Domingo, Novembro 08, 2009
Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Marcel de Corte - A Informação Deformante
Que é a informação? Atualmente seu sentido não se limita ao domínio técnico estrito, nem à mera coleta de dados, como a definia Littré. Cada vez mais a informação tende a significar o conhecimento e a difusão pública do que acontece em uma área qualquer da atividade humana, desde a crônica do quotidiano até a religião, a arte, a ciência, a tecnologia, a política etc.. Diz respeito à informação tudo aquilo que acontece, advém, ocorre e surge na imensidão do universo. Ela se desdobra à frente de um cenário em constante mudança. Sem mudanças, não há informação. As aquisições permanentes, incorporadas ao conhecimento, as verdades eternas não são propriamente informação. Não existe informação sobre a rotação da terra, nem sobre a tábua de multiplicação. Essencialmente refere-se à informação o que aparece ou se produz no presente e – como o presente se desloca incessantemente - o que é novo. Esse sentido inédito de “informação” corresponde à observação de Valéry, de que na civilização contemporânea a novidade toma o lugar até então reservado à experiência e à tradição. Logo, a informação refere-se ao que denominam “acontecimento”.
Entretanto o termo “informação” não é um simples sinônimo de “novidade” ou “atualidade”. A “novidade” ou a “atualidade” não possuem a nota de “conhecimento exato” com que a informação se impõe aos olhos do homem moderno. O homem “informado” é aquele que sabe e “informa” os que não sabem, os quais por sua vez serão “informados”. Desse modo a palavra “informação” tem um imenso escopo que engloba e ultrapassa o sentido da palavra “ciência” ou “conhecimento da realidade”, e agrega o aspecto de “verdade” e de “conformidade à natureza das coisas”, que ela normalmente possui. A informação tende a abranger todos os campos do conhecimento, inclusive do conhecimento cientifico. Hoje em dia a qualidade essencial do cientista é a de ser “informado”. Ele deve saber tudo o que se passa no domínio de sua competência, a fim de sempre acrescentar “um fato novo” a esse saber que se transforma incessantemente. Revistas exaustivas e especializadas em “informação” estão a minha disposição; nelas estão recenseadas as publicações recentes em tal ou qual setor do conhecimento humano. Para o cientista trata-se de estar sempre “em dia” com a pesquisa e a produção científicas da área de interesse, para que assim realize as próprias investigações e, por seu turno, produza o “novo”. Para acentuar esse movimento, os congressos, os colóquios, as palestras e os encontros científicos, enfim, as oportunidades em que os cientistas trocam e discutem informações, multiplicam-se. Mais e mais os cientistas se tornam um tecido de informações relativo a um determinado objeto, cujo desenho se modifica e cuja trama se expande dia após dia. Antigamente informação e coleta de dados eram, para Littré, quase sinônimos, mas agora, na linguagem do séc. XX, a informação e o conhecimento estão cada vez mais identificados com o conhecimento científico da novidade, qualquer que seja sua forma.
Assim a informação em sentido moderno é considerada, por um lado, como “o conhecimento do novo”, e por outro, devido ao intermédio de seu uso científico, como o conhecimento exato das transformações que se operam no curso do conhecimento. As duas significações estão a se aglutinar na mentalidade e na linguagem do homem contemporâneo, para quem a verdade não é mais aquilo que é, mas aquilo que vem a ser. O que acontece e se difunde através do canal da informação toma assim, perante seus olhos, um valor de realidade, chegando mesmo a se tornar o único valor real. Não é por acaso que os resultados dos cálculos científicos, obtidos através de máquinas cibernéticas, denominam-se “informações”. Na resolução de cálculos a máquina não é apenas superior a qualquer cérebro humano, mas desenvolve soluções a que praticamente ninguém chegaria e que, por conseguinte, são inéditas; mais ainda, a máquina pode, por meio da programação adequada e da introdução de variáveis, perscrutar o porvir de um projeto e determinar o seu melhor estado futuro; existe alguma coisa mais atual que o conhecimento matemático dos “amanhãs que cantam”? O célebre vaticínio do positivismo para a ciência, “saber para prever, prever para poder”, não se lhes afigura utópico. Graças à informação, o homem é agora senhor de seu destino coletivo: ao bel-prazer ele pode se realizar parcialmente nos extratos social e econômico, enquanto espera para se realizar como indivíduo, de acordo com sua vontade própria, que a informação exaustiva libertou.
Através do conhecimento e da informação dos acontecimentos que constituem e compõem seu futuro, o homem é capaz de se transformar em demiurgo, fabricante e homo faber de si mesmo.
Eis armado o pano de fundo onde se projeta o novo significado de “informação”. Ele concorda com o sentimento, largamente difundido pelas informações, de que o homem contemporâneo é um “mutante”, que tem o poder de controlar e orientar a própria “mutação”.
Qual é a causa do aparecimento e da expansão universal do novo sentido da palavra “informação? Nos capítulos precedentes, temos preparado a resposta para essa questão. No moderno sentido da palavra, a informação é causada, antes do mais, pela nova concepção que o homem moderno tem de si mesmo, como emancipado das relações de dependência perante o universo e seu Princípio. Desde a Renascença, o homem se concebe segundo a fórmula de Pico de la Mirândola, como modelador e fabricante de si mesmo (plastes et fictor), e se imagina capaz de “vislumbrar-se de acordo com as formas preferidas pelo livre-arbítrio”. Essa concepção, que no séc. XVIII alcançou o cume da realização teórica, e no séc. XX o da realização prática – em que se pese as suas conseqüências –, essa concepção se traduz social e politicamente em um sistema de vida comum que foi batizado de “democracia”. Como pressentira o gênio de Augustin Cochin, a SOCIOLOGIA DO FENÔMENO DEMOCRÁTICO explica totalmente o fenômeno da informação e – como anotamos em outro passo – a ação deformante dessa informação universal, a qual, se levada até ao limite, destrói a inteligência humana.
Requer-se aqui uma explicação preliminar. A democracia, como nós a conhecemos hoje, não tem nada em comum com as democracias do passado, por exemplo, com a democracia ateniense ou as democracias comunais da Idade Média, e muito menos com a democracia legítima que Pio XII descreveu em conformidade com o ensinamento dos grandes filósofos políticos do passado, ou ainda com a atual democracia helvética. Separa-as não apenas uma diferença de extensão – esta recobrindo um espaço geográfica e demograficamente restrito, e aquela, ao contrário, desdobrando-se sobre grandes extensões e em diversos lugares até se tornar, segundo a promessa de Roosevelt, “the world save for democracy”, transformando a máquina do mundo em uma democracia universal, em vistas a um governo mundial. [...]
