mazarino, o texto estava defeituosíssimo. Reproduziu-se esse texto copiosamente até 1515. A primeira tentativa crítica séria foi obra dum homem de nossa raça: o cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, com sua Bíblia Poliglota de Alcalá, no ano de 1517, em que aparecem cara-a-cara os textos hebraico, grego e latino para o Antigo Testamento, e o grego e o latino para o Novo Testamento. O texto da Vulgata está ali muito melhor que o das edições precedentes, sem estar de todo puro. Os quatro “doutores” de Alcalá (Astúñiga, Núñes de Guzmán, Demetrios Ducas o “grego”, e Antonio de Nebrija, o grande gramático) corrigem a Vulgata jerominiana cortejando-a com códices gregos “antiqüíssimos e castigadíssimos”, enviados pelo Papa Leão X.

Naquele tempo, como efeito da queda de Bizâncio, chegaram ao ocidente muitíssimos manuscritos gregos, iniciando-se uma nova trama na crítica textual com Erasmo, Roberto Estienne e outros.

Erasmo de Roterdão, espírito inquieto e agressivo, contratado por Lady Margaret (a mãe de Henrique VIII) para ensinar em Cambridge, elaborou em sua torre gelada do Queen’s College – onde durou apenas um ano e meio – o livro Novum Instrumentum, que surtiu um efeito portentoso, sendo qual um rastilho de pólvora que fosse desmembrar a Europa: tratava-se dum apelo ao texto grego da Escritura, dum repúdio desdenhoso à Vulgata jerominiana... e do começo da “alta crítica” moderna – trabalho de corrosão de que os rebeldes e os reformadores, que começavam a fervilhar na Alemanha e em todo o norte da Europa,  servir-se-iam contra a Igreja Romana.

Tirando partido do conhecimento do grego, então mui raro, Erasmo tem a pretensão, parece, de ser o único a entender a Escritura. Era isso um sofisma chapado, pois os manuscritos em grego estavam tão prejudicados quanto a Vulgata, e necessitavam de purificação tanto ou mais que ela. Erasmo publicou cinco edições diferentes do texto grego, das quais a única que se pode chamar crítica é a quarta, do ano de 1527. A primeira é tão inescrupulosa que é lícito apodá-la de fraude: compilada às pressas em cinco meses do ano de 1515, com a finalidade de sair antes da Bíblia Poliglota e católica de Alcalá – “praecipitata verius quam edita”, confessou ele mais tarde –, está calcada apenas no deficiente Codex 1 (séc. XI), em parte; e dos Codex 2, que são um pouco melhores; o autor afirmava mendazmente no Prefácio que o havia retirado de “muitíssimos códices de ambas as línguas, e não de qualquer mas daqueles antiqüíssimos e castigadíssimos”. O único manuscrito que possuía do Apocalipse sofria de lacunas, que Erasmo simplesmente preencheu por sua conta, traduzindo para o grego fragmentos da Vulgata. Denunciada a desonestidade, Erasmo trabalhou e poliu o texto, introduzindo na segunda edição 400 novas lições, das quais 70 (segundo Mill) são más, para isso se servindo até da Poliglota de Alcalá, já então publicada.

Desde então o caminho da crítica textual é enorme, e pode dividir-se em três etapas:

1. Da Poliglota a John Fell, no ano de 1686, em que o texto é polido de acordo com os vários manuscritos, inventa-se o aparato crítico e se discutem as principais variantes;

2. De John Fell a Lachmann, entre os anos de 1707 e 1830, em que se acumula prodigiosamente o material de controle, estabelecem as principais leis críticas e classificam e catalogam em grupos todos os manuscritos existentes, para o quê o alemão Johann Martin Augutinus Scholz, um dos pais da crítica atual (1794-1852), percorreu durante muitos anos a França, a Suiça, a Itália, o arquipélago grego e a Palestina, fazendo um censo dos manuscritos do Novo Testamento, que enriqueceu com numerosas peças que ele descobriu. A ele se deve a classificação em Cinco Famílias. Em 1836 publicou em Leipzig seu texto crítico do Novo Testamento grego, baseado no texto de Griesbach (1775) e no antigo Elzeviriano – é um texto crítico muito limpo que ainda agora muitos consideram como fundamento sólido de trabalho.

