sexta-feira, abril 16, 2010

S. Tomás (ao irmão Silvestre) - Os Princípios da Natureza

NB: Tradução provisória.

CAPÍTULO I
- OS TRÊS PRINCÍPIOS DE TODA GERAÇÃO: MATÉRIA, FORMA E PRIVAÇÃO

1. — Aquilo que pode ser e não é, ou aquilo que algo pode vir a ser e ainda não é, se chama ser em potência. Aquilo que é se chama ser em ato. Mas há dois tipos de seres. Em primeiro lugar, o ser essencial ou ser substancial de algo, por ex., ser um homem: esse é o ser simpliciter. Em segundo lugar, o ser acidental, por ex., a pele branca do homem: esse é o ser secundum quid. Esses dois tipos de seres podem ser em potência. Para que o homem seja, é necessário que ele seja em potência no sêmen e no óvulo; para que o homem seja branco, é necessário que ele seja susceptível de ter a pele branca, i. e., que seja susceptível de ser branco em potência. Aquilo que está em potência em relação a um ser substancial ou a um ser acidental é a matéria: por ex., o sêmen é matéria em relação ao homem, e o homem é matéria em relação à brancura. Mas essas duas potências se distinguem uma da outra: aquilo que está em potência para um ser substancial é a matéria da qual; aquilo que está em potência para um ser acidental é a matéria na qual.
2. — Aquilo que está em potência em relação ao ser substancial é a matéria-prima; aquilo que está em potência em relação ao ser acidental é o sujeito: o sujeito dá o ser ao acidente, i. e., dá ao acidente o ser com o qual este é, pois um acidente não tem existência fora de um sujeito. Por isso se diz que os acidentes são no sujeito, mas não se diz que a forma substancial é no sujeito. Assim, a matéria se distingue do sujeito: o ser do sujeito não provém de algo que advém a ele: o sujeito é per se e possui ser completo: o homem não deve o ser à cor da pele. A matéria, por sua vez, recebe o ser de algo que advém a ela, pois em si mesma é um ser incompleto, ou melhor, ela não tem existência em si mesma, conforme aquilo do Comentador. A forma dá o ser à matéria; contudo, o acidente não dá o ser ao sujeito, mas é o sujeito que dá o ser ao acidente; não obstante, algumas vezes se toma uma coisa pela outra, a matéria pelo sujeito, e assim conversivamente.
3. — Assim como tudo aquilo que está em potência pode ser chamado “matéria”, assim tudo aquilo de que a matéria recebe a existência – existência como substância ou como acidente – pode ser chamado “forma”. Por ex., o homem, que é branco em potência, torna-se branco em ato por meio da cor branca; e o sêmen, que é homem em potência, torna-se um homem em ato quando recebe uma alma. Ademais já que a forma causa a existência em ato, diz-se que a forma é a existência em ato. A forma substancial é a forma que causa a existência em ato de um ser substancial; a forma acidental é a forma que causa a existência em ato de um ser acidental.
4. — A geração de um ser é um movimento em direção à forma. Há dois tipos de geração que correspondem aos dois tipos de formas: a geração simpliciter corresponde à forma substancial; a geração secundum quid corresponde à forma acidental. Quando se introduz uma forma substancial, diz-se que houve uma geração simpliciter: o nascimento de um homem. Quando se introduz uma forma acidental, não há geração simpliciter, mas a transformação de um ser, que se torna algo que ainda não era: quando um homem se torna branco, não se torna branco pelo nascimento ou geração simpliciter, mas tão-somente pela geração secundum quid, i. e., aquilo que se torna branco é um homem já existente. Esses dois tipos de geração têm como contrários dois tipos de corrupção: a corrupção simpliciter e a corrupção secundum quid. A geração e a corrupção secundum quid estão presentes nas nove outras categorias, que são os acidentes [quantidade, qualidade, relação, tempo, lugar, hábito, estado, ação e paixão]. A geração é de algum modo uma passagem do não-ser ao ser; a corrupção, ao contrário, é um tipo de passagem do ser quer a outro modo de ser, quer ao não-ser: eis porque a geração não se dá a partir de um não-ser qualquer, mas a partir de um não-ser que é ser em potência: por ex., uma estátua se gera a partir de um bloco que é estátua em potência, mas não em ato.
5. — Para que se dê a geração, requerem-se três coisas:
o ser em potência, que é a matéria;
o não-ser em ato, que é a privação;
e aquilo que dá a existência em ato, que é a forma. Quando de um bloco se faz uma estátua, o bloco, que está em potência em relação à forma da estátua, constitui a matéria; o aspecto informe do bloco é a privação; e a configuração pela qual se chama algo de estátua é a forma.
Mas isso não é uma forma substancial, pois o bloco, antes de receber a configuração de estátua, possui a existência em ato; essa existência não depende da configuração que vai receber: a forma da estátua é uma forma acidental. Ademais todas as formas fabricadas pelo homem são formas acidentais. A arte [ou a técnica humana] só opera naquilo que a natureza já constituiu em ato na existência.