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Sexta-feira, Outubro 16, 2009
Sentenças de Paul Valéry (1871-1945)
A arte é a imagem do pensamento.
O amor consiste em ser bobo juntos.
Não existem detalhes de execução.
A verdadeira tradição não é refazer o que outros fizeram, mas encontrar o espírito que as fez e as faria em distintas épocas.
Os livros e os homens têm os mesmos inimigos: o fogo, a umidade, os animais, o tempo e o próprio conteúdo.
Quem deseja realizar grandes feitos deve pensar profundamente nos detalhes.
A sabedoria não tem nada que fazer com a alma: a alma não tem espírito.
A história justifica qualquer coisa que se queira. Ela ensina absolutamente nada, pois contém tudo e dá exemplo de tudo. É o produto mais perigoso que a química do intelecto já elaborou.
Deus criou o homem e, como não o achasse bastante solitário, deu-lhe uma companheira para que sentisse melhor a solidão.
Em caso de movimentos de humor, verificar a hora e anotar. Atentar ao ponteirinho dos segundos. O humor é o único a trabalhar contra o bem e o mal.
As guerras são pessoas que não se conhecem e se matam entre si porque outras pessoas que se conhecem muito bem não chegaram a um acordo.
O talento sem gênio é pouca coisa. O gênio sem talento é nada.
Não me ensinas nada se não me ensinas a fazer algo.
Recordai-vos de que, entre homens, só existem dois tipos de relação: a lógica ou a guerra.
O que mais ocupa é o de que menos se fala. O que está sempre no espírito, quase nunca está entre os lábios.
O poema, essa hesitação prolongada entre o som e o sentido.
A inteligência – a faculdade de reconhecer a própria tolice.
Quantas coisas se devem ignorar para agir!
Críticas: o petardo mais sujo pode abrir uma ferida mortal. Basta que contenha raiva.
As contradições constituem a substância da nossa atividade espiritual.
Um homem passa por teimoso; mas, no fundo, ele só tem o hábito do querer. Para ele, querer é facílimo.
Provérbios para os poderosos: “Se alguém te lambe as botas, dá-lhe um pontapé antes que ele comece a te morder”.
Tudo o que dizes fala de ti, sobretudo quando falas de outrem.
A política consiste na conquista e na conservação do poder; por conseguinte, ela exige uma ação de repressão ou ilusão sobre os espíritos, que são a matéria de qualquer poder.
Para que um sistema de homens marche bem e com harmonia, é preciso que cada um não esteja nem acima nem abaixo do seu dever.
A verdade precisa da mentira, pois como defini-la sem contraste?
Todos dissimulam algo para alguém, e todos algo para si mesmos. Logo, a sinceridade é um vale com duas vertentes.
Como fazer para nada fazer? Não conheço nada mais difícil. É um trabalho de Hércules, um trabalho para cada instante.
Se todos os homens fossem igualmente esclarecidos, igualmente críticos, e sobretudo igualmente corajosos, qualquer sociedade seria impossível!
O pensamento é uma rasura infindável.
Qualquer crítica, qualquer censura quer dizer: eu não sou você.
Os pequenos fatos inexplicáveis sempre contêm algo que viraria de pernas para o ar as explicações dos grandes fatos.
A ação é uma loucura breve.
A ambição exterior tem como condição uma sorte de desespero ou abandono da ambição interior.
Nada torna um homem mais temível, mais implacável, mais... que a faculdade de ver as coisas... tais como são.
Minha reputação – não seria o triste esforço a que sou obrigado para imitar a imagem falsa que vós fizestes de mim?
Uma viagem é uma operação em que as cidades correspondem às horas.
Onde quer que eu vá/Eu sempre encontro/Fora e dentro de mim/O Vazio Inocupável/O Nada Inconquistável.
Palavra triste: turistas. Os estrangeiros, separados da vida do país pela redoma de ar que levam consigo: os hábitos, os interesses, os falatórios da sua cidade, os jargões da sua seita.
Antes de tudo, a política foi a arte de impedir as pessoas de se meterem no que lhes respeitava.
O tempo do mundo terminado começa.
A ordem é um peso ao indivíduo. A desordem fá-lo desejar a polícia ou a morte.
...E vemos que o abismo da história tem espaço para todo mundo.
Os espíritos valem segundo o que exigem. Eu quero o que quero.
O simples é sempre falso. O que não é simples, é inútil.
No homem, existe um traidor chamado vaidade, que entrega os segredos em troca de incensos.
O episódio catastrófico pisa e desconjunta menos o homem descuidoso e imprevidente que o previdente. Para o imprevidente, o mínimo de imprevisto. – Qual o imprevisto para quem não se preveniu?
Raramente alguém desata a rir sozinho, porque é difícil surpreender a si mesmo.
Maldade de quem tem razão sozinho... O ser que “tem razão”, que “tem direito”, que sustenta “o justo” ou “a verdade” – está sempre tentado a tirar vantagem dessa posição, e a se inclinar a uma maldade natural... no interesse da Verdade ou da Justiça.
A política se funda sobre a indiferença da maioria dos interessados, sem a qual não existe política possível.
Não hesites em fazer o que te afasta de metade dos teus partidários e triplica o amor dos demais.
A perfeição, atingi-la é conhecer a excelência da impotência.
Após algumas investidas infrutuosas, não renuncia, muito menos insiste. Antes guarda o problema nas cavernas da alma, onde ele se apura. Modifica os dois.
Agradar a si é orgulho; aos outros, vaidade.
A mentira e a credulidade se acasalam e engendram a Opinião.
A mentira será o pecado habitual do discutidor, o qual torna a verdade perigosa.
Com freqüência, o sentimento da impossibilidade da inteira compreensão de nossa ação pelo próximo nos força a mentir. Ele nunca chegará a conceber essa necessidade de compreensão (que se impõe a nós, sem se revelar).
A memória é o futuro do passado.
Aprender a falar é aprender a retirar o sentido das palavras e das épocas das quais as apreendemos – é esquecer a maioria das antigas relações. Sem esquecimento, não passamos duns papagaios.