3. De Lachmann até nossos dias: com a ajuda da tipografia e da fotografia, é possível concentrar o material disseminado pelas bibliotecas do mundo numa só biblioteca... da Alemanha; por sua vez, é possível também realizar o trabalho da formiga e o trabalho do falcão: a colação de textos e o sistema crítico.

Karl Lachmann (1793-1851) não era teólogo mas lingüísta: publicou seu novo texto baseado no simples princípio da lição outrora mais difundida, primeiro em 1831 e depois, enormemente corrigido, em 1850. Seu princípio simples se foi ramificando: “adoção da lição mais usual nas mais antigas Igrejas do Oriente; em caso de dúvida, apele-se para as mais antigas Igrejas da Itália e da África; no caso de ainda haver incerteza, indique-se o fato à margem; repila-se o texto recebido...”.

A partir desse sistema simples, que no fundo é por maioria de votos sem exame do valor interno (ou do conteúdo) da lição, os atuais sistemas críticos se complicaram de forma inconcebível. O sistema do berlinense Von Soden (1910), vulgarizado até por autores tão claros e sintéticos quanto Méchineau e Jacquier, metem o profano que o bisbilhoteia em meio a um labirinto, porém os dois alentados tomos (I, Sistema; II, Texto) desua obra Die Schriften des Neuen Testaments in ihrer altesten erreichbaren Textgestalt, hergestellt auf Grund ihrer Testgeschichte (Berlim, 1902-1910), para o não iniciado são pura vertigem.

Von Soden é hegeliano, i.e., um fanático do “sistema”: sua construção é atrevidíssima e brilhante, mas objetada pela maioria dos especialistas atuais como pouco sólida. Impávido sistematizador, é demasiado amigo do a priori.

O prussiano revisou primeiro as famílias de manuscritos, com a vantagem – em relação a Scholtz – do material completo e já ordenado, com uma meticulosidade enorme, mesclada com agudas intuições e ainda verdadeiras descobertas; ele as estruturou em 9 grupos com inúmeros subgrupos, dominados por um tipo ideal chamado I-H-K[38], por trás do qual o crítico sustenta que deve haver um só manuscrito (“arquétipo”), hoje perdido. Depois estabeleceu as complicadas relações entre as 9 familias, que Kirsopp-Lake visualisou no seguinte esquema:

[Nota: eis que aqui se encontrava, no original, o esquema do Sistema de Von Soden]

Depois disso, Von Soden se dedica ao empreendimento fenomenal de reconstruir o arquétipo I-H-K como um paleontólogo reconstrói um animal ante-diluviano a partir, não já de todos os ossos – trabalho fácil – mas de suas pegadas. A hipótese fundamental é a de que o Diatéssaron de Taciano (harmonia dos Evangelhos escrita em siríaco) é a tradução dum diatéssaron grego, que contaminou quase todas as versões do texto do Novo Testamento: seria uma espécie de proto-arquétipo. Nessas bases Hermann von Soden efetua um trabalho de erudição, leitura, cotejo e lógica que já comparei à criação dum mosaico infinitamente mais complicado que os do Vaticano: são montanhas de erudição e uma selva de tecnicismos, catálogos, andaimarias, constatações e conclusões assombrosas e angustiantes. Só para ler uma vez o livro de 1500 páginas, aparecido em 1910, que contém o “sistema”, é preciso ter muitíssimo tempo... e ser alemão.

O sistema de Wescott-Hort é anterior ao de Von Soden, que não o desbancou, mas bem ao contrário. Conforme a índole inglesa, o sistema de Wescott-Hort é mais empírico que sistemático, procedendo mais por tateio que por dedução a priori; não aspira à simetria estrutural nem à certeza matemática, destarte se revelando mais elástico e receptível a correções. A exposição pormenorizada desaw sistema está no segundo volume de The New Testament in the original Greek. Seu princípio fundamental é ir do particular ao geral, fechando o caminho para todas as possíveis causas de erro; em suma, o método empírico. Por exemplo, “na presença de duas variantes – diz Hort – o primeiro impulso é preferir a que oferece o melhor sentido; mas ‘melhor sentido’ é um juízo subjetivo; ademais, pode empurrar-nos na armadilha dum ‘copista instruido’ que tenha pensado a mesma coisa que nós e inserido uma variante, a fim de conseguir um ‘melhor sentido’... para ele...”.