CAPÍTULO II - O ESTUDO DA MATÉRIA

6. — Eis os três princípios da natureza: a matéria, a forma e a privação: a forma é a razão pela qual se dá a geração; a matéria e a privação são aquilo de que se dá a geração. A matéria e a privação são uma só e mesma coisa no sujeito, mas são diferentes na definição: antes de receber a forma, o bloco de mármore e a sua ausência de configuração são uma só e mesma coisa. Mas é por uma razão que se chama ‘mármore’, e é por outra razão que se chama ‘bloco informe’. A privação é um princípio; ela não é um princípio em si, mas um princípio per accidens, porque coincide com a matéria. Assim, dizemos que é “per accidens” que um médico constrói uma casa: ele não constrói a casa enquanto médico, mas enquanto construtor, o qual coincide acidentalmente, no mesmo sujeito, com o médico. Todavia, há dois tipos de acidentes: os acidentes necessários, que são inseparáveis de seu sujeito, como a faculdade de rir no homem; e os acidentes não-necessários, que são separáveis de seu sujeito, como a cor e a pele. Desse modo, embora a privação seja um princípio per accidens, isso não quer dizer que ela não seja necessária para a geração, pois a matéria nunca está livre de alguma privação. Na medida em que a matéria é sob alguma forma, ela está privada de alguma outra forma, e assim conversivamente: por ex., assim como há privação de fogo no ar, assim há privação de ar no fogo.
7. — A geração a partir do “não-ser” não significa que a negação seja um princípio. É antes a privação, e não a negação, que é o princípio, pois a negação não pode determinar um sujeito. “Não ver” pode se dizer até de coisas que não são; pode se dizer: “uma quimera não vê”; o mesmo pode se dizer dos seres que não são aptos para a visão, como as pedras. Mas uma privação só se afirma de um sujeito determinado que é capaz do hábito do qual está privado: por ex., a cegueira só pode se afirmar daqueles que são aptos para a visão. A geração não se opera a partir do não-ser simpliciter, mas a partir do não-ser que está em algum sujeito, e não em qualquer sujeito, mas em um sujeito determinado (não se inflama uma matéria qualquer não-inflamável; inflamam-se somente as matérias não inflamadas capazes de se inflamarem); segue-se daí que a privação é princípio e a negação não é. Mas a privação se distingue dos outros princípios, porque os outros são princípios tanto da ordem do ser acabado quanto da ordem do vir a ser. Assim, no caso da estátua, para fabricá-la, requerem-se a pedra e a configuração de estátua; feita a estátua, a pedra e a configuração de estátua permanecem. A privação é um princípio do vir a ser, mas não do ser acabado: quando a estátua ainda está no vir a ser, ela ainda não é estátua; se ela já era estátua, não poderia vir a ser uma, pois tudo o que está no vir a ser ainda não é, exceto nas coisas sucessivas, como são por ex. o tempo e o movimento. Quando a pedra se torna estátua, a pedra já não está mais privada da forma de estátua – a privação desaparece: a afirmação e a negação não podem ser ao mesmo tempo; não se pode estar, ao mesmo tempo, privado de algo e na posse do mesmo algo. Assim, a privação é princípio per accidens, como já dissemos; os outros princípios são princípios per se.