Os mestres são os que nos mostram o possível numa ordem do impossível.
O homem sente-se livre. Mas muito a miúdo meu braço não sente peso algum. Nem por isso pesa menos.
A leitura de histórias e romances serve para matar o tempo de segunda ou terceira qualidade. O tempo de primeira qualidade não precisa de quem o mate. Ele é que mata todos os livros. E engendra alguns poucos.
Bem disposto algum dia, é preciso pegar o livro que achamos entediante, ordenar-lhe ser, e tentar reconstituir o interesse que atraiu seu autor.
A linguagem escurece quase tudo, pois obriga à fixação e generaliza sem que se queira.
Entre duas palavras, deve-se escolher a menor.
A clareza é um acordo. Uma idéia é clara quando alguém combina consigo mesmo em não aprofundá-la.
Há de se trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. É a melhor forma de rendimento – um aproveita ao outro, e cada um é mais si mesmo, mais puro. As idéias que nos vêm, enviamo-las cada qual para onde melhor se encaixa, já que existem muitos lugares a preencher.
As objeções nascem amiúde do prosaico motivo de quem as objeta não haver descoberto a idéia que ataca.
As idéias precisas geralmente levam a não fazer nada.
O homem tende a virar máquina. Hábito, método, controle, enfim – quer dizer máquina.
Poucos espíritos se prestam a examinar a questão antes de dar a resposta.
“Espírito de fineza”, “espírito de geometria” – quantas tolices que nos puseram à boca essas palavras. Aqui jaz o vício das expressões, às quais é preciso dar um sentido antes de se considerar a aplicação. No entanto, é tarde demais...
A esperança faz viver, mas como numa corda esticada.
O “determinista” jura que se as pessoas soubessem tudo, saberiam também deduzir e predizer a conduta de todos em cada circunstância – o que é bem evidente. Infelizmente, “saber tudo” não faz o menor sentido.
Quando se diz que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, nada se diz. Nunca se produzem novamente as mesmas coisas – e, ademais, não podemos conhecer todas as causas.
O que me torna tão lento e dilatado no construir, é a estranha mania de sempre querer começar pelo começo.
Os obstáculos são sinais ambíguos ante os quais uns desesperam e outros compreendem que existe algo a compreender. Mas há os que sequer os vêem...
Um chefe é um homem que precisa dos outros.
A vida é a conservação do possível.
Não hesito em declarar: o diploma é inimigo mortal da cultura.
A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.
Os homens se distinguem pelo que mostram e se assemelham pelo que escondem.
É mister se desculpar de bem fazer, pois nada machuca mais.
O homem é absurdo pelo que procura, grande pelo que encontra.
Um homem digno recusa o que lhe recusam mais que lho recusam os que o recusam.
Quem não nos repugna nos repugna.
Um homem sério tem poucas idéias. Um homem de idéias jamais é sério.
Política da vida. O real é sempre da oposição.
Nosso espírito é feito de desordem mais a necessidade de pôr em ordem.
A esperança enxerga um defeito na couraça das coisas.
Quem vê as coisas muito exatamente, não as vê muito exatamente.
O melhor do novo é o que responde a um antigo desejo.
Um homem que nunca tentou se tornar semelhante a um deus, é menos que um homem.
Estado muito perigoso: achar que compreende.
A sintaxe é uma faculdade da alma.
Os “motivos” que escondem o crime são mais vergonhosos, mais secretos que os crimes.
A inspiração é uma hipótese que reduz o autor ao papel do observador.
O gosto se constrói de mil desgostos.
O poder sem abuso perde o encanto.
Homem competente é o homem que se engana segundo as regras.
A História é a ciência das coisas que não se repetem.
O difícil sempre se renova para mim.
O homem é um animal encerrado no exterior da jaula. Ele se debate fora de si.
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Sábado, Outubro 10, 2009
Apotegmas de Henry-Fréderic Amiel
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Segunda-feira, Outubro 05, 2009
Frases de Georges Bernanos
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Quarta-feira, Setembro 09, 2009
Ramalho Ortigão - O Celibato e o Casamento dos Sacerdotes
Ramalho Ortigão e Eça de Queirós
Não, senhores, o casamento não é, como denotam supor os que combatem o celibato eclesiástico, um freio para a incontinência.
Pedimos às pessoas que têm tido a bondade de receitar ultimamente ao clero o casamento, considerando este como a triaga soberana contra o terceiro pecado mortal, a fineza de serem um pouco menos injustas com a sua sociedade, e um pouco menos torpes com a sua família.Seria muito para desejar, como coisa demasiadamente delicada para andar entre os dedos dos compositores de periódicos, o abstermo-nos de cotejar as vantagens que nossas mães poderiam ter tirado de suas núpcias, com os inconvenientes que os senhores eclesiásticos poderiam ter achado nos seus votos.
Porque a veneranda verdade, superior a toda a grossaria da polémica, é esta:
O casamento não pode ser nem deve ser – por enquanto ao menos – considerado como uma dádiva de bordel feita pela hipocrisia das instituições à fatalidade dos temperamentos.
Não nos importa saber e desprezamo-nos de indagar a questão baixa e sórdida que a carta do padre Jacinto levantou na imprensa: se o padre precisa ou não precisa de mulher. Senhores jornalistas, o único problema que neste ponto a nossa dignidade nos consente resolver ou estudar, é: se o padre precisa ou não precisa – da família.
Se o padre, na sua residência paroquial, nos campos, ao pé da sua igreja, junto dos cemitérios, só com a sua consciência elevada e com a plenitude perfeita do seu dever, pode conservar-se indiferentemente ao amor – ao amor na mais alta, na mais filosófica, na mais pura acepção desta palavra –, ao facto íntimo, profundo, transcendente, de amar e de ser amado.
Se finalmente a inveja, a inveja terrível, mordente, devoradora, implacável, não rebentará um dia ou outro na alma solitária do pároco, cingindo-a e envolvendo-a como a hera envolve os troncos secos e estéreis, perante as dedicações, as responsabilidades, os sacrifícios, as alegrias que lhe são vedadas a ele, condenado a contemplá-las, a bendizê-las, a abençoá-las, quando elas passam constantemente aos seus olhos tristes e ardentes, personalizadas nas mães que levam seus filhos pela mão, nos noivos que se beijam nas espessuras dos arvoredos, nos trabalhadores que jantam à sombra dos campos com as suas mulheres, nos velhos que fazem saltar nos joelhos os seus pequenos netos às réstias do sol de inverno, à porta das cabanas.