Assim o estudo de cada variante não permite uma opção segura; força é examinar o grau do valor geral de cada documento, à medida que cada um deles tenha subministrado maior ou menor número de boas lições – dando-nos assim um coeficiente de valor. Mas em seguida se constata que os documentos estão ordenados em grupos naturais de lições concordantes. O estudo permite estabelecer a hierarquia dos grupos, distinguir o grupo de manuscritos mais antigos, e aproximar-se à determinação de sua origem e da razão de suas características.

O sistema de Wescott-Hort se beneficiou das críticas severas que recaíram sobre o rival prussiano. O beneditino Dom Chapman “provou vitoriosamente” – segundo Jacquier – que a harmonização dos textos evangélicos que estão no Códice de Beza, as velhas traduções latinas e siríacas e o grupo dos escritores eclesiásticos chamados “pós-apostólicos”, não se devem necessariamente ao Dietássaron de Taciano; mais ainda, ele negou a hipótese do Diatésseron em grego, retirando assim a base do sistema sodeniano. O inglês Kirsopp-Lake – antigo discípulo de Von Soden – conclui que “se o Diatéssaron grego não existiu, não resta nenhuma prova do texto arquetípico I-H-K”, o que reduzia o “sistema” de Von Soden a nada.

O melhor fruto do sistema Wescott-Hort foi o difundidíssimo Nestle grego, hoje em dia nas mãos de todos os estudiosos do Evangelho[39]. O doutor Eberhard Nestle trabalhou no texto com o método de Wescott-Hort mas sem escravizar-se a ele, o que em realidade é conformar-se a seus princípios: além dos textos de Wescott-Hort compulsou os textos de Tischendorff e Bernard Weiss. Durante sua vida, o Nestle grego viu 14 edições, que Erwin Nestle – filho seu – continou. Do Nestle comum depende a edição católica do Pe. Merk, com aparato crítico simplificado e leves correções.

Quisemos dar ao leitor uma impressão direta da história do texto evangélico, limitando-nos a delinear uma tênue silhueta dela – contudo, espero que baste. A enome soma de trabalho humano despendido neste livro – maior que em qualquer outro – assinala sua importância; e tudo isso é glorioso a Deus. Essa idéia é necessária não só ao exegeta mas ao leitor comum do Evangelho. A partir dela, por exemplo, salta aos olhos a temeridade dos que pretendem fabricar a própria religião sobre a base duma interpretação “pessoal” duma “tradução moderna” (!) dos Livros Santos. Um conhecido meu tem a presunção de que o Espírito Santo não existe, fundando-se em não sei que versículos do Evangelho, embora não tenha a menor segurança de que Jesus Cristo proferira tais versículos, que bem podem ser uma variante de copista, ou um defeito de tradução. Os partidários do livre exame protestante pedem demais a Deus: Deus deveria obrar milagres contínuos para que eles não errassem.

Também não faltam católicos temerários ou ignorantes: “A Vulgata foi canonizada pelo Concílio de Trento; portanto na Vulgata não pode existir erro”. Depois de Trento surgiu na Europa, sobretudo na Espanha, os partidários da Escola Estrita, que tinham a pretensão de fazer com que toda a Vulgata – com seus pontos e vírgulas – se tornasse um objeto de fé, porquanto o Concílio definisse que a Vulgata “era autêntica”, aos quais o excelso Pe. Mariana, S.J. – o homem mais perspicaz do séc. XVII – morigerou severamente numa imortal monografia[40]. Os Padres do Concílio não tiveram a intenção de definir que na tradução de São Jerônimo não havia imperfeições, nem saíram do campo da fé e da moral e excursionaram risivelmente em seara alheia, no da ciência: era manifesto que existiam muitos defeitos na Vulgata, e alguns cardeais – mais doutos – advertiram disso os mais “piedosos”. O que quiseram definir pois, diz Mariana, é que a Vulgata não continha erros fundamentais contra a fé, e isso com respeito aos novi errores daquele tempo. Contudo, não fecharam o caminho para o estudo, a crítica e a opinião, petrificando a Bíblia numa espécie de fetiche idolátrico. Se a palavra utilizada, “autêntica”, foi pouco feliz, paciência; o significado é este: fudamentalmente limpa. O que o Concílio quis definir – e ninguém pode definir nada para além disso – é que a Vulgata ut jacet não contém erros contra a fé.