8. — De tudo isso, fica evidente que a matéria se distingue da forma e da privação. A matéria é o sujeito em que a privação e a forma são: por ex., é a pedra que é o bloco sem configuração, e é a pedra que recebe a forma de estátua. Acontece, porém, que “matéria” algumas vezes designa privação, algumas vezes designa algo sem privação, por ex., a pedra, embora seja matéria da estátua, não evoca necessariamente a idéia de privação: eu posso nomear a pedra sem estar indicando necessariamente uma coisa sem forma e sem configuração; mas a farinha – matéria do pão – implica necessariamente a privação da forma do pão, pois o simples fato de nomeá-la “farinha” indica uma falta de disposição ou uma desordenação oposta à forma do pão. Na geração, a matéria – o sujeito material – permanece, mas a privação desaparece, bem como desaparece o composto de matéria e privação; portanto, a matéria que não implica necessariamente privação permanece após a geração [a pedra ainda permanece como pedra na estátua; neste caso, sujeito e matéria podem ser conversíveis]; a matéria que implica necessariamente privação é transitória [a farinha não permanece como farinha no pão, mas se corrompe inteiramente ao liberar o princípio que vai entrar na composição da massa; neste caso, sujeito e matéria não podem ser conversíveis].
9. — Note que uma matéria qualquer tem composição de forma, por ex., a pedra; embora ela seja matéria em relação à estátua, é um composto de matéria e forma: a pedra não é matéria-prima, porque já tem uma forma. A matéria que se concebe como sem forma e sem privação, mas que é sujeito da forma e da privação, se chama matéria-prima; nesse sentido, não há nenhuma outra matéria antes dela. Ela também se chama hyle, i. e., caos ou confusão. Só se pode definir e conhecer uma coisa pela forma: a matéria-prima não pode ser definida ou conhecida em si mesma, senão por meio do composto de matéria-prima e forma. O que se pode afirmar é que a matéria-prima é aquela que está em relação a todas as formas e a todas as privações, assim como a pedra está em relação à forma de estátua e à privação de configuração. A matéria-prima se diz prima [ou primeira] simpliciter. Pode se dizer que algo é matéria-prima com respeito a certo gênero, por ex., a água em relação às diversas soluções aquosas. A água não é matéria-prima simpliciter, pois se trata de um composto de matéria e forma. Portanto, supõe-se uma matéria anterior ao composto.
10. — Nem a matéria-prima nem a forma são susceptíveis de geração e de corrupção. Toda geração é a passagem de um ponto de partida a um ponto de chegada. O ponto de partida é a matéria, o ponto de chegada é a forma. Se a matéria e a forma tivessem geração, seria necessário que a matéria fosse matéria da matéria, e que a forma fosse forma da forma, e assim ad infinitum. Propriamente falando, a geração só é geração de um composto de matéria e forma.
11. — A matéria-prima é numericamente a mesma em todas as coisas. Mas o ser numericamente “o mesmo” pode se entender de duas maneiras:
a) o ser que possui uma forma determinada e numericamente a mesma, por ex., Sócrates; nesse sentido, a matéria-prima não é numericamente a mesma, porque ela não comporta em si nenhuma forma;
b) o ser que não possui nenhuma das disposições que podem criar uma multiplicidade numérica; nesse sentido, a matéria-prima é numericamente a mesma, porque efetivamente ela se concebe sem as disposições que criam ou permitem criar uma multiplicidade numérica.
12. — Embora a noção de matéria-prima não comporte em sua definição nenhuma forma ou privação (por ex., a noção de pedra não indica por si mesma se ela está informe ou não), todavia é necessário notar que não há matéria existente inteiramente despojada de forma e de privação. A matéria é, sempre, quer sob uma forma, quer sob outra. Ela não pode ser por si mesma: a noção de matéria não comporta a forma em sua definição, mas a matéria não pode ser em ato, porque é a forma que dá a ela a existência em ato. A matéria só é em potência. Portanto, o que quer que seja em ato não pode se chamar matéria-prima.


