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ARISTÓTELES, Et. Nic., I, 7, 1097b 35.
À medida que se
multiplicam em todos os sentidos os trabalhos históricos, vem a ser cada vez
mais difícil um acordo acerca do objeto da história: é ela aquela ciência que
cultivou Renan, que buscava na seqüência dos fatos as leis morais da humanidade
e do universo, e Fustel de Coulanges, que ignorava a existência de leis morais
e cuja ambição limitava-se a coligir uns e outros fatos às suas causas
próximas?
Não foge a tal condição
a história da filosofia; Hegel e Groto tinham dela idéias bem distintas.
Vemo-la assumir cariz filosófico, psicológico, social, filológico e
naturalista, sem que se divise claramente para que forma inclina-se ela a
fixar-se. É mister para quem se dedique a ela, se não quer limitar-se a seguir
tal e qual corrente, interrogar-se a si sobre a finalidade desta ciência e
submeter à apreciação as várias definições que se lhe podem conferir.
Qual o objeto próprio à
história da filosofia? Qual o método conveniente a seguir?
Trata-se tão-somente de
agrupar e classificar segundo a geografia e a cronologia os fatos a que cabe o
epíteto de filosóficos?
Trata-se de remeter cada
um desses fatos, após a operação de triagem, às particularidades do meio onde
se produziram, como que a suas condições e causas?
Ou antes – se se
acredita que a filosofia até certo ponto possui existência e desdobramento
próprios, e constitua uma espécie de organismo –, trata-se de desimbricar e
seguir esse desenvolvimento autônomo que perpassa as invenções, aparentemente
caprichosas, dos indivíduos? Consideraremos nós cada filosofia qual um
instrumento algo dócil do espírito imanente e universal? Tomaremos a peito o
dever de extrair e completar as partes fecundas da obra de cada pensador,
abandonando as que agora ou depois o tempo há de levar consigo? Não é esta uma
das atividades que se espera do historiador: a de tudo ler, estudar e criticar,
a fim de remergulhar na noite dos acontecimentos os que não mereçam ocupar a memória
dos homens?
Se escrupulizamos em
julgar as produções filosóficas em nome da idéia meio mística da filosofia
perene, não desejaríamos ao menos diferenciar, dentre as concepções do homem de
gênio, as em que é ele verazmente autêntico, inovando e preparando o futuro,
daquelas em que ele ao invés é apenas o eco dos antecessores?
Não existe concepção da
história da filosofia (bem compreensível, se se considera sua relação com as
ciências positivas) segundo a qual o papel do historiador seria o de adotar como
objeto de estudo não a filosofia, senão os filósofos, e demonstrar de cada um
deles, numa análise psicológica, por qual evolução – sopesados o temperamento,
a educação e as circunstâncias de vida – produzir-se-ia necessariamente as
idéias que deu à luz.
Ninguém duvida de que
estes pontos de vista não tenham valor ou não sejam de interesse; contudo,
parece que nenhum deles é o ponto de vista do historiador da filosofia.
Seria demasiada modéstia
limitar-se a colecionar e organizar em seqüência cronológica as manifestações
filosóficas; somente nas doutrinas e nos sistemas filosóficos, em que a
filosofia se realiza, é possível que se ofereçam a nós nalguma medida um
encadeamento lógico dos fatos com os fatos em si mesmos.
Ao contrário, seria bem
audacioso afirmar que para esta concepção há todo o futuro à frente, enquanto
para aqueloutra o tempo já acabou. Na época de Voltaire a metafísica foi
sentenciada de morte; ora essa foi justamente a época do nascimento da
filosofia alemã.
De que se compõe a ambição
de encontrar as origens históricas e inconscientes e a gênese mecânica das
idéias dum pensador? Quem de nós, até mesmo os mais atentos e hábeis no exame
dos próprios estados de consciência, poderia explicar deveras a origem de suas
opiniões e doutrinas? Como discernir, dentre as inumeráveis e complexas
influências a que se submete continuamente a vida, quais foram profundas e
duráveis, e como expressar com justiça em que sentido elas se exerceram? Enfim,
por que desejar a todo custo que as idéias nasçam a partir de influências
exteriores, de cuja fonte produtora ignoramos totalmente?
Junto destas várias
concepções da história da filosofia, quer tímidas em excesso quer temerárias e
aventurosas, há uma que escandaliza menos o espírito, pois em aparência é menos
científica, mas que talvez responda com maior exatidão à natureza do objeto de
estudo: se não estou enganado, trata-se da concepção a que se aplicam amiúde os
escritores cujo objeto próprio está em se ocupar do trabalho do historiador da
filosofia, sem outra qualquer preocupação que lhe seja estranha.
Consiste esta tarefa, em
primeiro lugar, em abraçar para tema de estudo o dado que é-nos imediato, i.
e., tal ou qual doutrina em sua inerente complexidade, ou ainda tal ou qual
conjunto de idéias que o filósofo apresenta como se formasse um todo. Onde não
se cumpra esta condição, podemos estar diante dum refinado moralista, dum
espírito profundo ou dum pensador original, mas não em presença dum verdadeiro
filósofo. O problema é saber qual relação lógica o filósofo estabeleceu de fato
entre suas idéias, quais delas reputa princípios, em que ordem e de que maneira
estabelece os laços de dependência de suas principais idéias com as demais.