É lícito chamar essa escola de Escola dos Acomodados: sempre existiram fanáticos que são mais papistas que o Papa. “Platone platoniores[41]. Eles me lembram una anedota do general Yagüe, que foi recebido em audiência pelo Papa Pio XII, que começou a lhe dizer: “Sim, a propósito da república espanhola, meu antecessor talvez não tenha visto bem a princípio...”, ao que o militar espanhol atalhou dizendo: “Basta! O papa é infalível! Não permito que Sua Santidade pense que seu antecessor se equivocara!”. Se non é vero, é ben trovato... pelo conde Agustín de Foxá.

As versões em língua moderna sempre existiram – se bem se ver, até mesmo nosso grego foi uma versão na língua comum de então –, e se multiplicaram depois do séc. XVI. O valor varia segundo os tradutores.

Nisto os hispanos não tivemos tanta sorte como os ingleses e os alemães: não temos uma tradução “monumental”, como esses dois povos. Existem excelentes traduções parciais, como a dos Salmos de Juan Pérez de Pineda, mas não um conjunto que agüente a comparação com a Bíblia de Lutero ou a chamada “King’s Version” inglesa, obra do extravagante Wylliam Tyndale e do maligno arcebispo Cranmer, ambos entretanto grandes estilistas. Frei Luís de León deveria ter traduzido a Bíblia para o castelhano; provavelmente a Inquisição teve culpa de que não o fizesse. Ele traduziu o Cântico dos Cânticos... e lhe meteram três anos no cárcere. Se quisesse insistir...[42].

O grande crítico literário de França, Charles du Bos, escreve: “A literatura francesa não possui entre seus clássicos uma tradução da Bíblia; e nunca se há de ponderar o bastante tudo quanto a literatura inglesa deve a esse imperecedoiro monumento da língua, a ‘Authorised Version’. Graças a ela, o mais humilde anglo-saxão está na posse dum manancial, cuja opulência em França só se logra à condição de que se amontoe o gênio de Lamartine, Hugo, Vigny e Baudelaire”[43].

Acontece o mesmo em Hispânia. A massa argentina nunca lerá Cervantes ou Frei Luís de León – embora decerto devesse lê-los nas escolas, já nos primeiros anos – e, não existindo tampouco o costume de ler a Bíblia numa boa tradução, não existe freio à degeneração da língua falada nem à da escrita, que é um fenômeno contínuo e visível entre nós, em que pese os esforços gramaticais de Avelino Herrero Mayor.

As três traduções espanholas antigas que tem curso entre nós – são medíocres: Cipriano de Valera, Torres Amat e Scío de San Miguel. Acerca desses três trabalhos, remetemos ao juízo de Menendez y Pelayo.

São retraduções da Vulgata latina, e não das línguas originais, apesar de Cipriano de Valera afirmar que revisara a partir dos textos grego e hebraico, que não possuia. Essa Bíblia protestante, calcada sobre a tradução anterior do morisco Cassiodoro de Reina, é a de melhor estilo literário, embora a fidelidade – manchada pela tendenciosidade – a não recomende. O bispo Torres Amat publicou como sua uma tradução do jesuita Petisco, com intercalações contínuas em letra bastardinha (Bíblia com bexigas), que se inclinam a explicar ou a esclarecer o Texto Sagrado, i. e., é parafrástica ou glosística. Esse sistema é repudiável, pois alfim o tradutor intromete as próprias interpretações – decerto bastante pedestres – na majestade do divino texto. Entre nós Mons. Straubinger publicou uma Bíblia com o texto de Torres Amat revisado, suprimindo quase todas as glosas, o que é uma grande vantagem[44].