E perguntamos por último se esta inveja, procedente da chaga aberta na mais nobre fibra do nosso coração, não pode levar o padre, principalmente o padre meridional, ardente e solitário, imaginoso e místico, às profundidades trágicas da perversão, às alucinações tenebrosas em que se geram os monstros? e se as medonhas flagelações bestiais que ensanguentam as páginas do catolicismo e a história das relações da Igreja com a sociedade, em Portugal e na Espanha, não serão apenas os resultados naturais destas causas remotas, no íntimo tão humanas e tão simpáticas – o delírio da solidão, a raiva do amor?
Há porém a considerar: que a família também é uma religião; no lar doméstico o marido e o pai cumprem um sacerdócio da mais alta responsabilidade, árduo e austero. O lar doméstico é o templo em que se sacrifica ao culto da honra e à religião da solidariedade. O padre que ingere nos deveres com Deus os deveres com a família, não simplifica o rigor dos seus encargos, complica-os com os encargos novos e com novos rigores; e, para aligeirar o peso de uma responsabilidade, contrai outra. Deseja-se saber agora, se quem não tem força para um pode ter força para dois, e se poderá inculcar-se capaz do mais quem não foi capaz do menos.
Ora sem divagarmos em conjecturas, citaremos um facto estatístico: durante um ano doze eclesiásticos foram degredados para a costa de África por traição ao voto e ofensa à moral.
Individualmente, sabemos bem e folgamos de o dizer com respeito, há sacerdotes exemplares e dignos, que seriam exemplares maridos e dignos pais: estes estão incluídos em o número dos que nem solicitam nem discutem o casamento. Como classe, porém, a eclesiástica deverá fixar a nossa consideração pelas suas convicções e pelos seus princípios indo para a África um pouco mais em missão – e um pouco menos em degredo.
ORTIGÃO, Ramalho. Farpas Escolhidas, (seleção e introdução por Ernesto Rodrigues),
Ed. Ulisseia, 1991, págs. 170-172.
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Quinta-feira, Setembro 03, 2009
Xavier Zubiri - Que é Investigar?
Estamos reunidos por ocasião do prêmio de investigação Santiago Ramón y Cajal, cuja significação aqui já se glosou. É um prêmio que, através de vós, a sociedade espanhola concede-me. A melhor maneira de expressar minha gratidão a tal concessão é comentar em duas palavras o que é essa “investigação”, que tão generosamente premiais.
Que é que se investiga? Evidentemente investigamos a verdade, mas não a verdade das afirmações, antes a verdade da própria realidade. É a verdade pela qual afirmamos o real, a realidade verdadeira. Ela é uma verdade com muitas ordens: física, matemática, biológica, astronômica, mental, social, histórica, filosófica etc..
Mas como se investiga a realidade verdadeira? A investigação da realidade verdadeira não consiste meramente em ocupar-se dela. Com certeza é uma ocupação, mas não mera ocupação. É muito mais – é dedicação. Investigar é dedicar-se à realidade verdadeira. Dedicar significa mostrar algo, deik, com especial força- de. No que respeita à dedicação intelectual, consiste essa força em configurar ou conformar a mente segundo o mostruário da realidade e oferecer o que assim se mostra à consideração dos demais. Dedicação é permitir à realidade verdadeira configurar a mente. Viver intelectivamente, segundo essa configuração, consiste no que se denomina profissão. O investigador professa a realidade verdadeira.
Essa profissão é peculiar. Quem só se ocupa dessas realidades não investiga: possui a realidade verdadeira ou partes distintas dela. Contudo, quem se dedica à realidade verdadeira tem uma qualidade de certo modo oposta: não possui verdades, mas, ao contrário, está possuído delas. Na investigação estamos de mãos dadas com a realidade verdadeira, vamos arrastados por ela, e esse arrasto é justamente o movimento da investigação.
Esse arrasto impõe à investigação certos caracteres próprios: são caracteres da realidade que arrasta [o investigador].
Antes do mais, todo o real só é o que é em face de outras realidades. Nada é real se não o for perante outras realidades. Essa contraposição significa que toda coisa real é, em si mesma, constitutivamente aberta. Só entendemos a coisa que queremos compreender se entendida a partir de outras coisas, que se devem buscar mais além. E esse entendimento é o que a coisa é na realidade. O arrasto com que a realidade arrasta faz de sua intelecção um movimento de busca. Como acontece o mesmo com as outras coisas, a partir das quais entendemos o que queremos entender, resulta que, ao sermos arrastados pela realidade, encontramo-nos envolvidos num movimento inesgotável, não apenas porque o homem não pode esgotar a riqueza da realidade, mas também porque ela é radicalmente inesgotável, i. é, porque a realidade enquanto tal é, em si mesma, constitutivamente aberta. No meu modo de ver, esse é o fundamento da célebre frase de Santo Agostinho: “Busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda buscarão”. Investigar o que qualquer coisa é na realidade é faina interminável, pois o mesmo real nunca está rematado. A realidade é aberta e múltipla.
Além de aberta, a realidade é múltipla. E assim é, ao menos, em dois aspectos.
Em primeiro lugar, porque existem muitas coisas reais, cada uma com suas próprias características. Investigar as notas ou os caracteres próprios de cada ordem de coisas reais é justamente o que constitui a investigação científica e as distintas ciências. Ciência é a investigação do que as coisas em realidade são.
No entanto, em segundo lugar, o real é múltiplo, não apenas porque as coisas têm muitas propriedades distintas, mas também por uma razão a meu ver mais profunda: nelas a abertura é o mesmo caráter de sua realidade.
Essa conclusão não arrasta para a investigação das propriedades do real, mas para a do caráter da realidade. Tal investigação é um saber de tipo distinto –penso que é isso que é a filosofia. É a investigação do em que consiste ser real.
Enquanto as ciências investigam como são e acontecem as coisas reais, a filosofia investiga o que é ser real. Ciência e filosofia, mesmo distintas, não são independentes, não esqueçam. Toda filosofia necessita das ciências; toda ciência necessita de uma filosofia. São dois momentos unitários da investigação. Mas como momentos não são idênticos.