CAPÍTULO III - AS QUATRO CAUSAS: MATERIAL, FORMAL, EFICIENTE E FINAL

13. — Fica evidente que há três princípios na natureza: a matéria, a forma e a privação. Mas eles não são suficientes para que se dê a geração. Aquilo que está em potência não pode se atualizar por si mesmo: a pedra, que está em potência em relação à estátua, não pode se talhar a si mesma como estátua. Antes é necessário um agente que faça a forma da estátua passar da potência ao ato. A forma, por sua vez, não pode impulsionar a si mesma da potência ao ato (aqui falo da forma da coisa gerada, da forma que é o ponto de chegada da geração), pois a forma só é no ser da coisa gerada: enquanto a geração da coisa não está terminada, a coisa gerada ainda está no vir a ser. Além da matéria e da forma, é necessário ainda outro princípio, um princípio ativo, que é a causa eficiente, ou dito de outro modo, o motor ou a causa agente ou qualquer que seja o princípio do movimento.
14. — Como diz Aristóteles no Livro II da Metafísica, tudo o que está em ato atua em vista de uma finalidade; por isso é necessário ainda outro princípio, qual seja, a finalidade para a qual se inclina o agente: ela se chama o fim. Note que, embora todo agente – quer natural, quer voluntário – aja em função de um fim, não se segue daí que todo agente conheça esse fim ou que delibere sobre ele. O conhecimento do fim é necessário para os seres cujas ações não são determinadas, mas que talvez tenham de escolher entre fins opostos, como é o caso dos agentes voluntários. Para tais agentes é indispensável conhecer o fim, pois é em função do fim que esses agentes determinam suas ações.
Nos agentes naturais, por sua vez, as ações são determinadas; portanto, eles não precisam de escolher o que convém a seu fim. Avicena dá o exemplo do tangedor de cítara, que não tem necessidade de deliberar para saber qual corda deve tanger, porque [tal ação] já está determinada em si mesmo; se assim não fosse, haveria uma interrupção entre uma nota e outra, o que causaria discórdia. Todavia, a existência ou a ausência de deliberação nos é mais perceptível no caso do agente voluntário que no caso do agente natural. Como sabemos que o agente voluntário, para o qual a deliberação é mais apropriada, pode algumas vezes atuar sem deliberação, então devemos admitir com maior razão, [por um argumento a maiori], que um agente natural tenha a possibilidade de atuar sem deliberar. Daí é possível [afirmar] que um agente natural se incline em direção ao fim sem deliberação nenhuma: “inclinar-se em direção ao fim” nada mais é que ter inclinação natural para certa direção [ou para algo]. Assim, diz-se que há quatro causas: a causa material, a causa eficiente, a causa formal e a causa final.
15. — Embora “princípio” e “causa” sejam conversíveis, segundo aquilo de Aristóteles no Livro V da Metafísica, o Filósofo, no da Física, estabelece quatro causas e três princípios. Ele entende como “causa” as causas extrínsecas e as causas intrínsecas. A matéria e a forma são as causas intrínsecas da coisa gerada, pois são partes constitutivas dessa coisa; a causa eficiente e a causa final são as causas extrínsecas, pois são exteriores à coisa gerada. Ora Aristóteles considera como princípios tão-somente as causas intrínsecas. Quanto à privação, não está listada como uma causa, pois é um princípio per accidens, como já dissemos. Quando afirmamos que há quatro causas, queremos dizer que elas são causas per se, às quais se vinculam as causas per accidens, pois tudo aquilo que é per accidens se vincula àquilo que é per se.