A Bíblia do bispo de Segóvia, Felipe Scío de San Miguel, Sch. P., talvez seja a melhor. As paráfrases que o tradutor acrescentou nalgumas seções (como no Livro de Jó) é melhor deixá-las de lado, pois padecem da mesma doença das de Torres Amat. Possuímos três traduções modernas oriundas das línguas originais: Juan José de la Torre, do Novo Testamento; Bover-Cantera y Nácar-Colunga, da Bíblia completa, de cuja fidelidade ao texto não podemos julgar, mas que literariamente são apenas corretas.

Não será para já uma tradução exímia da Bíblia ao espanhol. Tampouco nunca se chegará, como disse eu, ao texto puro ou inteiramente igual ao original, consoante o ideal da ciência crítico-textual. Basta-nos a nós saber que temos um texto limpo em substância, e algumas traduções passáveis. Eu sinto muito isso; como já dizia um orador: “Senhor, deploro e peço perdão por dizer coisas tão graves, mas soubesse eu outras mais graves, essas são as que lhes diria”.

Atrevo-me a esperar que com este resumo ou silhueta – baseado em muitos livros, leituras e reflexões, o leitor pode acreditar – refuta-se a pergunta dalgumas almas pias, que dizem: “Por que Jesus Cristo não escreveu Ele mesmo os Evangelhos, e por que Deus ‘permitiu’ este rolo todo?”. Os porquê de Jesus Cristo são difíceis de determinar, porque Ele mais que nós sabia de seu ofício. Mas se o leitor refletir sobre que se disse, talvez veja que um livro escrito por Cristo e conservado com zelo numa urna de alabastro não resultaria em nada superior ao que já temos.

Um livro é uma coisa morta que fica para trás, com o decorrer dos anos; a pregação oral de Cristo foi uma coisa vivente, uma espécie de manancial, que engendrou inumeráveis livros sem perder a  frescura. Se Cristo escrevera livros, seriam hoje uns fetiches adorados e não entendidos, porque seriam já arcaicos e anacrônicos; ou ainda, uma coisa como os poemas de Catulo ou as orações de Cícero, para uso escolar e acadêmico. Jesus Cristo estabeleceu com seu exemplo a preeminência da pregação sobre o escrito, enquanto meio de controle. Se Cristo tivesse nascido em Roma ou em Atenas e dispusesse de mais escravos amanuenses que Júlio César, não teria conseguido nem de longe o resultado que conseguiu ao depositar a semente de sua palavra na memória e no coração fervoroso de seus meturgemanes de estilo oral.

Porque “a Palavra de Deus é semelhante a uma semente”... Isso disse Ele.