A questão do que é ser real é, antes do mais, por si mesma uma autêntica questão. Porque as coisas não são apenas o riquíssimo elenco das propriedades e leis, mas cada coisa real e cada propriedade sua é um modo de ser real, um modo de realidade. As coisas não diferem só pelas propriedades, podem diferir no próprio modo de serem reais. Por exemplo, a diferença entre uma coisa e uma pessoa é em essência uma diferença de modo de realidade. Pessoa é um modo próprio de ser real. Deve-se conceitualizar o que é ser pessoa, i. é, deve-se investigar o que é ser real, porque entre coisa e pessoa existem modos de realidade distintos.
Ademais, esse conceito e essa diferença de modos de realidade é uma questão grave. Assim as pessoas estamos com certeza vivendo “com” coisas. Mas qual seja a variedade e riqueza dessas coisas, aquilo “em” que estamos situados com elas está n“a” realidade. Cada coisa com que estamos impõe-nos uma maneira de estar na realidade – eis aí o decisivo. Do conceito que temos do que é a realidade e seus modos depende nossa maneira de ser pessoa, de estar entre as coisas e as demais pessoas, depende nossa organização social e sua história. Daí a gravidade da investigação do que é real. É uma investigação imposta pelas coisas mesmas. À medida que as coisas reais se impõem, é justa sua realidade. Essa força de imposição é o poder do real: é a realidade como tal - e não apenas suas propriedades - o que nos arrasta e domina. Por isso, constitui o poder do real a unidade intrinseca da realidade e da inteligência – o caminho natural da filosofia.
Com propriedade escreveu Hegel: “Tão assombroso quanto um povo para o qual se tornaram imprestáveis o direito político, as convicções, os hábitos morais e as virtudes, seria o espetáculo dum povo que perdera a metafísica”.
Finalmente, investigar o que é o real é uma tafefa muito difícil. Por isso, dizia Platão a um jovem amigo, principiante em filosofia: “É formoso e divino o ímpeto ardente que te lança às razões das coisas; contudo, enquanto és jovem, exercita-te e adestra-te nos esforços filosóficos, que aparentemente não servem de nada e que o vulgo chama de palavrório inútil; do contrário, a verdade escapar-te-á por entre as mãos”. Durante toda sua longa vida, Platão se dedicou a esse esforço. Algumas vezes sentia-se desanimado. Certa vez escreveu: apeireka ta onta skopon, “caí desfalecido ao escrutinar a realidade”. Uma das pessoas que melhor compreende a distinção e a unidade da ciência e da filosofia é o meu admirado e querido amigo Severo Ochoa. Por isso, e por nossa velha amizade, sua companhia nesta ocasião é para mim um momento capital deste prêmio.
Ao nos referirmos à investigação, vós pensastes também na filosofia. É a primeira vez que isso acontece. Eu, e comigo todos os dedicados cultivadores da filosofia, sentimo-nos legitimamente honrados e satisfeitos. Agradeço em nosso nome.
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Terça-feira, Agosto 04, 2009
Louis Lavelle - A conduta em face do outro (parte I)
PREFÁCIO
O problema das relações entre os homens consiste em saber passar dum estado de simpatia ou antipatia naturais que reina entre os caracteres, ao estado de mediação mútua que permite a cada um realizar, por intermédio do outro, do indiferente, do amigo ou inimigo, a própria vocação espiritual.
Para nós, o universo real se reduz a nós mesmos e aos seres com que estamos ligados por liames muito íntimos. Em toda a roda, reina um grande círculo escuro, povoado só de aparências ou de coisas.
A multiplicidade de consciências isoladas, que buscam debalde transpor o intervalo que as separam, não existe. O que há é a consciência única, da qual somos membros dispersos. Cada um necessita dos demais para conservá-la. O que está em outrem, está em mim - o que se descobre graças à mediação.
Quiséramos descrever a verdadeira face do homem, contrastando não somente o que é com o que deveria ser, mas também o que ele acredita ser e é mera opinião com aquilo que ele é no âmago de si mesmo e em sua verdadeira essência. Seu dever é justamente encontrar tal essência. Contudo, os estados de infelicidade que descrevemos são os em que os homens hodiernos se comprazem e consideram como se constituísse o homem em sua totalidade.
É possível que neste livro se encontre mais amargura que nos anteriores. Deve-se isso à existência de duas verdades: uma verdade espiritual, constituída de contentamento e luz, mas em que nem sempre vivemos – esta é aquela verdade que nos dedicamos a descrever até agora; ela dá grande satisfação àqueles cujo olhar se volta para o interior: a miúdo os censuramos de sonhar a vida em lugar de vivê-la. Há ainda uma verdade exterior e patente, que desmente a outra sem cessar: ela é a única que existe para aqueles cujo olhar se volta para o exterior e que justifica seus queixumes e sarcasmos, pois eles a comparam com uma outra cujo apelo nostálgico trazem ao seio. Eis aí, dir-se-á, o conflito entre a verdade e a realidade. Uns e outros se esforçam para que ambas coincidam. Mas uns acham que se deve abolir a realidade e transformá-la em verdade algum dia; outros, que a verdade nada é enquanto a realidade em que deve encarnar-se não se torne conforme a ela.
Far-se-ão duas observações: a primeira, é que a verdade espiritual só se desvenda ao homem na solidão, quando o eu está em contato direto com Deus. Existe uma verdade humana que contradiz a verdade espiritual, uma verdade em que o indivíduo se depara sempre com outros indivíduos semelhantes a si e com os quais entra numa espécie de conflito de todos os instantes. É como se fossem deuses rivais a lutar por preeminência; contudo, se chegassem a um acordo, o mesmo Deus tornar-se-ia presente entre eles. A segunda observação, é que são as relações com os outros homens que formam a substância de nossa própria vida. Eles manifestam em si o que os limita, os detém, os arrosta e o que lhes permite se superar e unir com os demais.
O único mal que existe é aquele que os homens fazem uns com os outros. São as relações que cultivamos com os outros homens que nos tornam felizes ou infelizes. Mas se soubéssemos que os bens que possuímos produzem necessariamente a inveja e a raiva, aceitaríamos essa inveja e essa raiva sem que ambas enodoassem nossa felicidade...