16. — No Livro I da Física, Aristóteles considera como princípios apenas as causas intrínsecas; mas no Livro XI da Metafísica, ele chama princípios às causas extrínsecas, e elementos às causas que são partes constitutivas da coisa, i. e., as causas intrínsecas; tanto princípios quanto elementos igualmente se denominam causas. Entretanto, pode-se usar um pelo outro: toda causa pode se chamar princípio, e todo princípio pode se chamar causa. Todavia, a palavra causa parece dizer algo a mais que a palavra princípio tomada na acepção comum. Aquilo que é primário pode se chamar princípio, siga-se a ele ou não a existência de algo posterior: por ex., o cuteleiro se chama princípio da faca, pois a existência da faca é conseqüência da operação do cuteleiro. Mas quando uma coisa se move da brancura para a negrura, diz-se que a brancura está “no princípio” desse movimento; de modo geral, o ponto de partida do movimento se chama princípio desse movimento. Ora a brancura não é aquilo de que resulta a existência da negrura. O princípio que se chama causa é aquele de que procede a existência de um posterior: a causa é aquilo cuja conseqüência é a geração de outra coisa. Aquilo que é primário e é tão-somente o ponto de partida do qual se opera um movimento não pode se chamar causa, não obstante possa se chamar princípio. Por isso, a privação é um princípio, mas não uma causa: a privação é apenas o ponto de partida da geração. Mas é possível nomeá-la causa per accidens, na medida em que coincide com a matéria, como dissemos acima.
17. — Elemento, em sentido próprio, só se diz das causas que entram na composição da coisa gerada, i. e., das causas materiais. Ademais não se diz isso de quaisquer causas materiais, mas só daquelas que entram na composição primária da coisa: por ex., os membros não são elementos do corpo humano, pois os membros também se compõem de outras coisas. Chamamos elementos à terra e à água, pois ambos não se compõem de outros corpos, mas antes são os corpos naturais que se compõem de ambos. Por isso, Aristóteles, no Livro V da Metafísica, enuncia: “elemento se diz do composto primário e imanente a uma coisa, especificamente indivisível em outras espécies”. Expliquemos esses termos. O primeiro termo,“composto primário”, fica claro de acordo com o que dissemos. O segundo termo, “imanente a uma coisa”, faz a distinção entre o elemento e a matéria que se corrompe inteiramente na geração da coisa. Por ex., o pão é a matéria em relação ao sangue, mas o sangue se alimenta pela corrupção do pão; o pão não permanece no sangue, portanto não se pode dizer que o pão é um elemento do sangue. Para que uma matéria seja um elemento, é necessário que ela permaneça de algum modo no composto e não se corrompa inteiramente, como diz Aristóteles no livro Da Geração e da Corrupção. O terceiro termo, “especificamente indivisível em outras espécies”, faz distinção entre o elemento e as coisas compostas de partes que são diversas segundo a forma, i. e., segundo a espécie: por ex., a mão se compõe de carne e de osso, que são distintos entre si segundo a espécie. Um elemento não é divisível em partes segundo as espécies; por ex., a água, cujas partes todas são água. Não importa que um elemento seja ou não divisível segundo a quantidade: é suficiente que seja indivisível quanto à forma. Aquilo que não pode se dividir de nenhuma maneira [quanto à forma] se chama elemento, como as letras do alfabeto são os elementos das palavras. Disso resulta que o princípio de algum modo aplica-se a uma extensão maior [de coisas] que a causa, e a causa a uma extensão maior [de coisas] que o elemento. É o que diz o Comentador ao comentar o Livro V da Metafísica de Aristóteles.