[1] Van Gennep, La Question d’Homère (Paris, 1909) 51-52. Ver também Les Institutions Mulsumanes, de Gaudefroy-Demombynes (Paris, 1873).
[2] Esta acurácia nos permite afirmar com certeza que o Evangelho de São João foi escrito cerca do final do primeiro século, e os três primeiros foram escitos antes do ano 63.
[3] Citado por Eusébio, História Eclesiástica, Migne, Padres Gregos, tomo XX, p. 552.
[4] Voltaire no Dicionário Filosófico, que de filosófico não tem nada, foi o primeiro a tentar o empreendimento de González Blanco: confundir os Apócrifos com os Canônicos, e pôr aqueles acima destes.
[5] Revue Biblique, 1918, p. 93.
[6] Charles Du Bos.
[7] Ovídio, Metamorfosis, I, 7.
[8] Atualmente existe uma edição mais digna dos Apócrifos – selecionados – da lavra de Aurelio de Santos Otero (BAC, Madri, 1956).
[9] Resumo nesta frase – que nao é literal mas uma síntese – as páginas sobre a epístola que estão em Vorreden Zum Neuen Testament (1522), Luther, Ausgewaehlte Werke, Fischer Bucherei, 1955.
[10] “Et licet varia singulis evangeliorum libris principia doceantur, nihil tamen differt credentium Fidei, cum uno ac principali Spiritu declarata siint...”.
[11] Méchineau, La Questione Sinottica (Roma, 1913), 193.
[12] Évangile selon Saint Jean, par le P.M.J. Lagrange, des Fréres Précheurs (Gabalda, Paris, 1947). Introdução: premilinares e cap. I.
[13] Nota Kirkegardiana: Se bem se vê, ser cavaleiro não é ser imensamente generoso – ainda que em certo sentido seja isso – mas no fundo tão-somente ser justo. Por que não dar a uma mulher o que ela quer, se é possível? No fundo o que toda mulher quer é ser adorada por um homem: ser uma coisa divina (mãe, amada ou musa) para um varão. Esse sentimento fundamental é a raiz da máxima vaidade, e da máxima seriedade da mulher, conforme vá para um ou outro lado. Pois bem, Cristo deu a uma mulher o que de direito, o direito acima. Sendo Deus, e sem descer um ponto sequer, pôs a mulher onde ela quer ser – e tem o direito a ser – posta, uma mulher perdida, i. e., vítima de desesperação; pois não se concebe maior desesperação que a de amar muito – segundo o Senhor testemunhou dela – sem ter um objeto que se ame, que seja digno de ser infinitamente amado e capaz de corresponder infinitamente.
Assim pois Cristo foi simplesmente justo – no que respeita à lei do amor – com Maria de Magdala e com a humanidade perdida que ela representava; e infinitamente generoso, dadivoso e pródigo, até a loucura, no que respeita à lei do temor.
[14] De Viris Illustribus, IX.
[15] De Consensu Evangeliorum, I, 2-4, Migne, XXXIV, 1044.
[16] Quem lê em inglês pode inteirar-se bem em que pé estava a questão sinótica há um século, lendo o incisivo ensaio Criticism and the Gospel History do historiador escocês James Anthony Froude, clérigo protestante, professor da Saint-Andrew’s, de Edimburgo, e autor duma História da Inglaterra em 12 volumes. Nesse ensaio, publicado na Fraser Magazine (1964) e recolhido no segundo tomo de Short Studies on Great Subjects (Ed. Everyman, p. 152), não se sabe mais o que admirar: se a engenhosidade no tratamento do velho problema (“ingenuity” como eles chamam) ou a ignorância crassa acerca da solução. Com efeito, o autor, partindo do falso pressuposto do livro “escrito” em nação de estilo escrito, acumula hipóteses disparatadas: um evangelho primevo perdido... dois evangelhos idem...copia dum evangelista pelos outros... (ou seja, tecnicamente, teoria das duas fontes, teoria do Urevangelium, e teoria da interdependência) e depois joga o pesado fardo aos divinos (ou teólogos), desafiando-os a resolver duma vez para sempre o “problema terrível”, uma vez que os pagamos para isso; chega até a ameaçá-los, caso não o resolvam, com um “naufrágio da Cristandade”...
Mas como fosse muito talentoso, o amedrontado metodista se aproxima da solução umas duas ou três vezes mesmo sem saber: por exemplo, quando disse que deveria ter existido “on the close of our Lord’s life some original sketch drown up by the congregation” (“ao final da vida de Nosso Senhor, algum esboço original redigido pela comunidade” – ou seja, a Igreja); basta substituir as palavras “sketch drown up” (“esquema redigido”) por rapport recitated (recitado oral) para chegar à verdade verdadeira, que Froude não poderia imaginar.