Primeiro Capítulo
O LUGAR DO HOMEM NO MUNDO
I. REALEZA DO HOMEM
“Se contemplo as estrelas, diz o salmo, que é o homem? Contudo, ó Eterno, tu não o fizeste muito abaixo de Deus”, i. é, fizeste-o infinitamente superior às estrelas. Exprime-o Pascal de forma admirável ao dizer que o universo o contém e engolfa como a um ponto, mas o universo desconhece totalmente essa vantagem. A dignidade do homem consiste no pensamento por que compreende o universo e que faz dele um espírito como Deus.
Mas ainda não é o bastante, pois que Deus fez do homem o único ser do mundo que é livre como Ele, tem iniciativa própria, não está de contínuo submetido ao impulso da natureza ou ao sabor dos acontecimentos – é o único ser do mundo que está ao mesmo tempo no mundo e acima do mundo.
O homem é o deus deste mundo espiritual onde vive e que só existe nele e para ele. Não é exagero dizer que o poder que ele tem compara-se ao de um rei em seu reino: o rei exerce o poder tão-somente sobre as coisas, ao passo que a realeza do homem é interior - essa realeza interior o arvora em senhor de si e de seus pensamentos. O rei enquanto rei só dispõe do que pode ver, i. é, da aparência, mas enquanto homem dispõe do que ele é (o que ninguém vê), sendo o único reino onde cada homem é chamado a viver - até o rei. Enfim, ao passo que o rei tenta conformar a ordem das coisas à sua vontade própria, que é miserável e o torna escravo de si mesmo, o homem, se é sábio, conforma sua vontade a uma ordem de que é parte e que, já que o supera, liberta-o de seus limites.
II. O HOMEM, O FIEL DA CRIAÇÃO.
O homem é o mediador entre a carne e o espírito. Não se quer afirmar que a carne e o espírito existam separadamente antes do começo da ação do homem, ou ainda que seja a natureza humana um efeito dessa mistura. Ao contrário, há-de se afirmar que o homem faz de si mesmo carne ou espírito, através da escolha em liberdade. A partir do instante que a liberdade abandona-se a si ou se renuncia, o eu verga-se ao julgo da inércia: amesquinha-se em simples matéria. Essa matéria fá-lo um ser de carne que só conhece a sensação e a paixão. Mas quando a liberdade entra novamente no jogo, o eu está inteiro com ela, recusando tudo o que a limita e constrange, descobrindo a participação dela no absoluto: abre-se diante de si o infinito. Nisso e só nisso reside o valor do homem e a razão que tem ele de confiar e esperar sempre. A consciência de si se constitui ao mesmo tempo em veículo e testemunha da potência criadora.
O homem está a meias entre o animal e Deus; ele é incapaz de se tornar um ou outro. Contudo, oscila entre os dois extremos. Ele é o fiel da criação. O animal sofre a evolução, mas a conduz o homem, que é um animal que evolui em direitura a Deus.
O homem tem uma história que acumula em si os acontecimentos por que passou e as ações que realizou, sob a forma de capital espiritual. Entretanto o animal só dispõe duma natureza que o serviliza à sua espécie, i. é, ao instinto e à carne. É inerente à natureza humana desembaraçar-se da sujeição à lei da espécie considerada como atividade animal. Enquanto se submeta, será o animal a falar dentro do homem, e não o homem. No homem, existem tantas espécies quantos são os indivíduos. É vaidade querer se apegar à raça, que pertence à natureza, uma vez que o homem só surge juntamente com sua liberdade.
Dividem-se os animais em todas as modalidades da atividade; o homem as reúne em si e, optando entre elas, liberta-se das servidões da natureza. À utilização do órgão que lhe foi dado prefere o instrumento que inventou. É verdade que ele pode se tornar um escravo: parece que ele guia o instrumento, mas a miúdo é o instrumento que o guia a ele. Não obstante, o homem é capaz de se libertar, pois que é superior ao instrumento – ele nunca se conformaria em ser uma mera engrenagem neste imenso universo, o qual deseja abraçar em sua inteireza, i. é, não deseja se apossar dele apenas pelo pensamento, mas recriá-lo incessantemente, qual o próprio Deus, que não se deixa jamais aprisionar pela criação.
Ao animal é inerente permanecer fiel à sua natureza - leão ou cordeiro, abutre ou pombo. Mas ao homem, superá-la mais e mais. Se em si o homem encontra todas as possibilidades ao mesmo tempo, é a fim de lhe permitir adornar ou corromper a natureza. Pois conforme o uso que faça dela torna-se, diz Aristóteles, o melhor ou o pior dos animais.
Por vezes acredita-se que a única novidade do homem é o pôr sua inteligência ou sua vontade a serviço da necessidade e do instinto – eis aqui o ideal que quase todos consideram como o suficiente; mas o homem não é somente um animal mais atilado e hábil, capaz de perverter em si os fins da animalidade. Antes seria melhor dizer que sua vocação é a de pôr as potências da necessidade e do instinto a serviço do intelecto e da vontade. Portanto, em lugar de os aniquilar, o homem lhes dá uma significação que os transfigura.
III. O JOGO E A LIBERDADE DO ESPÍRITO
No animal o ócio engendra o jogo, que é, se é lícito afirmá-lo, a apreciação das possibilidades de seu corpo: os movimentos do jogo se realizam com numa sorte de desinteresse, apenas por prazer; no espaço encontram um como exercício puro. Ele é a figura da vida do espírito, que é um tipo de jogo superior, cujo campo é a consciência. Aí as possibilidades que estão no mundo pouco a pouco submetem-se à uma espécie de provação, a fim de que cada um de nós possa escolher a possibilidade da qual há-de se constituir o ser pessoal.
Se o homem contém em si todas as potências da natureza, é porque tem ele o poder de afirmá-las ou negá-las, de afastá-las ou exercê-las por um ato livre. Assim tem-se o direito de dizer, como outrora se afirmava, que a natureza foi criada em função do homem, mas só porque ela lhe fornece todos os materiais e recursos, dos quais o homem é o único despenseiro.
Se não existem limites ao progresso da humanidade, não se deve isso exatamente à infinidade de tempo diante dela, senão que a partir do momento em que a vontade se emancipa do instinto, todas as fronteiras interiores nas quais pretendia encerrá-lo a natureza encontram-se de repente franqueadas.