CAPÍTULO IV - A INTERDEPENDÊNCIA DAS QUATRO CAUSAS

18. — Há quatro tipos de causas. É possível que uma mesma coisa tenha várias causas. As causas da estátua são a pedra e o artista: o artista é a causa eficiente, a pedra a causa material. É possível também que a mesma causa gere efeitos contrários; o piloto é a causa quer da salvação, quer da soversão do navio: é causa da soversão por ausência, e da salvação por presensa, como diz Aristóteles no Livro II da Física.
19. — Ademais é possível que a mesma coisa seja causa e efeito, não sob o mesmo aspecto, mas sob aspectos diferentes. A caminhada é causa eficiente da saúde, e a saúde é causa final da caminhada; a caminhada é em alguma medida causa da saúde e se faz em vista da saúde. Do mesmo modo, o corpo é matéria da alma, e a alma forma do corpo. A causa eficiente é causa em relação ao fim, pois o fim não seria em ato sem a operação do agente. A causa final é causa da causa eficiente, pois a causa eficiente só opera com inclinação a um fim. Por isso, a causa eficiente é causa daquilo que constitui o fim: por ex., a caminhada é causa da saúde. Todavia, a causa eficiente não faz com que o fim seja o fim: ela não é a causa da causalidade final, nem faz com que o fim seja causa final; por ex., o médico faz com que a saúde seja em ato, mas não faz com que a saúde seja uma causa final. O fim, por sua vez, não é causa da causa eficiente, mas é causa da eficiência da causa eficiente: a saúde não faz com que o médico seja médico (falo da saúde recuperada pela ação do médico), mas a saúde é a razão pela qual o médico atua. Portanto, o fim é causa da causalidade eficiente, porque ele é a razão pela qual a causa eficiente atua; do mesmo modo, o fim é aquilo que faz com que a matéria seja matéria e a forma seja forma, pois é em vista do fim que a matéria recebe uma forma e a forma informa uma matéria. Por isso, o fim é a causa das causas, porque ela é a causa da causalidade em todas as causas. Assim como matéria é causa da forma, na medida em que a forma só é em uma matéria, assim a forma é causa da matéria, na medida em que a matéria só tem existência em ato pela forma. A matéria e a forma são relativas uma à outra, como aquilo de Aristóteles no Livro II da Física. A matéria e a forma estão em relação ao composto na mesma medida em que as partes em relação ao todo, ou o simples em relação ao composto, e assim conversivamente.
20. — Toda causa, enquanto causa, é naturalmente anterior ao efeito. Mas a anterioridade, diz Aristóteles no Livro XVI de História dos Animais, se entende em dois sentidos. Essa dupla acepção faz com que uma coisa seja, ao mesmo tempo, anterior e posterior à outra, e que também seja, ao mesmo tempo, causa e efeito. A anterioridade se entende quer na ordem da geração e do tempo, quer na ordem da substância e da completude. A ação da natureza procede do imperfeito ao perfeito, do incompleto ao completo: o imperfeito é anterior ao perfeito na ordem da geração e do tempo; mas o perfeito é anterior ao imperfeito na ordem da substância: o homem é anterior à criança na ordem da substâcia e da completude, e a criança é anterior ao homem na ordem da geração e do tempo. Nas coisas geradas o imperfeito é anterior ao perfeito e a potência anterior ao ato; considerando que, em um só e mesmo ser, o imperfeito precede o perfeito e a potência precede o ato, conclui-se que – segundo a ordem da natureza – é necessário que o ato e o perfeito sejam anteriores, pois aquilo que leva algo da potência ao ato é um ser em ato, e aquilo que aperfeiçoa o imperfeito é um ser perfeito. A matéria é anterior à forma na ordem da geração e do tempo, pois aquilo que se torna algo é anterior àquilo que algo se torna. Mas a forma é anterior à matéria na ordem da substância e da completude, pois apenas pela forma é que a matéria tem existência completa. Do mesmo modo, a causa eficiente, que é o motor em direção ao fim, é anterior ao fim na ordem da geração e do tempo, mas o fim é anterior à causa eficiente enquanto eficiente na ordem da substância e da completude, pois a ação da causa eficiente se completa apenas pelo fim. Assim, a causa material e a causa eficiente são anteriores segundo as fases de geração; a causa formal e a causa final são anteriores segundo os graus de perfeição.
21. — Note que há dois tipos de necessidade: a necessidade absoluta e a necessidadecondicional. A necessidade absoluta é aquela que procede das causas anteriores segundo a ordem de geração: a causa material e a causa eficiente: por ex., a necessidade da morte provém da matéria e do fato de que somos compostos de contrários. Chama-se necessidade absoluta porque não se pode impedi-la. Chama-se também necessidade material. A necessidade condicional, por outro lado. provém das causas posteriores na ordem da geração: a causa formal e a causa final. Por ex., para que se gere um homem é necessário que haja a concepção. Chama-se necessidade condicional porque não é necessário, em si mesmo, que uma mulher conceba: a concepção da mulher só é necessária para que haja o nascimento de um homem. Chama-se também necessidade para um fim.
22. — Note também que três das quatro causas podem coincidir em uma coisa só: a causa formal, a causa final e a causa eficiente, como fica claro na geração do fogo. Na medida em que o fogo gera o fogo, ele é causa eficiente; na medida em que faz ser em ato o que era em potência, ele é causa formal; na medida em que é o termo e a finalidade da ação, ele é causa final. Deve-se, porém, distinguir dois tipos de fim: a finalidade da geração e a finalidade da coisa gerada, como fica claro na geração da faca. A forma da faca é o fim que se quer gerar quando se fabrica uma faca; mas o fim da coisa gerada, que é a faca, é o cortar, que é a operação da faca. Desses dois fins, apenas a finalidade da geração pode às vezes coincidir com a causa eficiente e a causa formal, quando a geração se dá por um ser da mesma espécie que o ser produzido, por ex., quando um ser humano gera um ser humano, ou uma oliveira gera uma oliveira. Note que o fim do ser gerado, por sua vez, não pode coincidir nem com a causa eficiente nem com a causa final. Entretanto, quando dizemos que três das quatro causas são numericamente a mesma, é preciso entender que o fim e a forma são uma coisa só, na medida em que a forma da coisa gerada e o fim da geração são uma só e mesma coisa. Já a causa eficiente não é numericamente a mesma com a forma e o fim, mas é especificamente a mesma. Não é possível que o gerador e a coisa gerada sejam numericamente o mesmo, mas ambos podem ser especificamente o mesmo. Quando um homem gera um homem, o pai e o filho são numericamente diversos, mas são especificamente o mesmo. Todavia, a matéria não coincide com as outras três causas: já que ela é ser em potência, possui a natureza de algo imperfeito. As outras causas são em ato e possuem a natureza de algo perfeito. O perfeito e o imperfeito não podem coincidir na mesma coisa.