É curioso que a principal objeção de Froude se transformou hoje em dia numa confirmação, que Jousse não traz em seu livro. A objeção contra a autenticidade dos sinóticos, que Froude herda dos pseudocríticos alemães e o aterroriza, é a seguinte: no principal testemunho da autenticidade e do cânon dos Livros Santos, quer dizer, em São Justino Mártir, que viveu em fins do séc. I, estão certamente citadas frases de Mateus, Marcos e Lucas, mas não referidas a Mateus, Marcos e Lucas, mas a umas palavras gregas, misteriosas para Freude, que são: “apomnemonémata toón Apostóloom”, que o inglês traduz: “as Memórias dos Apóstolos”. Logo... Mateus, Marcos e Lucas não são os verdadeiros autores de nossos atuais Evangelhos.
A tradução exata da fórmula retirada de Justino é: “O que vem ou procede da memória dos Apóstolos” – pois este é o valor da preposição apó – ou seja, o que os Doutores Latinos denominam simplesmente ‘A Catequese Apostólica”, que os três sagrados amanuenses escreveram com fidelidade.
É evidente que Justino Mártir usa essa fórmula para dar a entender qual é a verdadeira origem e a autoridade dos Evangelhos escritos de Mateus, Marcos e Lucas, e que tais personagens não passam de amanuenses ou metteurs-par-écrit dum texto que não tem origem neles mas nas “Testemunhas de Jesus”, e por meio dessas, diretamente de Jesus; os apóstolos, os discípulos, os nabis e os meturgemanes recitaram – e não escreveram – esse texto nas ecclesias ou reuniões de cristãos, durante o intervalo de uma geração, a geração das “Testemunhas de Cristo”, ao mesmo tempo que controlovam [as possíveis alterações da recitação].
[17] Der Begriff Angst (Einleitung-Diederichs, Düsseldorf, 1952)  6. Tradução do Pe. Castellani.
[18] “Alguns livros da Sagrada Escritura estão em verso”, diz Frei Luís de León. Isso é um erro. Todos os livros da Escritura, com exceção talvez de parte dos Macabeus, estão em estilo oral. Agora, se dissesse que são poesia, estava perto da verdade, mas não poesia como a nossa.
[19] O turco Sait Saitun, árabe nascido em Damasco e radicado em Chascomus, amigo de Dom Martin Larralde, como fora cadi de família, sabia de leis e de histórias de sua região em verso. Ele era capaz de dizer a qualquer quem sucedeu Ornar ibn Abi Rabi’ah, e ainda quem foi o décimo-primeiro dos Abásidas; contudo tinha de recitar a cantilena-salmodiada até chegar ao décimo-primeiro; não podia saltar nenhum, porque os clichês ou gestos proposicionais se desencadeavam um após os outros. Minha avó, D. Magdalena, conhecia contos infantis em dialeto furlán, que recitava sempre da mesma forma, como sem dúvida foi transmitido por gerações; se o conto tinha três partes, não começava pela segunda. Os exemplos podem centuplicar-se, porque o estilo oral, uma vez entendido, vê-se bem que é uma coisa que existe e deixa marcas por todas as partes.
[20] Recorde-se do que disse São Clemente sobre São Pedro: “Não fez nada para estimular Marcos...”. As pessoas simples daquela época já desconfiavam dos escritos, assim como hoje desconfiam dos “jornais”.
[21] Le Language (Pais, 1905), 49.
[22] Traduzes The heart of the matter como O coração da matéria? Mal, muito mal. Como traduzes o alemão gewässer? E o francês ailleurs? A palavra grega sophrosyne não tem equivalente adequado em língua nenhuma; para não falar da forma dual, os aoristos e os depoentes; assim o alemão gemütlich, o francês esprit, o inglês ingenuity, o latino adsum, o italiano seccatore – são listas inteiras que se poderiam fazer.
[23] Nosso Senhor Jesus Cristo [N. do T.]
[24] O estilo oral.
[25] A palavra-eixo, em realidade.
[26] Para os acostumados ao verso atual.
[27] Enciclopédia Britânica, 11ª ed., artigo “Corão”.
[28] Inspetor em grego significa “bispo”: episcopeuein.