É preciso que o homem, na embriaguez da liberdade, proteja-se duma outra servidão, pior que a do instinto e que ele mesmo se impõe a si. A necessidade de produzir sempre uma nova obra, de exercer sobre a matéria uma crescente dominação, são sujeições ainda piores que as do instinto. As cadeias forjadas pela liberdade são mais pesadas que aquelas com que nos sujeitou a natureza. Um ser que de todo se reduza à própria natureza não se sente diviso de si mesmo; mas quem traz em si toda a natureza deseja sempre provar para si que é livre. Daí a necessidade, a qual ocupa o espaço do exercício da liberdade, se torna tão opressora que ele sente uma como nostalgia em face da espontaneidade natural que perdera e que se torna para ele uma espécie de modelo da verdadeira liberdade. Contudo, o ideal da liberdade é fazer com que os movimentos do espírito assemelhem-se aos da natureza, prolongue-os em lugar de aboli-los, e transforme-os num seu jardim.
IV. O TEMPO E A VIDA DO ESPÍRITO
Às vezes se diz que o homem vive no tempo, enquanto o animal vive somente no instante. Isso não é verdade. O animal também se escora no que acabou de ser e se inclina sobre o que vai ser. Entretanto, ele sofre a lei do tempo, ao passo que o homem a produz. O homem é incapaz de romper com o instante que o finca no devir; mas no instante ele oscila incessantemente da idéia do ser possível à idéia do ser acabado. E a passagem de um para o outro é a mesma vida do espírito.
Antes do mais, o homem é um ser que direciona sua atenção. Ele não é necessariamente atraído pelas coisas que se apresentam, das quais pode retirar seu olhar, aplicando-o alhures. Ao contrário o animal está constantemente fascinado por elas. É lícito afirmar que o animal vive num estado de perpétua distração, pois só o homem é atento, ou pelo menos é capaz de sê-lo, se com ser atento quer-se dizer ser mestre de sua atenção, escolhendo sempre o objeto e seu uso.
O animal não possui foro interior: quando ele se volta para dentro de si, adormece ou mergulha num sonho que é a continuação da existência sensível, da qual jamais se despega. Move-se num mundo onde se contenta em pascer. Assim também o homem, enquanto animal. Mas enquanto homem move-se num mundo em cujo sentido deseja penetrar e ao qual deseja dar um significado. O primeiro é o mundo dos corpos, e o segundo o do espírito. Contrariamente ao que se acredita, aquele é próprio a cada um, e este comum a todos. O primeiro só existe pela sensação, e o outro só existe pelo pensamento.
V. A VIDA ANIMAL TRANSFIGURADA
Todavia a animalidade sempre está em ação no homem, que incessantemente a subjuga para conquistar a existência eterna. Assim importa não rebaixar demais o animal que está em nós. Existe até uma selvageria da vida a que não é de todo mal se abandonar às vezes. Ela é que dá à alma o seu poderio. Convém não abafá-la – onde encontraríamos outra força para lutar contra ela? – mas transfigurá-la para demudá-la em elã espiritual.
Ao que parece o homem de ação - o qual é impulsionado incessantemente pelo instinto de dominação e atraído pela possessão do mundo - não passa mais das vezes dum animal de caça que se pode classificar, caso se queira, no topo da escala animal; mas para o espírito a animalidade é sempre um meio e não ainda um fim. Esse homem só consegue enxergar o próximo como a presa que deve caçar. Acontece que, por incrível que pareça, existe maior união entre a caça e o caçador que entre a caça e seu protetor, que entre si são como estranhos e cujo encontro resulta em desprezo mútuo.
Na verdade se observa no interior da espécie humana todas as relações que as diferentes espécies animais mantêm entre si: seres que se repelem e outros que se atraem desde o primeiro contato, sem que a razão nem a escolha desempenhem nenhum papel. São já relações que se abrandam, fortificam, governam e por vezes são convertidas, mais nunca abolidas. Entre eles há os que são cães e gatos, pássaros e serpentes. Pode-se convencê-los a viver e até mesmo a brincar juntos numa espécie de sociedade doméstica. Contudo, as reações mais imediatas que com êxito haviam sido mascaradas e contidas, à primeira crise estouram. A maior dificuldade está no convertê-las, e não no aboli-las. É inerente ao espírito mudar o sentido dessas reações e não se deixar obstar pelas diferenças naturais; ao contrário, o espírito penetra até ao cerne da verdade e do erro, do bem e do mal, da beleza e da feiúra, dos quais as reações naturais são mais instrumentos do que características. De cada uma delas é possível fazer bom ou mau uso. Em todos os homens é o bom ou mau uso daquilo que ele é naturalmente que é preciso amar ou repelir.
VI. A POSIÇÃO ERETA, IMAGEM DO SER ESPIRITUAL
A posição ereta, dizem, é própria do homem. Mas ela é a imagem de seu ser espiritual. Essa posição só é possível graças a um ato de vontade constantemente renovado que o impede de vergar-se ao peso e de viver sob a lei do instinto. No mesmo sentido se dizia outrora do homem, valendo-se da etimologia da palavra grega que o designa, que ele é aquele que observa desde o alto e para longe, que abraça não apenas a terra que deseja, mas o céu que contempla e o horizonte que os une.
A posição ereta subsiste até mesmo na Cruz, que é também a imagem do homem, porém reduzida ao mais perfeito desnudamento: ela é o mesmo homem, desde que se lhe juntem os pés um ao outro e o deixem incapaz de se defender, obrigando-o a manter os braços bem estendidos. Sobre a Cruz ele está verdadeiramente exposto, pronto somente para padecer.
Se a grandeza do homem reside no poder que lhe foi dado para exercer um ato livre, independente da ordem quista por Deus, i. é, com a capacidade de pecar, necessariamente o homem estabelece uma ligação misteriosa entre o pecado e o sofrimento. Desejáramos sempre que o sofrimento fosse menos o salário que a redenção do pecado. Sentimos que o sofrimento é a mesma existência à medida que ela tem limites naturalmente impostos, ao passo que o pecado é também a existência, mas à medida que ela se impõe a si mesma tais limites; nossa razão sentir-se-ia quase que satisfeita se o sofrimento fosse sempre o efeito da existência.
Mas fazer do sofrimento um mérito é desvio de finalidade – basta dizer que ele é inseparável da condição do homem, o qual reside no entroncamento entre a natureza e a liberdade. No sofrimento a liberdade é vencida, ao passo que na alegria a condição do homem parece esquecida e superada; a natureza e a liberdade estão a tal ponto combinadas que não há distingui-las; a natureza desabrocha a liberdade e pára de violentá-la.