CAPÍTULO V - OS DIVERSOS MODOS DE SER DAS QUATRO CAUSAS.

23. — Agora que se entendeu que há quatro causas – eficiente, material, formal e final –, note que essas causas podem se dizer de diversos modos. Uma causa pode ser anterior ou posterior. A arte médica e o médico são causas da saúde: a arte médica é causa anterior, o médico é causa posterior; o mesmo se diga da causa formal e das demais causas. Mas devemos sempre remeter a questão à primeira causa. Por ex., se alguém perguntasse: “Por que este homem ficou curado?”, a resposta seria: “Porque o médico o curou.” Mas se ainda perguntassem: “Por que o médico o curou?” – “Porque ele possui a arte da cura.”
24. — A causa posterior se chama causa próxima; a causa anterior se chama causa remota. O mais universal é sempre causa remota, o mais particular é causa próxima. Assim, a forma próxima do homem é sua definição – animal racional. Mas a forma do animal é mais remota, e mais remota ainda a forma geral de substancia. O superior é sempre a forma do inferior: a matéria próxima da estátua é a pedra, a matéria remota é o mineral, e a matéria ainda mais remota é o corpo sólido.
25. — Algumas causas são per se, outras per accidens. A causa per se é a causa do efeito enquanto tal; por ex., o construtor é causa eficiente da casa, a madeira é causa materal do escabelo. A causa per accidens é um acidente da causa per se: se um gramático constrói uma casa, ele é causa eficiente da casa, mas causa per accidens, pois a constrói não enquanto gramático, mas enquanto construtor, e gramático per accidens – e assim para todas as causas. As causas são ou simples ou compostas. A causa simples é a causa que sozinha é causa per se, ou sozinha é causa per accidens: o construtor é causa da casa, o médico é causa da casa.
26. – A causa composta é aquela que reúne a causa per se e a causa per accidens, como se disséssemos que, por ex., o médico construtor é causa da casa. Segundo Avicena, a causa simples é aquela que é causa sem o concurso de outra: o bloco de pedra é causa material da estátua, sem adição de outro bloco ou de outro mineral; o médico cura os doentes; o fogo esquenta. A causa é causa composta quando necessita do concurso de muitos para ser causa: um só homem não é causa do movimento do navio, são necessários muitos; uma só pedra não é causa material da casa, são necessárias muitas.
27. — Algumas causas são em ato, outras são em potência. A causa em ato é aquela que causa uma coisa em ato, como o construtor enquanto constrói e a pedra enquanto se faz a estátua. A causa em potência é aquela que, embora não cause uma coisa em ato, pode entretanto causá-la, como o construtor que não está construindo, mas pode construir; ou a pedra que ainda não é estátua. Note que a causa e o efeito devem necessariamente ser em ato ao mesmo tempo. Para que o construtor seja construtor em ato, ele precisa estar construindo; para que a construção seja em ato, precisa-se de um construtor em ato. Mas isso não é necessário para as causas em potência. Ademais uma causa universal corresponde a um efeito universal; uma causa particular corresponde a um efeito particular: o construtor é causa da casa, e este construtor é causa desta casa.