[29] Este capítulo, “Aplicação da Nova Psicologia Lingüística à Crítica Bíblica”, é um extrato das lições XVIII, XIX e XX do curso pronunciado de 7 de novembro de 1932 a 20 de março de 1933 na École d’Anthropologie de Paris, 15, rue de l’École-de-Médicine, sob a presidência do doutor Joseph Morláas. Encontra-se uma exposição sumária dos trabalhos do Pe. Jousse no opúsculo de Fréderick Lefèvre: Nouvelle Psychologie du Langage, impresso na coleção Le Roseau d’Or, tomo IV, 1927. Traduzi quase literalmente duas páginas da conferência que o Pe. Jousse deu no Instituto Bíblico de Roma, extraídas do compte-rendu do jornal La Croix, de 3 de fevereiro de 1929. Com isso quero dizer que o material desse último capítulo, salvo alguns exemplos e esclarecimentos (como a digressão sobre Charles Péguy), não é meu e goza da mais alta autoridade.
[30] Ao tempo de Tertuliano (séc. II) os originais ainda existiam; existia também, segundo Zahn e Mangenot, a recitação oral; depois de Tertuliano já não é certo, embora haja duas alusões – de Pedro Mártir e de Santo Agostinho – que parecem indicar que ainda estavam conservados no séc. IV.
[31] Histoire des Livres du Nouveau Testament, 4 vol. in-12. Le Nouveau Testament dans l’Église Chrétienne, 2 vol. in-12.
[32] Como exemplo moderno recordemos as traduções das palavras-chave intencionalmente luteranas que William Tyndale em 1534 introduziu em sua tradução; v. gr.: “sobre esta pedra se assentará a minha congregação (ecclesia)”, em lugar de “minha Igreja” (Hillaire Belloc, Cranmer, p. 176).
[33] Bispo em grego significa Inspetor; o que os antigos bispos mais “inspecionavam” era a fidelidade dos textos das Escrituras. Dessa atividade episcopal descende a atual censura eclesiástica, que nalguns países – como o nosso – está desgraçadamente mui decadente, para não dizer corrompida.
[34] Em 1º de agosto de 1956 tivemos em nossas mãos, em Londres, o famoso Códice Sinaítico, o mais importante dos manuscritos bíblicos, igual em autoridade ao Códice Vaticano, que se conserva em Roma; mas nesse mesmo manuscrito do séc. IV o crítico inglês Cronin teve de corrigir numerosas negligências de copista – dos quatro copistas e sete corretores. Trata-se dum volume de uns 40x45cm, de pergaminho perfeitamente conservado, escrito em maíusculas gregas de grande beleza, em 4 colunas estreitas. Contém o Antigo Testamento mutilado, o Novo Testamento completo e dois livros acrescentados – não canônicos: a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Encontrou-o num monastério cismático o sábio alemão Constantin Tischendorff em 1844, quando o documento estava prestes a ser queimado, e publicou-o em facssímile em 1862, depois de três viagens ao monastério asiático. Alguns monges mais tarde o regalaram (?) ao imperador da Rússia, e os Soviets o venderam ao British Museum por uma quantidade fabulosa de libras, arrecadadas numa coleta pública.
[35] Epístola Ad Damasum.
[36] “Tanta est enim vetustatis consuetudo, ut etiam confesa plerisque vitia placeant...”.
[37]His achievement... aroused the hostile criticism of an unenlightener conservatism, and St. Jerome pilloried his detractors with characteristic verve...”, diz James Duff, editor das cartas de São Jerônimo. Ver Epístola XXVIII, 2.
[38] A sigla K representa o texto antioqueno, a H o texto alexandrino, e a I uma soma de 11 códices diferentes que Von Soden considera influenciados pelo texto de Taciano, que ele chamou de “arquétipo”.
[39] Novum Testamento Graece – cum apparatu critico-curavit – D. Eberhard Nestle (Stuttgart, editio quarto decima, 1930)
[40] Dissertatio pro editione Vulgata (1609).
[41] Um desses, por exemplo, o grande escritor León Bloy. Reagindo com violência contra os pedantes que a depreciavam e preferiam as versões protestantes (Loisy), Bloy a encarece demasiado e diz ore rotundo que “a Vulgata é o Espíriro Santo; a Vulgata é a autobiografia de Deus, é Deus consubstanciado em palavras...” etc. Deus se equivocou várias vezes, portanto.
[42] “Mas se não existisse Inquisição, não existiria Luís de León”, diria talvez Agustín, conde de Foxá... É possível defender qualquer coisa.
[43] Aproximations, p. 211.
[44] Depois dessa Bíblia, editada em Guadalupe, Straubinger publicou na Desclée de Brouwer Argentina outra, em quatro tomos, que leva esta indicação: “Tradução dos textos primitivos”.