VII. O SIGNIFICADO INTERIOR DO MUNDO
O mundo em torno é um espelho onde se reflete nossa natureza. Na sua superfície ele delineia o interesse que temos pelas coisas. Mostra-nos os picos e os vales que figuram a imagem de nossos desejos, a grandeza e os limites das diferentes potências. Neste mundo a existência dos corpos é o efeito e a medida de nossa imperfeição – longe de pensar que a imperfeição seja um efeito da existência dos corpos. É sobre este mundo que os olhares de todos os homens se dirigem e cruzam. Contudo é ao mesmo tempo o lugar da comum provação.
Nada existe de mais extraordinário que a aparente descoberta dos modernos, que se mostra tão paradoxal e parece tão comum que é preciso que o eu, antes do mais, se situe novamente no mundo. Nunca houve alguém que o negasse. Nunca houve idealista cego ou fanático o bastante para se situar fora do mundo, ou trancar o mundo dentro do espírito. Atualmente desconhece-se a maior aquisição da reflexão humana, a de que o mundo tem um significado interior, e que tal significado ninguém o pode descobrir senão no espírito, por um ato do espírito.
É verdade que existem homens que mal poder-se-ia acreditar que pertençam a este mundo, que deixam aos demais o cuidado de viver sobre a terra, a fim de carregarem apenas em si a consciência da humanidade, da terra e da vida. Todas as ações que os outros realizam, neles permanecem em estado de idéias, i. é, de puras potências: é-lhes suficiente tomar posse delas e experimentá-las em jogo. Dir-se-á que eles se retiraram da existência? São justamente eles que lhe dão o significado e o valor; são eles que souberam captar a essência, tanto que se pode dizer que os outros homens emprestam deles essa luz espiritual – sem a qual a existência limitar-se-ia ao corpo – que os aproxima mais e mais de si mesmos e de Deus.
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Luiz de Carvalho
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12:56 AM
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Domingo, Julho 26, 2009
Louis Lavelle - Nova tradução de "Simplicidade"
Força é não buscar a novidade, que nos bloqueia o contato com as realidades familiares, nem a totalidade, que nos bloqueia o contato com a situação atual; antes é preciso uma pureza interior que ilumine umas tantas verdades bem simples, nas quais todos os deveres que temos de cumprir se encontram, sem nosso concurso, naturalmente harmonizados.
Sob a condição de se desapegar da aparência daquilo que é, constitui a simplicidade num despojamento interior pelo qual se obtém sem querer a coincidência exata entre o que se mostra e o que é.
Só há verdadeira aquisição quando se suprime o que, até então, nos seviciava. Por isso, assemelha-se o progresso interior mais à obra do escultor, que desbasta e arroja do mármore sempre uma lasca a mais, que à obra do pintor, que a cada passo acrescenta uma nova pincelada à tela.
Quem está em busca de novas riquezas, até as do conhecimento, dispersa e aliena nessa busca as potências interiores de que dispõe. A simplicidade diz-nos para nos concentrar nelas, e tornar sua atividade pura, ágil e inocente.
Difícil é conservar a perfeita simplicidade, quando se está aberto a tudo o que nos pode ser dado. Há quem só tenha olhos para alguns movimentos sublimes, que produzem n’alma um instante de exaltação. Mas a alma não os deve desejar, pois ela pensa que, quando os não possui, está despojada de tudo. O sublime verdadeiro é quotidiano; ele não nos causa comoção: nós não o sentimos.
A perfeita simplicidade, que também é a perfeita inocência, é incapaz de enganar; e contra a opinião comum, é impossivel de ser enganada. Ela sobrepuja os mais hábeis, cujas manobras são logo postas à luz, caindo no vazio.
A simplicidade não exclui o instinto, com o qual se confunde à miúdo; o instinto todavia só se transforma em pecado a partir do nascimento da reflexão, i. é, no momento em que o amor-próprio o põe a seu serviço.
A simplicidade d’alma dá-lhe uma transparência tão perfeita, que já não se faz mais notar; é nesse espelho translúcido que as coisas revelam sua verdade. Só o despojamento alcança a simplicidade, que é uma só com a sublimidade interior, que quase sempre é representada sob outra forma.
A simplicidade é ser o que somos, sem querer ser outro, neste grande tudo de que fazemos parte. É a reconciliação do individual com o universal. É o ato mais puro que o indivíduo é capaz de cumprir, no qual entretanto parece desaparecer para revelar a ordem que reina no universo onde participa, cuidando para não toldá-lo. É o olhar direto e despreocupado que lançamos sobre o real, olhar liberto de preconceitos, e que sozinho é capaz de dar acesso à ordem com a qual está desde sempre em harmonia. À falta da simplicidade, desconhece-se essa ordem. No entanto, esse mero olhar, que não embacia os desejos, abarca o mundo inteiro sob sua luz, porque desceu do céu para vir tocar a terra. É uma unidade perfeita considerada em sua riqueza infinita, sem saber que é rica. Contém em si os contrários, mas está em paz, diferente da tensão que força os contrários a permanecer juntos, numa unidade sempre prestes a se romper.
A simplicidade não apresenta problemas para si, uma vez que ela é a luz natural que antecipa a solução. É uma inocência que não se pode romper, uma liberdade certa de si mesma, que jamais conhecerá a excitação ou a escolha.
A simplicidade nos livra da complicação dos conhecimentos, necessidades e buscas; consiste ela no acordo da existência que ultrapassa a engenhosidade da inteligência com os artifícios da vontade (eis a inteligência mais penetrante e a vontade mais perfeita e pura dentre todas).
Postado por
Luiz de Carvalho
às
2:19 AM
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Segunda-feira, Julho 13, 2009
Louis Lavelle - Nova tradução de "Estilo, pintura e literatura"
Depara-se a mesma oposição no estilo, que domina a matéria por meio da composição - i. é, do pensamento e da vontade -, que busca captar, na multiplicidade de pinceladas incessantemente arriscadas ou riscadas, e emendadas ou retomadas, a vibração das coisas mesmas, sua ressonância secreta, a abundância infinita dentro delas. Para tanto, é preciso que o entendimento se apodere dessas coisas, na intenção específica de preencher e como que cumular a sensibilidade com a presença pura [dos objetos].
Postado por
Luiz de Carvalho
às
11:38 PM
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