Filósofo é um homem que confronta os conhecimentos e as crenças humanas,
buscando-lhes as relações; queremos saber como Platão e Leibniz conceberam tais
relações. E já que o filósofo não é um vidente em quem a verdade caia qual um
raio, mas um inquiridor paciente que medita, critica, hesita e só se curva à
razão, queremos saber por que caminho metódico, observações e raciocínios o
autor chegou a suas conclusões. Aqui não está em causa o trabalho inconsciente
e mecânico do cérebro, mas o esforço consciente e voluntário que almeja romper
as barreiras da individualidade, pensar universalmente e descobrir a verdade.
Se isto for assim, não
há de ser a filosofia em geral e como um todo, nem a evolução psicológica de
cada filósofo em particular que irá compor o objeto imediato da história da
filosofia, mas antes as doutrinas dos filósofos. Conhecer e compreender tais
doutrinas em profundidade, explicá-las na medida do possível – como faria o
próprio autor – expô-las segundo o espírito e até certo ponto conforme o estilo
do autor é a tarefa essencial a que as demais devem se subordinar.
É ao certo útil atentar
ao homem, e não apenas à obra isolada, sobretudo porque amiúde o homem nos
ajuda à compreensão da obra: deve o cartesianismo alguns caracteres à pessoa de
Descartes. Em que erro incorrer-se-ia, se se recusa observar a história da alma
individual!
Igualmente é
interessante investigar, na sucessão dos sistemas, as transformações da
filosofia em si, de seus avanços ou sua imobilidade; contudo, não pode o estudo
geral substituir o das doutrinas em si mesmas e da concepção de seus autores,
pois que este é pressuposto daquele.
Não se negligencie
nenhuma parte de determinada doutrina, a pretexto de que já se encontra ela
nalgum filósofo anterior – este argumento é insuficiente; um grande homem não
busca a novidade ou originalidade, porém a verdade. Desprezaria ele certa
parte, por que outro já a descobrira? Nas épocas de literatura clássica, não
havia quem acreditasse na capacidade duma criação ao estilo de Deus, ex nihilo: Corneille e Molière
abasteciam-se a mancheias nas obras dos antecessores; seriam eles originais o
bastante se daqueles elementos compusessem trabalhos de valor. Com maior razão
Aristóteles, Leibniz e Kant eram conservadores zelosos do que de bom os homens
tinham descoberto antes deles; a apropriação dos conhecimentos operava-se pela
maneira de utilizá-los: “No jogo de pela, diz Pascal, joga-se a mesma bola dum
lado ao outro, mas um dos lados a direciona melhor.” É comum a mais banal das
idéias assumir nova fisionomia, em virtude das novas relações [que surjam] no meio
em que se encontre.
Por sua vez a idéia que
mais tarde se revelaria importante e fecunda talvez desempenhasse no sistema em
que aparecera apenas um papel secundário e apagado. Embora consideremos
interessante tal encontro ou pressentimento, evitemos pô-lo em evidência, com a
desculpa de obsequiar o autor, dando-lhe à idéia um colorido mais moderno: não
devemos conjeturar Descartes qual seria hoje em dia, mas qual fora em 1644,
reduzindo todos os problemas ao da certeza, cuja difusão está a nosso encargo.
A tarefa que nos incumbe a nós determina com precisão os meios adequados de pormos mão à obra. Nos possíveis
desdobramentos ulteriores dum sistema em novas doutrinas, nas apreciações e
interpretações de contemporâneos e sucessores, ou ainda nas recensões históricas
e biográficas acerca da pessoa do autor e suas obras – buscaríamos tão-somente
indícios dos problemas sobre que devemos nos perguntar, ou dados materiais que
determinassem dalgum modo o terreno onde devemos pisar. Apenas nos monumentos que
nos legaram os filósofos pode-se encontrar a fonte da história da filosofia.
Cada obra filosófica exige
consideração em seu conjunto e nos detalhes. O trabalho do espírito é oscilação
contínua do todo às partes e das partes ao todo. Este é o processo de
compreensão do drama, da poesia e da obra de arte; é o movimento alternativo de
indução e dedução em que se constroem as ciências. Destarte, ao explicar-se o
autor por si mesmo, as idéias gerais pelas doutrinas particulares e as
doutrinas particulares pelas idéias gerais, teremos oportunidade de captar seu
pensamento.
Não basta descobrir textos
curiosos, quiçá inéditos. Quem de nós se revela de todo em tudo o que diz? Que
falar duma carta escrita a um correspondente desaparelhado para compreender o
filósofo que tenha mais valor do que os tratados longamente sazonados e
destinados à posteridade? O historiador que não está em busca de anedotas, mas
da justa apreciação da obra dum grande homem, cuidará antes de tudo em penetrar
cada vez mais no pensamento do autor, lendo e relendo inúmeras vezes o conjunto
de suas obras, e não em trazer à baila e manipular quantidades impressionantes
de textos isolados; ele há-de entrar na pele do autor, caminhar em suas
pegadas, segui-lo nos contornos de suas meditações, partilhar as suas emoções filosóficas
e desfrutar com ele da harmonia em que está repousada sua inteligência.
Os sistemas filosóficos são
pensamentos vivos; por isso a esperança de entendê-los repousa em quem busca
nos livros os meios de ressuscitar tais pensamentos em si.
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