CAPÍTULO VI - O SENTIDO UNÍVOCO, O SENTIDO EQUÍVOCO E O SENTIDO ANÁLOGO

28. — Note também que, quando se fala de princípios intrínsecos – matéria e forma –, conforme sua identidade e distinção e conforme seus efeitos, vê-se que alguns dentre eles são numericamente o mesmo: Sócrates e este homem que se aponta como Sócrates; que alguns outros são numericamente diversos e especificamente idênticos: Sócrates e Platão são dois indivíduos, mas ambos pertemcem à espécie humana; que alguns são especificamente diferentes mas genericamente idênticos: o homem e o asno remontam ao mesmo gênero, o gênero animal; que alguns enfim são genericamente diferentes e apenas analogamente o mesmo, como a substância e a quantidade, que não possuem gênero em comum e são o mesmo apenas analogamente, pois são o mesmo apenas na medida em que são seres. “Ser”, todavia, não é gênero, pois não se predica univocamente, mas só analogamente.
29. — Para entender o que se acabou de dizer, deve-se saber que há três modos distintos de se empregar uma mesma denominação a uma pluralidade de seres: univocamente, equivocamente e analogamente.
Univocamente se diz daquilo que emprega uma só e mesma palavra segundo uma só e mesma significação, i. e., uma só e mesma definição: por ex., “animal” se diz univocamente do homem e do asno; um e outro se chamam “animal”, um e outro são “substância sensível e animada”, que é a definição de animal. Equivocamente se diz daquilo que confere a seres diversos um mesmo nome empregado em sentidos diferentes: “o cão” designa um animal que late e uma constelação no céu. O animal e a constelação possuem o mesmo nome, mas não a mesma definição: nos dois casos, a palavra “cão” não possui a mesma significação, pois a significação de uma palavra é a sua definição, como diz Aristóteles no Livro IV da Metafísica. Analogamente se aplica uma mesma palavra a realidades que se distinguem por natureza e por definição, mas que se atribuem a uma mesma coisa; por ex., a palavra “são” se diz de um ser vivo, se diz da urina e se diz de uma bebida, mas o sentido não é inteiramente o mesmo nesses três casos. Diz-se que a urina é sã na medida em que é um sinal de saúde; o ser vivo é são na medida em que é sujeito da saúde; uma bebida é sã na medida em que não prejudica a saúde. Esses três sentidos distintos remetem a um só e mesmo fim, a saúde.
30. — Algumas vezes as coisas que possuem uma relação de analogia, i. e., de proporção ou de comparação, se atribuem a um só e mesmo fim, como se acabou de ver no exemplo da saúde. Outras vezes elas se atribuem a uma só e mesma causa eficiente: chama-se “médico” àquele que age segundo a arte da medicina; ou à parteira, que não conhece essa arte; ou aos instrumentos “médicos”, em referência ao ato médico. Em outros casos, atribui-se a um só e mesmo sujeito: o ser se diz da substância, mas também da quantidade, da qualidade e demais predicamentos. Não é exatamente no mesmo sentido que a substância é um ser, e que a qualidade e demais predicamentos são seres; mas o ser se diz também dos acidentes, na medida em que os acidentes são atributos da substância, que é o sujeito deles. O ser se diz , primeiro, da substância, e depois, dos acidentes; mas o gênero não se predica antes de algumas de suas espécies e depois de outras, predica-se analogamente de todas suas espécies. Logo, o ser não é gênero da substância e da quantidade.
31. — A forma e a matéria das coisas que são numericamente a mesma são ambas de fato numericamente a mesma, como são a forma e a matéria de Marco, de Túlio e de Cícero. A matéria e a forma das coisas que são especificamente a mesma e numericamente diversas não são a mesma numericamente, mas o são especificamente, como a matéria e a forma de Sócrates e Platão. Do mesmo modo, a matéria e a forma das coisas que são genericamente a mesma, como a alma e o corpo de um asno e de um cavalo, distinguem-se especificamente, mas são o mesmo genericamente. Ainda, os princípios das coisas que concordam apenas analogamente ou proporcionalmente são os mesmos apenas analogamente ou proporcionalmente. A matéria, a forma e a privação – ou dito de outra forma, a potência e o ato – são os princípios da substância e demais predicamentos. Contudo, a matéria, a forma e a privação da substância e do acidente, por ex. a quantidade, se distinguem genericamente, conforme se trate de uma substância ou de um acidente; mas as noções de matéria, de forma e de privação se aplicam proporcionalmente tanto aos acidentes quanto às substâncias: assim como a matéria da substância está para a substância, assim a matéria do acidente, por ex. a quantidade, está para o acidente. Como a substância é a causa de todos os acidentes, os princípios da substância são os princípios de todos os acidentes.

FIM

3 comentários:

Ronald Robson disse...

Luiz,

Traduções como esta são dignas de louvor irrestrito. Creio não o ter feito antes, mas aqui te parabenizo por teu trabalho, que, no caso de textos como este, é da mais alta importância. Grande abraço.

Luiz de Carvalho disse...

Agradeço-te a visita ao blogue. Nota, porém, que a tradução é provisória: neste exato momento corrigi alguns erros que nela havia. Se o texto te interessou, é bom que de tempos em tempos tu o recopies, até que eu publique a versão definitiva.

Abraços.

Nicolas C. Piocoppi disse...

Agradeço muito esta tradução. Faço minhas as palavras do Ronald aí acima. Parabéns pelo excelente trabalho por aqui.